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Vítimas somos todos nós (I)
Helena Matos
Jorge Sampaio fez um apelo à avaliação do ensino superior. Considerou o Presidente da República que esta avaliação é crucial para que Portugal se torne um país competitivo. Não posso estar mais de acordo com este apelo. Contudo ele peca por tardio. Mas não só. De alguma forma, o ensino superior ainda é das instituições mais avaliadas em Portugal. Seria muito importante que Jorge Sampaio repetisse este seu apelo nas escolas do ensino básico e secundário. Aí, sim, a avaliação é crucial. Fosse Sampaio reelegível para um terceiro mandato e muito provavelmente na sua linha política de apologia serôdia do óbvio acabaria a reivindicá-la no final desse mandato. Por enquanto, defender exames, rankings, provas nacionais no básico e secundário ainda é matéria polémica. Logo, há que dar tempo ao tempo para que, dentro de alguns anos, perante a evidência do desastre, os mesmos que defenderam este sistema de logros e enganos que constitui presentemente o ensino em Portugal venham fazer de modernos e realistas apelando à avaliação e à exigência. Aliás, o ensino não é de modo algum uma excepção à regra que diz sermos um povo desresponsabilizado. O povo que o Estado Novo e o PCP consideraram demasiado ignorante para votar deu lugar a um povo que se vê não como parte do seu destino mas sim como vítima. O bom povo e os revolucionários de ontem deram lugar às vítimas de hoje. Não já da fome, mas sim das doenças ou da excepcionalidade. Das mais variadas circunstâncias - cor, sexualidade, peso, actividade profissional... -, o sonho de cada um é conseguir arrancar algo que justifique não só ser tratado de forma diferente mas também viver em permanente circunstância atenuante. Sigam-se, por exemplo, as notícias sobre acidentes rodoviários. Sendo certo que a esmagadora maioria deles são causados por condutores embriagados, manobras perigosas e excesso de velocidade, transfere-se a responsabilidade dos condutores para o facto de haver muito tráfego, para o traçado da estrada ou para as condições atmosféricas. Um exemplo deste exercício tivemo-lo esta semana quando, para se explicar as circunstâncias dum acidente com vítimas mortais - o condutor dum ligeiro que circulava em excesso de velocidade colidiu com um pesado -, se diz que o acidente se deveu ao facto de chover "e também ao excesso de velocidade". Ou seja, estamos perante a total inversão das responsabilidades: a chuva torna-se a causa e o excesso de velocidade a circunstância agravante. E nem se pára um minuto para perguntar: como será a taxa de acidentes rodoviários nos países em que chove muito mais do que em Portugal? Simbólica desta total inversão é a peculiar forma por que são referidas as intervenções das forças policiais. Tornou-se um lugar comum dizer que estas últimas "se envolveram em confrontos". Como se, sabe-se lá porquê, num momento mais azougado, as ditas forças policiais tivessem resolvido participar numa rixa. Não sendo impossível que tal aconteça, temos de aprender a distinguir entre envolvimento em confrontos e reposição da ordem. Uma coisa é precisamente a antítese da outra. Que as confundamos, colocando tudo no mesmo saco, é sintomático da nossa disponibilidade quer para aceitarmos os abusos de poder quer para pactuarmos com o desrespeito da ordem pública. E se da rua passarmos para a escola, essa diluição das responsabilidades atinge proporções que chocam com tudo aquilo que defendemos no dia-a-dia. Nem sequer falo da tal competitividade ou da qualidade do ensino. Nem sequer me refiro ao desnorte completo que levou a que, como muito oportunamente denunciou Nuno Crato no Expresso, se considerem cursos de astrologia e artes quejandas como matérias susceptíveis de integrarem módulos de formação de professores. Refiro-me mesmo à relação professor-aluno. A cultura da vitimização e da diluição das competências e das responsabilidades levou a que a escola deixasse de ser entendida como um local de transmissão de saber. A escola passou a ser um local onde professores e alunos (os funcionários auxiliares costumam escapar a estes folclores) "aprendem a aprender" e todos juntos se ensinam mutuamente. À desresponsabilização dos professores por aquilo que não ensinam corresponde a total inimputabilidade dos alunos. Quer por aquilo que não aprendem. Quer por aquilo que fazem. Quando uma universidade filandesa interrompeu, em Fevereiro deste ano, o protocolo de intercâmbio de alunos com a Universidade do Porto com base no argumento de que um aluno da universidade portuguesa levara cábulas para um exame em Helsínquia, a reacção em Portugal foi de estupefacção por tal inflexibilidade. O próprio aluno da Universidade do Porto não se questionava sobre as implicações do seu gesto mas sim sobre a bizarra atitude do reitor finlandês, que não se mostrou disponível para trocar opiniões sobre o sucedido. Tivesse o caso ocorrido entre universidades portuguesas e o desfecho seria claramente outro, com o "aluno-vítima" mais "o professor que não quer ser intolerante", sem esquecer os "colegas naturalmente solidários", todos a concluírem que tudo não passara dum equívoco.Esta diluição das responsabilidades com o correlativo culto generalizado da vitimização levou a que as vítimas não possam de facto denunciar as violências que sofrem porque o seu discurso não é compatível com a imagem oficial de sociedade tolerante e solidária em que é suposto vivermos. Acontece que, na mesma sociedade que condena com veemência a violência doméstica e que pede penas exemplares para os agressores sobretudo se as agressões tiverem um carácter sexual, as agressões aos professores são atiradas para debaixo do tapete como algo incómodo - num relatório datado de 2003 sobre violência nas escolas portuguesas, vários professores agredidos por alunos referiam que os conselhos executivos das respectivas escolas não só minimizavam as agressões como lhes perguntavam se não eram eles que provocavam os alunos. Nos casos mais graves - como o da violação, há duas semanas, em Inglaterra, duma professora por um aluno - pode mesmo acontecer que se vejam ressurgir os itens obrigatórios nas notícias que, nas primeiras décadas do século XX, davam conta das agressões sexuais sofridas pelas mulheres: a notícia é deslocada da agressão para a resistência oferecida pela vítima. Simultaneamente a vítima apresenta-se como alguém que "não quer vingança", apenas pretende "refazer a sua vida". Se em vez duma professora o adolescente inglês tivesse violado uma jovem que não fosse da sua cor de pele ou que não fosse da sua religião, aí a sua agressão seria entendida como particularmente grave. Como era uma professora, a agressão tende a ser escamoteada. E a sua denúncia da agressão desloca-se do âmbito do pedido de justiça para o da sede de vingança.O princípio de que todos somos vítimas e não sujeitos gerou o sentimento de impunidade entre os seus autores e os seus cúmplices. Entretanto as vítimas, aquelas que de facto o são, continuam tal como no passado a sofrer em sillêncio. Jornalista "
