Um blog de Filipe Figueiredo

sexta-feira, abril 29, 2005

A liçao.

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É de mestra!

Carlos Medina Ribeiro

Confrontado com as primeiras propostas governamentais acerca do «Choque Tecnológico», Belmiro de Azevedo comentou que o Estado devia começar por aplicá-lo na Função Pública.
De facto, e tendo em conta o descalabro (que, inúmeras vezes, se confunde com o ridículo) da informática na Justiça, nas Finanças, na Educação, na Segurança Social, etc., poderá pensar-se que tem toda a razão.Mas veja-se como, afinal, pode haver honrosas excepções:
Quando um dia me pediram para escrever alguns textos, fiquei muito honrado, mas o convite apanhou-me numa altura em que estava pouco ou nada inspirado.
E, depois, quando me veio a inspiração, estava tanto calor que não me apetecia estar em casa.
E foi assim que peguei no portátil, procurei um banco numa boa sombra de um jardim simpático e, tentando abstrair-me do chilreio dos passarinhos, comecei a trabalhar.
Ora, a certa altura, apercebi-me de que uma velhinha, tão pequenina quanto curiosa, se sentava ao meu lado e espreitava, procurando bisbilhotar o que eu estava a escrever. O facto de o monitor ser de matriz activa permitia que ela, mesmo de um ângulo desfavorável, pudesse ver tudo à vontade.
Não quis ser malcriado, não comentei nem resmunguei, e fiz os possíveis por me concentrar na escrita. Mas não consegui, e o certo é que, devido ao nervoso miudinho que eu não conseguia controlar, começaram a aparecer mais erros do que o habitual. Felizmente, o corrector ortográfico, sempre atento, ia corrigindo tudo, pelo que a grafia errada apenas se mantinha visível no monitor durante uma fracção de segundo.
Mas, mesmo assim, o diabo da velhinha era terrivelmente perspicaz, e comecei a ver que, a breve trecho, ela produzia surdas interjeições de desagrado quando eu me enganava!
Era apenas um «Tsch...! Tsch...!», mas sumamente irritante!
A certa altura, não aguentando mais, decidi-me a fechar o computador e sair dali, não escondendo o meu enfado.
E foi nessa altura, quando me resolvi a deitar-lhe um olhar desagradável, que se deu o incrível:
Descobri que a senhora era, nem mais nem menos, do que a D. Judite, a minha antiga professora de escola primária, e que me reconhecera!
- Seu maroto... - comentou ela, sorrindo - Estás muito crescido!
Vieram-me as lágrimas aos olhos e fiquei sem palavras!
- Tenho estado a ver-te a escrever... Sabes? Merecias 20!
«Coitada...» - pensei eu - «Mal sabes tu que era o corrector automático do computador a trabalhar!»
Mas uma surpresa maior veio logo a seguir:
- Seu maroto... Julgas então que eu não conheço o Word e essa função do auto-correct?
Fiquei banzado. E, ainda eu não tinha fechado a boca, quando ela concluiu, enquanto me dava dois beijinhos de despedida:
- Merecias 20... reguadas!
28-04-2005 0:23:43
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http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=50&id_news=170430

quarta-feira, abril 27, 2005

No tempo do lápis azul....



"Carimbos, cortes e provas de página
Cada jornal tinha um funcionário que se deslocava diariamente à sede da comissão de censura para levar os textos que iam ser submetidos a exame. As provas a granel eram folhas com a notícia ou o artigo a ser visado e eram apresentadas em duplicado ou em triplicado, consoante fosse dentro ou fora de Lisboa. Os textos regressavam ao jornal com dois carimbos que marcavam "visto" e "autorizado", "autorizado parcialmente", "demorado" ou "proibido". Quando o carimbo marcava "autorizado", a notícia podia ser publicada na íntegra. Se a decisão fosse "autorizado parcialmente", então cabia ao jornal a decisão de publicar. "Demorado" significava que a autorização podia demorar o tempo que os censores decidissem e "proibido" impunha uma cruz que cortava de cima a baixo a notícia. Quando os jornais pisavam o risco e não acatavam as ordens dos coronéis, o castigo mais grave era a prova de página. Nesse caso, não só censuravam as provas, como podiam censurar a página toda, já com a paginação feita. Conta Marcelo Rebelo de Sousa que, depois da ousadia de se ter aproveitado de uma ausência de Pinto Balsemão para não cumprir nenhum corte, o jornal teve uma sanção de um mês de prova de página. "Tínhamos o duplo trabalho que era de refazer as páginas as vezes que eles quisessem. Se nós já saíamos muitas vezes às duas, três ou quatro da manhã, com a prova de página passávamos a sair no dia seguinte", queixa-se. Todo este processo moroso implicava um atraso na colocação dos jornais nos postos de venda e a perda de ligações ferroviárias para o interior do país. Isto significava um grande desgaste económico para o jornal. Vários exemplos ilustram como era ténue a linha entre o "autorizado" e o "proibido". A segurar uma prova de página, Baptista Bastos conta que "um dia houve um concurso de ié-ié, uma dança que havia na época". Nessa edição, teve de noticiar o concurso e uma reunião do presidente do Conselho com os ministros. De modo que, com a cumplicidade de outro jornalista, Jacinto Baptista, escreveu nas entrelinhas da paginação. "A palavra "ié-ié" ficava pendurada e eu coloquei por baixo o título "A presidência do Conselho"." Sanção: prova de página.
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O jogo do gato e do rato
A casa de Viale Moutinho respira literatura. As paredes estão forradas com encadernações e, pelo meio, encontram-se alguns livros proibidos de entrar em Portugal na ditadura, por serem "subversivos". Rousseau esconde-se debaixo de uma capa de Voyages of Discovery do Capitão James Cook, uma estratégia para o livro poder entrar em Portugal. Já que os seus textos jornalísticos eram censurados, Viale Moutinho escrevia vários contos no JN. "São contos fantásticos com um fundo político sobre o nosso país. Por exemplo, "O Sobrevivente"é o discurso do coveiro Tomás aos ratos. É uma metáfora do Américo Tomás que podia passar", admite. Entre outras histórias, hoje compiladas no livro No País das Lágrimas e Outros Contos, encontram-se várias alegorias. "O "Monitor" e "Última Aula" são libelos ao ensino no Estado Novo. As palavras medonhas e a repressão estão sob a forma de vindimadores misteriosos em "Na Vinha"", desvenda o escritor.Embora a literatura permitisse maior liberdade, os jornalistas procuravam algumas "habilidades" para enganar os censores. Baptista Bastos colaborou na Seara Nova e conta que a revista, às vezes, incorporava nas páginas excertos de Lenine assinados por Vladimir Ulianov, que era o seu nome verdadeiro, e quando se citava Karl Marx optava-se por Carlos Marques. Na Vida Mundial, Diana Andringa relembra algumas "maldades que irritavam sobremaneira os censores". Por exemplo, como a princípio as fotografias e as legendas não iam à censura, a acompanhar o "10 de Junho, dia de Portugal" colocavam-se fotografias a condecorar mutilados e viúvas. Claro que, quando se apercebe, a censura começa a aplicar a prova de página como sanção.Avelino Rodrigues revela outros truques, como escrever a mesma ideia em dois parágrafos diferentes. "A nossa esperança era que cortassem apenas um e ficava o outro. Esta é uma coisa que resultava muito", relata. Depois, podiam alterar a ordem dos parágrafos e retomar a ideia no princípio do texto. Por outro lado, havia uma certa capacidade de negociação entre os chefes e sub-chefes de redacção, directores e censores, procurando-se mandar para a censura os linguados quando lá estivesse um censor mais acessível.O administrador delegado do Expresso Marcelo Rebelo de Sousa também participava em algumas "habilidades" para iludir os censores. Desde mandar prosas à noite para o turno que era menos atento ou colocar, de vez em quando, uma "prosa desgarrada" na página da mulher. Conta também que se transferiam prosas culturais e políticas para o desporto, ou seja, "misturavam-se prosas sensíveis com prosas aparentemente inócuas". E acrescenta: "Lembro-me que, a certa altura, para falar na evolução da China, pegámos num jogo de pingue-pongue entre a China e a América, porque quem via a parte do desporto era um coronel politicamente mais distraído."
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" Coronéis armados de lápis azuis
A censura não actuava da mesma maneira em todos os jornais. Para se perceber melhor os critérios dos coronéis, há que distinguir os "jornais da situação", os "jornais do reviralho" e os jornais que não tendiam directamente nem para um lado nem para o outro. Os conceitos são explicados por Avelino Rodrigues, que passou pelos dois tipos de publicação. Os "jornais da situação" eram nitidamente do regime, como A Voz e o Diário da Manhã, enquanto os "jornais do reviralho" eram da oposição e pretendiam lutar contra o governo, por exemplo, o Diário de Lisboa e o República. Quanto aos jornais que não eram directamente do regime ou do "reviralho" havia O Século, Diário de Notícias e Diário Popular, em Lisboa. No Porto, estavam o Comércio do Porto, o Jornal de Notícias e o Primeiro de Janeiro. O comportamento dos censores era diferente consoante se tratasse dum jornal da oposição ou não. "Nos jornais do reviralho a censura é completamente desconfiada, anda à procura de canalhices, de espertezas e subtilezas em todas as linhas e entrelinhas. Exige-lhes muitas vezes provas de página e atrasa-se no envio das decisões das provas", revela Avelino Rodrigues. Os outros jornais tinham uma certa capacidade de negociação com os censores. Por isso, acrescenta: "N"O Século vi vezes sem conta o chefe de redacção a falar com os censores e a negociar os parágrafos a cortar. Assisti, muitas vezes, o chefe a dar murros na mesa e a andar aos berros com os censores."Quando se pede aos jornalistas da época para descreverem os censores, as opiniões divergem. Manuel António Pina conheceu pessoalmente o coronel Roma Torres. "Era um homem comum, um homem do regime. Era pouco tolerante, reservado e do ponto de vista intelectual muito fechado", diz. E Germano Silva acrescenta: "De uma maneira geral, pela forma como conduziam as coisas, via-se que não eram pessoas destituídas. Sabiam o que estavam a fazer e o que estavam a cortar."Baptista Bastos muda de tom quando fala nos coronéis. O rosto enfurece-se e diz: "Nunca falei com censores nem com polícias. Conheci um quando fui ao Solar do Vinho do Porto. Estava lá o famoso tenente Nazaré, que era uma besta, um chapado idiota, um analfabeto, um malandro que estava a cortar as coisas." Porém, admite que também havia intelectuais, como o coronel Galvão ou o monsenhor Moreira das Neves. Já Adelino Cardoso crê que a ditadura não conseguiu ter intelectuais a seu lado. "Porque é que os censores eram todos coronéis reformados, muito estúpidos, que não compreendiam as próprias instruções que tinham? O fascismo não conseguiu ter escritores, intelectuais, professores universitários", comenta.
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Jornal Publico, 27-04-2005

segunda-feira, abril 25, 2005

"Os 40 anos da Lei de Moore
Rui Jorge Cruz e Pedro Fonseca A chamada Lei de Moore comemorou na passada semana 40 anos. Esta suposta lei - formulada em 1965 por Gordon Moore e assim denominada pelo físico norte-americano Carver Mead - predizia, no essencial, que o número de componentes (transístores) num processador duplicaria no período de cada 18 a 24 meses. E esta "lei" passaria, com efeito, a ser confirmada pela indústria dos semicondutores nas dezenas de anos que decorreram desde então - em particular pela empresa que se tornaria mais conhecida pelo desenvolvimento e produção em massa dos microprocessadores para computadores, a Intel, de que Gordon Moore seria um dos fundadores já à beira dos anos 70. Um dos pressupostos da Lei de Moore era a sucessiva redução das dimensões físicas dos transístores, os componentes essenciais não só das memórias (aquilo que foi o negócio principal da Intel nos seus primeiros anos de actividade) mas também dos processadores digitais. Já nessa altura se usava a tecnologia Complementary Metal Oxide Semiconductor (CMOS) para a produção dos transístores a partir do silício fundido e as dimensões dos transístores eram medidas em milésimos de milímetro - os mícrons (ou micra), equivalendo 1 mícron a 1 milésimo de milímetro. Ora essa redução da dimensão dos transístores era imposta, em primeiro lugar, pela necessidade de reduzir a sua potência eléctrica: é que, com menor potência eléctrica, um transístor aquece menos, liberta menos calor e pode funcionar a frequências superiores - medidas em megahertz (MHz) - sem sobreaquecer. Por outras palavras, transístores de menor dimensão permitiriam produzir processadores mais potentes, também eles mais pequenos e com menores probabilidades de "derreterem". Foi assim que o primeiro processador comercializado em escala considerável pela Intel, o 4004 (a 108 KHz e com 2300 transístores lançado em 1971), usava uma tecnologia CMOS de 10 micra mas o Intel 8086 - a 8 MHz e com 29.00 transístores, introduzido em 1978 e que fez a popularidade dos PC - já usava CMOS de 3 micra. O primeiro Pentium, de 1993, funcionava a 66 MHz e tinha 3,1 milhões de transístores de 0,8 micra, enquanto o Pentium 4, lançado em 2000, tinha 42 milhões de transístores de 0,18 micra a "correrem" à velocidade de 1,5 GHz. A dificuldade em reproduzir os termos exactos da formulação inicial da Lei de Moore - que começou por falar de 18 meses, tendo sido o próprio autor a flexibilizar o prazo para dois anos - cria igualmente um certo mistério no enunciado. A passagem do 40º aniversário da sua formulação coincidiu com o anúncio, pela Intel, de uma oferta de 10 mil dólares na eBay, o maior sítio de leilões na Web, por um exemplar em bom estado da edição da revista "Electronics" de 19 de Abril de 1965, onde o texto foi originalmente publicado. Nem Gordon Moore nem o Intel Museum dispõem de qualquer versão original do texto e a revista já há alguns anos que desapareceu de circulação. O autor, agora com 76 anos, não considerou na altura a importância do escrito e a própria revista só o publicou a partir da página 114 dessa edição, não lhe conferindo o destaque que mais tarde viria a merecer. Gordon Moore era então responsável pela investigação e desenvolvimento (I&D) na empresa de electrónica Fairchild Semiconductor. Três anos depois, fundou a Intel, com o seu amigo e colega Robert Noyce, aos quais se juntaria pouco depois Andy Grove, um jovem e enérgico engenheiro de origem húngara. Em 1975, Moore tornou-se "chief executive officer" (CEO) e presidente em 1979, funções que manteve até 1987. Quando Gordon Moore escreveu o texto, um microprocessador com aplicações práticas continha 30 elementos e a sua empresa, a Fairchild Semiconductor, estava já a trabalhar com 60 componentes. Moore considera que a sua "lei" não é válida para o futuro. Conforme declarou em 13 de Abril último à revista "Techworld", "ela não pode continuar para sempre" porque, "em termos da dimensão [dos transístores], estamos a aproximar-nos do tamanho dos átomos, que é uma barreira fundamental; mas vai demorar duas ou três gerações antes de aí chegarmos - mas é o limite que podemos atingir". "Temos mais 10 ou 20 anos até se atingir [esse] limite fundamental". Gordon Moore alega que a nanotecnologia poderá suplantar, no futuro, o seu postulado e a indústria de semicondutores, apesar do enorme investimento sucessivamente feito ao longo destes anos - estimado em mais de 100 mil milhões de dólares. "A nanotecnologia terá um impacto mas não vai substituir a electrónica num futuro próximo", nomeadamente a tecnologia do silício, que é a base dos actuais microprocessadores. "Não há nada que constitua uma substituição evidente do transístor de silício", refere também, por seu lado, Tom Theis, investigador da IBM nesta área. Moore imaginou, em 1965, um futuro em que a informática pessoal não teria mais que um pequeno mercado, com aplicações domésticas como o guardar de receitas culinárias a terem algum impacto. "Reli o meu artigo de 1965 há mais ou menos um ano e francamente fiquei surpreendido por ver nele que tinha previsto os computadores domésticos como uma das utilizações para a electrónica de baixo custo - mas não tinha qualquer ideia do que poderia vir a ser", confessou recentemente à BBC News. "Um engenheiro veio ter comigo com uma ideia sobre um computador doméstico", recorda. "E eu disse-lhe: "Tudo bem, mas serve para quê?" Ele não conseguiu pensar em mais do que numa dona de casa a usá-lo para guardar receitas de culinária. Não pensei que viesse a revelar-se uma ferramenta tão poderosa, pelo que não julguei que a Intel devesse na altura tentar desenvolver um computador pessoal." "Se eu não tivesse publicado este texto em 1965, as tendências teriam sido detectadas uma década depois", disse Moore ao IDG News Service na semana passada. "Não penso que um relatório científico em particular faça a diferença. Eu estava apenas numa posição em que podia prever uma tendência." "Gordon era um engenheiro clássico", explica o actual CEO da Intel, Craig Barrett, então professor de engenharia na Universidade de Stanford, na Califórnia - e que muitos apontam como tendo sido o cadinho em foram forjados os pilares do Silicon Valley. O gráfico que acompanhava o texto de Moore usava apenas dados de sete anos e extrapolava para os 10 anos seguintes, até 1975. "Vi que, nos anos anteriores, tínhamos duplicado [o número de transístores] em cada ano", refere Moore. "Tomei isto em consideração e extrapolei para 10 anos por forma a considerar que a complexidade dos circuitos integrados num processador iria passar de uns 60 para algo como 60 mil". "Não pensei que fosse tão precisa", lembra. "Mas realmente tornou-se mais correcta do que o previsto e um dos meus colegas denominou-a "Lei de Moore"." Apesar da relevância da efeméride, o diário norte-americano "New Yok Times" lembrou que, antes de Moore ter formulado a sua "lei", já Douglas Engelbart tinha avançado com uma hipótese semelhante e que o co-fundador da Intel teria tido conhecimento dessa formulação "provavelmente em 1960". Face à alegada formulação de Engelbart - mais conhecido por ser o inventor do "rato" no Palo Alto Research Center (PARC), da Xerox, e hoje usado como indispensável ferramenta de interface informática -, "mesmo assim, ela deve ser considerada a Lei de Moore e não lei de Engelbart", salienta Michael Riordan, historiador da Universidade da Califórnia. Apesar destas controvérsias, tudo o que foi dito e feito na semana passada só veio confirmar a importância do texto de Moore. E a Universidade de Illinois, após detectar a falta de um exemplar do número em causa da revista "Electronics", retirou um segundo exemplar da consulta pública - que pretende guardar por "razões arquivísticas e históricas" - logo após a oferta, pela Intel, de 10 mil dólares por um exemplar em boas condições dessa edição da "Electronics". E, pelo sim pelo não, o maior produtor mundial de semicondutores declarou já publicamente a intenção de denunciar às autoridades qualquer proposta que vier a ser-lhe apresentada de exemplares da "Electronics" que tiverem sido roubados de bibliotecas ou outros acervos bibliográficos.
" in Publico, 2005/04/25

sexta-feira, abril 22, 2005

O Homem

" "A Queda" e o humano
José Manuel Fernandes
Mostrar, num filme, Hitler tal como ele era não o humaniza, antes alerta para a sempre possível convivência entre o mal absoluto e o ser-se humano
No final do seu livro The Hitler of History, John Lukacs recorda palavras de Santo Agostinho a propósito do carácter "espiritual" do que é diabólico e como a espiritualidade é inerente à condição humana. Daí que considere que descrever Hitler apenas como um demónio fosse uma daquelas meias-verdades mais perigosas e falsas do que as mentiras. Mais: recorda, citando a máxima desse observador pessimista da natureza humana que foi La Rochefoucault, que "há homens diabólicos neste mundo que seriam menos perigosos se não tivessem qualquer coisa de bom neles".Estas reflexões são especialmente pertinentes a propósito do filme A Queda, onde se retratam os últimos dias do ditador. E são-no porque sublinham a importância daquilo que, paradoxalmente, tem sido criticado na obra de Oliver Hirschbiegel e na criação do personagem pelo actor Bruno Ganz: o mostrarem-nos um Hitler ora humano e ternurento, ora descontrolado, implacável e insensível ao sofrimento dos seus. Isto é, como alguém que não era tão diferente de qualquer nós como as caricaturas, mesmo as melhor intencionadas, tendem a retratar.O rabino de Lisboa, Boaz Pash, convidado pelo PÚBLICO para assistir e comentar o filme (ver o suplemento Y), considerou mesmo que é bom mostrar um Hitler humano pois permite perceber que tudo "pode acontecer de novo": "De alguma maneira em alguns de nós esconde-se um nazi pequeno que só espera falta de controlo para aparecer." Ter isso bem presente "pode ser uma mensagem muito ética".Voltamos assim à ideia da "banalidade do mal" desenvolvida por Hanna Arendt depois de assistir ao julgamento de Eichmann, um dos arquitectos do Holocausto, em Jerusalém. A ideia de que não existe a necessidade de uma qualquer excepcionalidade inumana, uma qualquer possessão diabólica inata, nos seres capazes de ordenar ou protagonizar as maiores atrocidades. Ou a ideia de que o que separa a humanidade e cada homem da vileza é a capacidade de controlar o lado sombrio do que nos é mais íntimo - a nossa própria natureza humana.No livro já referido, Lukacs defende que para desenvolver essa capacidade a Civilização é mais determinante do que a Cultura - sendo que os nazis colocavam a Cultura à frente da Civilização. Isso ajuda a explicar como foi possível o nazismo no país onde a Cultura tinha atingido algumas das suas mais sublimes declinações, mas onde a ideia de Civilização enquanto conjunto de normas de sociabilidade, urbanidade e ordem liberal, de acordo com a velha definição de gregos e romanos que a concebiam como antítese de barbárie, era menos considerada. Desse ponto de vista é interessante meditar sobre o Hitler que Hirschbiegel nos mostra em A Queda à luz de alguns dos argumentos trocados entre o novo Papa, ainda cardeal Ratzinger, e o filósofo ateu Jurgen Habermas, em Dezembro de 2004, e ontem recordados no PÚBLICO. Notar, por exemplo, a preocupação de Bento XVI pelo "colapso do entendimento de si próprio do homem" e o reconhecimento pelo filósofo de que a ideia de dignidade humana da tradição judaica-cristã não deve ser abandonada - exactamente o que aconteceu quando Hitler e o nazismo hipnotizaram os alemães.É também por isso que o filme, ao mostrar-nos Hitler como ele era, não o humaniza, antes nos alerta para a sempre possível convivência entre o mal absoluto e o ser-se humano. Algo de que muitas vezes se perde a noção.
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segunda-feira, abril 18, 2005

O ex-director contra-ataca...

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(In)correcto Vicentejorge Silva

A ditadura do "politicamente correcto" nasceu do fanatismo de certos movimentos da esquerda americana dos anos 60/70 e difundiu-se por outras paragens onde o radicalismo esquerdista mantinha influência e núcleos activistas, quase sempre sem correspondência com o seu peso real na sociedade. Conhecem- -se os exageros patéticos e caricaturais desse fenómeno que, de resto, o condenaram a uma vida efémera e a uma moda inconsequente. Só que há quem precise de fantasmas para justificar a sua existência. Assim chegamos à moda actual do "politicamente incorrecto". Nada há mais parecido com o velho discurso esquerdista do "politicamente correcto" do que o discurso de uma nova direita que, nomeadamente em Portugal, exibe o festivo estandarte do "politicamente incorrecto". A arrogância, a sobranceria, a pose de infalibilidade inquisitorial são rigorosamente as mesmas. Mas não é fortuito que grande parte dos actuais intelectuais de direita "politicamente incorrectos" tenham sido nados e criados nas águas "politicamente correctas" dos seus verdes anos de militância esquerdista (designadamente estalinista e maoísta). Eles têm contas a ajustar com o seu próprio passado, mas recusam- -se obstinadamente a confrontar-se com ele e, por isso, arranjam oportunos bodes expiatórios para rasurar um incómodo cadastro pessoal. Daí, por exemplo, o ódio primitivo que hoje votam a figuras emblemáticas como Sartre (que alguns chegam, sem nenhum sentido do ridículo, a comparar a Salazar!).O "politicamente (in)correcto" dos nossos dias traduz-se num conformismo acrítico, reverencial e rastejante perante as doutrinas neoconservadoras e a política imperial da Administração Bush. E não dispensa a boleia dos lóbis que, instalados na chamada imprensa de referência, lhes permite a difusão privilegiada - e sem concorrência - do seu correctíssimo proselitismo ideológico.
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http://dn.sapo.pt/2005/04/17/opiniao/incorrecto.html

Parece-me que actual e ex director andam pegados...

sexta-feira, abril 15, 2005

" "E se fosse o Dalai Lama?"
Esther Mucznik
Pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre Estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante
Será permitido a um representante de um Estado laico chamar "Sua Santidade" ao Papa João Paulo II, sem ofender a neutralidade religiosa do Estado? Ou, na mesma ordem de ideias, não constituem as bandeiras a meia haste e os dias de luto nacional pelo seu falecimento um atentado à laicidade, como foram qualificados por alguns sectores, em países como a França, Espanha e, mais timidamente, em Portugal? O "Verde" Christophe Girard, por exemplo, adjunto do "maire" de Paris, afirmou-se "perturbado" pela "utilização do símbolo nacional", abrindo assim a porta ao "aguçar dos apetites comunitários", no que foi apoiado pelo senador socialista Yves Contassot, apelando às autoridades a porem em prática uma "laicidade absolutamente sem sombra, sem meias-tintas". Também a TVE pública foi criticada por ter dado uma "cobertura excessiva" ao acontecimento, infringindo o artigo 16 da sua Constituição, que afirma o carácter laico do Estado espanhol. Curiosamente, constatamos que estas questões são levantadas sobretudo em países de população maioritariamente católica, em particular pela "filha mais velha" da Igreja, a França. Como se sabe foi também a França o motor da guerra contra a introdução da referência à "herança cristã" na Constituição europeia.Estes episódios não passariam de meros "faits divers" se não fossem reveladores de um mal-estar em relação à religião. A realidade é que a Europa, sobretudo a Europa Ocidental de cultura religiosa católica, convive mal com a religião, confunde as fronteiras da laicidade, mistura cultura religiosa dominante e religião oficial.Porque, o que significa, na boca dos seus defensores, uma "laicidade absolutamente sem sombra, nem meias-tintas"? Significa, em primeiro lugar, a erradicação total e absoluta, a "purificação", diria eu, de todos os actos e edifícios públicos e, já agora, da linguagem também, de toda e qualquer referência de carácter religioso. Mas, mais do que isso, a laicidade "sem meias tintas", propõe-se ignorar o fenómeno religioso, em qualquer das suas expressões, impedi-lo de se exprimir publicamente, encerrá-lo na esfera privada dos cidadãos. No limite, o Estado teria de banir os feriados religiosos cristãos, e obrigar os eleitos a praticar a auto-censura da sua linguagem pública, banindo por exemplo, o "se Deus quiser"... Ou seja tapar com o manto branco da neutralidade asséptica, qualquer indício de cultura religiosa. Ou retirá-la da vida, musealizando-a... Em relação ao falecimento do Papa, por exemplo, noticiá-la como mais uma notícia que apenas diz respeito ao foro privado dos católicos. Acontece, porém, que os católicos são 90 por cento desses países e, mais importante do que isso, a cultura religiosa católica e cristã é dominante, é o fundamento da sua história, das suas tradições, costumes e valores, do essencial da sua identidade. Negar esta realidade é destruir uma das principais bases da coesão social, um dos principais elementos de comunhão de origem, clamorosamente manifestada em Roma nos milhões de pessoas que aí acorreram ou que assistiram pela televisão à agonia do Papa.Por detrás desta crispação laica está no fundo a negação da religião, está a velha convicção que data do século XIX europeu, que para libertar as consciências era preciso recalcar a religião: a razão contra a fé. A primeira metade do século XX pareceu confirmar esta ideia. Exceptuando os Estados Unidos, a prática religiosa recuou em todo o mundo ocidental, as igrejas esvaziaram-se, as crenças e instituições religiosas desempenhavam um papel cada vez menor e marginal. Na cena pública, a ideologia tomou o lugar da religião. Governos, povos e movimentos sociais definiam-se em função das ideologias laicas: comunismo, liberalismo, fascismo...Mas no último quartel do século XX, a marcha em direcção à secularização inverteu-se. A religião ressurgiu em força e contrariamente às previsões, os seus adeptos não se encontram apenas nas pessoas de idade e entre os mais pobres, mas em todas as idades, sobretudo em jovens instruídos e com profissões de sucesso. A tendência inverteu-se: os ateus e os anti-clericais puros e duros encontram-se hoje nas gerações mais velhas, na geração das ideologias. Na Europa de Leste, a religião e a Igreja Católica foram os símbolos da resistência nacional e de luta pela liberdade; na Europa Ocidental, pelo contrário, religião e liberdade estiveram frequentemente em campos opostos. A laicidade, no ocidente europeu, nasce assim do conflito. Em muitas consciências permanece ainda a memória da ruptura violenta entre Estado e religião.Mas esta realidade não pode obscurecer duas questões essenciais:Em primeiro lugar, a laicidade não é uma doutrina (mais uma) dogmática e agressiva, mas sim a expressão de uma liberdade essencial, de um direito do homem e do cidadão. Não representa uma vingança histórica contra a Igreja Católica, mas sim o reconhecimento do pluralismo religioso e do direito inalienável individual e colectivo ao exercício livre e aberto da diferença religiosa. Não conduz o Estado a ignorar o fenómeno religioso, mas pelo contrário a reconhecer a sua função social permitindo e ajudando, não apenas um único culto mas todos, a cumprir essa função. Em segundo lugar, pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante. Porque uma religião representa muito mais do que um rito e uma prática ou até do que uma fé. Representa uma cultura no seu sentido mais lato, de costumes e tradições, mitos e memória, ética e valores, língua e linguagem, esquema mental e pensamento... em relação íntima com a história, a geografia e até o clima. Voltando ao princípio: não sendo católica, não me choca, não me incomoda que um estado laico, como o português, celebre luto nacional pelo chefe espiritual da Igreja Católica, neste caso o Papa João Paulo II. Não só pela sua estatura humana e espiritual, não só pela sua imensa obra de reconciliação entre as religiões, mas também porque reconheço que a cultura religiosa dominante em Portugal é a católica, é ela que tece as malhas do tecido social; e que a laicidade não consiste em fazer de conta que não é assim, como o querem fazer crer os argumentos do tipo "Se fosse o Dalai Lama...", mas em exigir o respeito escrupuloso pela independência religiosa do Estado de direito, assim como da liberdade de expressão e organização pública e privada das outras confissões religiosas.Quanto à expressão de Sua Santidade, lembro a todos os puristas que quando pronunciarem a palavra "Rabi" se estão a referir ao "meu" mestre... Investigadora em assuntos judaicos
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O perigo

"Tragédias intelectuais
José Manuel Fernandes
A adulação que muitos intelectuais mantêm pelo Sartre político mostra como continuam a preferir utopias perigosas a enfrentar as cruas realidades
Completam-se hoje 25 anos que Jean-Paul Sartre morreu - e em Junho assinalar-se-á o centenário do seu nascimento. Não surpreende pois que se multipliquem os escritos sobre um dos intelectuais franceses mais marcantes do século XX, mas também um daqueles a que a passagem dos anos mais mal fez.Em Sartre é necessário distinguir várias componentes - a do escritor e dramaturgo, cujo valor resiste ao tempo, a do filósofo, cuja influência se desvanece, e a do "intelectual militante" cuja memória assusta. E assusta não porque sejam hoje muitos os que defendem as "causas" em que Sartre, ainda apresentado como o "intelectual dos intelectuais", se empenhou, mas porque se procura recuperar a sua memória em nome de abstracções idealistas que as suas opções políticas contrariaram de forma repetida.O intelectual que nasceu no mesmo ano - 1905 - que Raymond Aron e Emmanuel Mounier, que frequentou a mesma distinta escola superior, que ganhou prestígio e "cresceu" à esquerda, ignorou contudo a Guerra Civil espanhola quando esta torturava o católico Mounier, que fez contudo a escolha certa, e não se lhe conhece uma palavra sobre a rendição moral das democracias perante Hitler nos Acordos Munique, condenados por Aron. Passou a guerra em Paris ocupada, não na clandestinidade, mas a apreciar a sua primeira estreia como dramaturgo e a frequentar a doce "resistência" das tertúlias de café. O filósofo cujo existencialismo defendia que a acção era tudo, evitou a acção nos dias de real perigo e só se tornou activo quando, no pós-guerra, cavalgou a onda aparentemente imparável do "socialismo real". Em 1954, sabendo que mentia, afirmou que a liberdade de crítica era total na União Soviética depois de a visitar e, quando outros já se afastavam dos comunistas, manteve-se na sua órbita sob o argumento hipócrita de que, como não era militante, havia assuntos que não lhe diziam respeito. Rompeu com o estalinismo após a repressão violenta das revoltas húngara (1956) e checoslovaca (1968), mas isso não o impediu de, pelo meio, se apaixonar por Fidel e, após Maio de 1968, entrar em delírio radical, chegando a defender a pena de morte para os burgueses no país da sua utopia: "Um regime revolucionário deve desembaraçar-se de um certo número de indivíduos que o ameaçam e, para este caso, não vejo outro meio a não ser a morte; é sempre possível sair de uma prisão", escreveu em 1972, tinha 67 anos...Muitas outros episódios se poderiam contar, pelo que impressiona que ainda hoje, talvez por um inultrapassável sentimento de orfandade, os nostálgicos da tribo que o venerava como um santo repitam que "mais valia estar errado com Sartre do que certo ao lado de Aron". Ora é exactamente essa a tragédia de muitos intelectuais, incapazes de entenderem quando as suas ideias têm consequências trágicas, que mais do que a retórica dos regimes importa julgar as suas práticas, intelectuais que possuem uma espécie de "doença ocupacional", como lhe chamara Aron, que é a de se oporem por sistema à ordem que lhes permite viverem e escreverem em liberdade. Uma tragédia persistente, pois a sua atracção pelos mundos perfeitos criados nas suas cabeças iluminadas, e que gostariam de impor a todos, é um mal duradouro que os impede de se confrontarem com as cruas realidades da natureza humana.
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quinta-feira, abril 07, 2005

Onde andavam?

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Metro para quê e para quem?
Gostava de acreditar na bondade dos opositores do metro à superfície em frente ao Hospital de São João, mas não é o caso.- Não os reconheço como particularmente adeptos dos transportes colectivos.- Nunca ouvi esses opositores a manifestarem-se contra o mar de automóveis que circunda o IPO/H. S. João/ISEP/U. Católica/Lusíada/FEUP/FEP/FCDEF/F. de Medicina e de Nutrição, etc., veículos que circulam pelas vias adjacentes ou simplesmente estacionam selvaticamente em cima de todo o espaço que encontram.- Dão a entender que o metro, no futuro, causará mais acidentes que a confusão de automóveis circulando caoticamente e em frenesim para disputar um lugar de estacionamento ou simplesmente chegar a horas às consultas, às aulas e compromissos, tal como se verifica actualmente.- Falam em nome dos estudantes, os mesmos que ocupam vastas áreas dos campus universitários com as suas latas, que só diferem das sucatas por serem latas novas. Estes, que vão ver dificultada a sua argumentação junto dos seus progenitores, para que eles lhes paguem o transporte individual após a chegada do metro à porta da sua faculdade.A leitura que faço é que os utentes do transporte individual pretendem afastar o metro para as catacumbas, para que não lhes atrapalhe a circulação do seu estatuto de entidade superior, seja ele médico, enfermeiro, ou estudante universitário endinheirado e egoísta. Os transportes públicos seriam assim para os "outros", aqueles que não têm lugar de estacionamento privativo no seu lugar de trabalho, pago por todos os contribuintes, ou para quem não pode suportar mais um custo, o do estacionamento pago. Esses "outros" não necessitam ou não têm o direito a contemplar as paisagens que o transporte individual proporciona, e seriam assim remetidos para um túnel de cimento, eventualmente com publicidade ao último modelo de automóvel, para que tivessem consciência da sua inferioridade. [...] O metro deve, sim, complicar a vida ao transporte individual, deve ter prioridade absoluta sobre estes, deve circular em canal próprio, reduzindo o espaço para o transporte individual. Deve, sim, ser limitado o estacionamento gratuito e à superfície, mesmo dentro dos hospitais e das faculdades, transformando esses espaços em espaços de fruição e de descompressão dos ritmos intensos de trabalho. Como cidadão e contribuinte para essa infra-estrutura que é o metro, quero que ele contribua para a minha qualidade de vida, que diminua a invasão dos automóveis e a sua ameaça à integridade física, à qualidade do ar. O metro e os transportes públicos são para todos, e também para os médicos, para os gestores e para os estudantes; não têm peçonha, e só se andarmos todos neles faremos deles transportes mais rápidos e mais cómodos. E viabilizaremos mais investimento neles e na sua tecnologia limpa, assim se construindo uma cidade para pessoas livres de ameaças, com mobilidade alargada, com menos stress, mais verde e cumprindo horários e compromissos sem terem de fazer atentados à vida deles e dos outros.[...] Os adeptos do transporte individual terão razões para se oporem ao metro à superfície, mas essas razões não me parecem ser aceitáveis por estarem centradas nos seus umbigos; ou, a não serem justas estas considerações, terão muito trabalho a fazer para me convencerem do contrário.Numa coisa acompanho aqueles que agora protestam: na indignação pela repetida arrogância, autismo e prepotência de quem dirige, por nós, o metro. É assim com os utentes da Linha da Póvoa, com os cidadãos da Boavista, com os moradores de Vila do Conde e Póvoa de Varzim vítimas de expropriações selvagens e sem justificação suficiente, com o IPP e a Faculdade de Medicina, com os legítimos representantes de cargos públicos e legitimados democraticamente. Se a democracia não encontra outro modo de tratar os cidadãos que não seja desprezá-los, desqualificá-los, insultá-los, muito mal está de saúde e muito mal estão aqueles que elegemos para nos governar, seja nas empresas públicas, nas cidades, na junta metropolitana ou no Governo.Mas também mal está a sociedade civil e a sua organização, que só apela a S. Pedro quando troveja. Onde andávamos nós quando esteve em discussão pública o traçado da linha do metro? Como foi essa discussão pública divulgada? Armando Herculano, utente de transportes públicos, funcionário do ISEP, membro da CULP - Comissão de Utentes da Linha da Póvoa "

in Jornal Publico 2005/04/07

segunda-feira, abril 04, 2005


A partir de hoje as ediçoes online do jornal publico pagam-se. Desde há algum tempo que se sabia que iria acontecer. La paguei uma quantia razoavel, 20€ por um ano. Nao está mal, podia ser pior: quando penso nos preços que o jornal Expresso pede, parece-me que já nao sao tao razoaveis.
E agora um primeiro grande artigo :

"O fim da UDP
José Manuel Fernandes
A transformação da UDP de partido em associação política tem algo de comédia e muito de tragédia.
O sucesso eleitoral do Bloco de Esquerda teve como consequência a progressiva diluição dos partidos que deram corpo à aliança - um de geneologia trostkista, o PSR, outro de tradição maoista, a UDP, e um terceiro formado sobretudo por antigos militantes do PCP, a Política XXI. Esta última formação teve vida efémera, já que o Bloco sempre foi a "casa natural" dos seus fundadores. O PSR depressa perdeu existência autónoma, até porque não foi um partido com muitos militantes e enraizamento local: vivia do carisma do seu rosto público, Francisco Louçã. A UDP resistiu até este fim-de-semana e só agora, em boa parte por causa da nova lei dos partidos políticos, deixa de ser um "partido político" para se transformar em "associação política". Esta evolução tem algo de comédia e muito de tragédia.A comédia é a cosmética da operação: no fundo a nova "associação política" aprova estatutos em tudo semelhantes aos de um partido e propõe-se até manter instâncias disciplinares. Esta cosmética mostra que na UDP muitos ainda raciocinam e agem de acordo com os velhos ensinamentos do movimento comunista internacional: os comunistas organizam-se fora da "frente eleitoral" (leia-se UDP onde se escreve comunistas e Bloco onde está "frente") e procuram, a partir daí, orientá-la e dirigi-la. A tragédia desta cosmética é que, apesar da UDP se auto-definir como comunista, as resoluções mostram que a organização já pouco tem de comunista ou mesmo de revolucionária: revelam uma total rendição ideológica mal assumida.Notemos, por exemplo, que a nova Declaração de Princípios define o regime pelo qual se luta, o socialismo, como aquele que asseguraria "a justiça social, promovendo a melhoria do nível de vida do povo, especialmente das camadas mais pobres, na realização da perspectiva "a cada um segundo o seu trabalho"". Perguntar-se-á: o que há aqui de estranho? Primeiro, a banalidade: até o CDS poderia colocar aquele objectivo no seu programa. Segundo, e mais patético, a definição da perspectiva "a cada um segundo o seu trabalho", afinal nada mais do que a lei e a Constituições já prevêem. Terceiro e mais importante, o facto de tal passagem representar a desistência da marca de água da utopia comunista, a qual não se baseava numa justiça social onde cada um recebesse de acordo com o seu trabalho, mas numa justiça ideal, num "homem novo", capaz de se contentar em receber "de acordo com as suas necessidades" e a trabalhar "de acordo com as suas capacidades". Esta utopia - que se revelou trágica sempre que se tentou criar o tal "homem novo" - é trocada pelos "comunistas" da UDP pela mais rasteira banalidade.Isto não acontece por acaso: acontece porque a UDP percebeu a falência de todas as experiências do "socialismo real" mas não é capaz de abandonar a quimera do socialismo. É assim, por exemplo, que a mesma Declaração de Princípios defende a instauração do "poder popular", o que passaria pela eleição de uma nova Assembleia Constituinte (!), mas não explicita se isso implica uma revolução. Quanto ao que seria o "socialismo" descobrimos que "socializariam" os sectores que no passado foram públicos e entretanto foram privatizados (é curioso e significativo que não se utilize o termo "nacionalização") e, quanto aos outros, propõe-se "a cooperação entre o Estado e as associações de produtores na planificação e gestão dos objectivos económico-sociais, numa perspectiva de descentralização crescente, reduzindo progressivamente o mercado e suprimindo a exploração do homem pelo homem".Como plataforma política tem décadas de atraso: lembra os programas dos socialistas meridionais ou dos trabalhistas ingleses de há uns 50 anos atrás..."