Um blog de Filipe Figueiredo

sexta-feira, abril 15, 2005

O perigo

"Tragédias intelectuais
José Manuel Fernandes
A adulação que muitos intelectuais mantêm pelo Sartre político mostra como continuam a preferir utopias perigosas a enfrentar as cruas realidades
Completam-se hoje 25 anos que Jean-Paul Sartre morreu - e em Junho assinalar-se-á o centenário do seu nascimento. Não surpreende pois que se multipliquem os escritos sobre um dos intelectuais franceses mais marcantes do século XX, mas também um daqueles a que a passagem dos anos mais mal fez.Em Sartre é necessário distinguir várias componentes - a do escritor e dramaturgo, cujo valor resiste ao tempo, a do filósofo, cuja influência se desvanece, e a do "intelectual militante" cuja memória assusta. E assusta não porque sejam hoje muitos os que defendem as "causas" em que Sartre, ainda apresentado como o "intelectual dos intelectuais", se empenhou, mas porque se procura recuperar a sua memória em nome de abstracções idealistas que as suas opções políticas contrariaram de forma repetida.O intelectual que nasceu no mesmo ano - 1905 - que Raymond Aron e Emmanuel Mounier, que frequentou a mesma distinta escola superior, que ganhou prestígio e "cresceu" à esquerda, ignorou contudo a Guerra Civil espanhola quando esta torturava o católico Mounier, que fez contudo a escolha certa, e não se lhe conhece uma palavra sobre a rendição moral das democracias perante Hitler nos Acordos Munique, condenados por Aron. Passou a guerra em Paris ocupada, não na clandestinidade, mas a apreciar a sua primeira estreia como dramaturgo e a frequentar a doce "resistência" das tertúlias de café. O filósofo cujo existencialismo defendia que a acção era tudo, evitou a acção nos dias de real perigo e só se tornou activo quando, no pós-guerra, cavalgou a onda aparentemente imparável do "socialismo real". Em 1954, sabendo que mentia, afirmou que a liberdade de crítica era total na União Soviética depois de a visitar e, quando outros já se afastavam dos comunistas, manteve-se na sua órbita sob o argumento hipócrita de que, como não era militante, havia assuntos que não lhe diziam respeito. Rompeu com o estalinismo após a repressão violenta das revoltas húngara (1956) e checoslovaca (1968), mas isso não o impediu de, pelo meio, se apaixonar por Fidel e, após Maio de 1968, entrar em delírio radical, chegando a defender a pena de morte para os burgueses no país da sua utopia: "Um regime revolucionário deve desembaraçar-se de um certo número de indivíduos que o ameaçam e, para este caso, não vejo outro meio a não ser a morte; é sempre possível sair de uma prisão", escreveu em 1972, tinha 67 anos...Muitas outros episódios se poderiam contar, pelo que impressiona que ainda hoje, talvez por um inultrapassável sentimento de orfandade, os nostálgicos da tribo que o venerava como um santo repitam que "mais valia estar errado com Sartre do que certo ao lado de Aron". Ora é exactamente essa a tragédia de muitos intelectuais, incapazes de entenderem quando as suas ideias têm consequências trágicas, que mais do que a retórica dos regimes importa julgar as suas práticas, intelectuais que possuem uma espécie de "doença ocupacional", como lhe chamara Aron, que é a de se oporem por sistema à ordem que lhes permite viverem e escreverem em liberdade. Uma tragédia persistente, pois a sua atracção pelos mundos perfeitos criados nas suas cabeças iluminadas, e que gostariam de impor a todos, é um mal duradouro que os impede de se confrontarem com as cruas realidades da natureza humana.
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