Um blog de Filipe Figueiredo

quinta-feira, abril 07, 2005

Onde andavam?

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Metro para quê e para quem?
Gostava de acreditar na bondade dos opositores do metro à superfície em frente ao Hospital de São João, mas não é o caso.- Não os reconheço como particularmente adeptos dos transportes colectivos.- Nunca ouvi esses opositores a manifestarem-se contra o mar de automóveis que circunda o IPO/H. S. João/ISEP/U. Católica/Lusíada/FEUP/FEP/FCDEF/F. de Medicina e de Nutrição, etc., veículos que circulam pelas vias adjacentes ou simplesmente estacionam selvaticamente em cima de todo o espaço que encontram.- Dão a entender que o metro, no futuro, causará mais acidentes que a confusão de automóveis circulando caoticamente e em frenesim para disputar um lugar de estacionamento ou simplesmente chegar a horas às consultas, às aulas e compromissos, tal como se verifica actualmente.- Falam em nome dos estudantes, os mesmos que ocupam vastas áreas dos campus universitários com as suas latas, que só diferem das sucatas por serem latas novas. Estes, que vão ver dificultada a sua argumentação junto dos seus progenitores, para que eles lhes paguem o transporte individual após a chegada do metro à porta da sua faculdade.A leitura que faço é que os utentes do transporte individual pretendem afastar o metro para as catacumbas, para que não lhes atrapalhe a circulação do seu estatuto de entidade superior, seja ele médico, enfermeiro, ou estudante universitário endinheirado e egoísta. Os transportes públicos seriam assim para os "outros", aqueles que não têm lugar de estacionamento privativo no seu lugar de trabalho, pago por todos os contribuintes, ou para quem não pode suportar mais um custo, o do estacionamento pago. Esses "outros" não necessitam ou não têm o direito a contemplar as paisagens que o transporte individual proporciona, e seriam assim remetidos para um túnel de cimento, eventualmente com publicidade ao último modelo de automóvel, para que tivessem consciência da sua inferioridade. [...] O metro deve, sim, complicar a vida ao transporte individual, deve ter prioridade absoluta sobre estes, deve circular em canal próprio, reduzindo o espaço para o transporte individual. Deve, sim, ser limitado o estacionamento gratuito e à superfície, mesmo dentro dos hospitais e das faculdades, transformando esses espaços em espaços de fruição e de descompressão dos ritmos intensos de trabalho. Como cidadão e contribuinte para essa infra-estrutura que é o metro, quero que ele contribua para a minha qualidade de vida, que diminua a invasão dos automóveis e a sua ameaça à integridade física, à qualidade do ar. O metro e os transportes públicos são para todos, e também para os médicos, para os gestores e para os estudantes; não têm peçonha, e só se andarmos todos neles faremos deles transportes mais rápidos e mais cómodos. E viabilizaremos mais investimento neles e na sua tecnologia limpa, assim se construindo uma cidade para pessoas livres de ameaças, com mobilidade alargada, com menos stress, mais verde e cumprindo horários e compromissos sem terem de fazer atentados à vida deles e dos outros.[...] Os adeptos do transporte individual terão razões para se oporem ao metro à superfície, mas essas razões não me parecem ser aceitáveis por estarem centradas nos seus umbigos; ou, a não serem justas estas considerações, terão muito trabalho a fazer para me convencerem do contrário.Numa coisa acompanho aqueles que agora protestam: na indignação pela repetida arrogância, autismo e prepotência de quem dirige, por nós, o metro. É assim com os utentes da Linha da Póvoa, com os cidadãos da Boavista, com os moradores de Vila do Conde e Póvoa de Varzim vítimas de expropriações selvagens e sem justificação suficiente, com o IPP e a Faculdade de Medicina, com os legítimos representantes de cargos públicos e legitimados democraticamente. Se a democracia não encontra outro modo de tratar os cidadãos que não seja desprezá-los, desqualificá-los, insultá-los, muito mal está de saúde e muito mal estão aqueles que elegemos para nos governar, seja nas empresas públicas, nas cidades, na junta metropolitana ou no Governo.Mas também mal está a sociedade civil e a sua organização, que só apela a S. Pedro quando troveja. Onde andávamos nós quando esteve em discussão pública o traçado da linha do metro? Como foi essa discussão pública divulgada? Armando Herculano, utente de transportes públicos, funcionário do ISEP, membro da CULP - Comissão de Utentes da Linha da Póvoa "

in Jornal Publico 2005/04/07