A partir de hoje as ediçoes online do jornal publico pagam-se. Desde há algum tempo que se sabia que iria acontecer. La paguei uma quantia razoavel, 20€ por um ano. Nao está mal, podia ser pior: quando penso nos preços que o jornal Expresso pede, parece-me que já nao sao tao razoaveis.
E agora um primeiro grande artigo :
"O fim da UDP
José Manuel Fernandes
A transformação da UDP de partido em associação política tem algo de comédia e muito de tragédia.
O sucesso eleitoral do Bloco de Esquerda teve como consequência a progressiva diluição dos partidos que deram corpo à aliança - um de geneologia trostkista, o PSR, outro de tradição maoista, a UDP, e um terceiro formado sobretudo por antigos militantes do PCP, a Política XXI. Esta última formação teve vida efémera, já que o Bloco sempre foi a "casa natural" dos seus fundadores. O PSR depressa perdeu existência autónoma, até porque não foi um partido com muitos militantes e enraizamento local: vivia do carisma do seu rosto público, Francisco Louçã. A UDP resistiu até este fim-de-semana e só agora, em boa parte por causa da nova lei dos partidos políticos, deixa de ser um "partido político" para se transformar em "associação política". Esta evolução tem algo de comédia e muito de tragédia.A comédia é a cosmética da operação: no fundo a nova "associação política" aprova estatutos em tudo semelhantes aos de um partido e propõe-se até manter instâncias disciplinares. Esta cosmética mostra que na UDP muitos ainda raciocinam e agem de acordo com os velhos ensinamentos do movimento comunista internacional: os comunistas organizam-se fora da "frente eleitoral" (leia-se UDP onde se escreve comunistas e Bloco onde está "frente") e procuram, a partir daí, orientá-la e dirigi-la. A tragédia desta cosmética é que, apesar da UDP se auto-definir como comunista, as resoluções mostram que a organização já pouco tem de comunista ou mesmo de revolucionária: revelam uma total rendição ideológica mal assumida.Notemos, por exemplo, que a nova Declaração de Princípios define o regime pelo qual se luta, o socialismo, como aquele que asseguraria "a justiça social, promovendo a melhoria do nível de vida do povo, especialmente das camadas mais pobres, na realização da perspectiva "a cada um segundo o seu trabalho"". Perguntar-se-á: o que há aqui de estranho? Primeiro, a banalidade: até o CDS poderia colocar aquele objectivo no seu programa. Segundo, e mais patético, a definição da perspectiva "a cada um segundo o seu trabalho", afinal nada mais do que a lei e a Constituições já prevêem. Terceiro e mais importante, o facto de tal passagem representar a desistência da marca de água da utopia comunista, a qual não se baseava numa justiça social onde cada um recebesse de acordo com o seu trabalho, mas numa justiça ideal, num "homem novo", capaz de se contentar em receber "de acordo com as suas necessidades" e a trabalhar "de acordo com as suas capacidades". Esta utopia - que se revelou trágica sempre que se tentou criar o tal "homem novo" - é trocada pelos "comunistas" da UDP pela mais rasteira banalidade.Isto não acontece por acaso: acontece porque a UDP percebeu a falência de todas as experiências do "socialismo real" mas não é capaz de abandonar a quimera do socialismo. É assim, por exemplo, que a mesma Declaração de Princípios defende a instauração do "poder popular", o que passaria pela eleição de uma nova Assembleia Constituinte (!), mas não explicita se isso implica uma revolução. Quanto ao que seria o "socialismo" descobrimos que "socializariam" os sectores que no passado foram públicos e entretanto foram privatizados (é curioso e significativo que não se utilize o termo "nacionalização") e, quanto aos outros, propõe-se "a cooperação entre o Estado e as associações de produtores na planificação e gestão dos objectivos económico-sociais, numa perspectiva de descentralização crescente, reduzindo progressivamente o mercado e suprimindo a exploração do homem pelo homem".Como plataforma política tem décadas de atraso: lembra os programas dos socialistas meridionais ou dos trabalhistas ingleses de há uns 50 anos atrás..."

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