Um blog de Filipe Figueiredo

terça-feira, março 08, 2005

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Madeleine Albright, no EXPRESSO OnlineO «carimbo americano»

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Madeleine Albright, secretária de Estado na Administração de Bill Clinton, aplaude a democratização do países árabes, que «querem apoio, mas não querem que lhes digam o que fazer quanto ao seu processo de reformas». Na entrevista Albright chama ainda a atenção para o que considera o peso excessivo do «carimbo americano».
«A democracia é um valor universal. Há países para além dos Estados Unidos que praticam a democracia. Não podemos impor a democracia, é um paradoxo. Temos de alimentá-la e apoiá-la. A verdadeira questão é até que ponto poderá haver um retrocesso com uma democracia imposta pelos Estados Unidos», diz Madeleine Albright.

PERGUNTA - Há um frémito democrático no mundo árabe - as eleições palestinianas, as eleições no Iraque, as eleições locais na Arábia Saudita (embora só para homens), o anúncio do Presidente do Egipto, Mubarak, de eleições multipartidárias, manifestações de rua no Líbano a favor da democracia, que já levaram à demissão do primeiro-ministro pró-Síria.
É o mesmo processo histórico que vimos com a onda de democracia na Europa Central e do Leste e, mais tarde, na Geórgia e na Ucrânia?
MADELEINE ALBRIGHT - Sempre acreditei que somos todos iguais. As pessoas querem viver num país onde tenham possibilidade de tomar as suas próprias decisões. Com informação disseminada mundialmente, existe hoje um desejo crescente e um apoio generalizado à democracia. É algo que se sente no ar em todo o mundo desde a década de 1980 - na Coreia do Sul, em Taiwan, nas Filipinas, na Indonésia, na Europa Central e de Leste, na América Latina e na antiga União Soviética.
Neste sentido, sim, o que está agora a acontecer no mundo árabe faz parte de uma onda generalizada. Mas não se trata de algo que tenha começado agora. E há vários aspectos que fazem a maré subir e baixar. A democracia não foi inventada nos últimos três anos.
De facto, um dos novos problemas, como vemos na Rússia e na América Latina e mesmo até certo ponto na Europa Central e de Leste, é a «democracia pós-euforia». A democracia não é um acontecimento, é um processo. Se a democracia não cumprir as promessas - se não significar que as pessoas podem comprar casa, fazer os seus negócios e não ter fome -, as sociedades podem ter uma recaída.
P. - Mas, certamente, a política externa de Bush - o derrube de Saddam e a promoção de eleições - teve algum impacto? Apesar de todas as conversações para a democracia no Médio Oriente durante anos, o impasse foi quebrado apenas este ano.
M.A. - A resposta é sim e não. A verdade é que houve eleições e movimentos democráticos no Médio Oriente antes disso. O Instituto Nacional Democrático já tinha tido muitas discussões sobre o tema, por exemplo, no Iémen, no Barém e entre palestinianos moderados, em Belém. A morte de Yasser Arafat foi uma parte muito importante do que tornou possível fazer as eleições palestinianas.
Não fui a favor da guerra no Iraque. Mas penso que as eleições lá realizadas são muito significativas e constituem uma vitória para o povo iraquiano. O Presidente Bush pode ter crédito por isso. Contudo, é só o começo e há complicações que derivam daquilo que a administração Bush fez.
Acabo de chegar dos países árabes e uma coisa é muito clara: querem apoio, mas não querem que lhes digam o que fazer quanto ao seu processo de reformas, o que para muitos é o objectivo da iniciativa para o Médio Oriente da Administração Bush. Portanto, embora se sintam encorajados pelas eleições no Iraque, não querem ser identificados com um plano americano.
O quadro é heterogéneo. Há um grande anti-americanismo em consequência da guerra mas, ao mesmo tempo, existe um sentimento de júbilo por aquilo que fez o povo iraquiano.
P. - Se estamos no início de uma nova fase no Médio Oriente em termos de democratização, quais os obstáculos que se apresentam pela frente?
M.A. - No Iraque, foi admirável ver tantos dedos manchados de tinta. Os iraquianos devem ser felicitados. Ao mesmo tempo, já passou mais de um mês desde as eleições e o governo ainda não está formado. Acabo de ver o dia mais violento desde a queda de Saddam, com mais de 100 pessoas mortas por um carro armadilhado no Sul de Bagdade. Os iraquianos necessitam de formar um governo, criar uma nova constituição, realizar um referendo à Constituição e convocar novas eleições. Trata-se de um processo longo e penoso, dadas as divisões entre os próprios iraquianos.
No Líbano, é extraordinário que as pessoas tenham saído para as ruas e que exista uma aparente unidade entre cristãos e muçulmanos. Mas há algo que não deve ser esquecido: eles tiveram uma guerra civil. As divisões entre seitas continuam. A situação é fluida. A questão é como expulsar os sírios. Aqueles com quem falei no Líbano dizem-me que se está a passar muita coisa que aquelas multidões incríveis desconhecem.
O Líbano é contudo muito diferente da Ucrânia. As diferenças entre o Leste e o Oeste da Ucrânia são mínimas se comparadas com as divisões no Líbano.
No Egipto, de onde acabo de chegar, há muitas pessoas que querem a democracia. Contudo, neste momento não temos qualquer ideia das verdadeiras intenções do anúncio do Presidente Mubarak, porque um dos mais viáveis candidatos da oposição, [Ayman] Nour, está na prisão! E as pessoas que o rodeiam foram espancadas com gravidade.
Quando aparece um novo partido político, é imediatamente travado. O que lá existe é uma «oposição controlada». É claro que Mubarak sentiu alguma pressão depois de o Egipto ter sido mencionado no discurso sobre o Estado da União do Presidente Bush e tomou medidas. Mas até a Administração Bush está à espera de ver o que isso significa na realidade.
Também estive agora na Arábia Saudita. Encontrei-a mais agitada do que pensava. Há muito fermento. Assisti ao Fórum Económico de Jeddah. As mulheres estavam separadas dos homens por uma barreira e não podiam vê-los no enorme auditório onde se realizou o fórum. O que foi saudado como um grande passo em frente foi o facto de as mulheres serem convidadas a falar sobre muitos dos temas. Eles diziam: «E agora vamos saber o que as senhoras têm a dizer.» E as «senhoras» disseram muito claramente ao ministro do Trabalho que já não queriam mais instalações separadas para homens e mulheres nos locais de trabalho. As eleições municipais na Arábia Saudita são um começo.
É difícil calcular até que ponto esta mudança é determinada por pressões externas ou internas ou pelas massas populares.
P. - Mesmo tendo em conta estes obstáculos e complicações, pode dizer-se que a política externa «transformista» é a correcta para o Médio Oriente neste momento histórico?
M.A. - É a política certa para os Estados Unidos defenderem a democracia e a liberdade. Somos um país excepcional. Foi algo que eu também defendi. Passei muito tempo a observar e a estar com os dissidentes da Europa de Leste. Sempre apreciaram ser identificados com o Ocidente e com os Estados Unidos. Queriam que as atenções se centrassem neles para os proteger.
No mundo árabe, aqueles que querem a democracia partilham dos nossos valores, desde que acreditem que as pessoas são autorizadas a fazer a sua própria escolha. Mas ser identificado com os Estados Unidos não é uma vantagem para eles.
Isso torna muito diferente o papel dos Estados Unidos na promoção da democracia no Médio Oriente árabe. Não existe sequer um pró-americanismo passivo. Em toda a região, a hostilidade para com a América é palpável.
Portanto, embora a democratização seja um belo objectivo americano, é olhada em geral nesta região como algo que cheira a hegemonia e não como uma opção de cada povo. Isso deixa-me inquieta.
P. - Então o seu conselho a Condoleezza Rice, sua sucessora como mulher na secretaria de Estado, seria: estás do lado certo da história, mas não exageres?
M.A. - Condi e eu já discutimos isto muitas vezes. Como sabe, o meu pai foi professor dela. Sempre acreditei numa política externa moral e democrática - seria de lhe perguntar o que pensa. E sempre pensei que é absolutamente certo falar com outros sobre os valores americanos. Mas precisamos de estar conscientes de que não é uma coisa que se possa meter à força na cabeça das pessoas.

Secretária de Estado dos EUA no tempo do Presidente Bill Clinton, Madeleine Albright é actualmente presidente do Instituto Nacional Democrático para os Assuntos Internacionais, que promove a democracia mundialmente.

Tradução de Aida Macedo
(c) 2005, Global Viewpoint
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