No tempo do lápis azul....
"Carimbos, cortes e provas de página
Cada jornal tinha um funcionário que se deslocava diariamente à sede da comissão de censura para levar os textos que iam ser submetidos a exame. As provas a granel eram folhas com a notícia ou o artigo a ser visado e eram apresentadas em duplicado ou em triplicado, consoante fosse dentro ou fora de Lisboa. Os textos regressavam ao jornal com dois carimbos que marcavam "visto" e "autorizado", "autorizado parcialmente", "demorado" ou "proibido". Quando o carimbo marcava "autorizado", a notícia podia ser publicada na íntegra. Se a decisão fosse "autorizado parcialmente", então cabia ao jornal a decisão de publicar. "Demorado" significava que a autorização podia demorar o tempo que os censores decidissem e "proibido" impunha uma cruz que cortava de cima a baixo a notícia. Quando os jornais pisavam o risco e não acatavam as ordens dos coronéis, o castigo mais grave era a prova de página. Nesse caso, não só censuravam as provas, como podiam censurar a página toda, já com a paginação feita. Conta Marcelo Rebelo de Sousa que, depois da ousadia de se ter aproveitado de uma ausência de Pinto Balsemão para não cumprir nenhum corte, o jornal teve uma sanção de um mês de prova de página. "Tínhamos o duplo trabalho que era de refazer as páginas as vezes que eles quisessem. Se nós já saíamos muitas vezes às duas, três ou quatro da manhã, com a prova de página passávamos a sair no dia seguinte", queixa-se. Todo este processo moroso implicava um atraso na colocação dos jornais nos postos de venda e a perda de ligações ferroviárias para o interior do país. Isto significava um grande desgaste económico para o jornal. Vários exemplos ilustram como era ténue a linha entre o "autorizado" e o "proibido". A segurar uma prova de página, Baptista Bastos conta que "um dia houve um concurso de ié-ié, uma dança que havia na época". Nessa edição, teve de noticiar o concurso e uma reunião do presidente do Conselho com os ministros. De modo que, com a cumplicidade de outro jornalista, Jacinto Baptista, escreveu nas entrelinhas da paginação. "A palavra "ié-ié" ficava pendurada e eu coloquei por baixo o título "A presidência do Conselho"." Sanção: prova de página. "
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O jogo do gato e do rato
A casa de Viale Moutinho respira literatura. As paredes estão forradas com encadernações e, pelo meio, encontram-se alguns livros proibidos de entrar em Portugal na ditadura, por serem "subversivos". Rousseau esconde-se debaixo de uma capa de Voyages of Discovery do Capitão James Cook, uma estratégia para o livro poder entrar em Portugal. Já que os seus textos jornalísticos eram censurados, Viale Moutinho escrevia vários contos no JN. "São contos fantásticos com um fundo político sobre o nosso país. Por exemplo, "O Sobrevivente"é o discurso do coveiro Tomás aos ratos. É uma metáfora do Américo Tomás que podia passar", admite. Entre outras histórias, hoje compiladas no livro No País das Lágrimas e Outros Contos, encontram-se várias alegorias. "O "Monitor" e "Última Aula" são libelos ao ensino no Estado Novo. As palavras medonhas e a repressão estão sob a forma de vindimadores misteriosos em "Na Vinha"", desvenda o escritor.Embora a literatura permitisse maior liberdade, os jornalistas procuravam algumas "habilidades" para enganar os censores. Baptista Bastos colaborou na Seara Nova e conta que a revista, às vezes, incorporava nas páginas excertos de Lenine assinados por Vladimir Ulianov, que era o seu nome verdadeiro, e quando se citava Karl Marx optava-se por Carlos Marques. Na Vida Mundial, Diana Andringa relembra algumas "maldades que irritavam sobremaneira os censores". Por exemplo, como a princípio as fotografias e as legendas não iam à censura, a acompanhar o "10 de Junho, dia de Portugal" colocavam-se fotografias a condecorar mutilados e viúvas. Claro que, quando se apercebe, a censura começa a aplicar a prova de página como sanção.Avelino Rodrigues revela outros truques, como escrever a mesma ideia em dois parágrafos diferentes. "A nossa esperança era que cortassem apenas um e ficava o outro. Esta é uma coisa que resultava muito", relata. Depois, podiam alterar a ordem dos parágrafos e retomar a ideia no princípio do texto. Por outro lado, havia uma certa capacidade de negociação entre os chefes e sub-chefes de redacção, directores e censores, procurando-se mandar para a censura os linguados quando lá estivesse um censor mais acessível.O administrador delegado do Expresso Marcelo Rebelo de Sousa também participava em algumas "habilidades" para iludir os censores. Desde mandar prosas à noite para o turno que era menos atento ou colocar, de vez em quando, uma "prosa desgarrada" na página da mulher. Conta também que se transferiam prosas culturais e políticas para o desporto, ou seja, "misturavam-se prosas sensíveis com prosas aparentemente inócuas". E acrescenta: "Lembro-me que, a certa altura, para falar na evolução da China, pegámos num jogo de pingue-pongue entre a China e a América, porque quem via a parte do desporto era um coronel politicamente mais distraído." "
" Coronéis armados de lápis azuis
A censura não actuava da mesma maneira em todos os jornais. Para se perceber melhor os critérios dos coronéis, há que distinguir os "jornais da situação", os "jornais do reviralho" e os jornais que não tendiam directamente nem para um lado nem para o outro. Os conceitos são explicados por Avelino Rodrigues, que passou pelos dois tipos de publicação. Os "jornais da situação" eram nitidamente do regime, como A Voz e o Diário da Manhã, enquanto os "jornais do reviralho" eram da oposição e pretendiam lutar contra o governo, por exemplo, o Diário de Lisboa e o República. Quanto aos jornais que não eram directamente do regime ou do "reviralho" havia O Século, Diário de Notícias e Diário Popular, em Lisboa. No Porto, estavam o Comércio do Porto, o Jornal de Notícias e o Primeiro de Janeiro. O comportamento dos censores era diferente consoante se tratasse dum jornal da oposição ou não. "Nos jornais do reviralho a censura é completamente desconfiada, anda à procura de canalhices, de espertezas e subtilezas em todas as linhas e entrelinhas. Exige-lhes muitas vezes provas de página e atrasa-se no envio das decisões das provas", revela Avelino Rodrigues. Os outros jornais tinham uma certa capacidade de negociação com os censores. Por isso, acrescenta: "N"O Século vi vezes sem conta o chefe de redacção a falar com os censores e a negociar os parágrafos a cortar. Assisti, muitas vezes, o chefe a dar murros na mesa e a andar aos berros com os censores."Quando se pede aos jornalistas da época para descreverem os censores, as opiniões divergem. Manuel António Pina conheceu pessoalmente o coronel Roma Torres. "Era um homem comum, um homem do regime. Era pouco tolerante, reservado e do ponto de vista intelectual muito fechado", diz. E Germano Silva acrescenta: "De uma maneira geral, pela forma como conduziam as coisas, via-se que não eram pessoas destituídas. Sabiam o que estavam a fazer e o que estavam a cortar."Baptista Bastos muda de tom quando fala nos coronéis. O rosto enfurece-se e diz: "Nunca falei com censores nem com polícias. Conheci um quando fui ao Solar do Vinho do Porto. Estava lá o famoso tenente Nazaré, que era uma besta, um chapado idiota, um analfabeto, um malandro que estava a cortar as coisas." Porém, admite que também havia intelectuais, como o coronel Galvão ou o monsenhor Moreira das Neves. Já Adelino Cardoso crê que a ditadura não conseguiu ter intelectuais a seu lado. "Porque é que os censores eram todos coronéis reformados, muito estúpidos, que não compreendiam as próprias instruções que tinham? O fascismo não conseguiu ter escritores, intelectuais, professores universitários", comenta. "
Jornal Publico, 27-04-2005

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