Um blog de Filipe Figueiredo

sexta-feira, abril 22, 2005

O Homem

" "A Queda" e o humano
José Manuel Fernandes
Mostrar, num filme, Hitler tal como ele era não o humaniza, antes alerta para a sempre possível convivência entre o mal absoluto e o ser-se humano
No final do seu livro The Hitler of History, John Lukacs recorda palavras de Santo Agostinho a propósito do carácter "espiritual" do que é diabólico e como a espiritualidade é inerente à condição humana. Daí que considere que descrever Hitler apenas como um demónio fosse uma daquelas meias-verdades mais perigosas e falsas do que as mentiras. Mais: recorda, citando a máxima desse observador pessimista da natureza humana que foi La Rochefoucault, que "há homens diabólicos neste mundo que seriam menos perigosos se não tivessem qualquer coisa de bom neles".Estas reflexões são especialmente pertinentes a propósito do filme A Queda, onde se retratam os últimos dias do ditador. E são-no porque sublinham a importância daquilo que, paradoxalmente, tem sido criticado na obra de Oliver Hirschbiegel e na criação do personagem pelo actor Bruno Ganz: o mostrarem-nos um Hitler ora humano e ternurento, ora descontrolado, implacável e insensível ao sofrimento dos seus. Isto é, como alguém que não era tão diferente de qualquer nós como as caricaturas, mesmo as melhor intencionadas, tendem a retratar.O rabino de Lisboa, Boaz Pash, convidado pelo PÚBLICO para assistir e comentar o filme (ver o suplemento Y), considerou mesmo que é bom mostrar um Hitler humano pois permite perceber que tudo "pode acontecer de novo": "De alguma maneira em alguns de nós esconde-se um nazi pequeno que só espera falta de controlo para aparecer." Ter isso bem presente "pode ser uma mensagem muito ética".Voltamos assim à ideia da "banalidade do mal" desenvolvida por Hanna Arendt depois de assistir ao julgamento de Eichmann, um dos arquitectos do Holocausto, em Jerusalém. A ideia de que não existe a necessidade de uma qualquer excepcionalidade inumana, uma qualquer possessão diabólica inata, nos seres capazes de ordenar ou protagonizar as maiores atrocidades. Ou a ideia de que o que separa a humanidade e cada homem da vileza é a capacidade de controlar o lado sombrio do que nos é mais íntimo - a nossa própria natureza humana.No livro já referido, Lukacs defende que para desenvolver essa capacidade a Civilização é mais determinante do que a Cultura - sendo que os nazis colocavam a Cultura à frente da Civilização. Isso ajuda a explicar como foi possível o nazismo no país onde a Cultura tinha atingido algumas das suas mais sublimes declinações, mas onde a ideia de Civilização enquanto conjunto de normas de sociabilidade, urbanidade e ordem liberal, de acordo com a velha definição de gregos e romanos que a concebiam como antítese de barbárie, era menos considerada. Desse ponto de vista é interessante meditar sobre o Hitler que Hirschbiegel nos mostra em A Queda à luz de alguns dos argumentos trocados entre o novo Papa, ainda cardeal Ratzinger, e o filósofo ateu Jurgen Habermas, em Dezembro de 2004, e ontem recordados no PÚBLICO. Notar, por exemplo, a preocupação de Bento XVI pelo "colapso do entendimento de si próprio do homem" e o reconhecimento pelo filósofo de que a ideia de dignidade humana da tradição judaica-cristã não deve ser abandonada - exactamente o que aconteceu quando Hitler e o nazismo hipnotizaram os alemães.É também por isso que o filme, ao mostrar-nos Hitler como ele era, não o humaniza, antes nos alerta para a sempre possível convivência entre o mal absoluto e o ser-se humano. Algo de que muitas vezes se perde a noção.
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