Um blog de Filipe Figueiredo

terça-feira, novembro 30, 2004

" Face à Intolerância - II Por AUGUSTO M. SEABRADomingo, 28 de Novembro de 2004
nosso é um mundo pós-11 de Setembro, e há dados de base que têm assim de estar sempre presentes. Seria demasiado fácil e mesmo trágico supor que o alvo do ataque foi só a potência imperial, quando era, e é, mais lato: a modernidade e a laicidade, definindo a natureza totalitária do terrorismo fundamentalismo islâmico.
Também desde esse trágico momento fundador se tornou patente o risco de uma deriva no Ocidente predominantemente moderno e laico: o de se aceitar como inevitável o "choque das civilizações". Acresce que o ressurgimento do "universalismo intervencionista" americano por via da agressividade "neo-conservadora" provocou uma generalizada fractura em todo o "espaço ocidental". Na urgência e vivacidade do debate suscitaram-se também fantasmas, anátemas e exorcismos.
Para nos cingirmos ao espaço público português, "Impasses", de Fernando Gil e Paulo Tunhas (e Danièle Cohen), na sua exorcização de um "anti-americanismo" real e suposto, assentava substancialmente no argumento da "má-fé" dos intelectuais europeus. Ora é tanto mais pelo estatuto dos autores, e em particular de Gil, um dos maiores intelectuais portugueses, que esse argumento da "má-fé" é insuficiente e mesmo triste. Mas fez escola.
Sou eu agora acusado de "má fé" por Daniel Oliveira, animador do blog Barnabé, dirigente do Bloco de Esquerda, participante do "Eixo do Mal" na "SIC-Notícias" e esta semana anunciado como colunista do "Expresso". O texto, respondendo ao meu de 14/11, veio no PÚBLICO de sexta-feira. Oliveira tinha-o colocado no seu blog logo a 15/11, ocorrendo que ele surgiu exactamente depois de um "post" de outro dos "bloggers" do Barnabé, André Belo, demarcando-se ele também da equivalência que o primeiro estabelecia entre Theo van Gogh e o assassino - "um fanático assassina outro fanático". Com a ressalva de que a instância de enunciação do "post" de Belo é um "nós" (o Barnabé, "a esquerda"?) a que sou alheio, é um texto que eu subscreveria. Não notei que Oliveira tivesse também considerado haver "má fé" da parte de Belo. A diferença é que eu agora passei a "inimigo".
A ressalva que Daniel Oliveira fazia (e tanto era uma ressalva que estava entre parênteses), de que o facto de ter sido assassinado "dava toda a superioridade moral ao segundo fanático", só não é totalmente irrelevante porque é tristíssima: que sentido tem transportar para um cadáver o conceito de "superioridade moral" tão caro a uma arrogância intelectual de esquerda?
Por isso insisto que não sei a que título Oliveira chama Van Gogh de "fanático" e "anti-semita". "Fanático" o realizador da série televisiva "Najib & Julia", outra variante moderna do "Romeu e Julieta", o romance de um holandês e de uma imigrante marroquina? Eu, que o conheci, tinha escrito que Theo van Gogh era sem dúvida um "provocador", e é sabido que ele considerava haver da parte dos judeus "um sentimentalismo exagerado" em relação ao Holocausto. Não me consta, do que li e de todas as conversas e trocas de "mails" que entretanto tive, que tenha por exemplo havido qualquer demarcação do representante cívico, o presidente da câmara de Amesterdão, Job Cohen, que como se poderá deduzir do nome é de origem judaica.
Mas sobretudo Oliveira acaba por conseguir o inaudito: à força de um jogo estritamente reactivo, "esquerda vs (instrumentalizações de) direita", "esquece" mesmo que a razão do assassinato foi o facto de Van Gogh ter realizado um filme, "Submissão", expondo a dominação exercida sobre as mulheres em nome de interpretações fundamentalistas do Islão, esquece que o assassinato foi também um ataque à modernidade, à laicidade e à liberdade de expressão.
Contudo face à intolerância importam questões de fundo, decorrentes do caso Van Gogh e mais genéricas.
O que está a ocorrer na Holanda é muito grave. Na sequência do assassinato e da sua instrumentalização política, que se traduziu em ignominiosos actos de violência anti-islâmicos, há um clima generalizado de desconfiança e medo: há medo do Islão, confundido genérica e abusivamente com fundamentalismo, e há o medo sentido pela comunidade islâmica. Mas há mais.
De novo ocorre um espectro pressentido desde o 11 de Setembro, o de as sociedades democráticas ocidentais irem capitulando nos seus próprios princípios - como em Guantánamo, em Abu Ghraib ou nas derivas do "Patriot Act". Agora o ministro da Justiça holandês propõe uma lei "anti-blasfémias". O que seria isso senão um entrave à liberdade de expressão? Mais grave ainda: se a consideração da "blasfémia" depende sempre de autoridades religiosas, cristãs, judaicas ou muçulmanas, a proposta daria a essas autoridades força de lei civil, para além da que lhe é admitida pela comunidade de crentes e que só a esses diz respeitos. Seria como dar legitimidade à "fatwa" de Khomeini contra "Os Versículos Satânicos" de Rushdie - pelo menos contra a obra.
Perante a gravidade dos factos, mais necessário se torna não agitar espectros. A globalização torna o multiculturalismo tanto mais inevitável - e tanto mais grave e patético simplesmente exorcizá-lo. Há sim que manter o primado da lei no seu princípio de "universalidade", que se aplica a todos os cidadãos, não abdicando da modernidade e da laicidade, num diálogo tolerante e cosmopolista, em que as diferentes culturas se irrigam mutuamente, e não em que as diferentes comunidades existam tão só separadas. À religião o que é da religião, à Polis o que é da Polis - ou a Deus o que é de Deus, a César o que é César, como há muito já estava escrito. Crítico "

http://jornal.publico.pt/publico/2004/11/28/EspacoPublico/O03.html


quarta-feira, novembro 24, 2004

A vontade de acreditar II

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ELVIRA LINDO Allá ellos

EL PAÍS - Última - 24-11-2004

Hay un tipo de personas que prefieren no saber. Es ese tipo de personas que prefieren no ver películas tristes, porque para triste ya está la vida; prefieren no saber si su mujer, o su marido, le está poniendo los cuernos; prefieren no enterarse de si el niño bebe, si se droga; prefieren no cambiar el dial de la radio aunque lleven años escuchando un programa que no soportan, incluso sé de personas (aunque parezca imposible) que se aferraron al papel higiénico El Elefante, como si rechazar ese papel fuera echar por el water parte de nuestra tradición. Es inevitable que muchas cosas sucedan a nuestras espaldas, pero hay personas que prefieren que la vida suceda a sus espaldas. Su ideal sería que todo siguiera como siempre, aunque sea un desastre. Sé que hay muchas personas bienintencionadas que piensan que en América toda la información es mentirosa y que el ciudadano no puede enterarse de lo que pasa. Hay mucho de cierto en eso, pero también lo es que hay ciudadanos que se refugian en la comodidad de la ignorancia. A toro pasado, cuando ya se sabe que habrá Bush para rato, van apareciendo datos paradójicos. Dicen que han ganado los valores morales, pero es curioso que en las zonas en las que Bush ha ganado el índice de divorcios es mucho más alto, esa ansiedad de pecadores debe ser la que les lleva a atacar con furia el matrimonio homosexual. Más: los Estados en los que no se admite la pena de muerte son los que tienen el índice más bajo de asesinatos. Más: los Estados que votaron por Kerry son los más ricos, por tanto, los que más entregan al Estado y es esa burguesía (¿puedo decir ilustrada?) la que más defiende la salud y educación públicas. Para rematar, son esas zonas donde se concentra la clase media alta (que votan demócrata) los que van a beneficiarse de los recortes de impuestos de Bush. Esto se publica en los periódicos americanos. ¿No será que hay gente que prefiere no saber aunque sea a costa de sus propios intereses? Es posible que caigan en la cuenta de su error dentro de cinco años, cuando la poca ayuda social esté completamente desmantelada. Pero podrán estar satisfechos por aquello que dijo un senador republicano: "Estados Unidos es el único país donde los pobres están gordos". ¡Enhorabuena! "

http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041124elpepiult_2&type=Tes&anchor=elpepiult

Por mais que mostre os factos, aqueles que querem acreditar, nao parecem querer sequer dar a possibilidade de estarem enganados. Cada um escolhe o que quer, mas talvez já seja tempo de darem o braço a torcer e repensar esta história de mau perderdor da revoluçao conservadora/victória dos valores morais. Nao?

A vontade de acreditar I

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Los estadounidenses quieren que Bush gobierne con el apoyo de republicanos y demócratas
JOSÉ MANUEL CALVO - Washington
EL PAÍS - Internacional - 24-11-2004


Tres semanas después de unas elecciones presidenciales de alta intensidad y fuertes enfrentamientos, los estadounidenses miran con optimismo el futuro, pero son conscientes de que la sociedad está dividida. Según revelan los dos primeros grandes sondeos realizados tras el 2 de noviembre, George W. Bush disfruta de un respaldo cómodo y el 82% del electorado ve legítima su victoria, aunque la mayoría quiere que el presidente lleve adelante un programa que respalden los dos partidos, y no sólo el suyo, aunque tenga la mayoría en ambas Cámaras.
¿Cómo contemplan los norteamericanos el futuro? En primer lugar, parten de la realidad de las urnas y confirman -siete de cada diez- que el país está más dividido sobre las grandes cuestiones que en los últimos años. Pero, en líneas generales, y según el sondeo de The New York Times y la CBS, un 56% ve con optimismo los próximos cuatro años. Lo mismo le ocurre al 58% en la encuesta de Gallup, en la que además el 55% cree que Bush está haciendo una buena labor, frente al 48% que pensaba eso hace un mes. Da la impresión de que Bush ganó porque, entre otras cosas, da más confianza y cae mejor que Kerry: a pesar de que los republicanos ganaron las elecciones -51% contra 48%- tiene mejor imagen -54% contra 49%- el partido demócrata que el republicano. Y a pesar de que horas después de su victoria Bush anunció que iba a emplear el mandato conseguido para aplicar su programa de recortes fiscales y privatización parcial de las pensiones, dos de de cada tres estadounidenses, según Gallup, preferirían que el presidente defendiera iniciativas "que los dos partidos apoyen".
En política exterior, los norteamericanos siguen preocupados por Irak, aunque el 51% sigue pensando que no fue un error la invasión. Según Gallup, el futuro del país se ve con aprensión: también el 51% cree que finalmente habrá elecciones en enero, pero el 49% tiene muchas dudas de que EE UU será capaz de que la democracia se afiance en Irak. Y a la pregunta de quién está ganando la guerra, el 46% dice que no lo sabe, y sólo el 44% responde que EE UU y los países que le apoyan.
Los valores morales es otro de los grandes capítulos explorados en estas radiografías poselectorales, y tienen un interés especial porque nada más celebrarse las elecciones se afirmó que habían sido la piedra de toque de la definición del electorado. Pero cuando la encuesta de The New York Times y la CBS afina, los resultados son distintos, y el asunto de los valores morales resulta ser el más importante para el 6%.
¿Qué preocupa de verdad a la gente, según esta encuesta? La economía y los puestos de trabajo (29%).
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http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=20041124&xref=20041124elpepiint_11&type=Tes&anchor=elpporint

terça-feira, novembro 23, 2004

para aprender : http://topicospoliticos.blogspot.com/



" O Peso das Identidades Terça-feira, 23 de Novembro de 2004
Se a religião é o refúgio para identidades que se excluem, como conseguir que as identidades se aceitem na diferença das suas crenças?
No gélido Dezembro de 1995, quando em Sarajevo circulava entre ruínas e procurava relatos do longo cerco, deparei com estranheza numas ambulâncias com um nome que pouco tinha a ver com as línguas eslavas dos Balcãs: "La Benevolencia". Curioso, descobri que pertenciam a uma associação de beneficência judia. A explicação para o nome surgiu então com naturalidade: os poucos judeus que restavam em Sarajevo tinham mantido, ao longo dos séculos, a sua língua de origem, parecida com a que se falava na Península Ibérica de que haviam sido expulsos há cinco séculos, o ladino. E quando Jacob Finci, o meu interlocutor, pronunciou algumas palavras reconheci nelas uma estranha mistura de português e castelhano antigos.
Lembrei-me deste episódio ao ler a entrevista de Amin Malouf na última "Pública". Lembrei-me quando ele defendia que a "guerra civil mundial" em que parece já termos entrado, este "choque de civilizações" que diz ter passado a vida a tentar evitar, se devia em boa parte às comunidades procurarem a sua identidade na religião, pois "não estão integradas na sociedade".
Para que a integração seja possível - para que não surjam antes as "identidades assassinas" a que este escritor de origem libanesa dedicou um dos seus livros -, sugere que se evite a segregação urbana das comunidades, que ao mesmo tempo que se exige ao imigrante que aprenda a língua do país que o acolhe, se ensine aos seus filhos a sua língua de origem. No fundo, que se permita que não se forme um sentido de comunidade que exclui as outras comunidades e os que chegam à Europa, por exemplo, possam encontrar formas de se diferenciarem e manterem a sua identidade cultural não só através da língua mas também das identidades culturais e mesmo assim consigam não ser olhados de lado.
O equilíbrio manter-se-á seguindo regras como as que Malouf propõe. A de que "o imigrante deve promover elementos da sua cultura mas, ao mesmo tempo, absorver elementos da cultura dos país onde escolheu viver", sendo que "uma sociedade secular não pode aceitar nenhum tipo de mistura entre religião e política". O que é que isto significa e como é que isto se faz? Talvez valha a pena olhar para dois modelos extremos e opostos, o francês e o americano.
Em França a recusa da "mistura" faz-se pela recusa da religião, obrigada não apenas a ficar à porta da política, mas à porta de todos os espaços públicos. A recente querela do véu e dos "símbolos religiosos ostensivos" é disso uma manifestação. É uma recusa de "mistura" herdada do ateísmo anti-religioso da revolução francesa.
Já nos Estados Unidos a recusa da "mistura" faz-se na aceitação de todas as religiões - até porque na América a liberdade começou por ser religiosa antes de ser política. Faz-se pela aceitação do pluralismo das diferentes crenças, algo que torna possível que o primeiro país a proclamar a separação entre as Igrejas e o Estado se defina a si próprio como "uma só nação sob Deus" - um Deus que é dos cristãos, dos judeus, dos muçulmanos, dos de qualquer outra crença.
Cabe então perguntar: se desejamos que as crenças religiosas coexistam sem se transformarem em símbolos de identidades agressivas, será mais valioso exclui-las, à francesa, ou aceitá-las em pé de igualdade, à americana? Passear pelas ruas das suas cidades talvez nos ajude a encontrar uma resposta... José Manuel Fernandes
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http://jornal.publico.pt/2004/11/23/EspacoPublico/OEDIT.html

quinta-feira, novembro 18, 2004

É facil dizer mal dos outros... (artigo da semana)

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TRIBUNA: EMILIO LAMO DE ESPINOSA¿Revolución conservadora en los Estados Unidos?
Emilio Lamo de Espinosa es director del Real Instituto Elcano.
EL PAÍS - Opinión - 18-11-2004







No discutiré si Bush es un solemne idiota, como piensa mucha gente. Puede que lo sea, y ciertamente no es mi presidente favorito, pero también pensábamos lo mismo de Reagan y hoy sabemos que estábamos equivocados, como muchos pensaron que Stalin, Castro o Jomeini eran unos salvadores, y también se equivocaron. Pero, ¿deduciremos ahora que también los americanos son unos solemnes idiotas por haberlo votado? Pues sí, eso es lo que acaba de anunciar, por ejemplo, el Daily Mirror, que hay 59 millones de idiotas en EE UU. Al parecer lo que ha ocurrido en Estados Unidos es que ha triunfado una revolución neoconservadora movilizada por los evangelistas y los cristianos renacidos que llevan al país camino del fascismo o casi. Antes teníamos a Bush contra el mundo; ahora encontramos el nuevo mito de las dos Américas, la liberal, laica, culta, urbana, proeuropea y demócrata, y la conservadora, ignorante, rural, fanáticamente religiosa y agresivamente antieuropea. Según algunos, una América moderna y otra posmoderna, o bien una que es de Marte y otra de Venus. Y, por supuesto, ambas Américas están polarizadas y enfrentadas como pueden estarlo Michael Moore y Rumsfeld. ¿Es esto así?
No lo parece. Para comenzar, ha votado algo menos del 60% de los electores, lo que no parece muy acorde con una situación de "guerra de culturas". Pero, sobre todo, Bush ha ganado por poco más de 100.000 votos del Estado de Ohio, es decir, por poco menos del 0,1% del total de sufragios emitidos. Y es evidente que si Kerry hubiera ganado en Ohio, lo que estuvo a punto de ocurrir, los medios de comunicación nos estarían bombardeando ahora con la noticia de que la revolución conservadora de Bush había sufrido un rotundo fracaso. Al parecer, un ridículo 0,1% de votos emitidos separa el "rotundo triunfo" del "brutal fracaso" de los neocon. Es cierto que Bush le ha sacado más de tres millones de votos populares a Kerry, pero eso es poco más de dos puntos de ventaja sobre electores, ¡y poco más de un punto y medio sobre el censo de 200 millones! De hecho, Bush es el presidente reelecto que lo ha hecho con menor margen desde la reelección de Wilson en 1916. En resumen, Bush ha ganado, sí, pero lo ha hecho por los pelos y los Estados Unidos están casi igual de divididos que hace cuatro años cuando perdió Gore en Florida. Es más, uno de los problemas a los que se enfrenta Bush es que, tras cuatro años de mandato, no ha conseguido convencer a casi nadie que no lo estuviera ya y gobierna sobre una sociedad dividida.
¿Cuánto de dividida? Bastante, pero no lo suficiente como para que hablemos de polarización y menos de confrontación, y si examinamos los datos de conducta electoral encontramos resultados sorprendentes para el nuevo estereotipo.
Así, se asegura que la línea divisoria ha sido el nuevo conservadurismo y los "valores morales", la "guerra de culturas". Cierto, esa cuestión era prioritaria para el 22% de los electores y, de ellos, el 80% ha votado a Bush. Pero conviene seguir leyendo la lista de temas prioritarios, pues el segundo, esta vez para el 20% de los electores (una diferencia, pues, de sólo dos puntos, dentro del margen de error), ha sido la economía y el empleo, y el 80% de ellos ha votado a Kerry. Así pues, cuál es el tema de fractura, ¿los valores morales o la economía? Evidentemente, los dos. Pero, cuidado, los dos para el 20% del electorado, que a su vez es algo menos del 60% del censo. Es decir, los valores morales (o la economía) son prioritarios para el 12% de los americanos, un porcentaje que llama poco la atención.
Es más, si examinamos los datos desagregados encontramos nuevas sorpresas que no se ajustan al estereotipo. Por supuesto, los liberales han votado a Kerry y los conservadores a Bush; nada nuevo en ello. Cierto también, los más pobres han votado a Kerry y los más ricos han votado a Bush; tampoco nada nuevo, aunque sí lo es que el 40% de los pobres votó por el conservador Bush, y el 40% de los ricos votó por el liberal Kerry. Pero lo que más sorprende es que ni la edad, ni la educación, ni la religiosidad, ni la región, ni siquiera el contraste campo-ciudad o la raza, han sido definitivos.
Veamos algunos datos. El 44% de los latinos o de los asiáticos ha votado por Bush, como también el 45% de los jóvenes, el 50% de los licenciados universitarios y el 46% de los nuevos votantes. Por regiones, Bush sacó el 49% de la "liberal" Costa Oeste y el 43% del noroeste, y Kerry, el 42% del "conservador" voto sureño. Y en las pequeñas ciudades, Kerry sacó un 48%, mientras que en las muy grandes, Bush obtuvo un 40%. Y si nos fijamos en la religión, el 40% de los que acuden a la iglesia semanalmente han votado por Kerry, no por Bush, así como el 53% de quienes acuden ocasionalmente. Kerry ha sacado el 47% del voto de los católicos, el 40% de los protestantes, el 74% de los judíos y el 70% de los restantes grupos religiosos. ¿Es ésta la América dividida en dos bloques enfrentados por las creencias religiosas y polarizada? No lo parece ciertamente, pues Bush y Kerry, ambos, han obtenido buenos resultados en prácticamente todas las categorías usuales.
¿Qué ha dividido entonces a la opinión pública dando la victoria a Bush? Lo que ha dividido a la opinión pública han sido, por supuesto, los temas centrales de la campaña: el terrorismo e Irak, temas prioritarios para el 19% y el 15% de los votantes, respectivamente. Así, el 44% de los americanos cree que la guerra de Irak va bien, y de ellos, el 90% ha votado por Bush. Y el restante 52% cree que la guerra va mal, y de ellos el 82% ha votado por Kerry. Aquí sí hay una línea de división rotunda. Como también la hay en la lucha contra el terrorismo. El 54% de los americanos cree que Estados Unidos está hoy más seguro frente al terrorismo que hace cuatro años, y de ellos, el 80% ha votado por Bush. El otro 41% cree que América está hoy menos segura frente al terrorismo, y de ellos el 85% ha votado por Kerry. Lo que ha determinado el resultado de estas elecciones es, pues, lo mismo que divide a Europa de Estados Unidos: Irak y la "guerra" contra el terrorismo. Sólo que allí la posición que es mayoritaria en Europa ha perdido. Pero, cuidado, ha perdido por los pelos.
¿Dos Américas? Sí, como ocurre siempre en toda elección, una que ha apoyado a Bush en Irak y la lucha contra el terrorismo y ha respaldado su política, y otra que no lo hace y ha apoyado a Kerry. Pero no dos Américas polarizadas, pues no lo están, y menos aún dos Américas enfrentadas. De modo que, ¿por qué ha perdido Kerry? La respuesta la da Andrei Cherny, consejero de Kerry: "Lo que querían saber (los ciudadanos) es cómo veía Kerry el mundo. Y nunca se lo dijimos". "Lo que no tenemos, y más necesitamos", continúa Cherny, "es lo que George W. Bush tan popularmente ridiculizó como 'el asunto de la visión', un punto de vista internacional cuyo argumento temático es hacia dónde se dirige EE UU y adónde queremos llevar el país". Kerry ha perdido porque los demócratas, ni durante la campaña ni antes, ofrecieron alternativa alguna creíble a la política de Bush.
No pretendo decir, por supuesto, que la religión carece de relevancia en EE UU. Lo contrario es, sin duda, lo cierto. Pero no es nada nuevo y, sobre todo, no debe magnificarse, pues el papel de la religión en la cultura cívica de los EE UU ha sido siempre algo peculiar. En el clásico y excelente libro La democracia en América, publicado en 1835, Alexis de Tocqueville señalaba ya que "los americanos combinan tan íntimamente en sus espíritus las nociones de cristianismo y libertad que es imposible para ellos concebir la una sin la otra". Y añadía: "En Francia he visto casi siempre cómo el espíritu de la religión y el de la libertad caminan por sendas opuestas. Pero en América he encontrado que están íntimamente unidos y reinan en común sobre el mismo país". Pues así como la Ilustración europea fue (y no pudo no ser) secularizadora y, con frecuencia, anticlerical, la Ilustración americana, incluidos los Padres Fundadores, fue profundamente religiosa. Que ciencia, libertad y religión se den la mano sorprende a los europeos, pero es un rasgo típico de la cultura americana y, en buena medida también, de la inglesa, hasta el punto de que no pocos investigadores, desde Max Weber a Robert K. Merton, vieron en el puritanismo los orígenes de la ciencia moderna e incluso de la democracia.
Y un comentario final. Puede que la democracia americana no esté en sus mejores horas, y desde Guantánamo a Abu Ghraib, pasando por la Patriot Act, los datos así lo demuestran. Pero nadie podrá poner en duda estas elecciones. La vitalidad del debate, la movilización, la intensidad y rigor de las discusiones, la alta participación en la jornada electoral, así como el que se haya desarrollado sin incidentes, así lo demuestra. Hace cuatro años, la democracia americana tropezó en los vericuetos de los condados de Florida. Fue una anécdota elevada por algunos a la categoría de síntoma. Pero doscientos años de elecciones ininterrumpidas, sin tentación cesarista o populista alguna, es un récord inigualable por cualquier otro país del mundo, incluidos todos los europeos. Puede que Estados Unidos sea un Imperio; yo así lo creo, aunque no me preocupe excesivamente; en todo caso, es (como señalaba Raymond Aron) una República Imperial capaz, como cualquier otro país, de cambiar de mayoría o de respaldar la existente. Y si deseamos analizar las amenazas a la democracia desde dentro, haríamos bien en fijarnos en ese 15% o 20% de franceses que votan fascista, los mismos que acaban de ganar las elecciones en la Alemania del Este, gobernaban en Austria, han ganado elecciones en Holanda, Dinamarca o Serbia, por no citar a la Italia de Berlusconi o la Rusia de Putin. Tenemos mucha tarea en casa.
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http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041118elpepiopi_8&type=Tes&anchor=elpepiopi

e continua....

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TRIBUNA: JOAN SUBIRATSLos valores del machismo
Joan Subirats es catedrático de Ciencia Política de la UAB.
EL PAÍS - Cataluña - 11-11-2004







En algunos comentarios de estos días sobre la campaña electoral norteamericana y el triunfo de George W. Bush se subraya la importancia de la estrategia de "liderazgo fuerte" como elemento diferenciador entre ganador y derrotado. Bush asumía el papel de hombre de la mayoría moral, con las convicciones firmes y tradicionales de todo "americano bien nacido", dispuesto a defender con fuerza y sin temblarle la mano la hegemonía de la nación escogida por Dios para propagar en el mundo la democracia american made. Y, en esa línea, los republicanos no dejaban de caracterizar a Kerry (como señalaba en The Guardian el que fuera asesor de Bill Clinton Sidney Blumenthal) como el partidario de un "internacionalismo afeminado, antipatriótico, con un carácter flojo y por demás elitista".
Lo que eufemísticamente se ha ido caracterizando como el peso decisivo de los "valores morales" en la campaña presidencial, no ha sido más que un uso descarado y manipulador de las bajas reacciones que aparecen cuando alguien se siente amenazado personalmente y ve en peligro todo aquello que le ha dado seguridad. Es entonces cuando el pánico social ante los interrogantes abiertos y el pánico sexual en relación con los derechos de las mujeres y los papeles de cada sexo se viste de patriotismo y de moralidad esencialista. No me extraña que Bush haya triunfado mayoritariamente entre los hombres y haya sido rechazado por una mayoría de mujeres. Su macho approach ha sido evidente y ha conectado perfectamente con lo que caracterizó asimismo el debate sobre el inicio de la guerra en Irak.
En los primeros meses de 2003 se popularizó la versión de Robert Kagan en la que asimilaba Marte con Estados Unidos y Europa con Venus. Unos, los norteamericanos, se preocuparían por los resultados, serían expeditivos. Los otros, los europeos, tratarían de no separar proceso de resultado. Los primeros tenderían a simplificar, los segundos a matizar. Los norteamericanos-poderosos-machos se enfrentarían así a los europeos-débiles-femeninos. Marte y Venus. Unilateralismo y multilateralismo. El inicio de las hostilidades y el aparentemente rápido desenlace inicial parecía dar la razón a la opción de la virilidad estadounidense. Transcurridos más de 18 meses, después de vergonzosas torturas (¿viriles?) y de muertos sin fin, la cosa debería matizarse notablemente. Pero ese mensaje tuvo su funcionalidad, y entroncó bien con la historia de un país (y sobre todo la historia aún reciente de los Estados que encuadran el Bush Country) acostumbrado a manejar armas y procedimientos expeditivos y viriles de resolver disputas.
Lo peor es ese intento de hacer pasar por "defensa de la familia" lo que no es más que un compendio de lugares comunes y de confusiones entre religión y buenas costumbres. Parece negarse la posibilidad de que una familia decente en Estados Unidos no se preocupe por tener unos servicios públicos correctos, unas políticas sociales que respondan con eficacia a los problemas de los niños, de los enfermos o de la gente mayor. ¿Una familia norteamericana y decente no ha de preocuparse de contar con escuelas públicas de calidad? ¿O no debe preocuparse esa misma y decente familia por disponer de derechos que le permitan defender sus condiciones de trabajo? O, rizando el rizo, ¿no debería estar orgullosa esa patriótica familia de ver como la solidez y vitalidad de esa milenaria institución atrae incluso a los mismos homosexuales, que se empeñan en ingresar en el club?
Detrás del liderazgo fuerte y viril, detrás del orgulloso patriotismo se esconde un mensaje peligroso y mixtificador. ¿Cómo podemos seguir confundiendo valores con el sembrar la intolerancia, confundir la Iglesia con el Estado, reemplazar la ciencia por la religión, y trastocar toda suerte de hechos y datos usando a la fe como gran parapeto? Poco a poco se van asimilando valores a paranoias, a tinieblas y a un reaccionarismo de lo más primitivo. Hace años que sabemos que en Estados Unidos existe una alma aislacionista, chovinista, puritana y de religiosidad fanática. Pero sabemos también que en ese mismo país han existido y existen dirigentes politicos y gentes de todo pelaje capaces de controlar estos resabios y practicar el respeto a la diversidad cultural y sexual, y a la autonomía individual y colectiva.
En la caravana de los valores familiares de Bush se ha metido toda suerte de monstruos. Desde su propia familia con valores bien asentados y conocidos que huelen a petróleo a gran distancia, hasta gobernadores recién elegidos que han planteado en su campaña condenar a pena de muerte a cualquiera que colabore en un aborto. Incluyendo asimismo a ese grupo de fanáticos evangelistas que pretende acabar con todo lo que define como patologías, es decir pobres, enfermos o de conducta sexual atípica.
Uno de los líderes de la extrema derecha norteamericana, Grover Norquist, bien conocido por sus campañas antiimpuestos, anunciaba: "América es un país de mayoría republicana: ámalo o déjalo". Pero lo cierto es que esa mayoría es cada vez más teocrática y machista que republicana. Y ante esa evidente realidad no me sirven de mucho consuelo las bromas que Michael Moore hace circular estos días en Internet aludiendo a que finalmente nos hemos librado de Bush ya que no podrá volver a presentarse y que ahora sólo le quedan cuatro años más de declive. Los demócratas se han fortalecido en votos y en capacidad de movilización, pero no han sido capaces de contrarrestar ese discurso populista y securizador. Los halcones republicanos han aprovechado bien el persistente nacional-patriotismo y los miedos e inseguridades de una parte de su población, y han superado a las palomas demócratas, llenas de matices y multilateralismo. Visto lo visto, y en una perspectiva de futuro que vaya más allá de la defensa numantina de la seguridad de los privilegiados, ni los palomas demócratas, ni nosotros mismos, deberíamos caer en la trampa de rehacer nuestra virilidad para poder triunfar. No renunciemos ni a nuestros valores ni a nuestra femineidad."


http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041111elpcat_6&type=Tes&anchor=elpepiautcat



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MARUJA TORRESValores
EL PAÍS - Última - 11-11-2004







Ardía Faluya bajo bombas de fósforo (equivalente al napalm que se arrojó en Vietnam: otra similitud, pero deliberada), en la pantalla de mi televisor, y yo me preguntaba, una vez más, cómo se las arreglan en las redacciones de las emisoras para vestir con palabras las imágenes empotradas que les van llegando sin apenas información, o al menos sin información fiable.
Porque éste es otro de los Valores Morales recién consagrados en las últimas elecciones celebradas en la sede del Imperio: el control del periodismo. Embridados los reporteros, queda el análisis, la lucubración, el juntar dos y dos y ver que suman cinco e intentar averiguar por qué y, honestamente, contarlo.
Tiempos encanallados éstos en que la técnica más sofisticada se pone al servicio de la ocultación. Sin embargo: ni siquiera la más refinada castración del objetivo pudo impedir mandarnos una imagen repugnante, en ausencia de aquellas que debieron mostrarnos a los muertos y los heridos y los hospitales machacados. Me refiero al grupo de orondos oficiales estadounidenses que presenciaban el desfile de blindados hacia la nueva ciudad martirizada. Se les veía excitados, como niños chicos que ven pasar la comitiva de Santa Claus. El obsceno espectáculo de los generales animando a sus tropas, camino del fracaso más grande de la civilización: guerra y muerte.
Pero no todo está perdido, amigos míos, o eso pensé cuando, en la televisión autonómica catalana, en el espacio La nit al dia, de la inteligente periodista Mònica Terribas, compareció como invitado Joan Roura, especialista en Oriente Medio de la casa y uno de mis reporteros de cabecera. Con talento, ambos se adentraron, primero, en el caso Arafat (otro punto periodístico oscuro) y sus consecuencias y, a continuación, en el laberinto iraquí. Bueno, fue un ejemplo de cómo la confesa y frustrante falta de material informativo puede ser, no ya sustituida, sino expuesta, analizada, juzgada y clarificada por opiniones de peso que portan el aval del conocimiento y la experiencia.
Así pues, nos hemos quedado atando cabos desde el tresillo de la sala. Habiendo tanto buen reporterismo al que se impide acercarse al lugar de los hechos.
Valores Morales. Puaf.
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http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041111elpepiult_2&type=Tes&anchor=elpepiult


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JOSEP RAMONEDAQuince años después
EL PAÍS - España - 11-11-2004







El día en que las tropas americanas iniciaban el asalto a Faluya coincidió con el 15 aniversario de la caída del muro de Berlín. Una casualidad derivada del calendario electoral: el destino de Faluya dependía de que los electores americanos dieran con su voto a Bush la orden de atacar. La coincidencia da para la melancolía. El 9 de noviembre de 1989 es una de aquellas jornadas propicias para creer que los ciudadanos de buena voluntad pueden llegar a triunfar sobre el despotismo, la insolencia y el abuso de poder. Tal fue la ilusión que algunos decretaron el fin de la historia. Pero la historia es terca y 15 años después asistimos en Faluya a la primera gran celebración bélica del triunfo de la revolución conservadora. Los ciudadanos esperanzados de ayer parecen completamente aturdidos hoy. En nombre de la lucha antiterrorista, se invita a los habitantes de una ciudad de 300.000 habitantes a abandonarla, sin cobertura ni asistencia alguna; se advierte de que los que se queden en sus casas serán considerados terroristas; se lanza un verdadero diluvio de fuego sobre la ciudad; y 12.000 soldados proceden a una operación de limpieza -vuelve la palabra mágica de los momentos del terror-, cuando, sin duda, los terroristas más peligrosos están actuando ya en otras partes. Se arrasa una ciudad para hacer posibles unas elecciones. Y Europa traga esta nueva manifestación de desprecio por el material humano -algo en que Bush y Putin parecen hermanos- en silencio y resignación porque los ciudadanos de Estados Unidos han hablado y nuestros gobernantes tienen miedo a significarse demasiado.
Sin embargo, los más devotos tienen prisa. Buttiglione, el comisario frustrado, que sigue paseando insolente su desprecio a las mujeres y a los homosexuales, está preparando un partido para dotar a Italia de una versión "teo-con" del neoconservadurismo en boga. Y Aznar se ofrece inmediatamente como correa de transmisión de la revolución conservadora a los partidos de la derecha europea. Los obispos españoles tienen menos suerte: el intento de aprovechar políticamente la oleada de religiosidad que viene de América ha producido, como ocurre a menudo cuando la religión se hace política, la división entre los suyos. España es compleja y cada obispo busca pasto donde puede para su rebaño, que hoy en día va escaso.
Algún día Estados Unidos fue modelo de sociedad abierta. Ahora triunfa la sociedad cerrada: la que cree que el orden jerárquico de las cosas viene establecido por Dios, que la fuerza es la mejor expresión de la voluntad divina, que hay un orden inmutable de las cosas basado en cierta idea de la familia, que Estados Unidos es el pueblo elegido para imponerlo, y que cualquier idea de responsabilidad compartida es de débiles. Hace 15 años triunfó el poder de la gente contra el abuso de poder, hoy triunfa la aceptación ciega del abuso de poder.
Alguien tiene que defender la sociedad abierta que Estados Unidos está abandonando. Y un cúmulo de circunstancias más o menos fortuitas hacen que se mire al presidente Rodríguez Zapatero. Su política de abierta discrepancia con la estrategia antiterrorista de Estados Unidos le marcó de partida. La secuencia de medidas destinadas a ampliar los derechos civiles y, por tanto, el reconocimiento de las distintas opciones personales, propio de la sociedad abierta, han completado el retrato. Y el mantenimiento de su política económica dentro de las coordenadas de la ortodoxia liberal ha impedido que algunos le acusaran de abrir por un lado y cerrar por el otro. Zapatero ha tenido la suerte de que Bush le ha demonizado en vez de ignorarle, que es lo que parecía razonable dado el limitado peso geopolítico de España. Lo cual, sumado a la irritación que provoca entre conservadores y clericales europeos, es una buena contribución a la construcción del personaje. Pero lo más importante, y a la vez complicado para Zapatero, es que, por fin, la izquierda vuelve a tener una agenda de movilización: contra la revolución conservadora. Hay quien dice que la victoria de Bush es el triunfo del político de principios; son los mismos que piden a Europa que renuncie a sus principios para someterse a Bush. Zapatero tiene la oportunidad de encontrar y liderar una mayoría social para defenderlos.
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http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041111elpepinac_9&type=Tes&anchor=elpepiesp


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TRIBUNA: SAMI NAÏRLa victoria de Bush
Sami Naïr es catedrático de Ciencias Políticas de la Universidad de París VIII, y profesor invitado de la Universidad Carlos III.
EL PAÍS - Opinión - 09-11-2004







¿Después de la victoria de Bush, qué va a ocurrir? Hay quienes dicen que Bush va a "suavizar" su estrategia, sobre todo en el ámbito de la política internacional; lo que podría significar una apertura hacia la cooperación, aunque sólo fuera porque, fortalecido por su victoria electoral, podría dirigirse al mundo y, magnánimo, dejar a los dirigentes hostiles a su política de caos la responsabilidad de despreciar la soberanía popular en EE UU. Una vez reelegido, encontrará de todos modos oídos más atentos fuera de EE UU, aunque sólo fuese porque a muchos les parece peligroso dejarle actuar solo.
¿Qué puede ofrecer George W. Bush al mundo para realmente generar una adhesión mínima a su política? Crear las condiciones de una asociación internacional más amplia sobre Irak, negociar una salida de este país con el apoyo de la comunidad internacional, abrir un verdadero diálogo con Teherán y Corea del Norte, reactivar la Hoja de Ruta en Oriente Medio, dialogar sobre todos los temas en vez de imponer unilateralmente su visión.
Pero este hipotético giro no resistiría más que algunos meses al peso de la realidad: el Ejército de EE UU está comprometido en una derrota y la resistencia del pueblo iraquí pertubará estas ilusiones. De hecho, Bush será probablemente obligado aumentar el contingente americano, multiplicando así las destrucciones, los muertos y el odio del pueblo iraquí. De todos modos, es evidente que tal medida provocaría una reacción brutal de los iraquíes, aun los más moderados y favorables a una solución pacífica: sería una vietnamización del conflicto que podría durar por lo menos cuatro años más, y que Bush podría dejar como herencia a un nuevo presidente de EE UU.
Más vale no imaginar lo que sería Irak en este caso, o quién saldrá vencedor de esta batalla, incluso en el seno mismo de la resistencia. Pero si se recuerda que ni el vecino Irán, ni Arabia Saudí, ni tampoco Al Qaeda, quieren ver llegar al poder a los nacionalistas laicos, a los demócratas moderados, todo hace pensar que los islamistas acabarán por tomar este país. La ayatollazación de Irak no debe ser excluida, no más que una partición del país. Sea lo que sea, las decisiones de política exterior tomadas por Bush durante su primer mandato le impedirán probablemente ir más lejos en este eventual cambio de rumbo. Ha caído en la trampa de Irak.
En cualquier caso, lo sabremos muy rápidamente: si unos guerreros como Condoleezza Rice -quien encarna hasta la caricatura la excitación de los halcones estadounidenses- o Paul Wolfovitz -representante de la alianza entre la Administración Bush y el Likud israelí- son colocados en responsabilidades gubernamentales claves, las cosas serán muy claras. Bush ha hecho una campaña que prepara esta reorientación: ha navegado sobre la ideología de la seguridad, sobre el fundamentalismo identitario, sobre una visión apocalíptica del resto del mundo. La estrategia internacional de Bush puede resumirse en una fórmula: es una mezcla de mesianismo armado y de paranoia nacionalista.
En política interior, hay que esperar la reducción de los escasos restos de política social existentes, el refuerzo de una política que favorecerá a los privilegiados, la exacerbación del conservatismo moral y religioso (la Iglesia, que apoyó a Bush, tiene una revancha que cobrarse contra los sectores modernos de la sociedad en cuestiones como los matrimonios entre homosexuales).
Podemos subrayar algunos elementos importantes de la reciente votación en EE UU: en primer lugar, la conjunción del voto popular y el de las capas medias, no para favorecer el cambio, sino en una situación de repliegue social, cultural y político. Repliegue social relacionado con los efectos de la mundialización liberal, que desestabilizan fuertemente el estatus de estas capas intermedias, tanto en EE UU como en todo el mundo: precarización y flexibilidad del trabajo, incertidumbre sobre el futuro, descenso de la eficacia de las políticas sociales. De allí, la vuelta de una forma de maltusianismo de los derechos sociales, que estas capas quisieran reservarse para ellas solas. En una sociedad tan cruelmente individualista como la sociedad estadounidense, eso lleva a la exacerbación de la competencia entre los beneficiarios de esas políticas. Es la fibra que Bush hizo vibrar, al abogar por la baja de los impuestos y alabar la sociedad competitiva, en favor de los "ganadores", y represiva con los "perdedores". Es la famosa idea de la "ownership society", es decir, de la privatización integral del vínculo social. Ahora bien, éste es el discurso al que Kerry no supo contestar: se contentó con proponer ideas vagas sobre la solidaridad sin de veras tomar en cuenta la necesidad de enfrentarse radicalmente al discurso ultraliberal sobre lo social.
En segundo lugar, el péndulo del tablero político estadounidense se ha volcado mucho en los últimos años hacia la derecha y la extrema derecha; los demócratas, en vez de oponerse a esta evolución, se han, en su gran mayoría, sometido a ella. De allí también su incapacidad para enfrentarse culturalmente a los conservadores. Pues el deterioro de las condiciones sociales se ha vuelto, paradójicamente, un tema que favorece más la derecha que la izquierda. Thomas Frank acaba de publicar un libro con éxito titulado What's the matter with Kanzas? Según él, los pobres cada vez más pobres votan a los republicanos porque éstos saben hablarles en un lenguaje popular de clase, basado en unos valores muy tradicionales, siempre tranquilizadores en épocas de desesperanza. Es un discurso que difundió Bush a lo largo de su campaña, por medio de espacios televisados muy ingeniosamente preparados por el publicitario Michael Gerson y Karl Rove (es él quien le salvó del alcoholismo al hacerle descubrir la voz del "verdadero" Dios, protestante y fundamentalista). La cuestión de la identitad se ha vuelta decisiva en América, y eso con el telón de fondo de un gran repliegue cultural.
Este repliegue traduce una evolución profunda de las mentalidades. Está relacionado con el aborrecimiento de la contracultura de los años sesenta y setenta, acusada de haber favorecido un hedonismo destructor de las relaciones familiares; un multiculturalismo considerado como responsable de quebrar la unidad ideológica angloamericana del país; un mestizaje con unas consecuencias étnicas supuestamente devastadoras, y por fin un cosmopolitismo que perjudica las bases de la potencia americana en el mundo. Bush supo, a través de una campaña electoral demagógica y populista, utilizar este miedo cultural en su beneficio.
El ex ministro de Trabajo de Clinton Robert Reich define justamente este peligro en The American Prospect: "La derecha fue capaz de tornar la rabia de la clase obrera en resentimientos mucho más culturales que económicos porque nadie supo explicar a la América profunda lo que está pasando hoy en día (...). La guerra de clase cultural gana cuando la cólera no tiene otro medio deexpresión. Los republicanos hablan con un lenguaje de clase desprovisto de economía. La tarea de las fuerzas progresistas es la de colocar de nuevo el debate en el ámbito económico".
Es Bush quien ganó. Pero la explicación ya no es solamente social o cultural, estriba también en una mudanza política significativa. Se encuentra en el efecto 11 de septiembre y en el debilitamiento impresionante de la conciencia política que tuvo como consecuencia. Los mecanismos de representación política son cada vez más pervertidos por estrategias publicitarias que disminuyen considerablemente el nivel del debate político; los ataques personales, las acusaciones moralizadoras, se han convertido en temas mayores del debate político. Bush no ha dejado de repetir, a lo largo de la campaña, las mismas fórmulas sencillas sobre los temas más complicados: "Kerry no es digno de confianza porque cambia de idea; la economía va bien e irá mejor si la gente acepta responsabilizarse; Kerry quiere un Estado que os roba, yo quiero que el Estado os deje en paz y que no tome lo que tenéis en los bolsillos, etcétera". Esta retórica surte efecto en un país en el que el individualismo es el corolario de la incultura política. El efecto de simplificación que resulta de toda situación de guerra, incluida la que se libra en contra del terrorismo, el discurso maniqueo que lo sustenta, hacen casi imposible toda deliberación demócratica basada en el intercambio de argumentos razonados. Es el reinado absoluto de la opinión arbitraria y de la ideología cegadora, envueltas en unos eslóganes publicitarios. Este mercado de las ideas políticas está permanentemente fabricando ignorancia. De ahí la utilización masiva, a escala industrial, de la tragedia del 11-S. Después de ese atentado, George W. Bush decidió hacer de ello el triunfo mayor de su reelección futura; lo enfocó todo en torno a este asunto, desde la destrucción del régimen de los talibanes en Afganistán hasta la invasión de Irak. Bush jugó con todos los factores para ganar. Los americanos hicieron la elección de prorrogar su Administración. Para los pueblos que experimentan el yugo de su política, un periodo cruel se prolonga. Queríamos una América sabia, respetuosa de los derechos de los pueblos y de la gente. Tendremos un poder guerrero.
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http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041109elpepiopi_7&type=Tes&anchor=elpepiopi



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Saramago: "Con Bush gana la mentira"
EFE - Madrid
EL PAÍS - Internacional - 04-11-2004







José Saramago. ampliar
Con el triunfo electoral de Bush "gana la mentira como arma de destrucción masiva", denunció ayer el escritor José Saramago al presentar el libro El Nerón del siglo XXI, Georges W.Bush, presidente, de James Hatfield, primera edición en castellano de esta detallada biografía que en 1999 sembró la ira en los círculos cercanos al presidente de EE UU. Su autor, un periodista y escritor de Arkansas que se quitó la vida en julio de 2001, a los 43 años, retrató con una minuciosa investigación el estrepitoso ascenso de un hombre "más afortunado que talentoso", pero su libro no llegó al votante de las presidenciales del 2000, pues fue retirado por su primer editor, St. Martins, un día después de enviarlo a las librerías. Saramago aludió al problema ético "de tremendas dimensiones" que plantea para la humanidad el que Bush haya "expulsado la verdad del mundo".
El Premio Nobel portugués expresó su perplejidad ante el "proceso autista" que vive el pueblo norteamericano, "que ha hecho triunfar la mentira al aprobar y apoyar la política de su presidente". Y se preguntó hasta dónde se puede llegar los próximos cuatro años, "una vez demostrado, como ha hecho Bush, que con la mentira se puede destruir masivamente. Basta recordar los cuatro años anteriores para saber que ésta es su arma principal, su único medio de persuasión y todo hace pensar que seguirá usándola".
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http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041104elpepiint_31&type=Tes&anchor=elpepiint

quarta-feira, novembro 17, 2004

Afinal nao sao eles os estúpidos, somos nós....

"Crónica de Jorge Leitão Ramos Somos todos americanos?

Eu sou daqueles que acham que o cinema é a grande arte americana do século XX. Por muita admiração que outros cineastas de outras latitudes me mereçam - de Bergman a Fellini, de Renoir a Buñuel - , não consigo esquecer que o nó essencial do cinema nasceu e prolifera entre Nova Iorque e Hollywood, desde os pais fundadores (Chaplin, Griffith, Stroheim) aos maiores expoentes da actualidade.
Isso não impede que ache bizarro que, ao consultar os resultados de bilheteira portugueses (totais acumulados entre Janeiro e Outubro de 2004) verifique que os 50 filmes mais vistos em Portugal sejam todos americanos. TODOS, disse bem... Acham normal?
Alguma coisa de profundamente distorcido domina os espectadores portugueses. Resultados destes não existem em nenhum país civilizado, salvo nos Estados Unidos, está bom de ver. E, neste momento, nem sequer se pode dizer que é por falta de alternativa. Estreiam em Portugal filmes de diversíssimas origens (Lisboa é mesmo uma das capitais do mundo onde se vê melhor cinema), alguns com razoável potencial de sucesso de público, dotados de meios de promoção aceitáveis e com cobertura mediática conveniente. Todavia, apesar disso, todos os 50 filmes mais vistos são americanos.
A culpa é de nós todos, está claro. E radica, antes do mais, numa ausência de cultura cinematográfica das camadas de população que mais frequentam as salas (jovens abaixo dos 30 anos, dizem todas as estatísticas), ausência que as impede de estar disponíveis para formas de expressão que não sejam formatadas segundo os padrões dominantes, ausência que faz achar estranhas, no ecrã, quaisquer outras línguas diferentes do inglês, ausência que as torna permeáveis a todas as formas massivas de publicidade. A culpa é de nós todos: do sistema de ensino, que não é capaz de pensar o cinema no interior dos conhecimentos e reflexões a ministrar às jovens gerações; dos «media», que não conseguem fazer passar uma mensagem em prol da diversidade; da sociedade em geral, cada vez menos preparada para o múltiplo, cada vez mais afunilada para o uno. Haverá forma de dar a volta a esta tristeza?
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http://online.expresso.clix.pt/1pagina/artigo.asp?id=24747926

Claro que a culpa é dos sistema de ensino e da sociedade. O sistema de ensino devia obrigar (à força?) os jovens a ir ao cinema 4 vezes por semana ao cinema. Até forneço já a minha contibuiçao:

1a semana de Janeiro: " O quarto do filho" - Nanni Moretti

2a semana : " O Discreto Charme da Burguesia" - Buñuel

3a semana : " Cinema Paraíso" - Giuseppe Tornatore

4a semana : " Gato preto, gato branco" - Emir Kusturica

Nota: A tristeza de que fala o autor, é a tristeza de quem nao sabe perder eleiçoes. Ponto. Quando nao se tem humildade na derrota, nao é preciso começar com exercícios de arrogancia e mau perder para justifica-la. Fico a pensar quantos destes artigos com um cariz anti-americano mal disfarçado nao existiriam caso o resultado das eleiçoes fosse outro....

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REPORTAJEDe los tubos de vacío a los nanotubos La electrónica, la tecnología que revolucionó el siglo XX, cumple cien años
Hace ahora justo un siglo, en noviembre de 1904, se patentó el diodo de vacío, un invento que abrió la puerta a la era de la electrónica. Después llegaron los transistores y los microprocesadores, con todas sus aplicaciones. Los expertos preparan ya la siguiente revolución en este campo, cuya breve e intensa historia repasa el físico Emilio Méndez.
EMILIO MÉNDEZ
EL PAÍS - 17-11-2004







Evolución de los dispositivos electrónicos: un tubo de vacío, un transistor primitivo y el modelo de la estructura de un nanotubo. (E. MÉNDEZ / BELL LABS / PHISIC TODAY) ampliar
El procesador de un ordenador personal actual tiene cerca de 50 millones de transistores
Esta tecnología está en una fase comparable a la del silicio a finales de los años cuarenta
El triodo fue decisivo para el desarrollo meteórico de la radio y del teléfono
Hace poco supe el nombre de una persona a quien debo muchos ratos felices de mi niñez, allá por los años cincuenta: John Ambrose Fleming, profesor del University College en Londres e inventor de la válvula termiónica o diodo de vacío, cuya patente cumplió ayer cien años.
Uno de mis primeros recuerdos es el de mi abuela haciendo punto con unos auriculares de telefonista antigua en los oídos. Los auriculares estaban conectados a un cacharro misterioso que llamaban radio de galena, hecho con una caja de puros y del que salían voces que acaparaban la atención de mi abuela y de las que sólo ella disfrutaba. Por eso, fue una ocasión de júbilo familiar el día que mis padres compraron una caja parlante mucho mayor, que además de no necesitar auriculares contaba historias diferentes sin más que girar una ruedecilla. A partir de ahí, yo visité a diario el mundo mágico de Diego Valor y de Supermán, y seguí las aventuras de Matilde, Perico y Periquín y los personajes de Pepe Iglesias el Zorro. Pasaba un minuto o dos desde que se enchufaba la caja hasta que salía la voz cuando salía, porque había veces en que se había "fundido una válvula" y entonces no se oía nada. He tenido muchas otras radios desde entonces, mejores y más ligeras, pero ninguna me ha sonado tan bien como aquella primera de tubos de vacío.
El diodo inventado por Fleming en 1904 era, en esencia, una bombilla que, además del filamento, tenía un segundo electrodo metálico que actuaba como lo hace una válvula al paso de un líquido: al aplicar a ese electrodo un voltaje positivo con respecto al filamento circulaba una corriente entre los dos, pero ésta cesaba si se invertía el sentido del voltaje. Con este efecto rectificador, el diodo podía captar las señales de radio, sustituyendo así a las inestables puntas metálicas en contacto con un cristal de galena.
Dos años después, el ingeniero estadounidense Lee de Forest añadió al diodo de Fleming un tercer electrodo en forma de rejilla, que, igual que un grifo regula el caudal de agua, era capaz de producir grandes cambios en la corriente con sólo aplicarle un pequeño voltaje. Había nacido el triodo, que además de rectificar, amplificaba señales eléctricas débiles, y que fue decisivo para el desarrollo meteórico de la radio y del teléfono. En 1915 se inauguró el servicio telefónico entre Nueva York y San Francisco (a un precio por minuto equivalente a ¡unos 150 euros de hoy!), y ese mismo año se transmitió la primera conversación entre Washington y París.
Los tubos de vacío dominaron los primeros 50 años de la electrónica, incluyendo la televisión y los ordenadores digitales, aunque ya a finales de los años treinta algunos visionarios intuían la necesidad de reemplazar esos tubos por dispositivos menos frágiles, más pequeños y de funcionamiento más rápido y duradero. La respuesta fue el transistor, inventado en 1947 en Bell Laboratories. Los primeros transistores, de un material semiconductor llamado germanio, eran difíciles de usar; su funcionamiento era errático y, a ocho dólares cada uno, eran diez veces más caros que los triodos a los que pretendían sustituir. Sin embargo, gracias a los cimientos científicos que se habían puesto, el progreso fue rápido: las primeras radios de transistores aparecieron en 1954, y en 1957 IBM introdujo el primer ordenador transistorizado.
Para entonces, los científicos habían descubierto las ventajas del silicio sobre el germanio, en especial su facilidad para formar un óxido resistente, que resultaría vital para integrar varios transistores en un sustrato único: la gran revolución electrónica estaba en marcha. Los microprocesadores de 1970 tenían alrededor de mil transistores, cada uno diez veces menor que el grueso de un cabello, mientras que el procesador de un ordenador personal actual tiene cerca de 50 millones de transistores y éstos son casi cien veces más pequeños que los de hace 30 años.
Si la miniaturización sigue a este ritmo, y no hay razón para pensar lo contrario, en poco más de diez años aparecerán barreras técnicas y limitaciones físicas infranqueables, pues cuando las dimensiones son unas decenas de nanómetros (un nanómetro es una mil millonésima de metro) los electrones se rigen por las esotéricas leyes de la mecánica cuántica y los transistores convencionales dejan de funcionar. Anticipando el problema, los científicos buscan posibles soluciones, por ejemplo el uso de moléculas orgánicas o de finísimos alambres de carbono llamados nanotubos, que pueden hacer las veces de transistores.
Los nanotubos fueron descubiertos fortuitamente en 1991 por Sumio Ijima, de la compañía japonesa NEC, mientras analizaba con un microscopio electrónico el hollín producido por una descarga eléctrica entre dos electrodos de carbón. Podemos visualizar un nanotubo como una película delgada de grafito larga y estrecha que se ha enrollado por sus extremos más próximos, como se liaban a mano los cigarrillos antiguamente, hasta formar un cilindro hueco de entre uno y tres nanómetros de diámetro. Pese a su parentesco químico con el grafito, los nanotubos tienen propiedades totalmente distintas: son muy tenaces y, sorprendentemente, se comportan como metales o como semiconductores dependiendo de cómo estén enrollados.
Desde 1998, en que aparecieron primitivos transistores que usaban nanotubos como canales para conducir la corriente, se ha avanzado deprisa, hasta el punto de haberse conseguido ya circuitos que hacen operaciones lógicas sencillas con un solo nanotubo. Por ahora, fabricar uno de esos circuitos es una tarea tediosa y de resultado incierto; de ahí a preparar circuitos más complejos, de funcionamiento fiable y en grandes cantidades queda mucho trecho. Esta tecnología está aún en una fase comparable a la del silicio a finales de los años cuarenta, aunque si usamos el silicio como guía tenemos razones para ser optimistas sobre su futuro.
Es probable que los nanotubos encuentren antes aplicación comercial en otra área de la electrónica: los monitores de televisión. Hasta ahora, el corazón de un monitor ha sido un enorme tubo de rayos catódicos, otro tipo de tubo de vacío de la época de Fleming, que aún perdura. Explotando la capacidad de los nanotubos para emitir electrones cuando se les aplica un voltaje, varias compañías, con la coreana Samsung a la cabeza, están desarrollando monitores en los que el tubo de rayos catódicos se ha reemplazado por millones de nanotubos, que crean las imágenes en la pantalla cuando los electrones chocan contra ella.
Un monitor de este tipo debería ser plano y ligero, y aventajaría en muchos aspectos a los más recientes del mercado: sus imágenes serían más brillantes y de mejor resolución que los de pantalla de cristal líquido y su consumo de energía menor que los de plasma. A pesar de que quedan por resolver problemas técnicos serios, Samsung confía en tener a la venta monitores con nanotubos en dos años. Sin embargo, a la larga, más aún que las ventajas técnicas, lo que decidirá su éxito o su fracaso será la capacidad para competir económicamente con otras alternativas.
No es fácil imaginarse a un hombre de mediana edad, dentro de 50 años recordando con nostalgia un mundo de transistores, pero, ¿quién sabe?, lo mismo podría haberse pensado en 1950 de un mundo con válvulas de vacío.
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Emilio Méndez es catedrático de la Universidad del Estado de Nueva York en Stony Brook
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http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041117elpepifut_1&type=Tes&anchor=elpfutpor


"O problema da Gronelandia"

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Pedro Nunes, Mercator e EscherNo século XVI, o cosmógrafo real Pedro Nunes descobriu a «linha de rumo» e explicou que a distância mínima a percorrer por um barco entre dois pontos da Terra não é uma linha recta, mas um arco. Escher representou esta ideia 300 anos depois
QUEM viaja de Lisboa para Nova Iorque costuma aproximar-se da costa norte-americana pelo menos uma hora antes da chegada ao destino. Nessa hora, observa a costa recortada do Estado do Massachusetts, a ilha Martha’s Vineyard e outros destinos turísticos. Sobrevoa depois Long Island e as suas praias, viajando de norte para sul em direcção à cidade de Nova Iorque. Olhando para o mapa, parece que o avião fez um grande desvio e que, em vez de voar a direito sobre o Atlântico, preferiu encontrar o Novo Mundo a norte, onde pela primeira vez os portugueses o abordaram, e descer depois para o seu destino.

Quem olhar para um globo, no entanto, repara que terá viajado pelo caminho mais curto, que corresponde a um arco de círculo máximo, isto é, um arco de um círculo que contém os pontos de partida e de chegada e que tem o centro no centro da Terra. Esticando um elástico sobre o globo e fazendo-o passar por Lisboa e por Nova Iorque, verifica-se que o caminho mais curto entre as duas cidades bordeja de facto a costa do Massachusetts. (…)
Tudo isto pode parecer simples e evidente, mas demorou muito tempo a que os navegadores o entendessem. O primeiro a percebê-lo em toda a sua extensão foi o nosso Pedro Nunes (1502-1579).
O cosmógrafo real deparou-se de facto, com o problema inverso, que é um problema mais difícil: será que, para se viajar entre dois pontos, é conveniente tomar sempre a mesma direcção? O problema foi-lhe sugerido por Martim Afonso de Sousa, fundador das primeiras colónias que Portugal teve no Brasil. Querendo vir do Rio da Prata para Lisboa, verificou que deslocar-se para leste não bastava e que precisava de se deslocar também para norte. Mais importante, não era fácil perceber qual era a direcção exacta em que deveria viajar.
O génio de Pedro Nunes consiste em ter distinguido claramente duas possíveis trajectórias para um barco no mar alto. Uma seria a trajectória de distância mínima entre dois pontos, correspondendo a um arco de círculo máximo - é a chamada ortodromia. Outra, seria a trajectória seguida por um barco que mantivesse sempre a mesma orientação em relação aos pontos cardeais - é a chamada linha de rumo, mais tarde conhecida como loxodromia.
Para seguir a trajectória mínima entre Lisboa e Nova Iorque, os aviões não seguem uma linha de rumo, mudam constantemente de orientação cardeal, para poderem seguir um arco de círculo máximo.
Ao descobrir a linha de rumo, Pedro Nunes provou também que um barco que, hipoteticamente, num planeta completamente coberto de água, seguisse sempre uma mesma direcção cardeal, acabaria por não regressar ao mesmo lugar, como na altura se pensava, mas seguiria uma espiral infinita, aproximando-se de um dos pólos, mas nunca o alcançando.
Os desenhos mais espectaculares de espirais loxodrómicas são, sem dúvida, os de Mauritus Cornelius Escher (1898-1972), o artista holandês de quem temos vindo a falar, a pretexto da comemoração do seu centenário. Em 1958, Escher criou alguns desenhos de esferas com espirais, ao que parece sem consciência do seu profundo significado histórico e geométrico. (…)Podemos imaginar um barco que decida seguir sempre um rumo a um ângulo de cerca de 60 graus com a direcção norte-sul. As espirais mostram o caminho seguido por tal barco. E mostram que o barco pode partir de sítios diferentes, que a sua trajectória convergirá. As faixas são mais largas perto do Equador e tornam-se mais estreitas perto dos pólos.
Além de mostrar aos navegadores o caminho que se segue quando se toma um rumo cardeal constante, as loxodrómicas de Pedro Nunes tiveram um efeito decisivo na nossa visão do mundo, pois determinaram a maneira como os mapas começaram a ser feitos e criaram a visão que hoje temos dos continentes. O nosso matemático teve a intuição de que os antigos mapas portulanos tinham de ser refeitos, mas foi Gerardus Mercator (1512-1594) quem haveria de originar uma revolução em cartografia, com base na descoberta de Pedro Nunes.
O grande problema da construção de mapas planos é o aparecimento de deformações inevitáveis. Tal como ao calcar uma casca de laranja sobre uma mesa, esta se fractura e deforma, assim os fazedores de mapas têm de deformar a geometria do globo para poder reproduzir no plano uma superfície esférica. As deformações não são graves quando se trata de áreas reduzidas. Mas o mundo tinha-se tornado maior com as viagens dos Descobrimentos e começavam a fazer-se mapas de continentes e oceanos, que eram necessários para as navegações.
Mercator, que conhecia os resultados de Pedro Nunes, resolveu construir um mapa que servisse directamente os navegadores. Como primeiro princípio decidiu que o mapa teria uma rede, em que as linhas de igual latitude seriam todas paralelas ao Equador e perpendiculares aos meridianos, e em que os meridianos seriam todos paralelos entre si. Como segundo princípio, Mercator decidiu que as linhas de rumo apareceriam como rectas, para o que aumentou progressivamente as distâncias entre os paralelos à medida que a latitude se aproxima dos pólos. Assim nasceu a chamada projecção de Mercator, ainda hoje a mais conhecida e mais utilizada.
No seu mapa, a Gronelândia parece enorme, maior que a América do Sul, quando, afinal, esta tem uma área nove vezes maior. E o mapa engana também os viajantes modernos, que ainda hoje se espantam com os caminhos que os aviões seguem.
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http://www.prof2000.pt/users/esam/EN6/Suplemento/supl_pagina2.htm

Ainda o exagero....

Como dar a volta ao mundo quando se tem mau perder.....:

"Aunque parezca mentira, hay documentales que no ha hecho Michael Moore. Sin ir más lejos, ayer la cadena HBO estrenó una de esas historias que provocan escalofríos, la vida de Aileen Wuornos, asesina en serie que fue condenada a la inyección letal en 2002. La vida de Aileen no es desconocida, sabíamos de ella por la película Monster, que le valió a Charlize Theron un Oscar por la interpretación que hizo de la asesina, pero como bien decía el crítico del documental: aunque hay que celebrar la recreación naturalista que la actriz hizo de la asesina, ni el mejor actor puede imitar las huellas reales de la desgracia. La infancia de Aileen es casi tan monstruosa como lo fueron luego sus crímenes: abandonada por su madre nada más nacer, violada de niña por su abuelo y por un hermano que la entregaba a los demás chavales para sacarse un dinero, embarazada en la primera adolescencia por un pederasta del pueblo, y expulsada de la casa familiar después de tener al bebé entregado en adopción. Aileen vivió durante dos años desamparada en un bosque, refugiándose de la nieve en coches abandonados y malviviendo gracias a la prostitución. No hay nada tierno en la vida de Aileen, nada que pudiera facilitarle una redención. A pesar de que uno quiere creer que la crueldad nunca está justificada, todo en la vida de esta mujer explica su falta de piedad hacia los hombres. El primer hombre al que mató fue un cliente que la violó brutalmente, pero las muertes de los otros seis no podían considerarse en defensa propia, como ella alegó una y otra vez. Pero, qué es la defensa propia: ¿la respuesta inmediata a una agresión o puede ser, y aún con más motivo, la consecuencia de la pesadilla a la que somete la vida a una criatura desde el momento mismo de su nacimiento? Charlize Theron pudo emocionarnos, pero el rostro real de Aileen Wuornos, sus ojos trastornados, nos dejan literalmente insomnes, nos dan miedo, porque presentimos una América que está ahí mismo, la América de la que Dios no se acuerda, que crecerá sin duda en los próximos años. Aileen fue incinerada, según su deseo, con la Biblia. Su ejecución tuvo lugar días antes de las elecciones a gobernador en Florida. Eso se tradujo en votos a favor de Jeb Bush, hermano del presidente, que fue reelegido."

http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=&xref=20041117elpepiult_2&type=Tes&anchor=elpepiult

terça-feira, novembro 16, 2004

Uma no cravo....(artigo da semana passada)

"Guterres. Outra Vez? Por ANTÓNIO BARRETODomingo, 14 de Novembro de 2004
Congresso da Democracia, organizado em Lisboa pela Associação 25 de Abril, serviu de palco adequado para o regresso de António Guterres à política nacional. Atentamente observado por um sorridente José Sócrates, colocou-se aquele acima das querelas do dia e tentou a pose de Estado e de reserva. Usou da contenção necessária para evitar qualquer precipitação, mas deixou os recados suficientes. Mencionou a urgência da criação de um "projecto nacional" e garantiu que sabia existir uma "alternativa mobilizadora para reconciliar os cidadãos com a vida política democrática". Ele sabia que toda a gente só pensava numa coisa: o seu regresso significava que estava dado o primeiro passo para uma eventual candidatura à presidência da República. Ninguém ficou a saber qual era a sua decisão, mas esse era exactamente o objectivo do exercício. Daqui para a frente, vão suceder-se os silêncios entremeados de frases e aparições, ao mesmo tempo que grupos de "notáveis" começam a organizar-se espontaneamente e a elaborar cartas e abaixo-assinados. Surgirão, aqui e ali, pequenas e médias vagas, à espera da outra, a de fundo. Especialistas de comércio e publicidade preparam o seu calendário e as agendas deles. Do Brasil, de Espanha e alhures virão técnicos de campanhas eleitorais. Toda a gente, a começar pelo próprio, observa as sondagens, analisa as probabilidades, estuda os rivais potenciais e persegue Cavaco Silva, não se esquecendo de olhar de lado, por cima do ombro, para Soares, Ferro e Alegre. Criar-se-ão oportunidades para Guterres se mostrar ubiquamente com crianças e idosos, católicos e laicos, a boa gente do interior e os empreendedores de sucesso. Não faltarão as referências internacionais a Zapatero, Lula e Arafat. Mostrar-se-á à vontade com computadores e laboratórios sofisticados, tanto quanto com vinho do produtor e barrigas de freira. Despreocupado, será visto com cineastas e actores. Interessado, passará por acaso em livrarias. Comovido, não faltará a eventos de solidariedade social. Os excluídos terão posição alta nas suas prioridades. Talvez já haja mesmo quem prepare uma biografia, de preferência sob a forma de entrevista, mais fácil e menos comprometedora. Nunca as televisões deixarão de ser informadas dos seus passos. Muito tempo passará antes que se saiba se é ou não candidato e tudo leva a crer que nem o próprio, apesar de o desejar, saiba já qual é o sentido da sua escolha. Mas o circo está montado.
NÃO DEIXA DE SER CURIOSO QUE, NA
sua contribuição para o dito congresso, tenha escolhido o tema da imagem, da política espectáculo e das televisões. Denunciou a transformação da política em "reality show", ele que é sem dúvida um dos grandes oficiais da arte. Vituperou contra a crescente "promiscuidade entre a política e os media", ele que é responsável pela estatização de um dos maiores grupos de imprensa, comunicações e "media", dado que foi com o seu governo que a PT comprou a Lusomundo, alargando e consolidando a presença do Estado no sector. Alertou para as relações cúmplices entre os políticos, os magistrados e os "media", ele que tão bem soube juntar esses ingredientes e acrescentar-lhes os interesses dos grupos económicos.
É VERDADE QUE NÃO FOI O ÚNICO. OS PUblicitários de Freitas do Amaral (nas presidenciais de 1986), de Cavaco Silva (que pouco parecia precisar deles, mas que os usava), de Durão Barroso (insignificantes) e de Santana Lopes (pletóricos) deram também o seu contributo. Tanto para a propaganda e a encenação, como para a famosa promiscuidade. E os socialistas, por sua vez, não renunciaram a tais práticas. Soares, por exemplo, tratava minuciosamente das suas influências na imprensa. Umas vezes com doçura, outras à bruta. Mas era um artesão. Acreditava nos seus talentos e no seu encanto. Ora, com Guterres, no partido ou no governo, o estilo foi completamente diferente. É ele o responsável pela profissionalização da imagem, pela organização meticulosa da sua aparição na televisão, pela sistematização dos seus contactos com os jornalistas e pela generalização de organismos de propaganda disfarçados de gabinetes de imprensa e de relações públicas. Foi ele que, mais do que ninguém no Partido Socialista e na esquerda, recorreu a serviços de empresas privadas especializadas na venda de imagem e na construção de personalidades. Verdadeiro profissional, deve-se-lhe um dos maiores contributos para aquilo que agora, com beata inocência, denuncia.
EMBORA INESQUECÍVEIS (SE É QUE EM política há alguma coisa inesquecível...), estes factos e estas circunstâncias são menores. Não é por essa via que deve ser feita a principal avaliação do antigo Primeiro Ministro e eventual futuro candidato. Nem sequer talvez pela sua folha de serviços no governo, onde abriu as portas ao recrutamento de massas de funcionários (o que, aliás, não é um mau trunfo eleitoral), gastou o que tinha e não tinha, negociou tudo com toda a gente, cedeu quanto pôde e não pôde, adiou reformas, deixou agravar a crise financeira e alimentou a demagogia. Dado que a Presidência da Republica, em Portugal, é o que é, não serão esses os principais argumentos. O cargo não exige experiência política de governo.
HÁ, TODAVIA, UM FACTO QUE MERECE toda a atenção. Numa noite de há quase três anos, assistimos a um gesto inédito na Europa e talvez no mundo. Em directo, diante das televisões, o Primeiro Ministro Guterres fazia a sua declaração política relativa às eleições autárquicas que acabavam de se realizar e nas quais o Partido Socialista tinha registado algumas derrotas significativas. Para estupefacção de toda a gente, a começar pela dos socialistas, anunciou a sua demissão. Apenas tinha cumprido metade da legislatura que, aliás, se anunciava difícil. Nunca explicou de modo satisfatório a sua decisão. Deixou o partido e o governo em estado catatónico. Entregou à direita e aos seus adversários o governo e as eleições legislativas que se seguiram. Abandonou funções num momento em que começava um período de dificuldades para os portugueses. Não teve força para resistir, nem carácter para lutar. Numa palavra: fugiu. Esse, o facto relevante do seu currículo. Essa, a medida da sua candidatura.
"

http://jornal.publico.pt/publico/2004/11/14/EspacoPublico/ORET.html

"Face à Intolerância Por AUGUSTO M. SEABRADomingo, 14 de Novembro de 2004
Quando as ondas da questão Buttiglione se fazem ainda sentir e as eleições americanas validaram a estratégia de apelo à chamada "direita evangélica", o assassinato do realizador holandês Theo van Gogh por um fundamentalista islâmico é um dos mais graves atentados cometidos na Europa e está a suscitar reacções que ameaçam questionar a convivência democrática.
Por diversas vias, e com diferentes níveis de gravidade, ressurgem no espaço público das sociedades democráticas fantasmas de "questões religiosas". Ao choque também pessoal que para mim constituiu o assassinato de Theo van Gogh sucedeu uma incredulidade preocupada com os níveis do debate verificados na blogosfera ou na imprensa de ontem.
2. Durante meses as eleições americanas foram sendo por cá analisadas em comentários e desenhos geo-estratégicos. Junto de algumas pessoas que estimo, e que foram também comentando, tive a oportunidade de chamar a atenção que me parecia estarem a desconsiderar a questão interna das nefastas "guerras culturais", referindo-lhes nomeadamente "The Right Nation" de John Micklewaith e Adrian Woolbridge - a esse livro, agora já muito citado, podendo acrescentar "What's the Matter with Kansas? : How Conservatives won the heart of Heart of America" de Thomas Frank e, na perspectiva conservadora, "Who are we?: America's Great Debate" de Samuel Huntington, o autor do "Choque de Civilizações".
Na expressão da vitória de Bush pesou também a mobilização dos cristãos evangélicos, suscitada pela questão dos "casamentos gays". Sobre essa questão cabe-me reafirmar que, caso tivesse passado a proposta de banimento a nível federal, teria sido a primeira emenda restritiva da Constituição americana. Acrescento dois pontos: 1) um dos seus opositores foi o senador John McCain que a considerou basicamente "anti-republicana", porque visando uma matéria que na tradição do partido cabe aos Estados definir, e não a nível federal; 2) a comparação do voto entre o Ohio e a Pennsylvania, Estados social e demograficamente semelhantes, elucida que a decisiva vitória de Bush no primeiro se articula com o facto daquele ter sido um dos 11 Estados em que a mobilização conservadora consagrou em referendo a proibição dos "casamentos gay". Como se pode ainda pensar que esta é uma questão que diz apenas respeito a "outros", homossexuais e americanos, quando se torna patente que uma questão de direitos foi instrumentalizada para fins políticos de consequências mundiais, apelando a sentimentos religiosos fundamentalistas?
3. O assassinato de van Gogh é um acto de uma gravidade política equiparável ao 11 de Março madrileno. Com o homem, foi atingido o mais fulcral dos princípios democráticos fundadores, a liberdade de expressão. Não por acaso o alvo foi um autor, um cineasta. Não houve decreto religioso mas seria perigosamente ingénuo subestimar a mão assassina do fundamentalismo islâmico. Em nome da convivência democrática, é imperioso identificar politica e judicialmente os que fazem esse uso assassino da religião, até para salvaguardar que o opróbrio não recaia em toda uma comunidade. Conhecia Theo van Gogh o suficiente para saber que ele se atribuíra o estatuto de "provocador" Mesmo que pudesse discutir esse método "provocatório", ele corresponde a uma das funções tradicionais do "intelectual". Perante isto há quem ache que a coisa seria de "outros".
Daniel Oliveira, dirigente do Bloco de Esquerda, entendeu sentenciar no Barnabé, um dos mais visitados "blogs", que assassinado e assassino eram ambos "fanáticos" e que Van Gogh seria mesmo "anti-semita". Mas a que título?! É outra vez a cegueira perante a negatividade do terrorismo e do fundamentalismo islâmico. Como se enfrentá-lo fosse uma causa da "direita" a que a "esquerda" de Oliveira teria de ser reactiva! Onde nos levaria esta espiral?
O raciocínio é inaceitável em termos de princípio, colocando no mesmo plano o assassinado e o assassino, a livre expressão e a intolerância, e contribui para a "monopolização" da resposta política por ideologias securitárias e reactivas ao "multiculturalismo", termo de que se faz uso e abuso, que à lógica identitária das diferentes comunidades atomizadas contrapõe outra, de um "Nós" exclusivo.
Eu lido com práticas e objectos culturais. Não desconheço como da expressão institucional de certas práticas se pode deduzir também um programa, usualmente referido como "politicamente correcto". Esse é um critério que não me interessa. Importa-me sim a manifestação da diferença, de cada objecto estético singular ou de uma cultura, importam-me fundamentalmente o cosmopolitismo e a conflitualidade democrática, a tolerância mas também a determinação em combater os fanatismos inimigos das liberdades, dos direitos e das diferenças.
As sociedades democráticas constituíram-se no respeito do indivíduo e as lógicas comunitárias constituem um imenso desafio; damo-nos conta também do ressurgimento de fanatismos religiosos. Seria trágico, em nome da defesa da liberdade, sacrificarmos a ética da tolerância, a abertura cosmopolita e a convivência cultural. E dizendo isto, continuo a reconhecer-me como "europeu" e "ocidental" - mas num mundo não restringido à cultura em que me formei.
"

http://jornal.publico.pt/publico/2004/11/14/EspacoPublico/O02.html

"O Que o Comunismo Ainda nos Pode Ensinar Por VACLAV HAVELSegunda-feira, 15 de Novembro de 2004
O 15º aniversário da Revolução de Veludo, em 17 de Novembro de 1989, que pôs fim a 41 anos de ditadura comunista na Checoslováquia, é uma oportunidade para ponderar sobre o significado do comportamento moral e da liberdade de acção. Hoje, vivemos numa sociedade democrática, mas muitos - não só na República Checa - ainda crêem que não são verdadeiros donos do seu destino. Deixaram de acreditar que podiam realmente influenciar os acontecimentos políticos e, ainda menos, influenciar o rumo que a nossa civilização está a tomar.
Durante a era comunista, muitos acreditavam que os esforços individuais para uma mudança não faziam sentido. Os líderes comunistas repetiam constantemente que o sistema era o resultado das leis objectivas da história, que não podiam ser postas em causa e, pelo sim pelo não, quem recusasse esta lógica era punido.
Infelizmente, a maneira de pensar que suportava a ditadura comunista não desapareceu completamente. Alguns políticos defendem que o comunismo caiu sob o seu próprio peso - uma vez mais, devido às "leis objectivas" da história. De novo, a responsabilidade e as acções individuais são relegadas para segundo plano. O comunismo, segundo dizem, era apenas um dos becos sem saída do racionalismo ocidental, por isso, bastava esperar passivamente que caísse.
Essas mesmas pessoas tendem a acreditar noutras manifestações de inevitabilidade, como as alegadas leis do mercado e outras "mãos invisíveis" que gerem as nossas vidas. Como nesta forma de pensar não existe muito espaço de manobra para a acção moral individual, os críticos da sociedade são muitas vezes ridicularizados e rotulados de moralistas ingénuos ou elitistas.
Talvez esta seja uma das razões pelas quais, passados 15 anos da queda do comunismo, se assiste novamente a uma apatia política. A democracia é cada vez mais um mero ritual. Em geral, ao que parece, as sociedades ocidentais estão a passar por uma certa crise da democracia e da cidadania activa.
Também se poderá dar o caso de estarmos apenas a testemunhar uma mudança de paradigma, causada pelas novas tecnologias, e de não precisarmos de nos preocupar. Mas talvez o problema seja mais profundo: as empresas globais, os cartéis da comunicação social e as poderosas burocracias estão a transformar os partidos políticos em organizações cuja principal tarefa deixou de ser o serviço público para passar a ser a protecção de clientelas e interesses específicos. A política está-se a tornar num campo de batalha de "lobbistas"; os "média" trivializam problemas sérios; frequentemente, a democracia parece mais um jogo virtual para os consumidores, do que um assunto sério para cidadãos sérios.
Quando sonhávamos com um futuro democrático, nós, os dissidentes, certamente que tínhamos ilusões utópicas e hoje temos plena consciência disso. No entanto, não estávamos errados quando argumentávamos que o comunismo não era um mero beco sem saída do racionalismo ocidental. A burocratização, a manipulação anónima e a ênfase no conformismo das massas foram levados até à "perfeição" pelo sistema comunista. Porém, algumas dessas ameaças continuam a existir actualmente.
Nessa altura, já tínhamos a certeza de que, se a democracia fosse esvaziada de valores e reduzida a uma competição de partidos políticos com soluções "garantidas" para tudo, poderia ser bastante anti-democrática. Era por isso que dávamos tanta importância à dimensão moral da política e a uma sociedade civil activa enquanto contrapeso aos partidos políticos e às instituições do Estado.
Também sonhámos com uma ordem internacional mais justa. O fim do mundo bipolar representava uma grande oportunidade para tornar a ordem internacional mais humana. Em vez disso, assistimos a um processo de globalização económica que escapou ao controlo político e, consequentemente, está a causar a ruína económico bem como a devastação ecológica em muitas partes do mundo.
A queda do comunismo foi uma oportunidade para criar instituições políticas globais mais eficazes com base nos princípios democráticos - instituições essas que poderiam ter impedido o que parece ser, na sua actual forma, a tendência auto-destrutiva do nosso mundo industrial. Se não queremos ser controlados por forças anónimas, os princípios da liberdade, igualdade e solidariedade - os fundamentos da estabilidade e da prosperidade das democracias ocidentais -, têm de começar a funcionar a nível global.
Sobretudo, é necessário - tal como foi durante a era comunista - não perdermos a fé no significado de centros alternativos de pensamento e acção cívica. Não nos deixemos manipular, acreditando que as tentativas para mudar a ordem "estabelecida" e as leis "objectivas" não fazem sentido. Vamos tentar construir uma sociedade civil global e insistir na ideia de que a política não é apenas uma tecnologia de poder e que tem de ter uma dimensão moral.
Ao mesmo tempo, os políticos dos países democráticos têm de pensar seriamente nas reformas das instituições internacionais, porque necessitamos desesperadamente de instituições que tenham a capacidade de governarem realmente a nível global. Poderíamos começar, por exemplo, com as Nações Unidas, que, na sua actual forma, são uma relíquia da situação imediatamente posterior à II Guerra Mundial. Não reflectem a influência de algumas das novas potências regionais ao mesmo tempo que equiparam de forma imoral países cujos representantes são democraticamente eleitos com outros cujos representantes apenas se representam a si próprios ao às respectivas "juntas", na melhor das hipóteses.
Nós, europeus, temos uma tarefa específica. A civilização industrial, que actualmente invade o mundo inteiro, teve origem na Europa. Todos os seus milagres, como as suas terríveis contradições, podem ser explicados como consequência de um sistema que teve início na Europa. Assim, a união da Europa deveria constituir um exemplo para o resto do mundo sobre a melhor forma de o enfrentar os vários perigos e horrores que nos cercam hoje.
De facto, esta tarefa - que está intimamente ligada ao sucesso da integração europeia - seria a completa realização do sentido europeu de responsabilidade global. E seria uma estratégia bem melhor do que culpabilizar a América por todo e qualquer problema do mundo contemporâneo.
Antigo Presidente da República Checa
Exclusivo Público/Project Syndicate "







" O Vencedor Americano Por MÁRIO PINTOSegunda-feira, 15 de Novembro de 2004
Nos variadíssimos comentários à reeleição de George W. Bush para Presidente dos Estados Unidos da América ainda ninguém tocou num dos aspectos mais significativos para a actual sociedade mediática: Bush ganhou, e com uma votação história, depois de mais de quatro anos em que teve contra ele uma fatia substancial dos media norte-americanos e a esmagadora maioria dos media internacionais. Para além da televisão "FOX News" e dos jornais "Wall Street Journal" e "Washington Times", quaisquer deles importantes mas longe dos lugares cimeiros dos media norte-americanos, a generalidade das TVs, jornais e rádios do panorama mediático nacional americano foi hostil a George W. Bush, mais ou menos declaradamente. Durante anos, televisões, rádios, jornais e sites na Internet repisaram a mensagem - que era suposto ser de fundo mas que pelos vistos acabou por não o ser: com George W. Bush na Casa Branca estava o perigo, a incompetência e a ignorância. E isto para falar apenas no território americano, porque no resto do mundo foram reservados epítetos bem menos simpáticos para o Presidente americano.
No mundo da política, da economia e da cultura contemporânea, modelado e globalizado pelos media, quer pelos media tradicionais, como as rádios e as televisões de cada país, quer pelos novos media, como a Internet e as televisões por satélite, Bush foi reeleito Presidente da hiperpotência mundial, contra esses mesmos media, diz-se, poder quintessencial do novo novo mundo; refere-se, que contra 80 por cento dos europeus e contra praticamente todo o resto do mundo. Num ambiente mediático global, num contexto constituído pelos media que existem em todo o lado - CNN, NBC, BBC, Al Jazeera, Le Monde Diplomatique, entre milhares de outros - Bush foi eleito contra o discurso geral, o sistema de valores e o conselho, desses mesmos media. Claro que no circuito mediático das costas Leste e Oeste norte-americanas, as áreas não apenas geográfica mas sobretudo politica e culturalmente mais perto do resto do mundo, se esperava que Bush não ganhasse. Ganhou e pode hoje dizer-se que George W. Bush é o primeiro Presidente americano que foi e é indiferente aos media - não recebe a simpatia nem é simpático em excesso, como é habitual, para os media, não governa para os media, etc. Os media retribuem: censuram-no, criticam-no, atacam-no.
Neste quadro, Bush fala directamente às pessoas e não aos media. Bush existe fora dos grandes media, é Presidente dos Estados Unidos, e porque está em todos os media não necessita de estar em nenhum em especial. Apelando à emoção, à intuição e ao instinto com que todos habitamos o quotidiano, Bush, tal como a Internet e os novos tempos globais e afogados em informação, desvaloriza a lógica, a profundidade e a linearidade. Na forma como fala, nas imagens populares, nas histórias simples dos bons e dos maus, nas frases abandonadas a meio, nas posições exageradamente extremadas, nos oceanos da informação e comunicação mediática, os telespectadores, ouvintes, internautas e leitores aceitam-no porque se trata de uma história, de um discurso e de uma presença que mais consistentemente corta a direito na ambiguidade, mantendo-se como já é, aproximando-se nas suas contradições, posições, exageros e fraquezas daquilo que eles mesmos, cidadãos comuns norte-americanos, são.
Os media obviamente apreciam a história da vitória de Bush. Apreciam-na tanto mais quanto eles mesmos, os jornais e as televisões de Nova Iorque e da Califórnia, os media mais influentes da América, desde sempre têm estado contra Bush. É precisamente esse facto que faz da reeleição de Bush uma boa história. Aliás, de um ponto de vista dos media, a questão que se coloca é a seguinte: porque não foi eficaz a mensagem passada durante meia década? Ou, talvez, qual foi efectivamente a mensagem que passou nos media durante os últimos anos, a qual, pelos vistos, fez com que George W. Bush fosse reeleito com uma das votações mais altas dos últimos anos na história dos EUA? Ou ainda, e colocadas as coisas de outra forma, que relação existe entre o discurso dos media e as opções que as pessoas, cidadãos comuns, tomam no seu dia-a-dia?
No actual ambiente hiper-mediático da tecnologia electrónica, a novidade, a inovação e a quantidade de histórias são o contexto da acção das pessoas comuns, marcado pela ambiguidade e pela surpresa em que sob o pano da informação se tem vindo a transformar o mundo. Nesse quadro da realidade, como se se tratasse de um quadro televisivo, os "sound bytes" capitalizam no facto de requerem um mínimo de tempo e de atenção para fazerem sentido. Sobre essa possibilidade, as mensagens curtas são as mais eficazes porque recuperam o passado e mobilizam a memória. Bush não terá apenas feito isso, mas antes ele deverá ser isso mesmo num mundo em que a Internet multiplicou por mil as vozes e as mensagens que nos envolvem. Os media continuaram obviamente, como continuam, a explicar, a contextualizar e a estar contra, mas no "teste da cerveja" - com quem o meu caro amigo do Ohio, do Tenesse ou do Mississipi prefere beber um copo - Bush, mesmo não bebendo..., continua à frente de Kerry.
O que se passou nas eleições norte-americanas questiona forma pertinentemente desenvolvimentos recentes sobre a influência dos media na formação da opinião dos eleitores. Nas últimas décadas foram abandonadas as teorias das décadas iniciais do século XX que sugeriam o poder quase ilimitado dos media sobre a opinião pública. Dos anos 1970 para cá, têm tido algum êxito teorias que se agregaram à volta da ideia do agendamento, isto é, da capacidade de os media estabelecerem a agenda da opinião pública e mesmo a dos políticos. De acordo com esta perspectiva teórica, os media não seriam capazes de estabelecer ou influenciar de forma determinante aquilo que as pessoas, os eleitores, os cidadãos comuns pensam sobre determinado assunto, mas teriam a capacidade de estabelecer os assuntos sobre os quais recairia a atenção, as conversas, as preocupações da opinião pública. Mais recentemente estava a ser recuperada a ideia original de que os media, sobretudo a televisão nos nossos dias, não apenas estabeleceriam os assuntos sujeitos a debate, sobre os quais os cidadãos se mostrariam interessados em falar, mas influenciariam também e de uma forma importante o tipo de opinião sobre esses mesmos assuntos. Ao destacarem determinadas características e não outras, ao apresentarem análises como factos, ao ligarem factos como uma história, os media podem de facto - e de alguma forma eles fazem sempre isso mesmo - ditar a forma como as pessoas pensam. Estes desenvolvimentos devem agora ser questionados à luz da reeleição de Bush, a qual não aponta para a irrelevância dos media, como é evidente, mas sim para a necessidade de se estudar e compreender o papel daqueles na sociedade pós-industrial e global contemporânea, bem como a intencionalidade e a complexidade das mensagens que promovem e despromovem. "








"O "Papa" Português do Século XX Por MÁRIO MATOS E LEMOSSegunda-feira, 15 de Novembro de 2004
Agora que se fala na possível eleição ao trono pontifício de um Cardeal português, o Patriarca de Lisboa D. José Policarpo, cabe recordar uma curiosa história no longínquo ano de 1914.
No dia 2 de Setembro desse ano, um jornal importante de Lisboa, o famoso O Mundo, publicava na primeira página, com grande relevo, a notícia de que o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Neto, fora eleito Papa. Sucederia, portanto, a Pio X. Um telegrama de Roma, assinado por "correspondente", dava a informação de que "o conclave, contra todas as previsões, ainda as mais optimistas, acelerou os seus trabalhos e elegeu papa o cardeal português José Neto" (sem D.). Mais do que com a eleição, o jornal - que fez várias edições nesse dia - congratulava-se por a eleição do Cardeal Neto, um franciscano, representar "uma derrota dos jesuítas". Como se sabe, muitos republicanos consideravam os jesuítas responsáveis por grande parte dos males que afligiam Portugal. A notícia - que até estava ilustrada por uma fotografia do "novo Pontífice" - espraiava-se depois em considerações várias sobre o conclave e sobre o próprio Cardeal.
Claro que, no dia seguinte, embora sem desmentir completamente o facto, O Mundo dizia: "Não há ainda confirmação da notícia, que inserimos na melhor das intenções. É inexacta? É falsa? É extemporânea, pelo menos? Será. O que podemos garantir, e ninguém de boa fé o duvidará, é que, se tal notícia publicámos, foi porque, dada a sua origem, ela não podia deixar de caracterizar-se de toda a autenticidade."
Qual era, então a origem da notícia que merecera a confiança do jornal e tanta sensação causara?
A história é contada por Joaquim Madureira (Braz Burity), no seu livro "As Desvirtuosas Malfeitorias" e tem a ver com a maneira como, há quase cem anos, os jornais procuravam as notícias.
Nesse tempo, os jornais faziam-se, no que às notícias do estrangeiro tocava, com os telegramas da agência Havas, precursora da France Presse, com a leitura dos jornais estrangeiros que chegavam de barco ou de comboio, já atrasados, portanto, e com as informações que os seus repórteres - que eram conhecidos no meio por rodrigues - procuravam obter nos Ministérios, recorrendo aos amigos mais ou menos altamente colocados.
Desde Fevereiro de 1914, que era Presidente do Ministério Bernardino Machado e seu chefe de gabinete Joaquim Madureira. Estava-se no começo da Primeira Guerra Mundial e a Presidência recebia cópias dos telegramas chegados a Lisboa, incluindo os que se destinavam ao jornal O Século, enviados de Paris por Almada Negreiros (pai do artista). Pelo gabinete passavam jornalistas e designadamente os repórteres da Capital (que era dirigida por Manuel Guimarães) e do Mundo, sucedendo que - conta Madureira - "um ror de vezes" se ter dado a coincidência de "o serviço telegráfico de O Século coincidir, linha a linha, telegrama por telegrama, patranha por patranha, com os serviços telegráficos de A Capital e de O Mundo". Resolveu então Joaquim Madureira pregar um a partida ao repórter do Mundo, de nome Lindórfio, e forjou um telegrama supostamente enviado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália para o embaixador em Lisboa, dando conta da eleição de D. José Neto ao trono pontifício. Lindórfio deu conta do telegrama e apesar de Madureira lhe ter dito que se tratava de um segredo diplomático cuja revelação podia provocar "alguma carrapata internacional" não resistiu a telefonar para o jornal a dar a noticia. Não tardaram a aparecer no Ministério dois dos mais conceituados jornalistas daquele diário, Mário Salgueiro e Urbano Rodrigues. Madureira, como que por descuido, não só deixou bem à mão a pasta onde estava o pretenso telegrama de Roma, como imaginou um telefonema de um sacerdote português a quem, em voz bem alta, confirmou a notícia, sempre pedindo grande confidencialidade. Não foi preciso mais. Salgueiro, Urbano Rodrigues e Lindórfio foram para o jornal e no dia seguinte os ardinas apregoavam por Lisboa inteira a grande notícia que o Mundo inseria na primeira página: "O Cardeal Neto eleito Papa".
Jornalista "