Breves notas assassinas
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
1. Marta Crawford, nas páginas do suplemento Sábado do Diário de Notícias, respondia a uma observação que eu lhe tinha feito. Como de costume, o criticado não é capaz de aceitar qualquer razão do lado daquele que critica, que normalmente o faz por torpes razões pessoais. Por isso diz: "Quanto a Prado Coelho, se ele acha que o programa não é erótico, fico feliz. Não percebo por que é que ele acha que o programa tem de ser erótico. É um problema dele."Ora acontece que não nos entendemos. Eu nunca disse que o programa tem de ser erótico. O que eu tentei afirmar foi que, ao falarmos de sexualidade, se excluirmos a dimensão afectiva e a dimensão libidinal, o que se descreve é uma mera mecânica que acaba por ser deserotizante. Falar da sexualidade naqueles termos é redutor para um fenómeno que é mil vezes mais complexo. Apenas isto, o que não é pouco.2. Na corrida presidencial no interior do Partido Socialista francês, existe uma candidata, Ségolène Royal, e diversos candidatos masculinos. Por isso, não espanta que alguns vejam com enorme cepticismo a candidatura de uma mulher. Daí estas espantosas afirmações de Laurent Fabius: "Quem vai guardar as crianças?" Acontece que Ségolène Royal, que foi conselheira de Mitterrand, ministra por três vezes, e quatro vezes conseguiu ser deputada, sempre com aprovação geral, tem quatro filhos. Mas como é possível que um socialista diga uma enormidade destas? As contradições entre a teoria e a prática são sempre chocantes. Um inquérito entre dirigentes e deputados do Partido Socialista português daria resultados bem elucidativos.Mas Ségolène Royal espera ganhar. Está à frente nas sondagens. Apesar (ou talvez por causa) destas extraordinárias manifestações de machismo no interior do Partido Socialista. A verdade é que a esquerda europeia se descaracteriza cada vez mais, a não ser em momentos em que um inimigo comum permite uma unidade mobilizadora: foi o caso italiano em relação a esse delinquente destemperado que é Silvio Berlusconi.3. A vida literária portuguesa tem sido agitada pelo lançamento do último livro de Margarida Rebelo Pinto, de nome Diário de Uma Ausência. A causa não está propriamente neste livro mais recente, mas no conjunto da obra de Margarida Rebelo Pinto, considerado a partir da obra do "crítico" João Pedro George, Couves & Alforrecas - Os segredos de Margarida Rebelo Pinto. O livro é da nova editora Objecto Cardíaco, e fico contente com um êxito que permitirá publicar coisas mais interessantes. A tese é simples: Margarida Rebelo Pinto plagia-se a si mesma. A reacção ao tom do livro foi uma providência cautelar da autora. Se a reacção é absurda e desproporcionada, se a tese é verdadeira, o livro é miseravelmente desinteressante, e João Pedro George, esse mirabolante admirador de Luís Pacheco, mostra aquilo que é: um crítico literário que o não chega a ser e que é uma verdadeira alforreca da vida cultural portuguesa. Pode-se pôr em causa a obra de Margarida Rebelo Pinto (e eu tenho-o feito implacavelmente), mas não desta maneira indigente. Caso, não chega a existir. Professor universitário
Eduardo Prado Coelho, in Público
