Um blog de Filipe Figueiredo

segunda-feira, agosto 29, 2005

"destronar

v. tr.,
tirar do trono;
destituir da realeza ou da soberania;
fig.,
abater;
humilhar;
tirar de lugar elevado. "
Dicionário flip

"..1995- A cerca de um mês das eleições legislativas que levaram Guterres a destronar Cavaco, Carlos Carvalhas caracterizava o governo...." Público - 2005 num artigo sobre a festa do avante

Não se pode tirar o trono, lugar, etc a quem não o tem. Uma democracia não é uma monarquia, nem um sistema feudal. Cavaco silva não era o candidato a primeiro-ministro em 1995. Quem era candidato pelo PSD era Fernando Nogueira. Uma vez chegado o fim do mandato, qualquer primeiro-ministro deixa de ocupar o lugar que tinha, e esta tentativa com palavras bem escolhidas de colar uma derrota (abater?, humilhar?) em 1995 a Cavaco Silva quando ele não era candidato parece ser um sintoma de muitos(não todos já se sabe) jornalistas de que a campanha anti-cavaco já está aí.

sábado, agosto 27, 2005

" Check-list António Barreto A autoridade do Estado é questionável. A fiscalidade é relativamente ineficiente. A corrupção é muita. A impunidade geral é relevante. A justiça é morosa ou ausente. A Constituição é circunstancialmente revista, de acordo com necessidades da conjuntura. Os grupos de interesses e os corpos profissionais têm mais poder do que o Estado Há décadas, ou séculos, que pensadores e estudiosos se ocupam da análise dos fenómenos revolucionários, incluindo golpes de Estado, insurreições, motins e outras desordens de grande amplitude. Fizeram-se teorias, construíram-se "grelhas" e estabeleceram-se "leis". O facto de a maior parte das revoluções e revoltas aparentadas ser imprevisível não desanima os investigadores. Hoje é possível, recorrendo aos mais diversos estudos, enumerar as razões e as causas que conduzem a profundas perturbações da vida social e política. É verdade que muitas delas são perfeitamente contraditórias. Uns dirão, por exemplo, que as ameaças que pesam sobre a abundância e o crescimento são evidentes causas de revolução. Enquanto outros garantem que essa é a função da destituição absoluta. Conheço quem afirme que são as classes médias que, ameaçadas, fazem revoluções, como sei quem assevere que estas são o feito de quem "nada tem a perder, a não ser as suas grilhetas". Entres os inúmeros factores genéticos de uma revolução ou golpe, podem contar-se, além de outras, a luta de classes, a crise económica e financeira, a instabilidade política, a luta fratricida entre as classes dirigentes, as guerras de religião, os excessos de nacionalismo, a colaboração com o usurpador, o poder excessivo de um grupo económico, a insatisfação dos militares ou a falta de autoridade.COM BASE EM MÚLTIPLAS CONTRIBUIÇÕES para a teoria política, construí, para consumo pessoal, uma lista de verificação e referência que apliquei à actualidade portuguesa. Poupando os leitores a uma enumeração fastidiosa de critérios e regras, depressa cheguei à conclusão de que existem hoje, em Portugal, causas suficientes para a eclosão de movimentos revolucionários, crises muito graves, motins, golpes e levantamentos. Se não, vejamos.A INSTABILIDADE POLÍTICA É UM FACTO. Em menos de seis anos, realizaram-se três eleições gerais, tivemos, além de remodelações, quatro governos e outros tantos Primeiros Ministros. Um fugiu, um abandonou, outro foi demitido e perdeu eleições. Vários políticos foram exonerados, outros afastaram-se e muitos preferem ganhar dinheiro. O PS teve três secretários gerais. O PSD outros tantos. O PP dois. O PCP dois. As zangas dentro das famílias políticas voam alto. No PSD, em particular, a luta entre barões e interesses tomou um carácter fratricida inédito. A crise económica é flagrante. O país conheceu vários anos de crescimento negativo ou de estagnação. O atraso perante a Europa aumentou. O desemprego atinge níveis elevados. As perspectivas económicas são todas negativas e inferiores tanto aos nossos parceiros mais próximos, como a outros países das Américas e da Ásia. As importações crescem muito mais depressa do que as exportações. Não existe uma só previsão de melhoria, a médio prazo, da nossa balança comercial externa. A produção nacional de subsistências alimentares está no mais baixo nível de sempre na história. O endividamento das famílias, das empresas e do Estado é generalizado.A crise financeira é fenomenal. O Estado encontra-se em graves dificuldades, seja para respeitar os seus compromissos de financiamento dos serviços sociais, seja para pôr em prática uma qualquer política de investimento. Impotente para manipular a política monetária e cambial, resta-lhe uma alternativa: ou prosseguir a política de irresponsabilidade de quase todos os governos, ou iniciar uma acção severa de imprevisíveis consequências.A situação social é grave. O desemprego de nacionais atingiu níveis incomportáveis com as disponibilidades financeiras do Estado e a paz social. As perspectivas de investimento novo e relevante são praticamente nulas. A capacidade de investimento do Estado é parecida. As ameaças de mais deslocalização de empresas são reais e a curto prazo. A existência de meio milhão de imigrantes aumenta o problema.O clima moral e psicológico é mau. Os políticos mentem e contradizem-se com inusitada frequência. Nunca circularam tantos rumores, uns caluniosos, outros fundamentados, muitos a merecer investigação. Depois de uma vaga de boatos sobre a vida pessoal dos governantes, chegou uma nova onda, bem mais poderosa, sobre a corrupção de políticos e capitalistas, incluindo luvas de membros do governo e autarcas, comissões extraordinárias na aquisição de grandes equipamentos, dízimas, gabelas e alcavalas sobre concursos públicos. A promiscuidade nunca terá sido tão profunda. Desde a mistura entre interesses públicos e privados, até à livre circulação entre cargos de governo e postos de decisão económica, tudo é possível e reconhecido. O cruzamento de fidelidade e favores entre a política, a economia, a autarquia e o desporto constitui uma rede de malha apertada.A Igreja Católica, depois de longo flirt com o regime em geral, mas com o PSD e o PS em particular, está agora zangada. A permissividade ambiente, os costumes privados de vários políticos nacionais, as dificuldades financeiras do ensino privado e os movimentos contra a criminalização do aborto puseram um termo às boas relações existentes entra a Igreja e o Estado.A incerteza e a insegurança instalaram-se. Em consequência dos rumores crescentes ou por efeito de medo atávico, a verdade é que os funcionários públicos se sentem ameaçados como nunca e os pensionistas estão convencidos de que as suas pensões vão ser reduzidas.De repente, as classes médias receiam perder tudo quanto ganharam nestes últimos trinta anos: lugar para os filhos nas universidades, segunda casa nos arredores das cidades, férias no Brasil, carro turbo, televisão de plasma, play-station e computador, subsídio para o apartamento dos filhos, abatimento nos planos de poupança, liberdade de acesso ao off shore, aparelhagem topo de gama, frigorífico do tamanho de uma assoalhada, crédito barato, saúde gratuita, rendas baixas e subsídio para aquisição de jeeps urbanos de alta cilindrada. Todos e os jovens em particular consideram legítimas e razoáveis as suas ilimitadas aspirações, sem perceberem que o país não tem as capacidades necessárias à sua satisfação.A autoridade do Estado é questionável. A fiscalidade é relativamente ineficiente. A corrupção é muita. A impunidade geral é relevante. A justiça é morosa ou ausente. A Constituição é circunstancialmente revista, de acordo com necessidades da conjuntura. Os grupos de interesses e os corpos profissionais têm mais poder do que o Estado.Um grupo privado domina, sem moderação nem controlo, mas com cumplicidades, grande parte da vida económica e financeira do país, para o que utiliza instrumentos legais e meios menos ortodoxos.A VERDADE, TODAVIA, É QUE PARECE NÃO haver revolução nem revolta. Não existem forças militares à altura, isto é, com força, dimensão, interesses e opiniões políticas. A Igreja não tem poder social suficiente para abrir uma crise irremediável. A União Europeia constitui uma "almofada" social, económica e política e um estranho referendo constitucional aprovará certamente a manutenção deste aconchego. O Euro evita a total desordem financeira e económica, nomeadamente a desvalorização galopante e a perda de valor da moeda. E é possível que os efeitos da vacina de 1975 ainda se façam sentir.Não teremos, pois, de acordo com as tradições académicas, revolução, revolta ou insurreição. O pior é que elas são sempre imprevisíveis. " " Os Governos do défice Djosémedeirosferreira esde 2001 que se vive sob o signo do défice orçamental. O pântano, a tanga e a trapalhada recordam-nos Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes. Cada um à sua maneira, os três ex-primeiros- -ministros foram sacrificados no altar das contas públicas. Um demitiu-se no contexto dos resultados das autárquicas, o do meio depois de perder as eleições europeias voou para Bruxelas, o seu sucessor foi derrotado estrondosamente nas legislativas há três meses. O cargo de primeiro-ministro em Portugal tornou-se numa situação perigosa. Um lugar amaldiçoado. Um símbolo da fraqueza do poder político em Portugal, apesar das sucessivas eleições personalizadas.Cada novo Governo surge aos olhos dos portugueses como um alívio face ao anterior. Por pouco tempo, porém. Os cavaleiros do Apocalipse rapidamente enchem o horizonte de poeira preta que sufoca qualquer esperança. Sobretudo os que não têm responsabilidades, ou pouco se irão sacrificar, lançam-se numa correria de propostas dramáticas. A nova geração de políticos, que ainda não passou por nenhuma prova decisiva, normalmente retrai-se e não arrisca governar a sério.Nos últimos dias não têm faltado as sugestões para obrigar o actual Governo a tomar medidas drásticas, como já não se conhecem desde os tempos do Bloco Central. Pede-se a Sócrates que cubra politicamente a austeridade radical como Mário Soares cobriu a de Ernâni Lopes entre 1983 e 1985, antes de Portugal entrar na Comunidade Europeia. Parece ser a sina dos Governos do PS.O Governo presidido por José Sócrates tomou posse com um OE recém-aprovado pela coligação PSD/PP que previa um défice de 2,8% muito apropriado para a vistoria da Comissão Europeia. Os que pensaram que Santana Lopes faria desse Orçamento o tema central da sua campanha eleitoral enganaram-se. Nem ele, nem ninguém da coligação de direita, levantou a bandeira do OE para 2005. Por esquecimento, ou por não acreditarem nele, o certo é que a última lei do reinado da direita coligada tornou-se irrisória. Um mau sinal para os tempos mais próximos e que agora se confirma com a apresentação do Relatório Constâncio sobre o défice.O Orçamento aprovado em Dezembro último, com a AR já dissolvida, não resistiu seis meses. A sua execução não agrada a ninguém.E ninguém parece ser responsável pelo OE aprovado. Nem Marques Mendes nem Ribeiro e Castro dão a cara por ele. A direita que esteve no Governo três anos evaporou-se do sistema político. Anda por aí, e pelas páginas dos jornais, mas não se co-responsabiliza por nada. O PSD tornou-se um partido de vocação autárquica e os seus candidatos às câmaras aprenderam com os mestres do usufruto governamental são poder e oposição ao mesmo tempo. O PSD tornou-se um partido esquizofrénico.Também a trajectória do CDS não deixa de revelar um apurado sentido do transformismo. O CDS tinha uma direcção muito Paulo Portas quando este era ministro de Estado e da Defesa. Agora quase não se distingue de Freitas do Amaral, também ele ministro de Estado, mas dos Negócios Estrangeiros. Só falta o pretexto de alguma alta necessidade patriótica para ligar esses elementos dispersos ao grupo afável do humanismo e democracia que acompanha o PS desde os tempos de Guterres. Quem sabe se a necessidade de enfrentar o criador monstro doméstico não trará uma colaboração mais federada?O caso é que, se a situação é tão dramática como a pintam, não haverá, a prazo, maioria partidária que lhe faça frente com êxito. Nem sei mesmo se o regime democrático aguentará.Os avisos, dos últimos dias, ao primeiro-ministro, que se resumem no imperativo que Sócrates tem, revelam um grande mal-estar nas esferas opinativas dos poderes fácticos.O que essas entidades parecem não ter em conta é o instinto de sobrevivência das comunidades a governar.Quem não se lembra que Keynes declarou a Polónia economicamente inviável? jmedeirosf@clix.pt " http://dn.sapo.pt/2005/05/24/opiniao/os_governos_defice.html

A reter: "Nem sei mesmo se o regime democrático aguentará"

"Não teremos, pois, de acordo com as tradições académicas, revolução, revolta ou insurreição. O pior é que elas são sempre imprevisíveis. "

Espero bem que um cenário destes não venha a acontecer. Ultimamente muitos opinion-makers, directores de jornais, personalidades várias têm dito e escrito mais ou menos o que está nas duas frases acima transcritas. Em tempos idos já saboreamos o que é a guerra civil e após o 25 de Abril estivemos perto (por um pêlo) de uma. Mas não seria inédito numa europa que diz-se tão tolerante, democrática, anti-guerras e que, mesmo depois dos fascismos, comunismos, guerras-mundiais, permitiu recentemente uma guerra bem no meio dela...

sexta-feira, agosto 12, 2005

Jornal Público, Segunda, 8 de Agosto de 2005


" Europa, o teu nome é cobardia
Mathias Doepfner
O escritor Henryk Broder fez recentemente uma acusação demolidora: "Europa, o teu apelido é apaziguamento". Esta frase fica a ressoar nos nossos ouvidos porque é terrivelmente verdadeira. O apaziguamento custou a vida a milhões de judeus e não-judeus, enquanto a Inglaterra e a França, aliadas na altura, negociavam e hesitavam tempo demais antes de se aperceberem que tinham de lutar contra Hitler e derrotá-lo, porque ele nunca cumpriria um acordo. Mais tarde, o apaziguamento legitimou e deu estabilidade ao comunismo na União Soviética, depois na Alemanha de Leste e, depois ainda, no resto da Europa de Leste, onde durante décadas governos desumanos, repressivos e criminosos foram glorificados. O apaziguamento estropiou igualmente a Europa quando o genocídio assolou a Bósnia e o Kosovo. Embora tivéssemos provas irrefutáveis da carnificina, nós, europeus, continuámos a organizar debates e mais debates. Ainda estávamos na fase dos debates quando, finalmente, os americanos vieram uma vez mais do outro lado do mundo fazer o trabalho por nós. A Europa ainda não aprendeu a lição. Em vez de proteger a democracia no Médio Oriente, o apaziguamento europeu, camuflado por trás da expressão ambígua da "equidistância", parece muitas vezes aprovar os atentados suicidas cometidos pelos palestinianos fundamentalistas em Israel. Do mesmo modo, é o mesmo apaziguamento que gera uma mentalidade que permite à Europa ignorar as cerca de 500 mil vítimas da máquina de tortura e de assassinato de Saddam Hussein, ao mesmo tempo que declara George W. Bush como um instigador de guerra, instigada ela própria pela auto-complacência do movimento pacifista.Esta hipocrisia continua, mesmo depois de se descobrir que alguns dos maiores críticos da intervenção militar americana no Iraque lucraram milhões de dólares ilicitamente - na realidade, dezenas de milhares de milhões - com o programa, que se provou corrupto, das Nações Unidas "petróleo por alimentos". Hoje somos confrontados com uma forma de apaziguamento particularmente grotesca. Como reage a Alemanha a esta escalada de violência dos fundamentalistas islâmicos na Holanda, na Grã-Bretanha e no resto da Europa? Sugerindo - vejam só - que a resposta adequada a tal barbárie é instituir um "feriado muçulmano". Não pensem que estou a brincar, antes estivesse. Uma parte significativa do governo alemão - e, a acreditar nas sondagens, do povo alemão - crê verdadeiramente que criar um feriado islâmico pode, de algum modo, poupar-nos da ira dos islamistas fanáticos. Não é possível deixar de pensar no britânico Neville Chamberlain, regressado de Munique, acenando o ridículo tratado assinado por Adolfo Hitler e declarando o advento da "paz no nosso tempo".Que atrocidades terão ainda de ocorrer antes que os povos europeus e os seus líderes compreendam o que realmente se está a passar no mundo? Está em curso uma espécie de cruzada - uma campanha especialmente pérfida que consiste em ataques sistemáticos de islamistas contra alvos civis, ou seja, atentados directos às nossas sociedades ocidentais, livres e abertas, com a intenção de as destruir por completo. Hoje, deparamo-nos com um conflito que provavelmente durará mais tempo do que qualquer um dos grandes confrontos militares do último século - um conflito levado a cabo por um inimigo que não pode ser subjugado pela "tolerância" e "boa-vontade" porque, na verdade, ele é estimulado por esses mesmos gestos. Essas respostas já provaram ser sinais de fraqueza e serão sempre vistas como tal pelos islamistas. Só dois Presidentes americanos recentes tiveram a coragem necessária para desprezar o apaziguamento: Ronald Reagan e George W. Bush. Aqueles que criticam a América poderão refugiar-se nos detalhes mas, no mais íntimo de nós próprios, nós, europeus, sabemos a verdade, porque a vimos em primeira mão. Reagan acabou com a guerra-fria, libertando metade da Europa de cerca de 50 anos de terror e escravatura. E o Presidente Bush, agindo por convicção moral e apoiado apenas pelo social-democrata Tony Blair, reconheceu o perigo na actual guerra islâmica contra a democracia.Enquanto isso, a Europa reclina-se na cadeira, no seu pequeno rincão multicultural, com a sua habitual despreocupação e autoconfiança. Em vez de defender os valores liberais e agir como um poderoso pólo de poder ao lado das verdadeiras grandes potencias, a América e a China, não faz nada. Pelo contrário, nós, europeus, apresentamo-nos como campeões mundiais da "tolerância", em contraste com a alegada "arrogância americana", o que até o ministro do Interior alemão, Otto Schily, critica justamente.De onde virá esta reacção de auto-satisfação? Será por sermos tão virtuosos? Receio que venha do facto de sermos tão materialistas, destituídos de uma conduta moral. Pela sua política de enfrentar o terrorismo islâmico de cabeça erguida, Bush corre o risco da queda do dólar, do aumento dívida externa e de uma sobrecarga pesada e persistente sobre a economia americana. Mas ele fá-lo porque, ao contrário da maioria dos europeus, percebeu que o que está em jogo é literalmente tudo aquilo que é realmente importante para as pessoas livres. Enquanto, por um lado, criticamos os "ladrões capitalistas" americanos porque parecem demasiado seguros das suas prioridades, continuamos a defender timidamente os nossos Estados de bem-estar. "Mantenham-se afastados! Pode-nos sair caro", gritamos. Em vez de agirmos de forma a defendermos a nossa civilização, preferimos discutir a redução do horário de trabalho para 35 horas semanais, o aumento da cobertura dentária ou a extensão das quatro semanas pagas de férias anuais. Ou, então, escutamos atentamente os pastores pregar na televisão sobre a necessidade de "estender a mão aos terroristas", compreender e perdoar. Hoje em dia, a Europa faz-me lembrar uma velha senhora que, com mãos trémulas, esconde freneticamente as últimas jóias que lhe restam ao ouvir um ladrão arrombar a casa do vizinho. Apaziguamento? É apenas o começo. Europa, o teu nome é cobardia. Presidente do grupo de "media" alemão Axel Springer. Exclusivo Público/Project Syndicate
"

terça-feira, agosto 09, 2005



" E SE ESTIVÉSSEMOS NO LUGAR DE TRUMAN?
José Manuel Fernandes
Há sensivelmente um ano, durante uma visita ao porta-aviões norte-americano USS Truman, pude ver, numa vitrina do pequeno museu do navio, a minúscula folha cor-de-rosa onde o Presidente dos Estados Unidos escreveu a ordem para largar a bomba sobre Hiroxima. Meia dúzia de palavras manuscritas: "Sec. War: Reply to your 41011. Suggestions approved. Release when ready, but not sooner than August 2. HST." Na sua crua simplicidade, ali estava a transcrição de uma das decisões mais marcantes do século XX. Vê-la constituiu um choque, até pela frieza da linguagem, e obrigou-me a revisitar o processo que levou à tomada da decisão, colocando-me a questão: o que teria feito no lugar de Truman?A decisão foi tomada no final de Julho de 1945, numa altura em que a guerra na Europa terminara após batalhas apocalípticas que chegaram até ao coração de Berlim, mas a luta continuava feroz no Pacífico. Os Estados Unidos, com o apoio do Reino Unido e do Canadá, tinham acabado de desenvolver uma nova arma cuja potência surpreendera até os seus criadores quando fora testada num deserto do Novo México, a 16 de Julho. Truman, reunido com Churchill e Estaline em Potsdam, era um "novato" nas funções. Até Abril desse ano a condução da guerra estivera inteiramente nas mãos do Presidente Roosevelt e o "campónio" que ele escolhera para vice-presidente fora deixado na ignorância do que era mais crítico. Até do desenvolvimento da arma atómica Truman só tomara conhecimento após a morte de Roosevelt e durante os primeiros briefings que lhe foram feitos depois de se mudar para a Casa Branca. Muitos pensavam que não estaria à altura de conduzir o país na guerra e ainda hoje se especula sobre se Roosevelt teria tomado a decisão de ordenar o bombardeamento de Hiroxima e Nagasáqui. Para podermos avaliar a decisão de Harry Truman não podemos partir do que hoje sabemos sobre as consequências do bombardeamento ou sobre o estado de exaustão do Japão, mas sim sobre aquilo que os aliados sabiam. Também não devemos analisar a decisão com os olhos de sociedades que vivem em paz há 60 anos, mas tentando compreender o clima e as pressões a que se está sujeito quando se enfrenta uma "guerra total".Esta última questão faz uma enorme diferença. A II Guerra Mundial não é comparável com nada do que sucedeu antes ou depois. Foi a carnificina absoluta, a guerra levada a todos os limites, o combate para onde os soldados partiam sabendo que o mais certo era não regressarem, a luta que mobilizou tudo, mas tudo, o que as diferentes nações tinham para dar. Havia a noção de que se lutava pela sobrevivência, o que permite assumir o derradeiro sacrifício nos campos de batalha e, também, aplicar ao adversário os golpes mais duros e cruéis, numa lógica embrutecida pela dor e pela violência. É que, como escrevia sábado passado no The Guardian o historiador Max Hastings, "a utilização da arma "absoluta" reflecte a lógica inexorável da guerra absoluta".Em Julho, quando esperava por Estaline em Potsdam, Truman aproveitara para ir ver as ruínas de Berlim e aquilo que viu marcou-o profundamente. Da cidade que contara quatro milhões de habitantes não restava nada de pé, os seres humanos que avistara eram sombras exiladas na sua própria cidade, sobrevivendo em buracos, esfomeados e esquálidos. E Berlim estava assim porque Hitler não capitulara, deixando que a luta chegasse até às ruas em redor do bunker da Chancelaria, onde se suicidaria. Teria a guerra, levada ao solo do Japão, de repetir o mesmo padrão, de reviver o mesmo Armagedeão?Em Julho Truman também tinha bem presente a batalha de Okinawa. Doze mil soldados americanos tinham morrido para conquistar a ilha, enfrentando nuvens de kamikazes, assim como 200 mil japoneses, entre militares e civis, muitos apenas para não se renderem, e a ferocidade dos combates surpreendera até os veteranos da guerra no Pacífico. Como seria quando os marines desembarcassem no Japão para enfrentar os corpos principais do exército nipónico, que construía defesas na zona escolhida para a invasão?Após dezenas de milhões de mortos - é muito difícil imaginar o que significa "milhões de mortos" nestes dias em que se contabilizam as baixas uma a uma -, a pressão que caía sobre os ombros de Truman era a de acabar com a guerra o mais depressa possível. Isso implicava a rendição incondicional do Japão nos termos do ultimato firmado pelos três líderes reunidos em Potsdam. Truman repetiu até morrer que nunca teve qualquer dúvida em utilizar a arma atómica e hoje muitos historiadores consideram que a sua decisão foi uma não-decisão: tudo estaria já predeterminado e só a rendição japonesa teria evitado Hiroxima.E por que é que se pode assumir que tudo estava predeterminado? Primeiro, porque o investimento colossal feito no desenvolvimento da arma atómica, mobilizando recursos tremendos numa altura em que todos os recursos eram escassos para os esforços de guerra na Europa e no Pacífico, não autorizava que um Presidente não tirasse partido da nova arma. Depois, porque a perspectiva de levar o combate ao interior do Japão, revivendo as campanhas europeias em condições que se temiam muito mais brutais, cruéis e exigentes em vidas humanas, aterrorizava até as chefias militares. Por fim, porque já se assistira na Europa ao que significava permitir aos russos desempenharem um papel decisivo na guerra, temendo-se que a sua ofensiva no Oriente, que estava iminente, levasse a uma repetição de Yalta. Se Truman acreditava que a utilização da bomba atómica poderia levar o Japão a capitular, algo que meses de bombardeamentos e de bloqueio não haviam conseguido - e tudo indica que acreditava -, então agiu em conformidade. Até porque o prolongamento da guerra teria efeitos muito mais devastadores em vidas humanas - quer para os japoneses, quer para os americanos, quer para os povos das zonas ainda ocupadas pelos exércitos imperiais, onde se estima que cada mês de prolongamento do conflito implicaria a morte de 250 mil a 400 mil civis. Não se avalia a justeza ou moralidade de uma decisão contabilizando mortes, pelo que deixei deliberadamente para o fim aquele que foi, na época, o argumento de Harry Truman. Mas isso não implica que não fosse sincero: o Presidente americano estava preocupado com as baixas americanas e sabia que entre os fanáticos japoneses havia muitos que acreditavam que os Estados Unidos não resistiriam ao preço em sangue de uma invasão. Esses fanáticos estavam representados ao mais alto nível e os americanos até conheciam, graças à intercepção das mensagens cifradas, as divisões mesmo entre os seis membros do núcleo duro do poder. No final, mesmo depois das duas bombas, mesmo quando milhões de soldados russos se lançaram ao assalto da Manchúria, esses seis homens estavam divididos: três queriam continuar a guerra, três queriam capitular. Foi o Imperador que desempatou, e fê-lo afirmando que mesmo que o seu povo quisesse continuar a morrer em seu nome, ele não aceitava que se prolongasse uma luta sem esperança e de imenso sofrimento. Mal a notícia chegou a Washington, Truman mandou suspender os preparativos para o lançamento da terceira bomba, e há testemunhos de que o fez com alívio. De então para cá nunca mais outro chefe de Estado teve de optar entre horrores tão igualmente imensos, e mesmo sendo difícil compreender toda a tensão da época, julgo que o historiador John Lewis Gaddis tem razão no seu livro We Now Know: "As armas nucleares forçaram militares e estadistas a reflectir sobre como utilizá-las, mas a II Guerra Mundial foi o último grande conflito que foi resolvido de acordo com o velho paradigma que não distinguia entre a utilidade e o poder destrutivo do armamento. Nesse contexto, a decisão de utilizar a arma atómica fez sentido."
"

Eu teria feito o mesmo.