"
O Sociólogo-Poeta Boaventura Sousa Santos Sábado, 04 de Dezembro de 2004
%Maria Filomena Mónica
No último mês de Agosto tive uma revelação. Descobri que, nos seus tempos livres, o Prof. Sousa Santos é, ou foi, poeta. Muitos de nós - por sorte escapei à regra - escreveram versos durante a adolescência, os quais, atingida a idade adulta, eram geralmente deitados para o lixo. O mesmo não o fez o Sociólogo-Mor do Reino, Prof. Boaventura Sousa Santos. Tendo publicado a sua poesia, em 1964, sob o nome de Boaventura de Sousa, decidiu reincidir, em 1980, num livrinho intitulado "Têmpera", o qual surpreendentemente não faz parte do farfalhudo "curriculum vitae" que aparece na Internet.
Ainda pensei em fazer uma análise pseudo-laudatória, usando a linguagem críptica de alguns críticos literários, mas, não fosse alguém tomar a paródia a sério, acabei por desistir, oferecendo, em vez disso, excertos destas jóias líricas. No livro, publicado pela Centelha, há um pouco de tudo, desde recordações da educação católica (ver "Cravo Mal Temperado-I) a poemas pseudo eruditos (ver "Novo Mundo") passando por dislates incompreensíveis (ver "Cravo Mal Temperado-II).
Os poemas mais canhestros, mas os mais cómicos, são os de natureza erótica. Começo por citar uma estrofe retirada de "Labirinto": "...e muitas vezes sou um rego d'água/ a beber as raízes do teu corpo de nogueira". Do mesmo poema, leia-se: "A rua retesada/ guarda todos os sinais/ (...) faz parte deste tiro/ estar no alvo/ e retirar-se/ faz parte desta gota/ ser a taça e alagar-se/ faz parte deste cisma/ ter entranhas e sujar-se/ faz parte deste coito/ estar a um canto a masturbar-se". Existem muitos outros poemas, simultaneamente pretensiosos e indigentes, como o "Material de Construção", o qual abre com as seguintes linhas: "Desmamaram-se virgíneas tetas/ e os limões ali cheirando/ que da Ilha dos Amores saíram/ e do silêncio" ou o "Ode à Infância", onde surgem estrofes como " ...nas ruínas do ciclone de quarenta/ trabalho manuais sem mestre nem montra/ entram chefes guerras caracóis/ tesouras e pauzinhos/ nas rachas das meninas/ na catequese é em coro/ e em filas/ no escuro dos intervalos/ medem-se as pilas/ Boaventura tens quebranto/ dois te puseram três te hão de tirar/ se eles quiserem bem podem/ são as três pessoas da Santíssima Trindade...". Que tal?
Homem feito, Boaventura Sousa Santos ainda se orgulha da sua escrita adolescente. Num país onde não existe uma única revista de livros, a coisa passou desapercebida. Até eu levei décadas a dar com ela. Mas, ao fazê-lo, fiquei de boca aberta. Cem anos depois de Cesário Verde ter transformado a poesia portuguesa, o sociólogo de Coimbra ousava oferecer ao público uma série de poemas primários, possidónios e indecorosos, sem que ninguém - a editora, a crítica, os familiares - o tivesse caridosamente prevenido do perigo do gesto. Nos salões pequeno-burgueses do centro do país, estas coisas ainda devem ser apreciadas. Para vergonha do país. Sem ideia, sem originalidade, sem cor, a sua poesia nada exprime. Pasmada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. Fala do perfume quebradiço das glicínias entre a tarde manifesta de Abril, onde o povo prepara o jantar nas folhas de auroras jacobinas e onde alguém escreve guerras contra a gritaria melada duma coca-cola morta. Que Diabo quererá dizer isto? Quando muito, o autor pretende dar lustre aos entediantes trabalhos com que, por esse mundo fora, anda a ganhar o pão de cada dia.
Mas que esperava eu encontrar naquele volumezinho descoberto, entre o pó, numa tarde de Verão? Não deveria saber que o mais certo era deparar-me com as delícias, delíqueos e delírios que agitam os arcaicos cérebros de Coimbra quando lambuzados com o verniz dos crânios que se passeiam por Wisconsin? Em 1871, na sua primeira "Farpa", Eça de Queiroz escrevia que, na literatura nacional, havia uma santa distribuição do trabalho: no final, o autor recebia a condecoração de Sant'Iago, o editor ficava com as perdas financeiras e o leitor entediava-se. Foi isto - ou pelo menos a primeira parte - que, em 1996, aconteceu a Boaventura Sousa Santos, quando o então Presidente da República, Mário Soares, lhe colocou no peito a medalha de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago de Espada. Se o leitor quiser conhecer melhor a alma do homenageado, mais não tem do que ir a um alfarrabista, onde encontrará facilmente resmas atrás de resmas da sua obra poética. Mesmo que, como eu, pertença ao sexo feminino, nada tem temer. Que eu saiba, o Prof. Sousa Santos jamais foi acusado de assédio sexual. Os seus devaneios destinam-se tão-só a fazer corar as meninas das aldeias.
Estava eu a meditar nos seus poemas, quando, ao entrar numa livraria, descobri dois manuais do 12º ano, um, intitulado "Sociologia", e outro, "Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social", redigidos por professores do Ensino Secundário, mas ambos com "a participação do Prof. Dr. Boaventura Sousa Santos". No seu conhecido estilo, eis o que o catedrático diz no prefácio ao primeiro livro: "A aprendizagem de uma disciplina como a Sociologia, disciplina pouco codificada e em grande medida devedora de uma 'pedagogia do silêncio' - do 'faz como eu' - necessita do empenhamento dos professores numa prática de pedagogia activa, através da qual se familiarizem os estudantes com uma forma de conhecimento da sociedade que, no essencial, é uma forma de educação para a cidadania". Temendo não ter sido claro, acrescentava: "Partindo deste manual, os docentes podem fomentar a capacidade de espanto e mesmo de indignação, elementos que em meu entender devem estar no cerne de um projecto educativo adequado ao tempo presente. Trata-se de um projecto orientado para combater a trivialização do sofrimento, por via da produção de imagens desestabilizadoras a partir do passado concebido não como fatalidade, mas como produto da iniciativa humana. Um passado que, tendo opções, não optou pelas que evitariam o sofrimento que foi e continua a ser infligido a grupos sociais tão vastos, em todo o mundo, e à própria natureza" (sublinhados meus). Que tal como introdução a uma disciplina supostamente científica? Não perceberão os docentes, os pais e os cidadãos que esta prosa, altamente ideológica, corresponde à agenda política de alguém que, provindo da Direita católica, se converteu, após o 25 de Abril, num dos arautos do Movimento Anti-Globalização? Desnecessário é mencionar o segundo prefácio, uma vez que, na essência, é igual ao primeiro.
Mas vale a pena analisar o seu mais recente livro, "Conflito e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique", um texto com ambições, escrito, como de costume, de parceria com um exército de assistentes universitários. Após a adopção do relativismo cultural nos 1960, muitos sociólogos adoptaram uma posição romântica, declarando, à Rousseau, que os "selvagens" eram, pelo menos, tão "bons" quanto nós. Foi uma reviravolta com consequências imprevisíveis. A incapacidade em afirmar a superioridade das tradições culturais do Ocidente contribuiu fortemente para a complacência com que muitos dirigentes do Terceiro Mundo, alguns deles criminosos, passaram a ser encarados.
Boaventura Sousa Santos transformou-se, nos finais dos anos 1970, num influente consultor jurídico dos governos dos PALOP (Angola, Moçambique e Cabo Verde). Subsidiado por organizações supostamente respeitáveis, tem feito dezenas de trabalhos em África, mas as suas investigações estão longe de ser neutras. Basta notar o plural do título, "Justiças", para nos apercebermos do preconceito subjacente aos seus trabalhos. Diante do silêncio dos professores de Direito - os quais temem criticar alguém que se refugiou numa disciplina por eles considerada esotérica - Sousa Santos tem vindo a legitimar práticas menos felizes. Não, nem tudo se equivale. Há sociedades mais iguais, mais livres, mais dignas do que outras. Sei que, se optar pelo caminho do adultério, jamais serei apedrejada em Portugal. O mesmo não me podem garantir as sociedades onde funcionam "as justiças" locais.
Não vou citar, com profusão, o que Prof. Boaventura Sousa Santos escreveu, porque isso só serviria para afastar os leitores. A fim de poderem, todavia, ficar com um gostinho do género, eis uma frase do início: "Neste capítulo, concentramo-nos numa questão específica: as relações entre o Estado e a pluralidade de direitos que, reconhecidos ou não oficialmente, regem os conflitos e a ordem social. Apesar de o paradigma normativo do Estado moderno pressupor que em cada Estado só há um direito e que a unidade do Estado pressupõe a unidade do direito, a verdade é que, sociologicamente, circulam na sociedade vários sistemas jurídicos e o sistema estatal nem sempre é, sequer, o mais importante na gestão normativa do quotidiano da grande maioria dos cidadãos". Pode parecer uma afirmação factual. Mas, subjacente a este olhar, está o desejo de legitimação de práticas legais "alternativas", com raiz numa espécie de colonialismo invertido. Segundo esta corrente, a justiça dos brancos está manchada pelo pecado original do imperialismo; a dos nativos, porque mais genuína, é evidentemente melhor.
Ao longo dos séculos, os liberais têm louvado, e com razão, a importância do Estado de Direito. Podemos encontrar já elementos desta concepção no discurso que, no século V AC, Péricles fez em honra dos mortos da Guerra do Peloponeso. Eis o que Tucídides reproduziu: "Quando se trata de assegurar a solução de disputas privadas, todo e qualquer homem é igual perante a lei. (...) Somos livres e tolerantes no que diz respeito à vida privada; mas, no âmbito do espaço público, obedecemos à lei". A Civilização Ocidental é herdeira destas palavras. Não podemos, não devemos, menosprezar este legado.
Não se pense que o facto de, em anteriores ocasiões, ter criticado Boaventura Sousa Santos releva de uma qualquer obsessão, causada sabe-se lá por que rasteiros motivos. Se escolho a sua figura é por fazer ela parte da "Nomemklatura" sociológica, não só portuguesa (via Associação Portuguesa de Sociologia), mas internacional (através das "redes" em que actualmente está organizada a investigação). Não vale a pena criticar soldados quando temos à mão um general. Na luta, há que apontar à cabeça.
B. de Sousa Santos e J. Carlos Trindade (org), Conflito e Transformação Social: Uma Paisagem das Justiças em Moçambique, Lisboa, Afrontamento, 2003.
M. Luz Oliveira et alia, Sociologia: 12º Ano, Lisboa, Texto Editora, 2003.
M. João Pais et alia, Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social: 12º Ano, Lisboa, Texto Editora, 1998.
Boaventura de Sousa, Têmpera, Coimbra, Centelha, 1980 "
http://jornal.publico.pt/2004/12/09/Destaque/X05.html
" Marque-se Já Outro Fórum
Por AUGUSTO SANTOS SILVA
Sábado, 14 de Junho de 2003
O Fórum Social Português terminou sem ter ficado agendada segunda edição. Foi pena. É evidente a necessidade de aprendizagem dos hábitos de expressão pública e debate aberto entre os grupos que se reclamam do estatuto de organizações não governamentais e não partidárias e ambicionam a dimensão de movimento social. Ora, só se aprende tais hábitos praticando-os. Depois, esta primeira edição do fórum ressentiu-se manifestamente de problemas de organização e mobilização que, em parte, podem ser atribuídos ao facto de se tratar de uma iniciativa pioneira.
O motivo de maior preocupação não está, contudo, em não ficar já calendarizada a sequência, mas sim nas causas desse insucesso. Isto é, as profundas divergências sobre os objectivos políticos do fórum e a sua autonomia face às instituições, partidos e sindicatos incluídos. É sobre elas que é preciso travar uma discussão profunda.
Eu creio que os grupos sociais não só têm um lugar próprio na sociedade política contemporânea como são essenciais ao desenvolvimento da democracia. Ao contrário do que José Pacheco Pereira escreveu aqui, anteontem, não devem ser vistos como inimigos ajuramentados da democracia liberal, mas como seus aliados - como um dos antídotos que as democracias podem produzir e produzem contra a sua própria degenerescência, contra as tentações do monopólio dos aparelhos partidários e dos poderes tecnocráticos. E porque a democracia precisa de grupos e movimentos sociais, porque as instituições políticas se reforçam com a expressão plural de interesses e projectos emergentes de múltiplas posições do espaço social, é que as organizações e os fóruns que procuram reuni-las em plataformas mais visíveis e influentes têm de ser sujeitos a escrutínio crítico.
Não é possível fazê-lo sem recusar peremptoriamente o maniqueísmo vulgar entre supostos defensores dos fóruns cívicos, segundo o qual o mundo das ONG é necessariamente angélico e o mundo da democracia "formal" e do mercado é necessariamente diabólico. A cultura política "anti-sistema" é profundamente prejudicial ao enraizamento social e à utilidade política dos movimentos. A frase que os jornais atribuem a Boaventura de Sousa Santos, e que talvez tenha sido retirada de contexto, segundo a qual "se o voto mudasse alguma coisa já teria sido proibido", está errada, factual e doutrinariamente. Na verdade, não é possível sustentar, como faz o mesmo Boaventura, com o brilho que se lhe reconhece, que a democracia participativa não é antagónica mas sim complementar da democracia representativa, se forem negados os princípios fundamentais desta última.
A cultura anti-sistema existe e o movimento social de tipo novo de que precisamos tem de saber criticá-la e abandoná-la. Sempre que o tom geral dos discursos é de desapego à democracia, ou a confunde com dominação, ou vê "fascismo social" em todo o lado, deixamos de ter qualquer horizonte de renovação sociopolítica e vemos apenas o enésimo "travesti" dos grupúsculos pretensamente radicais.
Há, depois, no contexto português, outra ruptura a fazer, sem a qual nada progredirá. A ruptura clara e frontal com a lógica de controlo e instrumentalização partidária das organizações sociais. Neste fórum o problema foi especialmente visível no controleirismo do PCP. O truque do frentismo e a criação artificial de microorganizações para servir de antenas do partido ou de suas extensões para as "novas causas" são práticas deploráveis, que descredibilizam. O PC tem um tristíssimo registo neste domínio e não me parece possível qualquer graduação na federação de grupos sociais se não houver recusa expressa das organizações-satélites que o PC alimenta, para a "frente" da ecologia, da paz e cooperação, da juventude, das colectividades, e por aí fora. A questão da CGTP é, aqui, particularmente crítica: enquanto os seus dirigentes continuarem a aceitar a instrumentalização pelo comité central, nunca esse movimento sindical conseguirá ocupar o lugar que merece, pela sua representação e acção social.
Não podemos ficar condenados aos jogos florais entre a máquina comunista e a ala que mais activamente se lhe opõe nas assembleias e desfiles, e oscila entre os avatares do velho esquerdismo e a novidade mundana ou pitoresca. É também por isso que não consigo perceber a indiferença, ou total abulia, com que a maior parte da estrutura do Partido Socialista encara a arena da participação social e política não comandada pelos ciclos eleitorais nem organizada nessas máquinas eleitorais (aliás, cada vez mais vulneráveis a lógicas puramente pessoais) em que se transformaram coisas como secções de residência e comissões concelhias.
Nesta triste triangulação entre a instrumentalização comunista, o arcaísmo ideológico e cultural do velho esquerdismo e a sonolência dos partidos ditos institucionais (sim, porque o que disse do PS também se aplicaria ao PSD, se acaso quisesse dar algum significado concreto à sua pretensão de ser liberal e reformista), manifestam-se alguns dos mais duradouros factores de bloqueamento da cultura e da prática política em Portugal. Uma coisa é, contudo, certa: nenhum deles se ultrapassa sem que os actores políticos percebam que não podem perder as pontes de comunicação com os temas e as organizações que fazem a agenda social e sem que os actores sociais clarifiquem totalmente se se situam fora ou dentro da democracia política.
Eu voto por que se caminhe no sentido dessa ultrapassagem. Por que as causas dos direitos humanos, da igualdade de género, do fim das discriminações fundadas na orientação sexual, do acolhimento dos migrantes, do respeito pelas minorias étnicas, da promoção do comércio justo, da defesa do ambiente, e tantas outras, e que os movimentos de alterglobalização, solidários e mutualistas, anti-racistas, ambientalistas, de minorias sexuais, etc., etc. se incluam e sejam incluídos no quadro da vivência e do desenvolvimento das democracias. Interpelem os partidos, as ideologias, as dicotomias herdadas, os poderes fácticos, os pensamentos e modelos únicos, as hegemonias ilegítimas, não enquanto portadores da verdade nem como guardiães de ortodoxias, mas como parte do espaço público das sociedades contemporâneas.
Vamos então marcar o segundo fórum?
"
http://www.forumsocialportugues.net/pipermail/fsp-info/2003-June/001663.html
" A frase que os jornais atribuem a Boaventura de Sousa Santos, e que talvez tenha sido retirada de contexto, segundo a qual "se o voto mudasse alguma coisa já teria sido proibido", está errada, factual e doutrinariamente "
1 - " A frase que os jornais atribuem " - Os jornais atribuem. Há sempre a hipotese de ele nunca ter dito o que disse.
2- Se realmente "talvez tenha sido retirada do contexto" parece-me que Augusto Santos Silva nao se esforçou por a contextualizar. Qual foi o contexto entao?