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Deus, Língua e Integração Por GRAÇA FRANCOSegunda-feira, 13 de Dezembro de 2004
Que Deus o abençoe! "Sir". Alguém consegue imaginar um sargento português a despedir-se assim do oficial estrangeiro com quem trabalhou uns meses e está de regresso à Pátria? Alguém imagina esta despedida proferida por um homenzarrão na casa dos quarenta para outro na casa dos vinte? Não? Pois eu ouvia, há quinze anos, da boca do sargento Smith na hora de deixarmos a Fort Lee. Na altura não se falava de nenhum surto evangélico, nem de uma perigosa conspiração de fanáticos a querer mandar no mundo em nome de um Deus milagreiro do qual se sentiriam enviados. A noção de "neo-conservadores " era totalmente desprovida de sentido. Muito provavelmente o sargento Smith teria três casamentos e quando muito uma rotineira prática católica ou protestante. Ou nem isso. Nunca averiguei.
Hoje imagino o risco de impacto de uma frase destas se ouvida por um qualquer jovem repórter europeu para quem a noção de Deus - pela via da descristianização do continente - se tornou quase desconhecida. Destes novatos sem memória histórica, que proliferam nas redacções de todo o mundo. Talvez lhe chamasse um figo para provar a tese de um perigoso domínio avassalador da "religião", no próprio Exército (!), ao serviço dos mais obscuros intentos dos "neo-C"
Há quinze anos Bush pai ainda nem sequer tinha derrotado o senhor Dukakis.
Apesar disso, já no Exército como em toda a sociedade americana, a presença do Deus ( Aquele em que a América confia, mesmo antes de confiar na própria América), o Deus inscrito nas notas de dólar era infinitamente mais comum do que na Europa.
O Deus, que o sargento pedia para nos abençoar na viagem de regresso, era o mesmo Deus cuja evocação abria e encerrava a maioria das actividades sociais do Forte. Oficiado, à vez, pelos vários pastores protestantes ou pelo sacerdote católico, de acordo com a simples escala de serviço. Simultaneamente omnipresente e discreto. Nunca evocado por intermédio de sua mãe, não fossem escandalizar-se os protestantes, nem sequer através do Pai Nosso de uso restrito ao cristianismo. Um Deus comum criador de todos os homens (a lembrar a noção infantil de "Pai do Céu") Repetidamente evocado para que " olhe por nós e pelas nossas famílias" e até, imagine-se, pelas nossas "armas".
A esse Deus, prestava-se culto, naquela quase cidade de Fort Lee, numa multiplicidade de espaços. Na grande Igreja protestante ( onde se me não falha a memória, Luteranos, Baptistas, Episcopalianos - evangélicos também? - partilhavam horários desfasados para os respectivos serviços) ou na pequeníssima capela católica onde o meu filho mais velho foi baptizado. Cristo-cientologistas e outras seitas, a somar a judeus e muçulmanos, teriam certamente também espaços próprios para oração. As necessidades de cada um, eram vistas com compreensão pela comunidade militar que, aos recém-chegados, fornecia horários e telefones de grupos de catequese, reflexão e voluntariado diverso para facilitar uma integração total.
Era assim na Virgínia, e continua a ser em qualquer micro-cosmos americano por esse mundo fora. Numa base em Bitburg (Alemanha),há apenas uma pequena capela e a eucaristia católica inclui, logo no cortejo de entrada, as imagens que vão decorar o espaço durante a missa. No final, elas recolhem de novo à sacristia porque os protestantes não celebram na sua presença. Muitas famílias onde o diálogo inter-religioso é também intra-familiar, dividem-se pelos vários ofícios.
Neste ponto, como classificar o Estado Americano à luz, por exemplo, da definição, ontem aqui trazida pelo primeiro-ministro francês Pierre Raffarin, onde laicidade é entendida " não como hostilidade nem indiferença face às religiões" mas tão só como " o regime que permite o exercício total da liberdade de consciência e da liberdade religiosa". Será a América " confessional" ou apenas e tão só o verdadeiro Estado laico ?
E a França, que proíbe o "uso ostensivo de símbolos religiosos em espaços públicos (quaisquer que eles sejam )", comportar-se-á tão só como um estado laico ou, pelo contrário, como um verdadeiro estado confessional que professa a religião de Estado do não - Deus?!
Penso nisto a propósito da sensível questão da integração das minorias emigrantes que domina actualmente o debate em França com o pretexto próximo da abertura das negociações de adesão à Turquia (70 milhões de habitantes, a quase totalidade muçulmana). Esta semana ela vai estar, sobre a mesa dos 25 na próxima cimeira Europeia e volta a relevar a questão religiosa das relações entre o Islão e a Cristandade.
Também na América o tema começa a colocar-se com teses tão polémicas quanto as de Samuel P. Huntington que, depois de desassossegar o mundo com as suas ideias sobre um " possível choque de civilizações", decidiu repetir a dose com um novo escrito sobre a identidade norte-americana, "Who Are We?"- The Challenges to America's National Identity
Até há bem pouco tempo gente como eu diria que esta perfeita tolerância religiosa era parte integrante da identidade americana. Isso com aquele uso generalizado do inglês comum (de mil sotaques e pronúncias, orgulhosamente atropelado a cada esquina por hispano-afro-asiatico-americanos). Essa mistura única de culturas, onde ninguém se sente estrangeiro porque o americano "puro" não existe. Eu, em seis meses, nunca conheci nenhum!
Na Europa, onde vivi muito mais tempo, mesmo um europeu é fácil sentir-se estrangeiro. Pode-se aderir de alma coração ao país de acolhimento, mas qualquer coisa geneticamente nos distingue. Os nórdicos e os sulistas, os ricos e os pobres, os de leste e de oeste. Com destaque para a língua. Talvez por isso a nossa união é uma mera união de Estados e não uns Estados-Unidos.
Mas, o mundo está a mudar... Imaginam os americanos a fazer este tipo de considerações? Pois fazem! Huntington está claramente preocupado com as consequências da mexicanização da Califórnia. É mesmo acusado pelos seus detractores de inventar uma pretensa identidade fundacional, reduzindo-a à hoje minoritária comunidade branca de origem e cultura anglo-protestante.
Se Huntington tivesse lido Pessoa e meditado naquela pequena frase que tantas vezes já aqui glosei " a minha Pátria é a língua portuguesa!" talvez a sua mais recente e polémica tese sobre a verdadeira identidade americana fosse substancialmente diferente. A ideia de língua sobrepõe-se, com vantagem, à da religião. Quem não se dispõe a abdicar da língua de origem está, de facto, a abdicar de fazer parte do todo em que, no fundo, está a recusar integrar-se. Está a expandir o seu mundo, a exportá-lo, mas não está a construir "o mundo novo" tão próprio do american dream. Nessa linha, quando a população hispânica, que hoje constitui a maioria da população da Califórnia, insiste em falar espanhol ignorando o inglês (comprovei-o abundantemente em S. Diego!) exigindo a consagração do espanhol para uso oficial, está realmente a ameaçar a unidade americana. Mas isso não resulta da sua pretensa catolicidade, resulta sobretudo da sua assumida hispanização. As velhas teses de Max Weber, aparentemente revisitadas pelo polémico professor de Harvard, estão muito provavelmente ultrapassadas, as do nosso Pessoa, estão mais actuais do que nunca.
Claro que no reverso da medalha está também a questão da adopção do inglês como língua universal e ninguém como os franceses percebem bem o risco inerente (é delirante a argumentação para o uso do francês como "língua jurídica"!). A escolha de Barroso por falar francês é paradigmática. Esta semana a França deu mais um passo no reconhecimento da importância da língua como factor identitário e de integração. O ministro do Interior, Dominique de Villepin, defendeu que os imãs que ensinam o Islão em França e os seus jovens aprendizes, sejam forçados a "falar francês" e a estudar, em paralelo com a sua formação teológica, "direito, história de França e das Instituições, e formação cívica em Universidades francesas.
Perante o "Conselho francês do culto muçulmano" o ministro defendeu a necessidade de dar a par da formação religiosa a formação profana, considerando a medida essencial para acabar com o chamado "Islão das caves", ou seja, uma religião de gheto e vão de escada para uma fatia cada vez maior da população francesa que, no desconhecimento da língua ( 75 por cento dos imãs não são franceses e um terço desconhece a língua), encontra campo fértil para a ghetização. Esta aparente medida de bom senso só peca por tardia mas, ainda assim, poderá vir a mostrar-se uma arma importante de integração, contra a radicalização, a discriminação e até no eficaz combate ao terrorismo. "
http://jornal.publico.pt/2004/12/13/EspacoPublico/O01.html

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