" O Peso das Identidades Terça-feira, 23 de Novembro de 2004
Se a religião é o refúgio para identidades que se excluem, como conseguir que as identidades se aceitem na diferença das suas crenças?
No gélido Dezembro de 1995, quando em Sarajevo circulava entre ruínas e procurava relatos do longo cerco, deparei com estranheza numas ambulâncias com um nome que pouco tinha a ver com as línguas eslavas dos Balcãs: "La Benevolencia". Curioso, descobri que pertenciam a uma associação de beneficência judia. A explicação para o nome surgiu então com naturalidade: os poucos judeus que restavam em Sarajevo tinham mantido, ao longo dos séculos, a sua língua de origem, parecida com a que se falava na Península Ibérica de que haviam sido expulsos há cinco séculos, o ladino. E quando Jacob Finci, o meu interlocutor, pronunciou algumas palavras reconheci nelas uma estranha mistura de português e castelhano antigos.
Lembrei-me deste episódio ao ler a entrevista de Amin Malouf na última "Pública". Lembrei-me quando ele defendia que a "guerra civil mundial" em que parece já termos entrado, este "choque de civilizações" que diz ter passado a vida a tentar evitar, se devia em boa parte às comunidades procurarem a sua identidade na religião, pois "não estão integradas na sociedade".
Para que a integração seja possível - para que não surjam antes as "identidades assassinas" a que este escritor de origem libanesa dedicou um dos seus livros -, sugere que se evite a segregação urbana das comunidades, que ao mesmo tempo que se exige ao imigrante que aprenda a língua do país que o acolhe, se ensine aos seus filhos a sua língua de origem. No fundo, que se permita que não se forme um sentido de comunidade que exclui as outras comunidades e os que chegam à Europa, por exemplo, possam encontrar formas de se diferenciarem e manterem a sua identidade cultural não só através da língua mas também das identidades culturais e mesmo assim consigam não ser olhados de lado.
O equilíbrio manter-se-á seguindo regras como as que Malouf propõe. A de que "o imigrante deve promover elementos da sua cultura mas, ao mesmo tempo, absorver elementos da cultura dos país onde escolheu viver", sendo que "uma sociedade secular não pode aceitar nenhum tipo de mistura entre religião e política". O que é que isto significa e como é que isto se faz? Talvez valha a pena olhar para dois modelos extremos e opostos, o francês e o americano.
Em França a recusa da "mistura" faz-se pela recusa da religião, obrigada não apenas a ficar à porta da política, mas à porta de todos os espaços públicos. A recente querela do véu e dos "símbolos religiosos ostensivos" é disso uma manifestação. É uma recusa de "mistura" herdada do ateísmo anti-religioso da revolução francesa.
Já nos Estados Unidos a recusa da "mistura" faz-se na aceitação de todas as religiões - até porque na América a liberdade começou por ser religiosa antes de ser política. Faz-se pela aceitação do pluralismo das diferentes crenças, algo que torna possível que o primeiro país a proclamar a separação entre as Igrejas e o Estado se defina a si próprio como "uma só nação sob Deus" - um Deus que é dos cristãos, dos judeus, dos muçulmanos, dos de qualquer outra crença.
Cabe então perguntar: se desejamos que as crenças religiosas coexistam sem se transformarem em símbolos de identidades agressivas, será mais valioso exclui-las, à francesa, ou aceitá-las em pé de igualdade, à americana? Passear pelas ruas das suas cidades talvez nos ajude a encontrar uma resposta... José Manuel Fernandes "
http://jornal.publico.pt/2004/11/23/EspacoPublico/OEDIT.html

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