Um blog de Filipe Figueiredo

terça-feira, novembro 16, 2004

"O Que o Comunismo Ainda nos Pode Ensinar Por VACLAV HAVELSegunda-feira, 15 de Novembro de 2004
O 15º aniversário da Revolução de Veludo, em 17 de Novembro de 1989, que pôs fim a 41 anos de ditadura comunista na Checoslováquia, é uma oportunidade para ponderar sobre o significado do comportamento moral e da liberdade de acção. Hoje, vivemos numa sociedade democrática, mas muitos - não só na República Checa - ainda crêem que não são verdadeiros donos do seu destino. Deixaram de acreditar que podiam realmente influenciar os acontecimentos políticos e, ainda menos, influenciar o rumo que a nossa civilização está a tomar.
Durante a era comunista, muitos acreditavam que os esforços individuais para uma mudança não faziam sentido. Os líderes comunistas repetiam constantemente que o sistema era o resultado das leis objectivas da história, que não podiam ser postas em causa e, pelo sim pelo não, quem recusasse esta lógica era punido.
Infelizmente, a maneira de pensar que suportava a ditadura comunista não desapareceu completamente. Alguns políticos defendem que o comunismo caiu sob o seu próprio peso - uma vez mais, devido às "leis objectivas" da história. De novo, a responsabilidade e as acções individuais são relegadas para segundo plano. O comunismo, segundo dizem, era apenas um dos becos sem saída do racionalismo ocidental, por isso, bastava esperar passivamente que caísse.
Essas mesmas pessoas tendem a acreditar noutras manifestações de inevitabilidade, como as alegadas leis do mercado e outras "mãos invisíveis" que gerem as nossas vidas. Como nesta forma de pensar não existe muito espaço de manobra para a acção moral individual, os críticos da sociedade são muitas vezes ridicularizados e rotulados de moralistas ingénuos ou elitistas.
Talvez esta seja uma das razões pelas quais, passados 15 anos da queda do comunismo, se assiste novamente a uma apatia política. A democracia é cada vez mais um mero ritual. Em geral, ao que parece, as sociedades ocidentais estão a passar por uma certa crise da democracia e da cidadania activa.
Também se poderá dar o caso de estarmos apenas a testemunhar uma mudança de paradigma, causada pelas novas tecnologias, e de não precisarmos de nos preocupar. Mas talvez o problema seja mais profundo: as empresas globais, os cartéis da comunicação social e as poderosas burocracias estão a transformar os partidos políticos em organizações cuja principal tarefa deixou de ser o serviço público para passar a ser a protecção de clientelas e interesses específicos. A política está-se a tornar num campo de batalha de "lobbistas"; os "média" trivializam problemas sérios; frequentemente, a democracia parece mais um jogo virtual para os consumidores, do que um assunto sério para cidadãos sérios.
Quando sonhávamos com um futuro democrático, nós, os dissidentes, certamente que tínhamos ilusões utópicas e hoje temos plena consciência disso. No entanto, não estávamos errados quando argumentávamos que o comunismo não era um mero beco sem saída do racionalismo ocidental. A burocratização, a manipulação anónima e a ênfase no conformismo das massas foram levados até à "perfeição" pelo sistema comunista. Porém, algumas dessas ameaças continuam a existir actualmente.
Nessa altura, já tínhamos a certeza de que, se a democracia fosse esvaziada de valores e reduzida a uma competição de partidos políticos com soluções "garantidas" para tudo, poderia ser bastante anti-democrática. Era por isso que dávamos tanta importância à dimensão moral da política e a uma sociedade civil activa enquanto contrapeso aos partidos políticos e às instituições do Estado.
Também sonhámos com uma ordem internacional mais justa. O fim do mundo bipolar representava uma grande oportunidade para tornar a ordem internacional mais humana. Em vez disso, assistimos a um processo de globalização económica que escapou ao controlo político e, consequentemente, está a causar a ruína económico bem como a devastação ecológica em muitas partes do mundo.
A queda do comunismo foi uma oportunidade para criar instituições políticas globais mais eficazes com base nos princípios democráticos - instituições essas que poderiam ter impedido o que parece ser, na sua actual forma, a tendência auto-destrutiva do nosso mundo industrial. Se não queremos ser controlados por forças anónimas, os princípios da liberdade, igualdade e solidariedade - os fundamentos da estabilidade e da prosperidade das democracias ocidentais -, têm de começar a funcionar a nível global.
Sobretudo, é necessário - tal como foi durante a era comunista - não perdermos a fé no significado de centros alternativos de pensamento e acção cívica. Não nos deixemos manipular, acreditando que as tentativas para mudar a ordem "estabelecida" e as leis "objectivas" não fazem sentido. Vamos tentar construir uma sociedade civil global e insistir na ideia de que a política não é apenas uma tecnologia de poder e que tem de ter uma dimensão moral.
Ao mesmo tempo, os políticos dos países democráticos têm de pensar seriamente nas reformas das instituições internacionais, porque necessitamos desesperadamente de instituições que tenham a capacidade de governarem realmente a nível global. Poderíamos começar, por exemplo, com as Nações Unidas, que, na sua actual forma, são uma relíquia da situação imediatamente posterior à II Guerra Mundial. Não reflectem a influência de algumas das novas potências regionais ao mesmo tempo que equiparam de forma imoral países cujos representantes são democraticamente eleitos com outros cujos representantes apenas se representam a si próprios ao às respectivas "juntas", na melhor das hipóteses.
Nós, europeus, temos uma tarefa específica. A civilização industrial, que actualmente invade o mundo inteiro, teve origem na Europa. Todos os seus milagres, como as suas terríveis contradições, podem ser explicados como consequência de um sistema que teve início na Europa. Assim, a união da Europa deveria constituir um exemplo para o resto do mundo sobre a melhor forma de o enfrentar os vários perigos e horrores que nos cercam hoje.
De facto, esta tarefa - que está intimamente ligada ao sucesso da integração europeia - seria a completa realização do sentido europeu de responsabilidade global. E seria uma estratégia bem melhor do que culpabilizar a América por todo e qualquer problema do mundo contemporâneo.
Antigo Presidente da República Checa
Exclusivo Público/Project Syndicate "







" O Vencedor Americano Por MÁRIO PINTOSegunda-feira, 15 de Novembro de 2004
Nos variadíssimos comentários à reeleição de George W. Bush para Presidente dos Estados Unidos da América ainda ninguém tocou num dos aspectos mais significativos para a actual sociedade mediática: Bush ganhou, e com uma votação história, depois de mais de quatro anos em que teve contra ele uma fatia substancial dos media norte-americanos e a esmagadora maioria dos media internacionais. Para além da televisão "FOX News" e dos jornais "Wall Street Journal" e "Washington Times", quaisquer deles importantes mas longe dos lugares cimeiros dos media norte-americanos, a generalidade das TVs, jornais e rádios do panorama mediático nacional americano foi hostil a George W. Bush, mais ou menos declaradamente. Durante anos, televisões, rádios, jornais e sites na Internet repisaram a mensagem - que era suposto ser de fundo mas que pelos vistos acabou por não o ser: com George W. Bush na Casa Branca estava o perigo, a incompetência e a ignorância. E isto para falar apenas no território americano, porque no resto do mundo foram reservados epítetos bem menos simpáticos para o Presidente americano.
No mundo da política, da economia e da cultura contemporânea, modelado e globalizado pelos media, quer pelos media tradicionais, como as rádios e as televisões de cada país, quer pelos novos media, como a Internet e as televisões por satélite, Bush foi reeleito Presidente da hiperpotência mundial, contra esses mesmos media, diz-se, poder quintessencial do novo novo mundo; refere-se, que contra 80 por cento dos europeus e contra praticamente todo o resto do mundo. Num ambiente mediático global, num contexto constituído pelos media que existem em todo o lado - CNN, NBC, BBC, Al Jazeera, Le Monde Diplomatique, entre milhares de outros - Bush foi eleito contra o discurso geral, o sistema de valores e o conselho, desses mesmos media. Claro que no circuito mediático das costas Leste e Oeste norte-americanas, as áreas não apenas geográfica mas sobretudo politica e culturalmente mais perto do resto do mundo, se esperava que Bush não ganhasse. Ganhou e pode hoje dizer-se que George W. Bush é o primeiro Presidente americano que foi e é indiferente aos media - não recebe a simpatia nem é simpático em excesso, como é habitual, para os media, não governa para os media, etc. Os media retribuem: censuram-no, criticam-no, atacam-no.
Neste quadro, Bush fala directamente às pessoas e não aos media. Bush existe fora dos grandes media, é Presidente dos Estados Unidos, e porque está em todos os media não necessita de estar em nenhum em especial. Apelando à emoção, à intuição e ao instinto com que todos habitamos o quotidiano, Bush, tal como a Internet e os novos tempos globais e afogados em informação, desvaloriza a lógica, a profundidade e a linearidade. Na forma como fala, nas imagens populares, nas histórias simples dos bons e dos maus, nas frases abandonadas a meio, nas posições exageradamente extremadas, nos oceanos da informação e comunicação mediática, os telespectadores, ouvintes, internautas e leitores aceitam-no porque se trata de uma história, de um discurso e de uma presença que mais consistentemente corta a direito na ambiguidade, mantendo-se como já é, aproximando-se nas suas contradições, posições, exageros e fraquezas daquilo que eles mesmos, cidadãos comuns norte-americanos, são.
Os media obviamente apreciam a história da vitória de Bush. Apreciam-na tanto mais quanto eles mesmos, os jornais e as televisões de Nova Iorque e da Califórnia, os media mais influentes da América, desde sempre têm estado contra Bush. É precisamente esse facto que faz da reeleição de Bush uma boa história. Aliás, de um ponto de vista dos media, a questão que se coloca é a seguinte: porque não foi eficaz a mensagem passada durante meia década? Ou, talvez, qual foi efectivamente a mensagem que passou nos media durante os últimos anos, a qual, pelos vistos, fez com que George W. Bush fosse reeleito com uma das votações mais altas dos últimos anos na história dos EUA? Ou ainda, e colocadas as coisas de outra forma, que relação existe entre o discurso dos media e as opções que as pessoas, cidadãos comuns, tomam no seu dia-a-dia?
No actual ambiente hiper-mediático da tecnologia electrónica, a novidade, a inovação e a quantidade de histórias são o contexto da acção das pessoas comuns, marcado pela ambiguidade e pela surpresa em que sob o pano da informação se tem vindo a transformar o mundo. Nesse quadro da realidade, como se se tratasse de um quadro televisivo, os "sound bytes" capitalizam no facto de requerem um mínimo de tempo e de atenção para fazerem sentido. Sobre essa possibilidade, as mensagens curtas são as mais eficazes porque recuperam o passado e mobilizam a memória. Bush não terá apenas feito isso, mas antes ele deverá ser isso mesmo num mundo em que a Internet multiplicou por mil as vozes e as mensagens que nos envolvem. Os media continuaram obviamente, como continuam, a explicar, a contextualizar e a estar contra, mas no "teste da cerveja" - com quem o meu caro amigo do Ohio, do Tenesse ou do Mississipi prefere beber um copo - Bush, mesmo não bebendo..., continua à frente de Kerry.
O que se passou nas eleições norte-americanas questiona forma pertinentemente desenvolvimentos recentes sobre a influência dos media na formação da opinião dos eleitores. Nas últimas décadas foram abandonadas as teorias das décadas iniciais do século XX que sugeriam o poder quase ilimitado dos media sobre a opinião pública. Dos anos 1970 para cá, têm tido algum êxito teorias que se agregaram à volta da ideia do agendamento, isto é, da capacidade de os media estabelecerem a agenda da opinião pública e mesmo a dos políticos. De acordo com esta perspectiva teórica, os media não seriam capazes de estabelecer ou influenciar de forma determinante aquilo que as pessoas, os eleitores, os cidadãos comuns pensam sobre determinado assunto, mas teriam a capacidade de estabelecer os assuntos sobre os quais recairia a atenção, as conversas, as preocupações da opinião pública. Mais recentemente estava a ser recuperada a ideia original de que os media, sobretudo a televisão nos nossos dias, não apenas estabeleceriam os assuntos sujeitos a debate, sobre os quais os cidadãos se mostrariam interessados em falar, mas influenciariam também e de uma forma importante o tipo de opinião sobre esses mesmos assuntos. Ao destacarem determinadas características e não outras, ao apresentarem análises como factos, ao ligarem factos como uma história, os media podem de facto - e de alguma forma eles fazem sempre isso mesmo - ditar a forma como as pessoas pensam. Estes desenvolvimentos devem agora ser questionados à luz da reeleição de Bush, a qual não aponta para a irrelevância dos media, como é evidente, mas sim para a necessidade de se estudar e compreender o papel daqueles na sociedade pós-industrial e global contemporânea, bem como a intencionalidade e a complexidade das mensagens que promovem e despromovem. "








"O "Papa" Português do Século XX Por MÁRIO MATOS E LEMOSSegunda-feira, 15 de Novembro de 2004
Agora que se fala na possível eleição ao trono pontifício de um Cardeal português, o Patriarca de Lisboa D. José Policarpo, cabe recordar uma curiosa história no longínquo ano de 1914.
No dia 2 de Setembro desse ano, um jornal importante de Lisboa, o famoso O Mundo, publicava na primeira página, com grande relevo, a notícia de que o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Neto, fora eleito Papa. Sucederia, portanto, a Pio X. Um telegrama de Roma, assinado por "correspondente", dava a informação de que "o conclave, contra todas as previsões, ainda as mais optimistas, acelerou os seus trabalhos e elegeu papa o cardeal português José Neto" (sem D.). Mais do que com a eleição, o jornal - que fez várias edições nesse dia - congratulava-se por a eleição do Cardeal Neto, um franciscano, representar "uma derrota dos jesuítas". Como se sabe, muitos republicanos consideravam os jesuítas responsáveis por grande parte dos males que afligiam Portugal. A notícia - que até estava ilustrada por uma fotografia do "novo Pontífice" - espraiava-se depois em considerações várias sobre o conclave e sobre o próprio Cardeal.
Claro que, no dia seguinte, embora sem desmentir completamente o facto, O Mundo dizia: "Não há ainda confirmação da notícia, que inserimos na melhor das intenções. É inexacta? É falsa? É extemporânea, pelo menos? Será. O que podemos garantir, e ninguém de boa fé o duvidará, é que, se tal notícia publicámos, foi porque, dada a sua origem, ela não podia deixar de caracterizar-se de toda a autenticidade."
Qual era, então a origem da notícia que merecera a confiança do jornal e tanta sensação causara?
A história é contada por Joaquim Madureira (Braz Burity), no seu livro "As Desvirtuosas Malfeitorias" e tem a ver com a maneira como, há quase cem anos, os jornais procuravam as notícias.
Nesse tempo, os jornais faziam-se, no que às notícias do estrangeiro tocava, com os telegramas da agência Havas, precursora da France Presse, com a leitura dos jornais estrangeiros que chegavam de barco ou de comboio, já atrasados, portanto, e com as informações que os seus repórteres - que eram conhecidos no meio por rodrigues - procuravam obter nos Ministérios, recorrendo aos amigos mais ou menos altamente colocados.
Desde Fevereiro de 1914, que era Presidente do Ministério Bernardino Machado e seu chefe de gabinete Joaquim Madureira. Estava-se no começo da Primeira Guerra Mundial e a Presidência recebia cópias dos telegramas chegados a Lisboa, incluindo os que se destinavam ao jornal O Século, enviados de Paris por Almada Negreiros (pai do artista). Pelo gabinete passavam jornalistas e designadamente os repórteres da Capital (que era dirigida por Manuel Guimarães) e do Mundo, sucedendo que - conta Madureira - "um ror de vezes" se ter dado a coincidência de "o serviço telegráfico de O Século coincidir, linha a linha, telegrama por telegrama, patranha por patranha, com os serviços telegráficos de A Capital e de O Mundo". Resolveu então Joaquim Madureira pregar um a partida ao repórter do Mundo, de nome Lindórfio, e forjou um telegrama supostamente enviado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália para o embaixador em Lisboa, dando conta da eleição de D. José Neto ao trono pontifício. Lindórfio deu conta do telegrama e apesar de Madureira lhe ter dito que se tratava de um segredo diplomático cuja revelação podia provocar "alguma carrapata internacional" não resistiu a telefonar para o jornal a dar a noticia. Não tardaram a aparecer no Ministério dois dos mais conceituados jornalistas daquele diário, Mário Salgueiro e Urbano Rodrigues. Madureira, como que por descuido, não só deixou bem à mão a pasta onde estava o pretenso telegrama de Roma, como imaginou um telefonema de um sacerdote português a quem, em voz bem alta, confirmou a notícia, sempre pedindo grande confidencialidade. Não foi preciso mais. Salgueiro, Urbano Rodrigues e Lindórfio foram para o jornal e no dia seguinte os ardinas apregoavam por Lisboa inteira a grande notícia que o Mundo inseria na primeira página: "O Cardeal Neto eleito Papa".
Jornalista "