Um blog de Filipe Figueiredo

terça-feira, outubro 19, 2004

Pedro Lomba
Direita e esquerda
o seu último artigo do Público, Pacheco Pereira criticou uma intervenção minha no programa Prós e Contras sobre o tema direita/esquerda. Pacheco Pereira achou que eu «atrapalhei» qualquer distinção possível entre a esquerda e a direita, apenas porque me opus a uma suposta imutabilidade histórica - e a um suposto essencialismo - dos elementos com que habitualmente se explica a dicotomia. Depois, o próprio Pacheco Pereira aproveitou para escrever sobre o tema e o seu texto final é revelador de uma tendência: considerar ultrapassada a dicotomia esquerda/direita, aceitando apenas que alguém a use se reproduzir as velhas (e ultrapassadas) coerências do passado. É verdade que, nas suas colunas, Pacheco Pereira refere-se muitas vezes à esquerda, talvez por comodidade ou talvez porque saiba que não é de esquerda, embora tenha sempre uma enorme reserva em dizer o que é. Não venho discutir agora com Pacheco Pereira, até porque ele não concluiu a sua opinião sobre o assunto e ainda não explicou porque é que a dicotomia direita/esquerda é hoje dispensável e pouco clarificadora. Aliás, eu nem contesto que a dicotomia, entendida no seu falso apriorismo, seja inadequada ao debate político. A sondagem divulgada pelo Público confirma-nos que as democracias apagam as clivagens de autoconsciencialização e demarcação política. O voto teórico, de direita ou de esquerda, é raro e tende a diminuir. O centro despolitizado absorve tudo. Os eleitores parecem preferir uma espécie de issue politics e uma selecção competencial e personalizada dos políticos. Mas, quem afirma que a divisão direita/esquerda já não existe tem de dizer mais qualquer coisa. Para começar, tem de dizer que, fora da constituinte francesa de 1789, a esquerda e a direita não só não existem como nunca existiram. A dicotomia nasceu aí porque a direita queria dar ao rei o que a esquerda recusava: o poder de veto. Esta questão fundadora morreu, tal como morreram as que surgiram depois e nas quais a direita e a esquerda também se dividiram. Ou seja, a História da esquerda e da direita, aquele passado em que se pensa que a divisão existiu, está cheia de incoerências, inversões de posição, mudanças contraditórias. Tanto a esquerda como a direita foram já revolucionárias e anti-revolucionárias, individualistas e anti-individualistas, cristãs e anticristãs, utópicas e antiutópicas. A História, em Portugal e noutros países, prova isto muito bem. Esta incoerência não impediu que a dicotomia aparecesse e reaparecesse no discurso político, provavelmente mais no discurso político europeu do que no português. E porquê? Porque a divisão direita/esquerda tem uma função simbólica e filiadora dentro do debate político. Não há debate político sem afirmação de identidades políticas, sem a separação de um nós e eles. A construção dessa identidade é feita quase sempre pela negativa, a partir de uma certa ideia do adversário e do que emocionalmente se recusa. Antes de alguém ser de esquerda, tem aversão à direita (e vice-versa). Isto é ainda mais válido para as ditaduras onde a consciencialização política é rápida e radical - e por isso é que uma geração inteira se formou na esquerda contra o salazarismo. Mas também é verdadeiro para as democracias, onde o arco de posições políticas é muito mais complexo e plural e onde, nesse sentido, aquele nós e eles é mais difícil, em abstracto, de separar. Direita e esquerda são nomes para o desacordo político. Nomes imperfeitos, simplificações, conceitos que nunca existiram de forma una, mas conceitos que podem subsistir em torno de questões concretas, políticas concretas e argumentos concretos (e este casuísmo político já é uma opção de direita). Nomes que não esgotam tudo o que faz uma identidade política (estou tão longe de alguns direitistas que conheço como da esquerda), mas que, apesar disso, tornam o conflito político mais legível. Há argumentos sobre o terrorismo, os Estados Unidos, o 11 de Setembro, a Europa, a reforma do Estado, mas também sobre a descriminalização do aborto, o ambientalismo ou outros temas culturais, que não se encontram na esquerda. Não sei se se encontram na direita, sei é que não existem no vácuo. Acreditou-se muito tempo que era possível dividir a esquerda e a direita em função dos assuntos. Penso, aliás, que este é dos critérios de distinção mais errados.Podem pretender que a divisão direita/esquerda já não é válida para o mundo de hoje, mas expliquem-nos então o que é que aí está para a substituir e quais são as nossas actuais divergências. E não nos ofereçam como alternativa o centro (onde as divergências de fundo não existem), nem projectos suprapolíticos (que tiveram o seu tempo e onde aquelas divergências foram interiorizadas), e muito menos os partidos, porque os partidos não têm diferenças nem identidades (só têm interesses e empregos). Acima de tudo, não acabem com a dicotomia direita/esquerda apenas porque não gostam da direita portuguesa. Eu também não gosto e a vida é assim.

1 Comments:

Blogger francisco said...

o artigo/opinião incompleto a que pedro lomba se refere está agora completo (como suponho que já o saberás) em http://jornal.publico.pt/publico/2004/10/21/EspacoPublico/O01.html . Sem dúvida o complemento que faltava ao primeiro...

12:28 p.m.

 

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