Com falta de tempo, apenas vou pondo um ou outro artigo mais interessante....
Este sem dúvida, com muita graça.
Vasco Graça Moura
O protesto global
À roda do mundo, massas indignadas de milhões de cidadãos, das capitais e respectivos subúrbios às estâncias de veraneio e aos parques de concertos pop, voltam a inundar praças e avenidas, vociferando protestos.A partir de S. Bento, a nóvel OSCB (Oposição Socialista-Comunista-Bloquista) transpira por todos os poros dos seus militantes, verifica os megafones, prepara as denúncias, desmultiplica-se em vigilâncias e comícios, excursões, desfiles e mais acções de rua, e também produz vigílias, esferográficas, berlindes e autocolantes. Os socialista já aprenderam com os bloquistas a dançar o fox-trotsky com trejeitos impagáveis, mas ainda não decidiram se vão defender uma intervenção político-diplomática, ou uma intervenção político-militar, porque estão à espera do resultado das sondagens.No Rossio, as pombas da paz esvoaçam por entre os autocarros, arrulhando em requebros de meiguice «jus-humanitária».No Mal-Cozinhado, escritores e artistas consagrados tomam posição incontroversa e desassombrada.Na 5 de Outubro, a juventude de esquerda, do ensino superior, do ensino secundário, do ensino básico e do ensino repetente, mobiliza-se em caravanas vindas de todos os pontos do País.Esta «jota» propôs às crianças dos jardins-escolas a criação de uma numerosa frente antifascista, cívica e reivindicativa, destinada a fazer-se ouvir em todos os protestos nacionais e internacionais e também a dizer sistematicamente mal do Governo de direita. Enquanto lhe mudavam as fraldas, o líder dos pequeninos disse que ia ponderar o assunto, mas quis logo saber a quantos chocolates tinha direito.Os sindicatos de esquerda organizaram várias marchas de solidariedade na Baixa, mas preparam já uma greve geral e patriótica para combater a crise. De olho humidamente sombrio e determinação inabalável, os escudos humanos apinham-se aos balcões das agências de viagens.Nos declives vicejantes de Monsanto, velhotas, frescalhotas, porcalhotas e canhotas saracoteiam-se conscienciosamente nos carnais preparos em que vieram ao mundo, formando o símbolo fraterno da paz ao longo dos relvados e arriscando-se com abnegação e denodo aos resfriados da Primavera, à pneumonia chinesa e a comparações nefastas com os relevos e ademanes da dona Cicciolina. Alguns adjacentes de esquerda aproveitam esse ensejo para arejar o pirilau, sem todavia se mostrarem alvoroçados com a apropinquação de tanta dama ao léu. Ignora-se se a incapacidade está neles, ou se o problema está nelas. Só a fé na esquerda poderá dissipar tais equívocos.Os políticos e diplomatas franceses, alemães e russos alertam para a gravidade da situação, para o direito internacional, para os direitos humanos, para o day after; e envidam esforços hercúleos, fazem dramáticas chamadas transatlânticas, emitem declarações firmes, preparam uma conferência internacional de grande impacto.O Vaticano desatou outra vez a disparar cardeais esbaforidos em todos os azimutes.Até que enfim, há uma defesa em comum dos sagrados princípios da liberdade, da democracia, da paz e dos direitos humanos!Até que enfim, tudo está a ser feito com agressiva militância para se denunciar, ao clamor das trombetas, o regime tirânico de Fidel Castro e os julgamentos políticos de Cuba!Os socialistas ainda propuseram uma tímida nota de rodapé a propósito do último massacre do Zaire, em que, há 15 dias, 996 pessoas foram desfeitas à catanada. Mas o núcleo duro da OSCB mandou-lhes dizer secamente que isso não interessava, porque os americanos não tinham lá estado.

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