Um blog de Filipe Figueiredo

terça-feira, novembro 16, 2004

Uma no cravo....(artigo da semana passada)

"Guterres. Outra Vez? Por ANTÓNIO BARRETODomingo, 14 de Novembro de 2004
Congresso da Democracia, organizado em Lisboa pela Associação 25 de Abril, serviu de palco adequado para o regresso de António Guterres à política nacional. Atentamente observado por um sorridente José Sócrates, colocou-se aquele acima das querelas do dia e tentou a pose de Estado e de reserva. Usou da contenção necessária para evitar qualquer precipitação, mas deixou os recados suficientes. Mencionou a urgência da criação de um "projecto nacional" e garantiu que sabia existir uma "alternativa mobilizadora para reconciliar os cidadãos com a vida política democrática". Ele sabia que toda a gente só pensava numa coisa: o seu regresso significava que estava dado o primeiro passo para uma eventual candidatura à presidência da República. Ninguém ficou a saber qual era a sua decisão, mas esse era exactamente o objectivo do exercício. Daqui para a frente, vão suceder-se os silêncios entremeados de frases e aparições, ao mesmo tempo que grupos de "notáveis" começam a organizar-se espontaneamente e a elaborar cartas e abaixo-assinados. Surgirão, aqui e ali, pequenas e médias vagas, à espera da outra, a de fundo. Especialistas de comércio e publicidade preparam o seu calendário e as agendas deles. Do Brasil, de Espanha e alhures virão técnicos de campanhas eleitorais. Toda a gente, a começar pelo próprio, observa as sondagens, analisa as probabilidades, estuda os rivais potenciais e persegue Cavaco Silva, não se esquecendo de olhar de lado, por cima do ombro, para Soares, Ferro e Alegre. Criar-se-ão oportunidades para Guterres se mostrar ubiquamente com crianças e idosos, católicos e laicos, a boa gente do interior e os empreendedores de sucesso. Não faltarão as referências internacionais a Zapatero, Lula e Arafat. Mostrar-se-á à vontade com computadores e laboratórios sofisticados, tanto quanto com vinho do produtor e barrigas de freira. Despreocupado, será visto com cineastas e actores. Interessado, passará por acaso em livrarias. Comovido, não faltará a eventos de solidariedade social. Os excluídos terão posição alta nas suas prioridades. Talvez já haja mesmo quem prepare uma biografia, de preferência sob a forma de entrevista, mais fácil e menos comprometedora. Nunca as televisões deixarão de ser informadas dos seus passos. Muito tempo passará antes que se saiba se é ou não candidato e tudo leva a crer que nem o próprio, apesar de o desejar, saiba já qual é o sentido da sua escolha. Mas o circo está montado.
NÃO DEIXA DE SER CURIOSO QUE, NA
sua contribuição para o dito congresso, tenha escolhido o tema da imagem, da política espectáculo e das televisões. Denunciou a transformação da política em "reality show", ele que é sem dúvida um dos grandes oficiais da arte. Vituperou contra a crescente "promiscuidade entre a política e os media", ele que é responsável pela estatização de um dos maiores grupos de imprensa, comunicações e "media", dado que foi com o seu governo que a PT comprou a Lusomundo, alargando e consolidando a presença do Estado no sector. Alertou para as relações cúmplices entre os políticos, os magistrados e os "media", ele que tão bem soube juntar esses ingredientes e acrescentar-lhes os interesses dos grupos económicos.
É VERDADE QUE NÃO FOI O ÚNICO. OS PUblicitários de Freitas do Amaral (nas presidenciais de 1986), de Cavaco Silva (que pouco parecia precisar deles, mas que os usava), de Durão Barroso (insignificantes) e de Santana Lopes (pletóricos) deram também o seu contributo. Tanto para a propaganda e a encenação, como para a famosa promiscuidade. E os socialistas, por sua vez, não renunciaram a tais práticas. Soares, por exemplo, tratava minuciosamente das suas influências na imprensa. Umas vezes com doçura, outras à bruta. Mas era um artesão. Acreditava nos seus talentos e no seu encanto. Ora, com Guterres, no partido ou no governo, o estilo foi completamente diferente. É ele o responsável pela profissionalização da imagem, pela organização meticulosa da sua aparição na televisão, pela sistematização dos seus contactos com os jornalistas e pela generalização de organismos de propaganda disfarçados de gabinetes de imprensa e de relações públicas. Foi ele que, mais do que ninguém no Partido Socialista e na esquerda, recorreu a serviços de empresas privadas especializadas na venda de imagem e na construção de personalidades. Verdadeiro profissional, deve-se-lhe um dos maiores contributos para aquilo que agora, com beata inocência, denuncia.
EMBORA INESQUECÍVEIS (SE É QUE EM política há alguma coisa inesquecível...), estes factos e estas circunstâncias são menores. Não é por essa via que deve ser feita a principal avaliação do antigo Primeiro Ministro e eventual futuro candidato. Nem sequer talvez pela sua folha de serviços no governo, onde abriu as portas ao recrutamento de massas de funcionários (o que, aliás, não é um mau trunfo eleitoral), gastou o que tinha e não tinha, negociou tudo com toda a gente, cedeu quanto pôde e não pôde, adiou reformas, deixou agravar a crise financeira e alimentou a demagogia. Dado que a Presidência da Republica, em Portugal, é o que é, não serão esses os principais argumentos. O cargo não exige experiência política de governo.
HÁ, TODAVIA, UM FACTO QUE MERECE toda a atenção. Numa noite de há quase três anos, assistimos a um gesto inédito na Europa e talvez no mundo. Em directo, diante das televisões, o Primeiro Ministro Guterres fazia a sua declaração política relativa às eleições autárquicas que acabavam de se realizar e nas quais o Partido Socialista tinha registado algumas derrotas significativas. Para estupefacção de toda a gente, a começar pela dos socialistas, anunciou a sua demissão. Apenas tinha cumprido metade da legislatura que, aliás, se anunciava difícil. Nunca explicou de modo satisfatório a sua decisão. Deixou o partido e o governo em estado catatónico. Entregou à direita e aos seus adversários o governo e as eleições legislativas que se seguiram. Abandonou funções num momento em que começava um período de dificuldades para os portugueses. Não teve força para resistir, nem carácter para lutar. Numa palavra: fugiu. Esse, o facto relevante do seu currículo. Essa, a medida da sua candidatura.
"

http://jornal.publico.pt/publico/2004/11/14/EspacoPublico/ORET.html

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

E ler um livrinho nao?
ja sabemos que les o publikuzinho etc etc etc.... mas um livrinho, nao?! Oupa!

1:59 p.m.

 

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