O que eu penso
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Democracia Imposta Pelas Armas? Por RALPH DAHRENDORFSegunda-feira, 06 de Dezembro de 2004
De certa forma, as armas de destruição maciça do Iraque também foram armas de distracção maciça. Sem dúvida que o Presidente George W. Bush e o primeiro-ministro Tony Blair acreditavam que Saddam Hussein tinha as armas, ou tinha recursos para as produzir, quando decidiram avançar para a guerra. No caso do Iraque, receavam especialmente a existência de armas químicas e biológicas.
Mas as armas de destruição maciça não eram o único motivo para a guerra. Os dois líderes viam a existência deste ditador assassino como uma afronta e esperavam que a sua queda abrisse as portas à democracia no Iraque. O que (esperavam eles) traria automaticamente um grau de estabilidade suficiente para que ajudar a resolver outros conflitos na região, garantindo também que o fluxo de petróleo não parasse.
Motivações diversas não significam necessariamente motivações más. De facto, a maioria das vezes um motivo nunca vem só. A verdadeira questão é saber se a democracia poderia ser realmente a opção certa e, nesse caso, se os mísseis e os tanques são o método correcto para impor a democracia num país que sofreu uma ditadura durante muito tempo.
Os precedentes históricos tiveram um papel importante na decisão do Iraque, e não só pelo facto de serem citados frequentemente pela conselheira nacional de segurança do Presidente Bush, Condoleezza Rice. Um exemplo é a Alemanha nazi. Para que fique claro, os aliados não entraram na guerra para impor a democracia na Alemanha. E, de qualquer forma, foi a Alemanha que começou a guerra. Os aliados defenderam os países com os quais tinham celebrado tratados bem como a integridade dos seus próprios países.
Talvez a entrada dos Estados Unidos na guerra (europeia) tivesse também algo a ver a ordem do pós-guerra. Mas, na verdade, havia duas interpretações dessa ordem. Uma, segundo a qual a Alemanha deveria ser enfraquecida e reduzida a uma sociedade pré-industrial de onde não pudesse emergir de novo qualquer agressão efectiva. A outra, que se deveria ajudar a Alemanha a construir a democracia.
O que aconteceu foi que os protagonistas do primeiro ponto de vista foram postos de parte e prevaleceram os defensores da democratização. Na realidade, os EUA foram eficazes ao usarem o seu "soft power" para construir a democracia na Alemanha do pós-guerra, embora a Grã-Bretanha fosse ainda melhor. As maneiras democráticas são mais naturais nas forças de ocupação britânicas.
O segundo exemplo, o fim da guerra-fria em 1989, também foi uma história de sucesso. É claro que o colapso do comunismo não resultou de nenhum ataque preventivo do Ocidente (embora a corrida ao armamento tivesse ajudado à implosão do sistema). No entanto, depois de 1989, a assistência ocidental, e não só dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, ajudou a transição para a democracia, a instauração de um Estado de direito e de economias de mercado na maioria dos países pós-comunistas.
Por que razão isto não parece resultar no Iraque? Evidentemente que existem imensas diferenças culturais e as circunstâncias são outras. Mesmo assim, a que se deve o facto de tão pouco estar a resultar das intenções dos líderes da guerra no Iraque de dar ao Iraque a oportunidade de construir uma democracia?
Uma das razões está em que impor a democracia com mísseis e tanques é uma contradição nos termos. A democracia é, por definição, um método pacífico de solucionar conflitos. Claro que o bombardeamento de Dresden, em 1945, não foi propriamente pacífico. E devemos questionar-nos sobre se Devemos contribuiu de alguma forma para tornar a democracia mais aceitável depois da II Guerra Mundial. Porém, quando a guerra acabou, os bombardeamentos terminaram de vez e dos tanques saíram homens com intenções de criar condições democráticas e com capacidade de o fazer.
Hoje em dia, fala-se muito de "hard power" e "soft power", de a América deter o primeiro e a Europa o segundo. De facto, os dois são um só. O "soft power", sem o apoio do "hard power", não tem grande influência: veja-se o caso do Irão. Por outro lado, O segundo, sem o primeiro, significa apenas destruição. A maior fraqueza das forças norte-americanas foi que, em 2004 - ao contrário de 1945 -, não tiveram capacidade para parar os bombardeamentos, sair dos tanques e encorajar o desenvolvimento democrático nacional de baixo para cima.
Além da necessidade dessa capacidade, também seria preciso reconhecer que a democracia não significa a criação das mesmas instituições em todos os contextos culturais. Se houver eleições no Iraque em Janeiro - e é um enorme "se" -, elas poderão não resolver grande coisa. Mobilizar as pessoas e tentar encontrar soluções pacíficas para o conflito pode requerer instituições específicas e adequadas à região e à sua história.
É uma enorme vergonha que tantos europeus se tenham mantido afastados do Iraque, num misto de auto-satisfação e de orgulho anti-americano. Um maior empenhamento europeu poderia ter equilibrado o "hard power" da máquina militar norte-americana com o "soft power" da experiência europeia da diversidade e da capacidade de lidar com situações pós-conflito.
Na verdade, o falhanço da Europa não é apenas uma vergonha mas uma calamidade histórica. A democracia não se impõe apenas com mísseis e tanques mas, em conjunto com o poder civil que se traduz na ajuda atenta adequada aos os vencidos, a democracia pode-se adaptar ao Iraque e às outras regiões do Médio Oriente.
Autor de uma vasta obra sociológica, actual membro da Câmara dos Lordes britânica, foi Reitor da London School of Economics e Director do St. Anthony's College, em Oxford.
Exclusivo PÚBLICO/Project Syndicate/Institute for Human Sciences "
http://jornal.publico.pt/publico/2004/12/06/EspacoPublico/O01.html

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