" Face à Intolerância - II Por AUGUSTO M. SEABRADomingo, 28 de Novembro de 2004
nosso é um mundo pós-11 de Setembro, e há dados de base que têm assim de estar sempre presentes. Seria demasiado fácil e mesmo trágico supor que o alvo do ataque foi só a potência imperial, quando era, e é, mais lato: a modernidade e a laicidade, definindo a natureza totalitária do terrorismo fundamentalismo islâmico.
Também desde esse trágico momento fundador se tornou patente o risco de uma deriva no Ocidente predominantemente moderno e laico: o de se aceitar como inevitável o "choque das civilizações". Acresce que o ressurgimento do "universalismo intervencionista" americano por via da agressividade "neo-conservadora" provocou uma generalizada fractura em todo o "espaço ocidental". Na urgência e vivacidade do debate suscitaram-se também fantasmas, anátemas e exorcismos.
Para nos cingirmos ao espaço público português, "Impasses", de Fernando Gil e Paulo Tunhas (e Danièle Cohen), na sua exorcização de um "anti-americanismo" real e suposto, assentava substancialmente no argumento da "má-fé" dos intelectuais europeus. Ora é tanto mais pelo estatuto dos autores, e em particular de Gil, um dos maiores intelectuais portugueses, que esse argumento da "má-fé" é insuficiente e mesmo triste. Mas fez escola.
Sou eu agora acusado de "má fé" por Daniel Oliveira, animador do blog Barnabé, dirigente do Bloco de Esquerda, participante do "Eixo do Mal" na "SIC-Notícias" e esta semana anunciado como colunista do "Expresso". O texto, respondendo ao meu de 14/11, veio no PÚBLICO de sexta-feira. Oliveira tinha-o colocado no seu blog logo a 15/11, ocorrendo que ele surgiu exactamente depois de um "post" de outro dos "bloggers" do Barnabé, André Belo, demarcando-se ele também da equivalência que o primeiro estabelecia entre Theo van Gogh e o assassino - "um fanático assassina outro fanático". Com a ressalva de que a instância de enunciação do "post" de Belo é um "nós" (o Barnabé, "a esquerda"?) a que sou alheio, é um texto que eu subscreveria. Não notei que Oliveira tivesse também considerado haver "má fé" da parte de Belo. A diferença é que eu agora passei a "inimigo".
A ressalva que Daniel Oliveira fazia (e tanto era uma ressalva que estava entre parênteses), de que o facto de ter sido assassinado "dava toda a superioridade moral ao segundo fanático", só não é totalmente irrelevante porque é tristíssima: que sentido tem transportar para um cadáver o conceito de "superioridade moral" tão caro a uma arrogância intelectual de esquerda?
Por isso insisto que não sei a que título Oliveira chama Van Gogh de "fanático" e "anti-semita". "Fanático" o realizador da série televisiva "Najib & Julia", outra variante moderna do "Romeu e Julieta", o romance de um holandês e de uma imigrante marroquina? Eu, que o conheci, tinha escrito que Theo van Gogh era sem dúvida um "provocador", e é sabido que ele considerava haver da parte dos judeus "um sentimentalismo exagerado" em relação ao Holocausto. Não me consta, do que li e de todas as conversas e trocas de "mails" que entretanto tive, que tenha por exemplo havido qualquer demarcação do representante cívico, o presidente da câmara de Amesterdão, Job Cohen, que como se poderá deduzir do nome é de origem judaica.
Mas sobretudo Oliveira acaba por conseguir o inaudito: à força de um jogo estritamente reactivo, "esquerda vs (instrumentalizações de) direita", "esquece" mesmo que a razão do assassinato foi o facto de Van Gogh ter realizado um filme, "Submissão", expondo a dominação exercida sobre as mulheres em nome de interpretações fundamentalistas do Islão, esquece que o assassinato foi também um ataque à modernidade, à laicidade e à liberdade de expressão.
Contudo face à intolerância importam questões de fundo, decorrentes do caso Van Gogh e mais genéricas.
O que está a ocorrer na Holanda é muito grave. Na sequência do assassinato e da sua instrumentalização política, que se traduziu em ignominiosos actos de violência anti-islâmicos, há um clima generalizado de desconfiança e medo: há medo do Islão, confundido genérica e abusivamente com fundamentalismo, e há o medo sentido pela comunidade islâmica. Mas há mais.
De novo ocorre um espectro pressentido desde o 11 de Setembro, o de as sociedades democráticas ocidentais irem capitulando nos seus próprios princípios - como em Guantánamo, em Abu Ghraib ou nas derivas do "Patriot Act". Agora o ministro da Justiça holandês propõe uma lei "anti-blasfémias". O que seria isso senão um entrave à liberdade de expressão? Mais grave ainda: se a consideração da "blasfémia" depende sempre de autoridades religiosas, cristãs, judaicas ou muçulmanas, a proposta daria a essas autoridades força de lei civil, para além da que lhe é admitida pela comunidade de crentes e que só a esses diz respeitos. Seria como dar legitimidade à "fatwa" de Khomeini contra "Os Versículos Satânicos" de Rushdie - pelo menos contra a obra.
Perante a gravidade dos factos, mais necessário se torna não agitar espectros. A globalização torna o multiculturalismo tanto mais inevitável - e tanto mais grave e patético simplesmente exorcizá-lo. Há sim que manter o primado da lei no seu princípio de "universalidade", que se aplica a todos os cidadãos, não abdicando da modernidade e da laicidade, num diálogo tolerante e cosmopolista, em que as diferentes culturas se irrigam mutuamente, e não em que as diferentes comunidades existam tão só separadas. À religião o que é da religião, à Polis o que é da Polis - ou a Deus o que é de Deus, a César o que é César, como há muito já estava escrito. Crítico "
http://jornal.publico.pt/publico/2004/11/28/EspacoPublico/O03.html

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