Um blog de Filipe Figueiredo

quinta-feira, março 10, 2005

A europa culta, social, moderna, liberal, capaz, desenvolvida, etc etc etc....

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Entrevista com Manuel Castells
Não precisamos de inventar outra estratégia de Lisboa
O primeiro erro da "agenda de Lisboa" foi ter adoptado uma perspectiva muito estatista, diz Manuel Castells, um dos mais importantes teóricos da Sociedade de Informação. Mas não é preciso inventar outra estratégia, outra grande visão, que é o que gostam de fazer os europeus
Autor do mais célebre e mais completo estudo sobre a Sociedade de Informação, professor em Berkeley, Universidade da Califórnia, e agora da Universidade Aberta de Barcelona, catalão de origem, Manuel Castells foi um dos peritos que ajudaram a preparar a "agenda de Lisboa", uma estratégia europeia lançada em 2000 para fazer da economia da Europa a mais competitiva do mundo em 2010, sem perder pelo caminho o "modelo social europeu". Hoje, faz um balanço mitigado. Os objectivos estavam certos mas não os meios. Castells esteve no passado fim-de-semana em Lisboa, enquanto coordenador do seminário internacional sobre A Sociedade em Rede e a Economia do Conhecimento, da iniciativa de Jorge Sampaio. PÚBLICO - Passados cinco anos desde a aprovação da "estratégia de Lisboa", de cuja concepção foi um dos inspiradores, arriscamo-nos a dizer que ela falhou. O fosso entre as economias americana e europeia tem continuado a crescer em termos de produtividade e de competitividade. Como explica isto?MANUEL CASTELLS - Falhou em parte. Falhou no objectivo e falhou nos prazos. Não estou a fazer uma crítica, mas uma autocrítica, porque fiz parte do grupo de peritos que aconselhou a presidência portuguesa da União Europeia. A estratégia de Lisboa pretendia fundamentalmente aproximar a Europa em termos de produtividade e competitividade da economia americana, gerando inovação mas mantendo a coesão social, o modelo social europeu. Isto resultou no plano de acção e-Europa que, muito acertadamente, percebeu que, no caso europeu, o sector público podia ser o motor dessa mudança, coisa que não acontece nos EUA, como se sabe. O que se pretendia era criar um círculo virtuoso entre a transformação do sector público (saúde, educação, administração pública) e o desenvolvimento tecnológico.Houve bastantes avanços mas, se considerarmos os objectivos, temos de concordar que, em lugar de haver convergência com a produtividade e a competitividade da economia americana, houve divergência.Porquê? Quais foram as resistências, os obstáculos? Não se evoluiu no desenvolvimento de novas formas de organização, não se mudou a saúde, a educação, a administração. Avançou-se nas redes de comunicações, o que é muito importante porque as redes são a infra-estrutura, mas é o mais fácil de fazer. É verdade também que a coesão social se manteve, mas é bom recordar que a ideia original da "agenda de Lisboa" era precisamente que, para manter a coesão social a prazo, era necessário inovar mais e produzir mais. Caso contrário, com o envelhecimento da população e a resistência da Europa à imigração, essa coesão social não será sustentável a médio prazo.O primeiro erro da "agenda de Lisboa" foi ter adoptado uma perspectiva muito estatista. Não contou com a sociedade civil, com os inovadores. E quando se fala de inovação é preciso falar de inovadores. A Europa só tem sabido pensar em termos dos Estados ou das grandes empresas, quando a imensa maioria das empresas são pequenas e médias. Há aqui algo que falhou. A Europa tentou dizer à sociedade e às empresas como deviam fazer, em vez de libertar a energia inovadora da sociedade.Creio que a Comissão Europeia fez o que tinha a fazer razoavelmente bem - as directivas, as recomendações, os documentos, as estratégias. Mas a Europa não é a Comissão. Isso é um mito. A Comissão tem um orçamento pequeno e nenhum poder. O poder está no Conselho de Ministros.Mas o mau resultado não foi igual para todos. Os nórdicos seguiram o caminho apontado pela "agenda de Lisboa" e estão a ter resultados excelentes. Os países de modelo anglo-saxónico portam-se melhor do que a média. Como explica que o modelo nórdico tenha sido o de maior sucesso? Tem razão quando diz que o mau resultado não é igual para todos. O problema é, antes de mais, da Alemanha, que é o centro da economia europeia, mas cuja economia e tecnologia não funcionam segundo um modelo de inovação. A Espanha foi um desastre absoluto desde o ano 2000 - não na política económica mas na política de inovação e da sociedade de informação -, e está atrasada em todos os indicadores. A Itália foi outro desastre, em termos de inovação e de modernização da administração. Temos três países grandes que não fizeram nada. A França é diferente. Está bem em termos de produtividade nas empresas, mas não na modernização da administração - que é um dos grandes objectivos de Lisboa.Eu diria que há dois modelos que estão a funcionar e que são muito diferentes: o de Inglaterra e o da Irlanda, embora esta última seja um caso atípico, porque os líderes da competitividade e da produtividade são grandes multinacionais. A Irlanda criou as bases tecnológicas, científicas e de capital humano para poder atrair as multinacionais. O problema é que elas, um dia, vão-se embora para a China ou para o Leste.Quando falamos de "modelo nórdico" também não devemos generalizar demasiado. A Noruega não faz muito em matéria de inovação tecnológica. Na realidade vive da renda do petróleo. Se não fosse um país tão frio, julgaríamos que era um emirado. A Suécia sempre foi uma grande potência económica, não progrediu muito nos últimos anos em termos de produtividade e competitividade, mas já era competitiva no passado. O que é interessante é a Finlândia e a Dinamarca - com governos de orientações políticas distintas. Nos dois casos, houve uma tentativa séria de construir um modelo que reproduz, em boa parte, a estratégia de Lisboa. Isso não acontece por acaso, porque a "agenda de Lisboa" já se inspirou naquilo que eles estavam a fazer. Diria, pois, que nos países em que o Estado entendeu que o seu papel era dinamizar a inovação, apoiar o empreendedorismo e fazer da inovação tecnológica e social uma força dinâmica, a acção do Estado facilitou este processo. Nos países em que o Estado, ou adoptou um modelo neoliberal, deixando tudo para o mercado resolver, ou é prisioneiro de interesses corporativos, tanto de empresas como de sindicatos - como é o caso da Alemanha -, aí não houve qualquer avanço. E o que se deve fazer para repor a "agenda de Lisboa" no caminho certo?O diagnóstico que fazemos hoje é que as políticas dos Estados não levaram a sério estes objectivos. Penso que é através da correcção das políticas nacionais, coordenadas e apoiadas a nível europeu.O conteúdo da "agenda de Lisboa" estava certo e as medidas propostas também. Faltaram os mecanismos de implementação. O que devemos fazer hoje é reavaliar esses mecanismos e ver quais são os bloqueios, ver o que falhou. Não precisamos de inventar outra estratégia, outra grande visão, que é o que gostam de fazer os europeus. No livro que escreveu em 2002 com Pekka Himanen, fala de três modelos de desenvolvimento da sociedade de informação: Silicon Valley, Singapura e o modelo finlandês. Disse agora que a "agenda de Lisboa" falhou porque os países europeus não souberam seguir o modelo finlandês (e não podiam seguir os outros). São os únicos três modelos possíveis ou pode haver muito mais?O estudo sobre a Finlândia mostrou que a sociedade da informação mais avançada do mundo (segundo todas as estatísticas), que era também a economia europeia mais produtiva e mais competitiva, possuía um modelo de inovação e de crescimento económico totalmente diferente do de Silicon Valley, apresentando os mesmos resultados em termos de inovação e uma coesão social e qualidade de vida muito superior. O interesse de Singapura é que os chineses o adoptaram como modelo, estão a tentar um megamodelo de Singapura, porque é um modelo de Estado autoritário com economia de mercado, inovação e desenvolvimento tecnológico. Em Singapura funciona. Não sabemos se vai funcionar na China.A mensagem central desse estudo é que cada cultura e cada sistema institucional têm de encontrar o seu próprio modelo a partir de um núcleo comum de princípios: o papel central das tecnologias de informação e comunicação e da inovação, o conhecimento como matéria-prima, a ideia de que o valor acrescentado está mais no processo do que o produto. A Coreia está a fazê-lo, aproximando-se do modelo de Singapura. O Japão não conseguiu fazê-lo e está em queda livre desde 1990. Na realidade, quando estamos a falar de modelos de inovação tecnológica estamos a falar de muito poucos países: da Escandinávia, dos EUA e de algumas zonas asiáticas como a Coreia, Singapura, e Bangalore e Bombaim na Índia. E das redes de inovação entre estes centros de inovação. A maior parte do mundo está fora deste processo.Na Europa, são os países meridionais os mais atrasados. Está a estudar o modelo catalão. Será que é possível um modelo meridional, diferente, compatível com a cultura católica e mediterrânica?Quanto ao catolicismo, é preciso ser prudente. Pode existir como matriz histórica, mas em Espanha menos de 10 por cento da população vai à missa ao domingo. E a cultura fundamental em Silicon Valley pertence a chineses e indianos, que não são protestantes nem católicos.Pekka Himanen e Linus Torvalds escreveram um livro muito interessante sobre isto, que compara a ética hacker com a ética protestante da revolução industrial. Para os inovadores o trabalho é um prazer, onde o jogo e a inovação se misturam. Ganhar dinheiro é a última das suas preocupações.Quanto ao modelo meridional, se existe, não o encontrámos, a não ser que se queira transformar a incapacidade em modelo e se decida que vamos fazer parques temáticos para os turistas chineses, japoneses e americanos. A Catalunha entrou, nos últimos anos, nesta dinâmica, no "turismo de sol e lua", praia e divertimentos nocturnos, mas esse modelo é insustentável porque é mais fácil fazê-lo noutros países do Terceiro Mundo, mais baratos e menos deteriorados ambientalmente.A questão é: ou há uma dinâmica interna muito forte das pequenas empresas e dos empreendedores, dos inovadores e das universidades, (como é o caso de Silicon Valley), ou tem de haver uma política de Estado que impulsione esse desenvolvimento tecnológico a longo prazo.Essas políticas têm de ter efeitos a curto prazo, porque precisam de base política para continuar, mas há que definir, como fez a Finlândia, o médio e longo prazo, investir dinheiro - que também é preciso - e ter a coragem política de fazer reformas sérias na administração, na universidade, no sistema de ciência e tecnologia. Nesta matéria, tanto em Espanha como em Portugal e Itália, nos últimos anos a evolução tem sido ao contrário.Como se promove a inovação? Conhece o plano tecnológico que o novo Governo português quer pôr em prática e que visa precisamente esse objectivo?Não li esse programa e por isso não posso falar dele. Mas creio que, numa situação como a portuguesa, o primeiro agente desse desenvolvimento tem de ser o Estado. E isto porque não há outro. Mas é preciso criar um programa impulsionado pelo Estado que não seja estatista. Que liberte a capacidade de inovação da sociedade e das empresas. No caso da Catalunha, acabo de terminar um trabalho produzido por uma comissão de peritos sobre um acordo estratégico de competitividade e internacionalização da economia catalã, que visa responder à deslocalização das multinacionais.A discussão teve a participação de sindicatos e organizações patronais, de PME e de grandes empresas, e do Governo. Chegaram a uma série de acordos concretos, com medidas, que serão condicionantes dos orçamentos do Governo catalão nos próximos quatro anos. Algumas são tão concretas como contratar 500 novos professores de Inglês. É preciso que a sociedade tenha consciência de que, se não houver um acordo nacional para mudar as bases do modelo de desenvolvimento, afundamo-nos todos juntos.Na Catalunha os sindicatos aderiram a esse processo...Com uma grande consciência dos problemas, dispostos a trocar flexibilidade de emprego pela manutenção dos direitos básicos. Ou seja: a eliminar o emprego precário e flexibilizar o emprego formal.Que oportunidades são essas que os governos têm de criar?Há duas coisas importantes: uma é a criação de um sistema de verdadeiro capital de risco - que é diferente de subsídios - que permita a quem tem um projecto de inovação tecnológica ou económica transformá-lo numa empresa sem ter de arriscar a sua vida toda nisso. Em Silicon Valley os mecanismos de capital de risco foram absolutamente fundamentais. Na Finlândia, como as instituições financeiras nacionais são extremamente conservadores - na Europa é assim -, o governo criou uma empresa pública, que depende do Parlamento e que actua como capitalista de risco. E que também investe em todo o mundo, incluindo em Silicon Valley, para aprender como se fazem as coisas. Isso agora é menos importante, mas foi decisivo em meados dos anos 90.Outro exemplo finlandês muito importante é o Tekes, um organismo transversal, que identifica os projectos de inovação de empresas e universidades, que organiza as ligações entre as empresas e as universidades e que financia projectos em função das prioridades estratégicas do país.Mas nenhum destes mecanismos serve de nada se não houver uma mudança da máquina administrativa.Mas é possível promover uma cultura de inovação e do empreendedorismo onde ela não existe? Creio que é possível. Em parte, essa responsabilidade cabe aos meios de comunicação. Os media são muito pouco dados a explicar estas histórias. A Andaluzia, que é dos governos mais dinâmicos de Espanha neste momento (o mais dinâmico é o de Euskadi, que tem a produtividade mais alta e que seria o "tigre europeu" se não tivesse o terrorismo), criou um programa de televisão que difunde iniciativas de empresários inovadores - desde a indústria do mármore, que se revitalizou graças a novas tecnologias e a novos mercados, até muito pequenas empresas agrícolas com tecnologias avançadas. Os programas são muito bem feitos, absolutamente profissionais, e as pessoas que aparecem são vistas pelos jovens como os novos heróis, são role models.Há muitos outros exemplos de coisas que se podem fazer: na Catalunha, as escolas de engenharia têm cursos organizados pelas escolas de gestão sobre o que é ser empresário.No seminário que organizou houve uma sessão sobre o Governo Electrónico (e-Governo). Por que é que isso é tão importante? Porque se gasta menos recursos que podem ser aplicados noutro lado, ou há um impacte directo da inovação do Estado no tecido económico?Por um lado, há ganhos de produtividade do Estado. Outra coisa fundamental é a interligação das diferentes administrações e serviços permitir maior eficácia e rapidez da administração. Mas há mais. É muito difícil para uma administração dinamizar a inovação no tecido produtivo se ela própria não sofrer uma transformação tecnológica, organizativa e cultural. Para já não falar do efeito de transparência. Na maioria dos países europeus, sobretudo nos países do Sul, os cidadãos não confiam na administração - com ou sem razão, todas as sondagens o confirmam. Isso é um obstáculo a tudo: ao pagamento de impostos, por exemplo. A transparência administrativa é fundamental tanto para a gestão como para a política. A tecnologia não garante a transparência. Mas se há um registo electrónico de todos os actos, a corrupção ou a má gestão tornam-se mais difíceis. Há quem pense que a única coisa que precisamos de fazer é investir na educação e que o resto virá por si. Pensa que sim? Não é verdade. Se se investe mais dinheiro para fazer a mesma coisa, o único resultado que se atinge é uma maior taxa de abandono escolar. Há que investir mais (porque a inovação não é barata), mas de maneira distinta. O que o ensino secundário obrigatório até aos 16 anos está a provocar em países como Espanha e Portugal é uma taxa de abandono escolar muito mais alta entre os 14 e os 16 anos. Mas pode investir-se em educação com outros critérios, noutros sistemas de ensino...Se se trata de investir para transformar o sistema educativo, é claro que o devemos fazer. Precisamos de investir em formação profissional de um novo tipo (mais do que em educação tradicional); precisamos de investir numa educação que possua maior interacção com o novo sistema tecnológico - mas dentro dos próprios currículos e não ao lado, não estou a falar de aulas de Internet. Aquilo que precisamos de investir na educação não são forçosamente mais recursos: é mais inovação administrativa, mais inovação cultural.Disse que a Europa tinha em relação aos EUA dois problemas: a falta de capital de risco mas também a dificuldade com a imigração. Ora, a Finlândia é um país muito fechado a imigrantes. A Europa precisa ou não de imigrantes?Neste momento, na Finlândia, esse é um dos grandes debates. O modelo é insustentável por esse lado: os finlandeses são demasiado poucos e demasiado velhos. Faz falta gente para tratar dos idosos e gente que trabalhe para sustentar a segurança social. Mas hoje a maioria dos países europeus estão a receber muita imigração. Barcelona passou, em cinco anos, de 3 por cento de população estrangeira para 12 por cento e as previsões para dez anos são de 27. É impressionante. A primeira coisa é reconhecer que é um facto que não pode ser travado. Mas, em termos de qualificação, a imigração europeia é comparável à que chega à Califórnia?Podemos ter aí grandes surpresas. A municipalidade de Barcelona fez recentemente um inquérito sobre o nível educativo dos imigrantes e descobriu que havia mais diplomados universitários entre eles do que na população nativa: 27 contra 17 por cento!Mas essa formação universitária é utilizada? Em Portugal há engenheiros ucranianos a trabalhar nas obras...A capacidade de absorver essa mão-de-obra qualificada depende da existência de postos de trabalho tecnologicamente avançados. Eles trabalham na construção porque é isso que se faz em Portugal. Não são os imigrantes que têm baixas qualificações, é o país que tem baixas qualificações.Um dos seus temas recorrentes é que a tecnologia não é o factor crítico do desenvolvimento e da modernização mas sim a forma como as pessoas a usam. Em particular, sublinha que o factor crítico é sobretudo a rede, o networking. Como é se estimula o networking?De facto, em 2004, só 3 por cento da fibra óptica instalada no mundo era utilizada. Quanto ao networking como tal, ele não se pode promover, mas podem promover-se as organizações que permitem utilizá-lo. A rede já é utilizada pelas pessoas para fazer o que lhes interessa: relacionar-se com os amigos, copiar música, etc. Mas olhem, por exemplo, para o caso dos serviços de saúde. Um hospital pode ter a política de estimular a criação de grupos de entreajuda de doentes, que trocam informação entre si, falam com as enfermeiras, etc. Isso é uma política, que exige recursos e formação, mas pode proporcionar muita informação aos serviços médicos, além de melhorar as condições dos doentes. Não é uma solução mágica, mas se houver essa possibilidade as pessoas tenderão a organizar-se.As PME são as empresas mais flexíveis e as que criam mais empregos. Qual é o seu problema? Massa crítica. Podem concentrar-se, mas ao fazê-lo perdem flexibilidade. A resposta pode ser a cooperação, a construção de redes de empresas. Não é fácil fazê-lo numa cultura de desconfiança, mas se houver incentivos fiscais à cooperação, por exemplo, isso é um incentivo. Também se pode fornecer assessoria gratuita via Internet a estas empresas. Não é o Estado a produzir nem a mandar. O Estado pode criar condições tecnológicas e organizativas que permitem o desenvolvimento da rede. "

http://jornal.publico.pt/noticias.asp?a=2005&m=03&d=10&id=10499&sid=1129

terça-feira, março 08, 2005

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Madeleine Albright, no EXPRESSO OnlineO «carimbo americano»

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Madeleine Albright, secretária de Estado na Administração de Bill Clinton, aplaude a democratização do países árabes, que «querem apoio, mas não querem que lhes digam o que fazer quanto ao seu processo de reformas». Na entrevista Albright chama ainda a atenção para o que considera o peso excessivo do «carimbo americano».
«A democracia é um valor universal. Há países para além dos Estados Unidos que praticam a democracia. Não podemos impor a democracia, é um paradoxo. Temos de alimentá-la e apoiá-la. A verdadeira questão é até que ponto poderá haver um retrocesso com uma democracia imposta pelos Estados Unidos», diz Madeleine Albright.

PERGUNTA - Há um frémito democrático no mundo árabe - as eleições palestinianas, as eleições no Iraque, as eleições locais na Arábia Saudita (embora só para homens), o anúncio do Presidente do Egipto, Mubarak, de eleições multipartidárias, manifestações de rua no Líbano a favor da democracia, que já levaram à demissão do primeiro-ministro pró-Síria.
É o mesmo processo histórico que vimos com a onda de democracia na Europa Central e do Leste e, mais tarde, na Geórgia e na Ucrânia?
MADELEINE ALBRIGHT - Sempre acreditei que somos todos iguais. As pessoas querem viver num país onde tenham possibilidade de tomar as suas próprias decisões. Com informação disseminada mundialmente, existe hoje um desejo crescente e um apoio generalizado à democracia. É algo que se sente no ar em todo o mundo desde a década de 1980 - na Coreia do Sul, em Taiwan, nas Filipinas, na Indonésia, na Europa Central e de Leste, na América Latina e na antiga União Soviética.
Neste sentido, sim, o que está agora a acontecer no mundo árabe faz parte de uma onda generalizada. Mas não se trata de algo que tenha começado agora. E há vários aspectos que fazem a maré subir e baixar. A democracia não foi inventada nos últimos três anos.
De facto, um dos novos problemas, como vemos na Rússia e na América Latina e mesmo até certo ponto na Europa Central e de Leste, é a «democracia pós-euforia». A democracia não é um acontecimento, é um processo. Se a democracia não cumprir as promessas - se não significar que as pessoas podem comprar casa, fazer os seus negócios e não ter fome -, as sociedades podem ter uma recaída.
P. - Mas, certamente, a política externa de Bush - o derrube de Saddam e a promoção de eleições - teve algum impacto? Apesar de todas as conversações para a democracia no Médio Oriente durante anos, o impasse foi quebrado apenas este ano.
M.A. - A resposta é sim e não. A verdade é que houve eleições e movimentos democráticos no Médio Oriente antes disso. O Instituto Nacional Democrático já tinha tido muitas discussões sobre o tema, por exemplo, no Iémen, no Barém e entre palestinianos moderados, em Belém. A morte de Yasser Arafat foi uma parte muito importante do que tornou possível fazer as eleições palestinianas.
Não fui a favor da guerra no Iraque. Mas penso que as eleições lá realizadas são muito significativas e constituem uma vitória para o povo iraquiano. O Presidente Bush pode ter crédito por isso. Contudo, é só o começo e há complicações que derivam daquilo que a administração Bush fez.
Acabo de chegar dos países árabes e uma coisa é muito clara: querem apoio, mas não querem que lhes digam o que fazer quanto ao seu processo de reformas, o que para muitos é o objectivo da iniciativa para o Médio Oriente da Administração Bush. Portanto, embora se sintam encorajados pelas eleições no Iraque, não querem ser identificados com um plano americano.
O quadro é heterogéneo. Há um grande anti-americanismo em consequência da guerra mas, ao mesmo tempo, existe um sentimento de júbilo por aquilo que fez o povo iraquiano.
P. - Se estamos no início de uma nova fase no Médio Oriente em termos de democratização, quais os obstáculos que se apresentam pela frente?
M.A. - No Iraque, foi admirável ver tantos dedos manchados de tinta. Os iraquianos devem ser felicitados. Ao mesmo tempo, já passou mais de um mês desde as eleições e o governo ainda não está formado. Acabo de ver o dia mais violento desde a queda de Saddam, com mais de 100 pessoas mortas por um carro armadilhado no Sul de Bagdade. Os iraquianos necessitam de formar um governo, criar uma nova constituição, realizar um referendo à Constituição e convocar novas eleições. Trata-se de um processo longo e penoso, dadas as divisões entre os próprios iraquianos.
No Líbano, é extraordinário que as pessoas tenham saído para as ruas e que exista uma aparente unidade entre cristãos e muçulmanos. Mas há algo que não deve ser esquecido: eles tiveram uma guerra civil. As divisões entre seitas continuam. A situação é fluida. A questão é como expulsar os sírios. Aqueles com quem falei no Líbano dizem-me que se está a passar muita coisa que aquelas multidões incríveis desconhecem.
O Líbano é contudo muito diferente da Ucrânia. As diferenças entre o Leste e o Oeste da Ucrânia são mínimas se comparadas com as divisões no Líbano.
No Egipto, de onde acabo de chegar, há muitas pessoas que querem a democracia. Contudo, neste momento não temos qualquer ideia das verdadeiras intenções do anúncio do Presidente Mubarak, porque um dos mais viáveis candidatos da oposição, [Ayman] Nour, está na prisão! E as pessoas que o rodeiam foram espancadas com gravidade.
Quando aparece um novo partido político, é imediatamente travado. O que lá existe é uma «oposição controlada». É claro que Mubarak sentiu alguma pressão depois de o Egipto ter sido mencionado no discurso sobre o Estado da União do Presidente Bush e tomou medidas. Mas até a Administração Bush está à espera de ver o que isso significa na realidade.
Também estive agora na Arábia Saudita. Encontrei-a mais agitada do que pensava. Há muito fermento. Assisti ao Fórum Económico de Jeddah. As mulheres estavam separadas dos homens por uma barreira e não podiam vê-los no enorme auditório onde se realizou o fórum. O que foi saudado como um grande passo em frente foi o facto de as mulheres serem convidadas a falar sobre muitos dos temas. Eles diziam: «E agora vamos saber o que as senhoras têm a dizer.» E as «senhoras» disseram muito claramente ao ministro do Trabalho que já não queriam mais instalações separadas para homens e mulheres nos locais de trabalho. As eleições municipais na Arábia Saudita são um começo.
É difícil calcular até que ponto esta mudança é determinada por pressões externas ou internas ou pelas massas populares.
P. - Mesmo tendo em conta estes obstáculos e complicações, pode dizer-se que a política externa «transformista» é a correcta para o Médio Oriente neste momento histórico?
M.A. - É a política certa para os Estados Unidos defenderem a democracia e a liberdade. Somos um país excepcional. Foi algo que eu também defendi. Passei muito tempo a observar e a estar com os dissidentes da Europa de Leste. Sempre apreciaram ser identificados com o Ocidente e com os Estados Unidos. Queriam que as atenções se centrassem neles para os proteger.
No mundo árabe, aqueles que querem a democracia partilham dos nossos valores, desde que acreditem que as pessoas são autorizadas a fazer a sua própria escolha. Mas ser identificado com os Estados Unidos não é uma vantagem para eles.
Isso torna muito diferente o papel dos Estados Unidos na promoção da democracia no Médio Oriente árabe. Não existe sequer um pró-americanismo passivo. Em toda a região, a hostilidade para com a América é palpável.
Portanto, embora a democratização seja um belo objectivo americano, é olhada em geral nesta região como algo que cheira a hegemonia e não como uma opção de cada povo. Isso deixa-me inquieta.
P. - Então o seu conselho a Condoleezza Rice, sua sucessora como mulher na secretaria de Estado, seria: estás do lado certo da história, mas não exageres?
M.A. - Condi e eu já discutimos isto muitas vezes. Como sabe, o meu pai foi professor dela. Sempre acreditei numa política externa moral e democrática - seria de lhe perguntar o que pensa. E sempre pensei que é absolutamente certo falar com outros sobre os valores americanos. Mas precisamos de estar conscientes de que não é uma coisa que se possa meter à força na cabeça das pessoas.

Secretária de Estado dos EUA no tempo do Presidente Bill Clinton, Madeleine Albright é actualmente presidente do Instituto Nacional Democrático para os Assuntos Internacionais, que promove a democracia mundialmente.

Tradução de Aida Macedo
(c) 2005, Global Viewpoint
Distribuído por Tribune
Media Services, INC. "

http://online.expresso.clix.pt/1pagina/artigo.asp?id=24750005



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ROSA MONTERO - Horrible
EL PAÍS - Última - 08-03-2005

A veces, cuando hablo en esta columna de temas demasiado horribles, algunos lectores se incomodan. Para qué contar esas cosas tan tremendas que no tienen arreglo y sólo producen angustia, dicen. Pero yo soy más optimista, o, mejor dicho, más realista, porque basta con contemplar la historia del mundo para verificar que los horrores se han ido corrigiendo y atemperando así, con las denuncias públicas, con el desvelamiento de la atrocidad.
Una asociación suiza ha conseguido grabar con cámara oculta un vídeo de seis horas en donde se prueba que en China despellejan y descuartizan vivos, cada año, a millones de animales para el comercio de pieles. Las desdichadas criaturas son zorros, martas, visones, conejos, perros y gatos. Primero son golpeados con una barra de hierro o contra el suelo para atontarles, pero la inmensa mayoría no pierde ni por un momento la consciencia, y en el vídeo se les ve chillar y retorcerse agónicamente cuando se les cuelga boca abajo y, con grandes cuchillos, les cortan las patas y luego les sacan la piel como quien da la vuelta a un calcetín. Después el pobre cuerpo ensangrentado es arrojado al suelo con los demás en un revuelto montón de despojos, y lo más terrible es que todavía están vivos. Alguno incluso levanta la cabeza. El vídeo puede verse, si se tiene fuerzas para ello, en la web de ANPBA (Asociación Nacional Para el Bienestar Animal), que también ha iniciado una campaña contra esta monstruosidad (para participar en ella, ir a http://www.bienestar-animal.org/campañas/4.htm).
Estas pieles impregnadas de sufrimiento llenan nuestros armarios. En España su comercio es legal, de modo que el mercado está inundado de gorros y estolas y cuellos confeccionados con estas pieles trágicas. Incluso los juguetes de los niños, esos ositos tan suaves y tan graciosos, pueden tener una procedencia semejante. En la UE, sólo Bélgica, Dinamarca, Francia, Grecia e Italia han prohibido la importación de pieles de perros y gatos. Hay que seguir su ejemplo, porque la mejor manera de luchar contra este espanto, contra este dolor enloquecedoramente cruel e innecesario que envilece un poco más este sucio mundo, son las presiones comerciales. Tenemos que prohibir las pieles chinas. "

http://www.elpais.es/articuloCompleto.html?d_date=20050308&xref=20050308elpepiult_2&type=Tes&anchor=elpepiult

http://www.bienestar-animal.org/campañas/4.htm Nota: nao sao para qualquer estomago as imagens.

terça-feira, março 01, 2005


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O fracasso do Processo de Barcelona
Por Teresa de Sousa
O que se está a passar no Médio Oriente devia levar os europeus a meditar nalgumas coisas. Por exemplo: que apostar no desenvolvimento sem cuidar das reformas políticas não leva muito longe. Ou que o terreno mais fértil para o fundamentalismo não é, certamente, a liberdade política e cívica, mas a ausência dela
1.Leiam-se os jornais e é fácil de encontrar um conjunto de notícias normalmente pouco comuns quando se trata do Médio Oriente. No Egipto, Hosni Mubarak surpreendeu toda a gente ao anunciar uma alteração constitucional destinada a permitir eleições presidenciais com vários candidatos. Seriam, se as coisas vierem a correr da melhor maneira, as primeiras eleições pluralistas da história do Egipto desde a queda da monarquia, em 1952. Há menos de um mês, o Presidente egípcio qualificara de "fúteis" e perigosas as exigências das forças da oposição nesse sentido. Mubarak mantém as cadeias cheias de opositores, entre os quais o seu mais credível adversário liberal, Ayman Nour. No mesmo dia em que algumas centenas de estudantes se manifestavam no Cairo erguendo cartazes a dizer "basta", milhares de pessoas enchiam as ruas de Beirute a exigir "liberdade" e "soberania". O assassínio do antigo primeiro-ministro libanês Hariri, opositor à presença militar síria no Líbano, desencadeou um movimento popular que pode vir a dar um novo significado às eleições previstas para Maio. O Egipto é o maior recebedor de ajuda externa dos EUA e da União Europeia. O Presidente egípcio foi, talvez, o primeiro a compreender que o discurso inaugural de George W. Bush não era (como normalmente não é, quando se trata dos EUA) conversa fiada. Bush entende - disse-o aos europeus claramente - que a democracia é o único caminho que pode levar o Médio Oriente a deixar de ser um "barril de pólvora", um viveiro de potenciais terroristas, uma região condenada a ficar para trás. A insistência americana na democratização da Palestina já deu frutos, mesmo que a morte de Arafat tenha acelerado o processo. As eleições no Iraque abrem uma oportunidade difícil de antecipar há apenas alguns meses atrás. As pressões sobre a Síria podem colocar alguma razoabilidade no decrépito regime de Damasco ou, então, abaná-lo seriamente. A ideia americana da democratização do Médio Oriente não é, em suma, uma política condenada antecipadamente ao fracasso, nem está ainda provado que seja um factor tão desestabilizador que conduza inevitavelmente ao reino do fundamentalismo islâmico. 2. Passam no próximo mês de Novembro 10 anos sobre o lançamento do Processo de Barcelona que criou as bases para uma parceria estratégica euro-mediterrânica. A ideia da União era criar um vasto espaço comum de estabilidade e de paz no seu instável flanco Sul, através da cooperação política, económica e de segurança com os países do Norte de África e do Médio Oriente. A oportunidade surgiu na sequência dos acordos de Oslo e quis dar forma a uma política europeia mais concertada e mais eficaz em relação a uma região fronteiriça que é vital para a Europa, de todos os pontos de vista. Muita coisa se passou desde então. Os acordos de Oslo foram por água abaixo. O 11 de Setembro colocou maior urgência na cooperação entre "civilizações". A ascensão (ainda que passageira) da extrema-direita antiemigrantes em alguns países da UE e os problemas de integração das comunidades islâmicas obrigaram a Europa a olhar de forma diferente para os ininterruptos fluxos migratórios vindos dos países do Mediterrâneo ou passando através deles. Dez anos depois, em que medida é que o Processo de Barcelona, com o conjunto vasto de instrumentos que criou, contribuiu para alterar significativamente a realidade política, económica e social desses países? Convenhamos que o balanço é bastante mitigado. 3. A UE já estabeleceu acordos de associação com a maioria dos países envolvidos no Processo de Barcelona - Israel, Turquia, Marrocos, Jordânia, Tunísia, Líbano, Egipto, Argélia, Autoridade Palestiniana e Síria (ainda à espera de assinatura). A Comissão fez o seu papel, tentando desenvolver o processo. Há milhares de páginas de relatórios, de estratégicas, de balanços, de redefinição dos objectivos, de discursos. A União elegeu 2005 como "o ano do Mediterrâneo" e prepara uma série imensa de eventos que vão culminar numa grande conferência em Barcelona, para celebrar condignamente o décimo aniversário.Nada disto disfarça a realidade: que estes países, na sua generalidade, não se libertaram dos problemas económicos e sociais gravíssimos, nem conseguiram ter uma perspectiva sólida de desenvolvimento. Os imigrantes continuam a desembarcar na Europa, apesar das restrições levantadas pela UE e dos acordos de repatriamento. E, sobretudo, os avanços em matéria e reformas democráticas e de protecção dos direitos humanos são muito pobres. O que bloqueou a acção europeia? Primeiro, a dessintonia entre os Estados-membros, sobretudo os grandes Estados-membros com relações privilegiadas com a região. Cada um - a França, a Itália, a Espanha, apenas para citar os mais directamente envolvidos - preocupou-se mais em desenvolver os seus interesses económicos e políticos próprios do que em agir em conformidade com uma estratégia europeia. Segundo, a realidade provou que não bastava que a Comissão fosse negociando acordos de associação, despejando dinheiro em múltiplos programas, organizando diligentemente as iniciativas previstas. Nunca houve uma clarificação política das prioridades. 4. O que é que a Europa pretende realmente? Estancar as vagas de imigrantes? Fazer bons negócios com os países da zona? Facilitar as trocas culturais? Ajudar a combater as redes terroristas? Apoiar a integração regional para incentivar o desenvolvimento e a estabilidade? Promover as reformas políticas democráticas? Quer tudo isto, numa ordem aleatória. Mas nunca elegeu, como devia ter feito, a questão da democracia como o objectivo central. As reformas políticas aparecem sistematicamente "dissolvidas" numa vasta e aparentemente ambiciosa lista de objectivos - qualquer coisa entre o abastecimento de água, as medidas contra o terrorismo e a igualdade entre os géneros. Isto não acontece por acaso. O pensamento dominante ente os europeus (acompanhado por um certo desdém pelo "primarismo" da abordagem americana) é que muita insistência na democracia acabaria por abrir o caminho para o fundamentalismo islâmico. Não é esta, porventura, a única razão. Há outras, como a velha ideia (profundamente enraizada numa certa cultura de esquerda) de que é preciso respeitar as idiossincrasias culturais desses países e entender que a democracia é um processo de muito longo prazo. Seja como for, o resultado desta política está à vista: o Processo de Barcelona foi muito pouco eficaz, apesar dos milhões e milhões de euros e apesar dos esforços da Comissão. Isso e o que se está a passar realmente na região deviam levar os europeus a meditar nalgumas coisas. Por exemplo: que apostar no desenvolvimento sem cuidar das reformas políticas não leva muito longe. Ou que o terreno mais fértil para o fundamentalismo não é, certamente, a liberdade política e cívica, mas a ausência dela.
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http://jornal.publico.pt/noticias.asp?a=2005&m=03&d=01&id=9205&sid=973