Um blog de Filipe Figueiredo

domingo, julho 24, 2005


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Porque nos odeiam eles? Não é por causa do Iraque
A opinião de
Embora as explosões de ontem (dia 21) no metropolitano de Londres tenham sido muito menos graves, graças a Deus, do que as de há duas semanas, muita gente começa a levantar uma questão preocupante: será que a Grã-Bretanha (bem como a Espanha) está a ser "castigada" pela Al-Qaeda por ter participado nas intervenções militares americanas no Iraque e no Afeganistão? Sendo embora uma linha de raciocínio plausível, ela pressupõe uma resposta a uma outra questão, mais ampla e mais pertinente: estarão as raízes do terrorismo islâmico nos conflitos do Médio Oriente?Se a resposta for positiva, a solução é simples de formular, mas não de executar: abandonar o Afeganistão e o Iraque e solucionar o conflito israelo-palestiniano. Porém, se a resposta for negativa, como suspeito que seja, deveríamos aprofundar qual a origem do radicalismo dos jovens muçulmanos ocidentalizados. Os conflitos no Médio Oriente têm um tremendo impacte na opinião pública muçulmana em todo o mundo. Ao justificar os ataques terroristas com o Iraque, a Al-Qaeda procura popularidade ou, pelo menos, legitimidade entre os muçulmanos. Contudo, muitas das declarações, acções e inacções dos grupos terroristas indicam que se trata, em grande parte, de mera propaganda e que o Iraque, o Afeganistão e a Palestina dificilmente serão a motivação que está por detrás da sua jihad global. Comecemos por analisar a cronologia. Os americanos foram para o Iraque e o Afeganistão depois do 11 de Setembro, e não antes. Mohamed Atta e os restantes pilotos não foram motivados pelo Iraque nem pelo Afeganistão. Terão sido motivados pelo conflito palestiniano? Não parece provável. O ataque foi combinado bastante tempo antes do início da segunda intifada, de Setembro de 2000, numa altura de relativo optimismo em relação às negociações israelo-palestinianas.Outro factor de motivação, segundo dizem, foi a presença das tropas "infiéis" nas terras santas do islão. Sim, Osama Bin Laden declarou não ter gostado que a família real saudita permitisse a entrada das tropas ocidentais no país antes da Guerra do Golfo. Mas, nessa altura, Bin Laden já era um combatente veterano empenhado na luta pela jihad global. Tanto ele como os outros membros da primeira geração da Al-Qaeda deixaram o Médio Oriente para lutarem contra a União Soviética a partir do Afeganistão, nos anos 80. À excepção da pequena facção egípcia liderada por Ayman al-Zawahiri, braço direito de Bin Laden, estes militantes nunca se envolveram na política do Médio Oriente. Abdullah Azzam, mentor de Bin Laden, desistiu de apoiar a Organização de Libertação da Palestina (OLP) muito antes da sua morte, em 1989, porque achava que combater por uma causa política localizada era renunciar à verdadeira jihad, que, segundo ele, deveria ter carácter internacional e religioso.Desde o início, os combatentes da Al-Qaeda eram jihadistas globais, e os seus campos de batalha preferidos situavam-se fora do Médio Oriente: Afeganistão, Bósnia, Tchetchénia e Caxemira. Para eles, todos os conflitos faziam simplesmente parte de uma intromissão do Ocidente na umma muçulmana, a comunidade de crentes em todo o mundo.Vejamos de seguida a seguinte questão: se os conflitos no Afeganistão, Iraque e Palestina estão no centro da radicalização, então porque não haverá entre os terroristas nenhum afegão, iraquiano ou palestiniano? Pelo contrário, os bombistas pertencem, na sua maioria, a países da península arábica, Norte de África, Egipto e Paquistão - ou então são naturais de países ocidentais, convertidos ao islão. Porque ficaria um paquistanês ou um espanhol mais furioso do que um afegão pela presença das tropas americanas no Afeganistão? Precisamente porque eles não querem saber do Afeganistão como país, mas vêm o envolvimento americano como parte de um fenómeno global de domínio cultural. O que era verdade para a primeira geração da Al-Qaeda também é relevante para a geração actual: mesmo que estes jovens sejam oriundos de famílias do Médio Oriente ou do Sul da Ásia, são, na sua maioria, muçulmanos ocidentalizados que vivem ou até nasceram na Europa e que se converteram ao islão radical. E mais, encontramos convertidos em praticamente todas as células da Al-Qaeda: que não se converteram ao fundamentalismo por causa do Iraque, antes porque se sentem excluídos da sociedade ocidental (isto é especialmente verdade relativamente aos inúmeros convertidos das Caraíbas, tanto na Grã-Bretanha como em França). Os "renascidos" ou convertidos são rebeldes à procura de uma causa. E encontram-na no sonho de uma umma virtual e universal, tal como os ultra-esquerdistas dos anos 70 (o Baader-Meinhof alemão, as Brigadas Vermelhas italianas) executavam as suas acções terroristas em nome do "proletariado mundial" e da "Revolução" sem se preocuparem verdadeiramente com o que viria depois. É também interessante notar que nenhum dos terroristas islâmicos capturados até agora era activista de algum movimento antiguerra legítimo nem nunca esteve envolvido em qualquer organização política de apoio ao povo por quem reclama lutar. Eles não distribuem panfletos nem fazem peditórios para angariar fundos para hospitais e escolas. Nem têm uma estratégia racional para fazer pressão pelos interesses do povo palestiniano ou iraquiano. Mesmo os seus apelos à retirada das tropas europeias do Iraque soam a falso. A polícia espanhola desmantelou atentados terroristas em Madrid depois de o Governo espanhol ter retirado as suas forças. Os radicais sedeados no Ocidente atacam nos países onde vivem e não onde os mandam atacar ou onde o impacto político seria máximo, em nome das suas causas. Os terroristas sedeados no Ocidente não são a vanguarda militante da comunidade muçulmana, mas uma geração perdida, sem amarras às sociedades e culturas tradicionais, frustrada por uma sociedade ocidental que não satisfaz as suas expectativas. E a sua visão de uma umma global é um espelho e, ao mesmo tempo, uma forma de vingança contra a globalização que os transformou naquilo que são. Exclusivo PÚBLICO/The New York Times
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terça-feira, julho 19, 2005

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Não nos enganemos no inimigo
Teresa de Sousa
No mesmo dia em que quatro bombistas suicidas se fizeram explodir em Londres, um outro matou 27 crianças iraquianas . Antes de sermos brutalmente despertados pelo 11 de Setembro, o terrorismo islâmico fez mais de 100 mil vítimas na Argélia. Onde é que está a vingança contra as bombas americanas? Onde é que está a revolta contra a opressão ou contra a humilhação ocidental?
1.Os atentados terroristas do 11 de Setembro começaram a ser preparados ainda Bill Clinton ocupava a Casa Branca. Ocorreram em 2001, antes da guerra para derrubar o regime de Saddam Hussein.É necessário lembrar estes factos, porque, ouvindo alguns discursos sobre os atentados terroristas de Londres, dá ideia de que a "legitimidade" das bombas assassinas resulta da guerra do Iraque, que o terror da Al-Qaeda é a legítima ou, pelo menos, explicável revolta contra essa guerra, em particular, e contra o imperialismo americano e os seus aliados, em geral. Eles atacam-nos - as vítimas inocentes do metro de Londres, dos comboios de Madrid, da Torres Gémeas de Nova Iorque -, porque nós bombardeamos as cidades iraquianas, apoiamos Israel, humilhamos o mundo islâmico. Eles atacam-nos - os turistas de Bali, os que passavam nas imediações da sinagoga de Istambul ou do centro cultural espanhol de Marrocos -, porque são pobres, porque foram colonizados por nós, porque a nossa opulência os humilha, porque a nossa riqueza os condena à pobreza. Eles atacam-nos, finalmente, porque somos aliados de Bush, porque estamos do lado do império americano e não do lado das suas vítimas, porque bombardeámos a Sérvia.Não é nova esta lógica da culpabilização das democracias ocidentais, nem é novo este discurso dos oprimidos contra os opressores. Existiu durante os 40 anos que durou a guerra fria. Vai continuar a existir agora que o mundo, globalizado com o fim do confronte entre as democracias e o totalitarismo soviético, enfrenta outra ameaça, muito diferente mas igualmente terrível, que vai marcar provavelmente as nossas vidas nos próximos 40 anos.Resta saber se resistiremos a ela com a mesma determinação e a mesma firmeza ideológica. Para isso, é preciso, em primeiro lugar, perceber aquilo que François Heisbourg resumiu numa simples frase, em entrevista publicada pelo Monde há três dias: "Eles atacam-nos pelo que nós somos, não por aquilo que fazemos."2. Os objectivos do terrorismo islâmico são políticos. Os seus mentores têm uma ideologia e uma estratégia. Como tinham o totalitarismo soviético ou nazi. A sua ideologia é igualmente totalitária, com a particularidade de nascer do horror à modernidade e à civilização aberta e global, tal como hoje a conhecemos. A sua estratégia é derrubar os regimes do mundo islâmico que se opõem à sua interpretação política fundamentalista do islão - abrindo as portas ao obscurantismo totalitário de que tivemos, também é bom lembrar, uma pálida imagem no Afeganistão dos taliban. São eles que defendem a "guerra das civilizações" e que estão dispostos a travá-la recorrendo a todos os meios. A sua estratégia passa pela divisão e pelo enfraquecimento do mundo ocidental - os "cruzados e os infiéis" com que intoxicam a opinião pública islâmica. Não tem nada a ver com a pobreza no mundo e com as injustiças da globalização. A guerra do Iraque apenas lhes deu um argumento - mais um - e um novo campo de treino. A sua ideologia da morte não faz quaisquer distinções. No mesmo dia em que quatro bombistas suicidas com passaporte britânico se fizeram explodir em Londres, um outro matou 27 crianças iraquianas pelo mesmo método e com o mesmo objectivo de espalhar o terror. Antes de sermos brutalmente despertados pelo 11 de Setembro, o terrorismo islâmico fez mais de 100 mil vítimas na Argélia. Onde é que está a vingança contra as bombas americanas? Onde é que está a revolta contra a opressão ou contra a humilhação ocidental?3. Londres é mais vulnerável que Paris, que se opos à guerra do Iraque? Roma e Copenhaga são os alvos seguintes? Estão os britânicos a pagar o preço do apoio de Tony Blair aos Estado Unidos? A culpa das bombas de Madrid foi de Aznar? Alguns analistas, mesmo aqueles que parecem mais distanciados da luta política própria das democracias europeias, dizem que sim. É provavelmente assim. O que não quer dizer que, para acabar com as bombas terroristas, os britânicos apenas tivessem de livrar-se de Blair e escolher um primeiro-ministro disposto a retirar do Iraque (Churchill, antes de 1940, também foi acusado - e por tantos - de ser um perigoso "instigador da guerra"). Ou que os madrilenos, com Zapatero, estejam finalmente a salvo de novos atentados. O objectivo da Al-Qaeda é dividir as democracias, quebrar a aliança entre a Europa e os Estados Unidos, virar as suas opiniões públicas contra os governos que apoiam o Grande Satã americano. Um documento da organização, revelado recentemente, não deixa quaisquer dúvidas sobre isso. As bombas de Madrid foram planeadas para condicionar as eleições contra um governo que apoiou a intervenção no Iraque. As de Londres, para enfraquecer o Governo de Blair e dividir a Europa. 4. Se querem vencer no longo prazo a guerra contra a ameaça terrorista, as democracias têm de ter uma estratégia para o mundo islâmico. Que não é a capitulação perante a chantagem do terror, nem, muito menos, a eterna culpabilização pelos males do mundo. Que não pode ser também aceitar (apoiar) os regimes ditatoriais que conseguem manter os fundamentalistas na prisão, mesmo que seja, como normalmente é, à custa da supressão de todas as liberdades para toda a gente. A solução não é, certamente, ficar indiferente perante a barbárie vivida em Argel, passar um atestado de "democrata" ao ditador tunisino Ben Ali, fechar os olhos à guerra da Tchetchénia ou, mais fácil ainda, virar-se contra a América. O tremendo desafio que as democracias enfrentam para tentar, no longo prazo, tornar as suas ruas e as ruas do mundo inteiro mais seguras é o desafio da democratização do mundo islâmico - a conquista da sua opinião pública para os valores que nós próprios defendemos, de que nos orgulhamos e que preservamos nas nossas sociedades abertas, contra todas as bombas. É isso e só isso que torna o terrorismo insuportável. 5. Vivemos um daqueles momentos de perturbação e de perplexidade em que as nossas certezas e as nossas mais profundas convicções são postas à prova. É nestes momentos que é útil reflectir nos ensinamentos da nossa história recente. Dividir as democracias foi sempre o objectivos dos seus inimigos - do nazismo ao comunismo soviético. Com mais ou menos vicissitudes e hesitações, as democracias venceram, porque, em última análise, souberam permanecer unidas. Também foram tentadas pelos cantos de sereia da pobreza, do imperialismo, do capitalismo, da opressão. Também tiveram os seus inimigos internos, os seus fanáticos, os seus bem-intencionados apaziguadores, os seus "culpabilizados", os seus descrentes.De onde lhes veio a resistência? Das suas sociedades livres e da capacidade de distinguir as fronteiras intransponíveis entre os seus valores e os dos seus inimigos. Foi isso que as tornou fortes, porventura mais ainda do que as suas armas sofisticadas e as suas alianças militares.Dir-se-á que é mais terrível confrontar esta nova ameaça, difusa e cobarde, do que os tanques soviéticos ou os bombardeamentos de Hitler. Talvez. A receita é basicamente a mesma. Preservar os nossos valores e, sobretudo, não confundir os inimigos com os aliados. Aí sim, tudo estaria perdido. "