Um blog de Filipe Figueiredo

terça-feira, julho 19, 2005

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Não nos enganemos no inimigo
Teresa de Sousa
No mesmo dia em que quatro bombistas suicidas se fizeram explodir em Londres, um outro matou 27 crianças iraquianas . Antes de sermos brutalmente despertados pelo 11 de Setembro, o terrorismo islâmico fez mais de 100 mil vítimas na Argélia. Onde é que está a vingança contra as bombas americanas? Onde é que está a revolta contra a opressão ou contra a humilhação ocidental?
1.Os atentados terroristas do 11 de Setembro começaram a ser preparados ainda Bill Clinton ocupava a Casa Branca. Ocorreram em 2001, antes da guerra para derrubar o regime de Saddam Hussein.É necessário lembrar estes factos, porque, ouvindo alguns discursos sobre os atentados terroristas de Londres, dá ideia de que a "legitimidade" das bombas assassinas resulta da guerra do Iraque, que o terror da Al-Qaeda é a legítima ou, pelo menos, explicável revolta contra essa guerra, em particular, e contra o imperialismo americano e os seus aliados, em geral. Eles atacam-nos - as vítimas inocentes do metro de Londres, dos comboios de Madrid, da Torres Gémeas de Nova Iorque -, porque nós bombardeamos as cidades iraquianas, apoiamos Israel, humilhamos o mundo islâmico. Eles atacam-nos - os turistas de Bali, os que passavam nas imediações da sinagoga de Istambul ou do centro cultural espanhol de Marrocos -, porque são pobres, porque foram colonizados por nós, porque a nossa opulência os humilha, porque a nossa riqueza os condena à pobreza. Eles atacam-nos, finalmente, porque somos aliados de Bush, porque estamos do lado do império americano e não do lado das suas vítimas, porque bombardeámos a Sérvia.Não é nova esta lógica da culpabilização das democracias ocidentais, nem é novo este discurso dos oprimidos contra os opressores. Existiu durante os 40 anos que durou a guerra fria. Vai continuar a existir agora que o mundo, globalizado com o fim do confronte entre as democracias e o totalitarismo soviético, enfrenta outra ameaça, muito diferente mas igualmente terrível, que vai marcar provavelmente as nossas vidas nos próximos 40 anos.Resta saber se resistiremos a ela com a mesma determinação e a mesma firmeza ideológica. Para isso, é preciso, em primeiro lugar, perceber aquilo que François Heisbourg resumiu numa simples frase, em entrevista publicada pelo Monde há três dias: "Eles atacam-nos pelo que nós somos, não por aquilo que fazemos."2. Os objectivos do terrorismo islâmico são políticos. Os seus mentores têm uma ideologia e uma estratégia. Como tinham o totalitarismo soviético ou nazi. A sua ideologia é igualmente totalitária, com a particularidade de nascer do horror à modernidade e à civilização aberta e global, tal como hoje a conhecemos. A sua estratégia é derrubar os regimes do mundo islâmico que se opõem à sua interpretação política fundamentalista do islão - abrindo as portas ao obscurantismo totalitário de que tivemos, também é bom lembrar, uma pálida imagem no Afeganistão dos taliban. São eles que defendem a "guerra das civilizações" e que estão dispostos a travá-la recorrendo a todos os meios. A sua estratégia passa pela divisão e pelo enfraquecimento do mundo ocidental - os "cruzados e os infiéis" com que intoxicam a opinião pública islâmica. Não tem nada a ver com a pobreza no mundo e com as injustiças da globalização. A guerra do Iraque apenas lhes deu um argumento - mais um - e um novo campo de treino. A sua ideologia da morte não faz quaisquer distinções. No mesmo dia em que quatro bombistas suicidas com passaporte britânico se fizeram explodir em Londres, um outro matou 27 crianças iraquianas pelo mesmo método e com o mesmo objectivo de espalhar o terror. Antes de sermos brutalmente despertados pelo 11 de Setembro, o terrorismo islâmico fez mais de 100 mil vítimas na Argélia. Onde é que está a vingança contra as bombas americanas? Onde é que está a revolta contra a opressão ou contra a humilhação ocidental?3. Londres é mais vulnerável que Paris, que se opos à guerra do Iraque? Roma e Copenhaga são os alvos seguintes? Estão os britânicos a pagar o preço do apoio de Tony Blair aos Estado Unidos? A culpa das bombas de Madrid foi de Aznar? Alguns analistas, mesmo aqueles que parecem mais distanciados da luta política própria das democracias europeias, dizem que sim. É provavelmente assim. O que não quer dizer que, para acabar com as bombas terroristas, os britânicos apenas tivessem de livrar-se de Blair e escolher um primeiro-ministro disposto a retirar do Iraque (Churchill, antes de 1940, também foi acusado - e por tantos - de ser um perigoso "instigador da guerra"). Ou que os madrilenos, com Zapatero, estejam finalmente a salvo de novos atentados. O objectivo da Al-Qaeda é dividir as democracias, quebrar a aliança entre a Europa e os Estados Unidos, virar as suas opiniões públicas contra os governos que apoiam o Grande Satã americano. Um documento da organização, revelado recentemente, não deixa quaisquer dúvidas sobre isso. As bombas de Madrid foram planeadas para condicionar as eleições contra um governo que apoiou a intervenção no Iraque. As de Londres, para enfraquecer o Governo de Blair e dividir a Europa. 4. Se querem vencer no longo prazo a guerra contra a ameaça terrorista, as democracias têm de ter uma estratégia para o mundo islâmico. Que não é a capitulação perante a chantagem do terror, nem, muito menos, a eterna culpabilização pelos males do mundo. Que não pode ser também aceitar (apoiar) os regimes ditatoriais que conseguem manter os fundamentalistas na prisão, mesmo que seja, como normalmente é, à custa da supressão de todas as liberdades para toda a gente. A solução não é, certamente, ficar indiferente perante a barbárie vivida em Argel, passar um atestado de "democrata" ao ditador tunisino Ben Ali, fechar os olhos à guerra da Tchetchénia ou, mais fácil ainda, virar-se contra a América. O tremendo desafio que as democracias enfrentam para tentar, no longo prazo, tornar as suas ruas e as ruas do mundo inteiro mais seguras é o desafio da democratização do mundo islâmico - a conquista da sua opinião pública para os valores que nós próprios defendemos, de que nos orgulhamos e que preservamos nas nossas sociedades abertas, contra todas as bombas. É isso e só isso que torna o terrorismo insuportável. 5. Vivemos um daqueles momentos de perturbação e de perplexidade em que as nossas certezas e as nossas mais profundas convicções são postas à prova. É nestes momentos que é útil reflectir nos ensinamentos da nossa história recente. Dividir as democracias foi sempre o objectivos dos seus inimigos - do nazismo ao comunismo soviético. Com mais ou menos vicissitudes e hesitações, as democracias venceram, porque, em última análise, souberam permanecer unidas. Também foram tentadas pelos cantos de sereia da pobreza, do imperialismo, do capitalismo, da opressão. Também tiveram os seus inimigos internos, os seus fanáticos, os seus bem-intencionados apaziguadores, os seus "culpabilizados", os seus descrentes.De onde lhes veio a resistência? Das suas sociedades livres e da capacidade de distinguir as fronteiras intransponíveis entre os seus valores e os dos seus inimigos. Foi isso que as tornou fortes, porventura mais ainda do que as suas armas sofisticadas e as suas alianças militares.Dir-se-á que é mais terrível confrontar esta nova ameaça, difusa e cobarde, do que os tanques soviéticos ou os bombardeamentos de Hitler. Talvez. A receita é basicamente a mesma. Preservar os nossos valores e, sobretudo, não confundir os inimigos com os aliados. Aí sim, tudo estaria perdido. "