Um blog de Filipe Figueiredo

quarta-feira, maio 04, 2005


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Revistas e ideias
O debate público teria muito a ganhar com uma maior frontalidade na afirmação das ideias divergentes
Ao fim de 40 anos de publicação ininterrupta acaba de sair nos Estados Unidos o último número de uma das mais influentes revistas de debate político, a The Public Interest. Fundada em 1965, em Nova Iorque, por Irving Kristol e Daniel Bell, dedicando-se apenas a temas de política interna, foi o berço onde cresceram os neoconservadores. Teve sempre uma circulação relativamente pequena e uma influência grande, não deixando de ser paradoxal que desapareça quando, de acordo com as simplificações da moda, os neoconservadores experimentam o seu triunfo.Contudo, no texto que abre o último número, Irving Kristol recorda como a revista sempre procurou transcender qualquer ideologia política, tendo nela escrito, sempre, quer republicanos, quer democratas. O importante foram sempre as ideias, expostas com clareza e frontalidade, naquilo que designa como uma "excitante aventura intelectual" - que espera ver continuada por outros, capazes de pensarem com liberdade e profundidade sobre os enormes dilemas do mundo em que vivemos.The Public Interest desaparece numa altura em que muitas outras publicações alimentam um debate público que se expressa com enorme pluralismo e onde os académicos não se eximem de participar. Da esquerda à direita, dos conservadores aos liberais, dos internacionalistas aos soberanistas. Com grande ou pequena circulação, essas revistas e jornais são julgados pela profundidade dos seus textos, pela qualidade dos seus colaboradores e pela abertura com que enfrentam os debates mais "fracturantes". Independentemente de se preferir a The Public Interest ou a New Left Review, o importante é que o debate político nos Estados Unidos tem a enorme vantagem de não temer a separação de águas. Os pontos de contacto necessários à acção política não são obtidos esbatendo as diferenças entre as diferentes propostas, mas começando por sublinhá-las: quando os argumentos estão claros, extremados se necessário, é mais fácil entender as divisões e as convergências.Portugal não tem tido este hábito, o que é mau. O debate político tende a ficar ao centro, ou no centro-esquerda, algo que contamina o restante debate público e académico. Parece difícil esgrimir os argumentos até ao fim com medo de desagradar ou de se ficar isolado. De se ser tratado por lunático. Ou de se perder os amigos e as relações. Este ambiente - sobre o qual reflecte de forma muito estimulante Maria de Fátima Bonifácio no último número da revista Atlântico, num ensaio intitulado A nostalgia fracturante - é claustrofófico e redutor, mas poderá estar a alterar-se. A revista Atlântico é um desses sinais, tal como a mais antiga Nova Cidadania, ambas situadas num espaço que recusa as verdades dominantes nos media, mas que também têm contraponto mais à esquerda em publicações como Finisterra, a velha Vértice ou na Manifesto, se bem que estas estejam mais alinhadas, respectivamente, com as áreas políticas do PS, do PCP e do Bloco e saiam com alguma irregularidade. A blogosfera é igualmente um espaço onde o debate, menos institucional, por regra protagonizado por gente mais nova e mais aberta, mostra que existe margem e até alguma avidez por discussões que separem águas.Portugal tem muito a ganhar com esta nova clareza, ainda nascente, e com todos os que assumem sem receio o que pensam. Para moleza já chegam os partidos que, depois da onda de renovação nas suas lideranças, ainda parecem mais acantonados ao centro do que antes. José Manuel Fernandes
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