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O estado de graçapor
Francisco josé viegas
escritor
Há uma excelente novidade na atitude deste Governo não se nota a sua existência. Em condições normais, esse seria um dado muito positivo para a democracia e para a sociedade. Episodicamente, como eco de discussões parlamentares, de um par de substituições de directores-gerais, de uma ou outra indignação da Oposição ou da polémica sobre os têxteis chineses, o Governo lá aparece - não sem mostrar uma ponderação notável. Esta atitude não é apenas estrategicamente inteligente. Deveria ser regular e confirma aquilo que a campanha eleitoral já anunciara a "febre reformista" é prejudicial e esquizofrénica. As pessoas querem voltar a ser normais durante algum tempo. É evidente que ainda não ouvi dizer que os congressos da Oposição, os acontecimentos do Vaticano e a consequente febre televisiva em redor do conclave, por exemplo, "desviaram as atenções". Outros tempos. Os governos têm direito ao seu estado de graça se fazem por isso. Este está a fazer por isso.2. Esse abandono a que o Governo está a sujeitar a sociedade (manobrando baixinho, aparecendo a espaços, deixando que a poeira assente e que o país compreenda que um governo não governa mais ou melhor só porque anda em bicos de pés e aparece na televisão) está a deixar algumas almas em desassossego. Vê-se pela Imprensa e pelas colunas de opinião. À falta de melhor argumento, murmura-se sobre a "silenciosa crise nacional". É o regresso da conversa sobre a "auto-estima". Alguns estão claramente descontentes; preferiam que o primeiro-ministro aparecesse nas pantalhas e decretasse o fim da crise e com isso ficaríamos todos contentes, rejubilando com a nova onda de confiança e de patriotismo. O problema é que a "auto-estima" é sempre um problema de linguagem e de espectáculo quanto mais espectáculo, mais confiança, mais euforia. Mas seria (como tem sido) aquela euforia que antecipa a depressão. Foi assim nos dias da Expo98, foi assim no Euro2004. Depois da euforia, as pessoas regressavam a Portugal. É bom que fiquem por cá.3. O dr. Mário Soares acha mal que a Esquerda vá sozinha às autárquicas; não por causa das autarquias ou do bem comum - mas por causa das presidenciais. É um problema com que a Esquerda vai ter de lidar em primeiro lugar, porque o dr. Soares vai continuar a pensar e a dizer coisas que não pensava no seu tempo (mas isso é o menos, eu sei que os tempos mudaram); em segundo lugar, porque a maioria do PS é a maioria do Centro. 4. A campanha de José Sócrates, em Fevereiro, assentou (entre outras coisas) numa excelente estratégia de marketing preparada pela LPM, uma agência de comunicação que reuniu gente de norte a sul em "focus groups"; estes disseram ao PS que a promessa de reformas a mais e de mudanças radicais afastavam os eleitores e geravam instabilidade. Os eleitores queriam "pessoas normais". Sócrates ganhou as eleições também por isso. Marques Mendes, antes de se lançar na campanha pela liderança do PSD, disse que o partido precisava de pessoas normais. Agustina Bessa-Luís disse, recentemente, que o líder do futuro é o "homem normal". Ribeiro e Castro, durante o congresso do CDS, subiu à tribuna para dizer que é "uma pessoa normal". Ou me engano muito ou isto é um exagero.5. A despenalização do aborto eu voto a favor. A sociedade pensa a favor, mas não sei se vota a favor. Uma lei equilibrada e que assuma como lei aquilo que a sociedade está disposta a aceitar seria o ideal. Seria uma bênção. Mas, durante uns tempos, privado da sua bandeira e do seu folclore, o Bloco de Esquerda marcharia à deriva. O que seria uma bênção ainda maior. "
http://jn.sapo.pt/2005/04/28/opiniao/o_estado_graca.html

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