Um blog de Filipe Figueiredo

domingo, maio 08, 2005

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O dia em que acabou o pesadelo na Europa
Por Manuel Carvalho
A II Guerra Mundial acabou faz hoje 60 anos. Depois de suportarem durante meses o horror dos bombardeamentos, de se habituarem à convivência com as mortes de familiares e vizinhos, os europeus tiveram ainda de se confrontar com a constatação do Holocausto e com a tensão da guerra fria. Nos escombros de um conflito que devorou a vida de 40 ou 50 milhões de pessoas, emergia uma nova Europa. Que insistia na necessidade de se não esquecer os efeitos trágicos da guerra para evitar que o fantasma da sua repetição se possa reerguer.
A8 de Maio de 1945 a guerra terminava na Europa. Na véspera, em Reims, responsáveis militares alemães haviam assinado a rendição, nesse dia os combates terminaram de facto, e a 9 de Maio o almirante Karl Doenitz assinava a incondicional capitulação alemã. Assim se encerrava no Velho Continente a II Guerra Mundial, o mais mortífero e devastador conflito da História. A data será hoje e amanhã assinalada um pouco por todo o mundo, de Moscovo a Dresden, de Paris a Londres, de Berlim a Washington. Veteranos vão recuperar as fardas e desfilar memórias, sobreviventes vão recordar os horrorres, líderes políticos vão fazer discursos sobre as lições do conflito. Como sempre, poucos adjectivos associados à morte, ao sofrimento, à brutalidade ou ao horror deixarão de ser pronunciados. Citar-se-ão números. Os 40 ou 50 milhões de seres humanos que perderam a vida. Mencionar-se-ão os horrores das bombas incendiárias sobre Belgrado ou Roterdão, a destruição da casa de Goethe em Frankfurt ou dos restos mortais de Carlos Magno em Aachen, o assassínio frio e premeditado de seis milhões de judeus, a violência sobre milhões de repatriados da Rússia, da França ou da Polónia. Citar-se-ão exemplos de resistência extrema, do medo e da coragem. Invocar-se-ão talvez génios, como os cientistas de Bletchley Park que decifraram as comunicações secretas dos alemães através do Enigma. Se se falar de humanidade, ouvir-se-á o nome de Aristides de Sousa Mendes ou de outros diplomatas que arriscaram a vida para salvar a de outros. Os sobreviventes com memórias reais da guerra têm hoje 70 anos ou mais. Para as gerações mais jovens, a II Guerra Mundial pode ser apenas um documentário a preto e branco, com gente e mortos tão improváveis como os de um filme de acção. O tempo leva ao esquecimento e este à indiferença. Mas, para milhões de europeus, o pesadelo continua a reaparecer como um fantasma ameaçador. Nas reivindicações de alemães dos Sudetas, hoje República Checa. Nos debates sobre a velha e a nova Europa, que, nas suas profundezas argumentativas reflectem muitas vezes o medo do regresso das velhas tentações hegemónicas da Rússia e da Alemanha. Ainda hoje, milhões de pessoas perseguem os rastos de seus antepassados - Gerhard Schoreder descobriu este ano o destino do seu pai, sepultado num remoto cemitério da Roménia. Durante 1 de Setembro de 1939 e 8 de Maio de 1945, a Europa parece ter varrido da memória e da consciência 25 séculos de civilização e mergulhou na barbárie. A guerra anunciadaPoderia ter-se evitado? No pós guerra, a pergunta tornou-se inevitável. Ainda o é. Se os primeiros-ministros britânico e francês na altura, Neville Chamberlain e Édouard Daladier tivessem travado Hitler na Conferência de Munique ou mesmo antes... Se a França tivesse atacado quando os alemães começaram a construir a linha Siegfried, em 1937... se o Tratado de Versalhes, que encerrou o primeiro capítulo das guerras europeias do século XX, tivesse sido mais justo e menos humilhante para a Alemanha...Depois de 1918, a Alemanha entrou em convulsão, Nos anos 20, o regime de Weimar mostrou-se incapaz de suster uma crise na qual "nem os eléctricos chegavam a horas". A turbulência é ideal para o fermento dos extremismos. O dos comunistas, que se tornam numa poderosa força política, o dos nazis, que cresceram nas urnas pela força da desordem capitalista, do ódio ao judeobolchevismo e, obviamente, pela humilhação de Versalhes. Em 30 de Janeiro de 1933, Hitler torna-se Chanceler do Reich e, num ápice, a Alemanha submete-se à esperança do "renascimento" alemão. Na sua génese ideológica estava a exaltação da pior herança do militarismo prussiano e do pangermanismo nacionalista e xenófobo que apregoava o Lebensraum (espaço vital) e a Anschluss (anexação da Áustria e dos espaços colonizados pelos alemães no Leste). Depois da ideologia, os actos: dez meses após a posse de Hitler, o Reich retira-se da Sociedade das Nações: em 1935, o Sarre aprova por referendo o regresso à Alemanha. Posteriormente, as violações a Versalhes: o regresso do serviço militar obrigatório, a criação da Luftwaffe (força aérea), em 1935; a reocupação militar da Renânia, em 1936; o envio da Legião Condor para apoiar Franco na guerra civil espanhola; a anexação da Áustria, em 1938. Quando a voracidade se volta para os Sudetas, uma área fortemente germanizada no noroeste da Checoslováquia, acendem-se os primeiros sinais de aviso em Paris e Londres. A crise adia-se em Munique, com cedências e apelos de Chamberlain a uma "Paz para o nosso tempo". Os alemães entram na Checoslováquia em Março de 1939. Pressentia-se o passo seguinte: a Polónia. A França e a Inglaterra anunciam que não tolerarão novas agressões. Hitler tinha de jogar depressa. Não avança logo para a guerra porque no ar pairava ainda a experiência de 1914/18: a Alemanha sucumbira à pressão de duas frentes, pelo que era urgente manter quietos os russos. Em Maio de 1939, Ribbentrop, ministro dos Estrangeiros de Hitler encontra-se com Molotov, o seu congénere russo, para celebrarem um dos pactos mais espúrios da História: a Polónia seria dividida irmãmente, desde que Estaline se mantivesse fora do palco das disputas europeias. Pegou. Às 4h45 do dia 1 de Setembro de 1939, a Wehrmacht invade a Polónia. Três dias mais tarde, a França e o Reino Unido declaram guerra à Alemanha. O maior pesadelo da História europeia estava a começar.O império da WerhmachtNo Outono de 1939 o exército alemão parecia uma máquina imbatível. A Wehrmacht dispunha da mais avançada tecnologia da época, de génios militares como Manstein ou Hans Guderian, que revelou a nova utilidade dos tanques e, acima de tudo, de uma táctica revolucionária: a blitzkrieg, guerra relâmpago, que consistia em acções combinadas de ataques aéreos e avanços rápidos das colunas militarizadas. Os seus oponentes, ainda influenciados pela lenda da cavalaria clássica, como os polacos, ou pela memória da guerra das trincheiras, como os franceses, revelaram-se presas fáceis.Em 28 dias, a Polónia sucumbiu. Em dois meses (Maio e Junho de 1940), a França cai e Pétain pede um armistício. As cruzes suásticas são desfraldadas em Paris e nasce o regime colaboracionista em Vichy. O preço para os alemães foi escasso: 27 mil mortos. As consequências para os franceses, trágicas: 90 mil mortos, 200 mil feridos, 1,9 milhões de prisioneiros, muitos dos quais seriam fuzilados ou deportados.Aconteceu, porém, um milagre. Em 26 de Maio, o Corpo Expedicionário Britânico estava encurralado pelo alemão em Dunquerque. Ainda assim, Hitler não alterou os seus planos ofensivos em direcção a Paris e recusou a oferta de Goering, o seu ministro da aviação, para atacar os britânicos encurralados. Numa missão épica, que durou 8 dias, 850 barcos conseguiram, em sucessivas viagens através da Mancha, salvar 338 mil soldados. Hitler teve na mão a oportunidade de desferir um rude golpe a Winston Churchill (tomara posse a 11 de Maio), e à moral dos britânicos. Não o fez. Porquê? Vários historiadores explicam a sua decisão com o facto de, após a derrota da França, acreditar ainda numa paz separada com a Inglaterra preocupada em preservar o Império. Churchill responder-lhe-ia num discurso para a História com a promessa de guerra em todo o lado, "no ar, na terra, no mar", uma guerra que iria vencer com "sangue, suor e lágrimas". A guerra totalOs europeus que tinham frescas as memórias trágicas da I Guerra Mundial não puderam prever os efeitos da guerra total que se preparava. A indústria gerara armas muito mais letais que as da geração anterior, mas, mais importante, o que estava a mudar era o próprio conceito da guerra. O espírito cavalheiresco que resistira desde a Idade Média estava enterrado: os civis, a arte, os refugiados tornaram-se alvos da nova guerra total. Com os planos para uma paz com os "primos saxónicos" gorados perante a intransigência britânica, Hitler admite uma invasão do Reino Unido. Antes, 2800 aviões da Luftwaffe seriam encarregados de despejar bombas sobre as ilhas. Em vão: entre Julho e Setembro de 1940, a forte resistência da Royal Air Force (RAF) comprovou o excesso de ambição do Fuhrer: 1400 aviões alemães foram abatidos. A 17 de Setembro Hitler esquece a invasão. Surgem outras prioridades. Em Junho ocupa a Noruega e em Abril do ano seguinte a Jugoslávia e a Grécia. Nesse mesmo mês, Erwin Rommel e o seu Afrika Korps empurram os britânicos até às fronteiras do Egipto.Com o coração da Europa dominado pela Alemanha e pela Itália de Mussolini, com a Rússia amarrada a um pacto, a Inglaterra estava só. Ou quase: quatro dias depois do ataque japonês a Pearl Harbour, a 7 de Dezembro de 1941, os Estados Unidos entraram na guerra.Ocaso na RússiaO Exército Vermelho foi o principal responsável pela destruição da máquina militar alemã. Cabem na sua conta a captura, desmantelamento ou destruição de 607 divisões do Eixo - as forças anglo-americanas tiveram na sua conta 176. O preço foi impressionante: nos 1418 dias da guerra na frente Leste morreram entre 9 e 10 seres humanos por minuto. "Quando o ataque à Rússia começar, o mundo susterá a respiração", advertira Hitler, que sempre encarou o Leste e, concretamente, a Rússia, como o horizonte onde a Grande Alemanha descobriria o seu "espaço vital". A Operação Barbaruiva, que se inicia em 22 de Junho de 1941, foi a maior ofensiva da História. Nas imediações da fronteira polaca colocaram-se 3,5 milhões de alemães em armas. O avanço incial foi fulminante: o grosso da força aérea soviética foi destruído no solo e os exércitos no terreno, surpreendidos pela "traição" e paralisados pela incapacidade de uma hierarquia debilitada pelas purgas dos anos 30, foram apanhados no rolo compressor dos Panzer. Em Julho os alemães estavam em Leninegrado, iniciando um cerco no qual morreram 900 mil pessoas vítimas da fome e dos bombardeamentos. Em Novembro chegaram a 30 quilómetros de Moscovo. Em cinco meses, a força aérea russa tinha sido destruída, 4,5 milhões de soldados tinham sido mortos ou feridos e 3,8 milhões feitos prisioneiros.Hitler, porém, não tinha aprendido a lição que o Inverno russo ensinara a Napoleão 130 anos antes. Em Novembro ficou claro que a máquina de guerra germânica patinava no gelo, na lama e na falta de recursos. As baixas avolumam-se - um milhão de mortos até essa data. O espírito da "Grande Guerra Patriótica" apregoado por Estaline começava a dar resultados. Num esforço gigantesco, os russos desmontaram e transferiram para além dos Urais milhares de fábricas, milhões de soldados foram recrutados em todo o país, crianças, mulheres e idosos foram mobilizados para um esforço de guerra titânico. A Rússia estava gravemente ferida, mas a blitzkrieg tinha fracassado.Na Primavera seguinte, os alemães retomam a ofensiva, concedendo agora prioridade à conquista dos campos petrolíferos do Cáucaso. O Estado Maior alemão faz divergir para o sul da frente os seus melhores corpos, e, mais uma vez, a máquina alemã parecia imparável. Hitler comete então um dos seus maiores erros: divide o seu grupo de exércitos em dois, devendo uma força continuar em direcção aos campos de petróleo do sul e outra fazer um desvio em direcção a Estalinegrado. Em Outubro, o VI Exército de Von Paulus entra na cidade, já profundamente destruída pelos bombardeamentos aéreos. A resistência dos russos entre as ruínas revela-se insuperável. Em Novembro acontece o imprevisto: numa manobra genial, Zukhov cerca os 300 mil alemães no coração da cidade. Nos primeiros meses, a Luftwaffe garantiu os abastecimentos. Depois, a fome, a falta de munições, e o frio ditaram a sorte de um dos corpos de elite do Reich: Von Paulus, contrariando ordens directas de Hitler, rende-se a 8 de Janeiro. Sobreviveram 90 mil soldados. Poucos regressariam à Alemanha.Depois de Estalinegrado, os ingleses respiraram de alívio. Ao longo de 1943, a máquina industrial soviética começou a produzir armas numa escala sem precedentes, o talento táctico de uma nova geração de oficiais emergiu e os alemães começam a recuar. Em Agosto de 1944, os russos preparavam-se para entrar na Polónia e avançar até Berlim.Regresso ao continenteDepois da vitória britânica de Maio de 1943, em Al Alamein, às portas do Egipto, a conquista da orla sul do Mediterrâneo era uma questão de meses. Na Conferência de Casablanca, em Janeiro de 1943, os aliados passaram a discutir a melhor forma de regressar ao continente: através de um desembarque aliado nas costas francesas do Mar do Norte, ou uma invasão de Itália? A segunda hipótese, a preferida de Churchill, triunfou e em Julho, 140 mil homens invadem a Sicília. Os alemães e italianos sofrem 160 mil baixas, mas conseguem retirar 100 mil soldados para a península. Seria aí que o brilhante general alemão Albrecht Kesserling montaria uma estratégia defensiva que travou durante meses o avanço aliado.Na Conferência de Teerão, em finais de Novembro de 1943, Churchill, Roosevelt e Estaline debatem novamente a abertura de uma frente ocidental. A operação Overlord entra na recta final. Nos noticiários da manhã de 6 de Junho de 1944 a BBC noticia o início do desembarque nas costas da Normandia. No final do Dia D, 156 mil soldados de várias nacionalidades tinham garantido uma testa de ponte no continente europeu. A 25 de Agosto, Paris festeja a libertação. Na final do Inverno de 1944/1945, Eisenhower, chefe do Estado Maior Aliado, tinha Berlim ao seu alcance. Mas as negociações políticas de Ialta (Fevereiro de 1945) haviam atribuído esse troféu aos russos. Em Março o Reno é atravessado e as tropas aliadas dão-se conta de um cenário dantesco de destruição. Hitler começara a cumprir a sua profecia: "Se perdermos a guerra, a nação perecerá". As suas ordens, nem sempre cumpridas, exigiam a destruição de todas as infraestruturas básicas do país. Os relatos dos soldados assinalavam a descoberta dos primeiros campos de concentração. O horror nazi revelava-se em toda a dimensão. Em Abril o general norte-americano Patton tinha já cortado a Alemanha em duas partes, chegando às margens do Elba. Os russos também lá estavam, depois de "libertarem" a Bulgária, a Roménia e a Polónia - onde, às portas da capital, sustiveram o avanço para permitir a liquidação de uma revolta contra os nazis. Cumprindo as determinações de Ialta, os britânicos ocuparam Atenas. O mapa da Europa do pós-guerra começava a desenhar-se.O Reich estava em agonia. Mas, ainda assim, recorrendo a idosos ou crianças de 15 anos, a Wehrmacht resistia. Entre Fevereiro e Maio, 300 mil soldados russos perderam a vida na batalha por Berlim - uma perda semelhante às baixas totais dos norte-americanos no conflito. Encerrado no bunker do Reichtag, Hitler dava a ordens a Exércitos que já não existiam. Quando os russos estavam a dezenas de metros do seu refúgio, suicidou-se. Oito dias depois, o seu indigitado sucessor, Karl Doenitz, assinava a declaração de capitulação. O pesadelo na Europa acabara - no Pacífico duraria até Agosto.Europa devastadaDurante quase seis anos, o coração da Europa ficou destruído. O palco principal desse cenário dantesco, com cidades em ruínas e milhões de pessoas a vaguear sem destino pelas estradas, foi a Alemanha. O desígnio de Hitler não se cumpriu - a Alemanha não se extinguiu, como desejara nos dias finais do seu reinado de terror. Mas ficou exangue.A Alemanha, que nascera como Estado unitário no final do século XIX, foi condenada à divisão e à tutela externa. Os principais responsáveis que sobreviveram ao nazismo foram julgados ou condenados, em Nuremberga e em outros tribunais. Ao contrário do Japão, o bloco ocidental do país conseguiu expiar as suas culpas, reinventar o melhor da sua tradição democrática e transformar-se num modelo de prosperidade. Durante o primeiro meio século do pós-guerra, a Europa do leste foi apartada do resto do continente por uma cortina de ferro que Churchill denunciou mal a guerra-fria se instalou na nova ordem internacional. Definitivamente, as velhas potências europeias perceberam que os gloriosos tempos do Império se tinham esgotado. Com a tentação de domínio da URSS a espreitar do outro lado da cortina, os Estados Unidos converteram-se no chapéu protector para a França ou o Reino Unido. Ao contrário do que acontecera nas grandes conferências do século XIX, já não tinham força para jogar as suas cartas no tabuleiro europeu. O fim do império soviético fez, porém, regressar a Europa a alguma da normalidade anterior à Grande Guerra. Quando hoje se celebra a data do seu fim, vale a pena lembrar o epitáfio que se lê num cemitério de uma aldeia rural britânica: "Éramos jovens. Morremos. Não se esqueçam de nós".
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