Ex-maoistas
Na última edição da Pública (2004/08/15) num artigo de "remember" de percursos políticos, a dada altura José Lamego e Jorge Coelho definem o que é esquerda/direita:
"José Lamego: " Sou um socialista liberal. Estou convicto de que a liberdade individual das pessoas é o princípio para uma política de esquerda. O que é a esquerda? Defender a liberdade e um sistema meritocráticao e distributivo. A direita ? São os defensores da tradição e do privilégio". Jorge Coelho:" Considero-me um humanista. Três pilares que considero fundamentais na esquerda: firmeza, tolerância, solidariedade. Para a direita é o egoísmo e o lucro".
Que o segundo tenha dito o que disse, não me surpreende. Já o primeiro não estava à espera de tal comentário.Mas vamos por partes: Eu, que não sou de direita nem de esquerda(sim, já sei, já sei...) mas que partilho de muitas ideias de um lado e do outro, não me reconheço numa certa esquerda que se julga campeã dos ideiais( e também numa certa direita).Mas para alguma esquerda parece que só eles é que podem ser tolerantes e solidários. Pior: além de pensarem que as virtudes são todas de esquerda, os defeitos pertecem à direita (egoísmo e lucro). Uma vez que este país já deu duas maiorias absolutas à direita (do egoísmo e do lucro...) e nunca deu uma à esquerda (firme, tolerante, e solidária), pergunto-me o que pensará a esquerda dessa metade dos portugueses? Será que pensam que essa metade não sabe votar? Essa metade não sabe ser firme, tolerante, e solidária? Penso que não. Penso é que esta certa esquerda menospreza uma boa parte do eleitorado e se julgam os paladinos dos bons costumes. Até aqui nada de novo. O que penso é que este tipo de atitude afastam potenciais pessoas de votar à esquerda. Muita gente à direita e à esquerda é tolerante, firme e solidária. Este jogo de nós-é-que-somos-bons-e-os-outros-maus praticado dum lado e do outro afasta muita gente de votar num e noutro. E esta diferença tem-se radicalizado nos últimos tempos. Se se evitasse este jogo, e se se optasse mais por evidenciar as diferenças de substância e estilo sem atacar desta maneira o adversário, tanto o PS como o PSD poderiam alcançar uma maioria absoluta com muitas destas pessoas que não se revêm neste jogueco. Se uma maioria absoluta é boa ou má é outra discussão. Mas é o que estes dois partidos procuram.
Quanto ao comentário de José Lamego: Defensores das tradições todos o somos. Eu e grande parte da pessoas que conheço(ou mesmo todas) penso serem defensoras de tradições que consideramos boas. Das que consideramos más, não pensamos todos o mesmo. Claro que gosto de preservar certas tradições. E não gosto de outras. E sei que tanto a esquerda como direita gostam de conservar as tradições que considerem boas. Já sobre a direita ser defensora de (certos) privilégios: Isso existe tanto à esquerda como à direita. É mau, mas é verdade. Aliás o grande problema é que para essa certa esquerda eles é que deveriam ser os privilegiados das boas ideias. E têm pena de não o serem. Não incluo José Lamego nessa esquerda, pois é uma das figuras da politica portuguesa que mais tenho em consideração e que acima de tudo é coerente com as suas convicções.
Para finalizar: a distinção esquerda/direita está a ser desvirtuada do que tenho visto tanto num lado como no outro, e custa-me ver a atitude do eu-é-que-sou-de-direita-por-isso-sou-fixe. E o mesmo à esquerda. Ser-se de um lado ou do outro não é nenhuma virtude ou defeito. É-se diferente. Só isso.
