Um blog de Filipe Figueiredo

sexta-feira, janeiro 28, 2005

o que por cá se passa...

" Maravillosa Pires
JORGE DE PERSIA

- 27/01/2005

La pieza clave era la intervención de la gran pianista portuguesa Maria João Pires en el Concierto para piano n.º 2 de Chopin, y así fue sin duda, indescriptible la belleza de su toque, el sonido cristalino que cuajó en el segundo movimiento, la limpieza de su deambular por el teclado, la cantidad de matices, de efectos de contención y de expresividad. Fueron, en fin, momentos sublimes en los que la intérprete estuvo bien secundada por la sensibilidad de una cuerda suave, sin igual suerte con el resto de la orquesta. La indisciplina de algunos vientos, que llegaron tarde al ritual de afinación (no es frecuente que un solista ya instalado en el piano deba dar el famoso la para que afine la orquesta), determinó una falta de concentración que no se aquilató hasta bien entrada la obra, lo que acarreó más de un desajuste que, felizmente, no logró empañar el trabajo de la maravillosa Pires. Al margen de ello, la composición del programa -si bien atractivo por el interés de cada obra en sí misma- proponía una secuencia poco digerible, dado que Chopin estaba precedido por el austero Concierto para orquesta de cuerda de Stravinsky, que abrió la sesión con gran musicalidad en su fuerte contexto rítmico, estimulada por un buen trabajo del director y con sonoridades muy bellas. Guiño a Stravinsky La Sinfonía n.º 4 de Beethoven con la que se cerró el programa dejó ver claramente las virtudes de la orquesta, estupendo sonido general, buenas participaciones solistas en maderas y metales, buen trabajo de acentos, logrados intermedios camerísticos con buena mano de Emmanuel Krivine en el segundo movimiento y, contrastando con el pausado comienzo de la obra, un alud de accelerandos en el tercero y un tempo rapidísimo, casi de malabarismo en el cuarto, con una predominancia de la armonía vertical en lugar de la amplitud de la frase, casi un guiño al Stravinsky inicial." (sem link pois o La Vanguardia necessita inscriçao)

Para nao estarmos sempre a dizer mal de nós próprios....

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Higiene Política
Por VASCO PULIDO VALENTE
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005

Assisti, sem pasmo, ao momento de verdade de Francisco Louçã na conversa com Paulo Portas. Para Louçã, Portas não podia condenar o aborto, porque nunca tinha "gerado" e nunca vira o sorriso de uma filha. "Gerar" e ver o sorriso de uma filha parece que transforma um homem e o legitima para condenar ou defender o aborto. Esta idiotia, que no fundo não passava de uma insinuação torpe, indignou toda a gente e a própria esquerda. Aqui Louçã, o apologista da liberdade pessoal, caiu em si e o "Bloco" veio pressurosamente em seu socorro. Para o "Bloco" a coisa devia ser vista em "contexto". Que espécie de "contexto"? Ora muito bem: se Paulo Portas se declarava "conservador", estava necessariamente obrigado a viver como um conservador. No caso, a casar e a produzir, no mínimo, uma filha com um sorriso tão admirável como o sorriso da filha de Louçã. Caso contrário, era um hipócrita e merecia a uma boa correcção em público. Como costumava dizer o Partido Comunista, merecia que o "desmascarassem".
A técnica conhecida por "desqualificação do adversário" não nasceu ontem e não admira que persistisse no "Bloco", herdeiro do que havia de pior na tradição revolucionária clássica. Mas, dado o "contexto", talvez fosse de esperar do "Bloco" mais cuidado. Porque afinal quem são os senhores do "Bloco"? São uma centena de intelectuais de Lisboa e do Porto, com um eleitorado de classe média urbana, que subiram à custa de imaginárias "rupturas" com a moral tradicional, de um radicalismo inteiramente retórico e de um certo talento para a televisão. Nada disto é de esquerda e nada disto lhes permite falar em nome dos trabalhadores ou, de resto, de quem quer que seja. Não representam mais do que uma difusa repugnância pelo regime e as banalidades da moda ideológica do tempo. Se aplicassem a si próprios a regra que pretendem aplicar a Paulo Portas, também eles precisavam de mudar de vida. Repudiar a gravata, a favor de um arzinho "estudantil", não é identificação bastante com o povo explorado e oprimido. Se o conservadorismo pede a Paulo Portas que ele "gere" uma filha com um sorriso, o que não pedirá o trombeteado esquerdismo do "Bloco"? Uma pessoa treme de pensar e ninguém deseja que o dr. Louçã se incomode e sofra. Só convinha talvez que se coibisse de examinar a virtude do próximo e que não falasse tanto em "hipocrisia". Por razões de gosto e de higiene política."


http://jornal.publico.pt/2005/01/28/EspacoPublico/O03.html

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Artigo da semana

"A natureza do Bloco

Nos últimos dias, tem sido patente o esforço de vários dirigentes e activistas do Bloco em empurrar para debaixo do tapete a gaffe de Louçã. “Caramba, já enjoa”, “É injusto reduzir o Bloco a uma frase mal compreendida”, “Não nos desviemos do objectivo central que é derrotar a direita” – enfim, uma lenga-lenga que já se vai tornando familiar.O próprio Louçã sentiu necessidade de enviar um texto para o Público, em resposta às críticas de Ana Sá Lopes e Eduardo Dâmaso (ignorando assim as de Graça Franco nas páginas do mesmo jornal). Depois, em intervenções de campanha, tem deixado cair frases ambíguas, que aparentam algum “arrependimento”, mas que na realidade não retiram uma vírgula à feia acusação que dirigiu a Paulo Portas no debate da 5ª feira passada (e que atingem um universo de indivíduos bem mais vasto do que aquele que o líder do Bloco teria em mente).Este episódio é significativo a vários títulos. Vale a pena esmiuçá-lo um pouco mais para se compreender a verdadeira natureza do Bloco. Foi um episódio revelador porque expôs o moralismo jacobino do Bloco – a obsessão com a transparência e a sinceridade, duas virtudes tipicamente jacobinas que também integravam a cultura puritana de extrema-esquerda que moldou a personalidade de muitos dos seus dirigentes. O corte com essa cultura foi feito, mas alguns tiques permanecem. E, pelos vistos, não serão assim tão poucos.Em segundo lugar, ele revelou a dificuldade do Bloco em lidar com a crítica. Especialmente em temas que definem a sua imagem de marca. O Bloco está sempre na ofensiva, sempre de dedo apontado aos outros, aliás como é próprio dos partidos anti-sistema. Quando os holofotes se viram contra eles, a sensação de desconforto é grande. Depois, o culto da personalidade, bem patente naquele cerrar de fileiras que se seguiu às declarações de Louçã. Gostava de deixar claro que sou um admirador da inteligência e das capacidades políticas de Francisco Louçã. Há muitos anos, de resto. Mas impressiona-me a idolatria de que é alvo por parte de muitos dos seus companheiros de partido. “Eh pá, os artigos que o Francisco publica lá fora…”, “E o último livro dele, os elogios que recebeu em Inglaterra…” “É um geniozinho, um geniozinho”. Quanto a mim, isto não gera um ambiente saudável. Quando um dirigente é colocado neste género de pedestais, torna-se difícil contestar a sua autoridade - por muito democráticos que sejam os mecanismos formais de participação e decisão dentro dos partidos. Em suma, o princípio da chefia carismática é um princípio bem mais enraizado na cultura do Bloco do que aquilo que os seus membros estão dispostos a admitirO que nos leva ao quarto aspecto revelado pelo incidente da semana passada: o unanimismo do Bloco. Perante a sociedade, o Bloco gosta de se apresentar como um partido democrático e transparente – por oposição às redes de caciques e clientes que são os partidos do mainstream. Mas, na verdade, nós sabemos muito pouco acerca da vida interna do Bloco. Preguiça dos nossos jornalistas? Falta de sentido crítico? Talvez uma mistura das duas coisas. Por muito que a sua pequenez seja invocada como argumento, não deixa de ser estranho que nunca venham a público notícias de dissidências internas no Bloco. Nunca se vêem artigos de jornal desafiando a linha oficial, zangas, tomadas de posição divergentes – enfim, a conflitualidade típica de qualquer organização plural e aberta. Mais do que um partido, o Bloco é uma seita de fiéis.

[pedrooliveira] "
em www.barnabe.weblog.com.pt

segunda-feira, janeiro 24, 2005

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Eu, Tenho Uma Filha
Por GRAÇA FRANCO
Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005
Há erros que se pagam caro. Louçã cometeu um deles ao retirar a Paulo Portas o direito a defender a vida com o peregriníssimo argumento de não ser "pai". Com isso acabou por passar, a si próprio, um atestado de incompetência política em matéria de aborto. Perdeu de uma penada a bandeira que lhe tem garantido uma espécie de seguro de vida política contra todos os desvarios populisto-demagógicos em que o seu discurso é fértil. Esperemos que, pelo menos agora, não desperdice a ocasião de ficar calado.
Eu, ao contrário do Dr. Portas, ganhei aos olhos do Bloco, uma legitimidade acrescida para falar sobre o tema. Jamais a reclamaria! Considero a Vida um direito universal e, por isso mesmo, tudo menos um tema acantonado e exclusivo de uns poucos. Menos ainda daquele micro-reduto que se considera dona e senhora da vida de outros, só porque lhes dá abrigo nas respectivas barrigas. Confesso que embora a minha lógica de argumentação sempre tenha sido outra, não resisto a aproveitar esta legitimidade reforçada concedida ao meu discurso "conservador", oferecida de bandeja pela argumentação bloquista. Desculpem o oportunismo.
Começo, já neste texto, partindo de um facto que eu própria jamais imaginaria relevante para o debate. Verdade, verdadinha, eu, tal como o líder do Bloco, tenho uma filha. Foi à quarta tentativa, mas lá consegui! Tenho aliás a somar a essa filha quatro filhos. Ora, o Dr. Louçã mesmo querendo recuperar a desvantagem já não vai a tempo para as próximas eleições. Nem sequer para o próximo referendo, prometido pelo PS e que o PSD correu a anunciar que viabilizará! É assim certo que, quando se voltar a referendar esta questão, vou partir em vantagem de 5 a 1 para o debate na lógica Louçã!
Acresce que, em matéria de crianças e tal como o líder bloquista, sempre fui capaz de "apreciar" o seu sorriso mesmo muito antes de ser mãe. O mesmo não diria da capacidade, mais recente, de também lhes apreciar o choro. Aí, admito que a maternidade e a paternidade ajudam a criar uma estética nova. Pelo menos a avaliar pela irritação dos "não pais" perante cenas de gritaria que deixam a generalidade dos progenitores relativamente indiferentes. Adiante...
Sei também o que é suportar os nove meses de gravidez e passar por aquela experiência dos respectivos partos. Não faço parte das mães que tem sobre esse momento discursos idílicos. Acho-os genericamente para esquecer. A fantástica epidural no da minha filha foi a excepção que aponta para uma hipótese, em cinco, do relato livresco se confirmar!...
Chegados aqui, e como o Dr. Louçã obviamente nunca deu à luz... estamos no ponto em que o líder bloquista já só terá superioridade moral no debate económico (em que é professor e eu mera licenciada...). Em matéria de aborto, passarei, a partir daqui, a debater com as suas deputadas desde que munidas dos respectivos curricula maternais.
Para cúmulo e infelicidade minha, em vez de cinco poderia ter sete filhos, não fora ter perdido dois entre as 12 e as 16 semanas de gestação. Sei da dor física e moral dessa perda. Em rigor, nesta matéria, só desconheço a experiência do aborto provocado, mas imagino que essa não me seja exigida pela moral bloquista uma vez que eu sou claramente contra a sua liberalização.
Aliás, para evitar equívocos, vale a pena referir que o novo referendo já não se vai centrar nos habituais casos dramáticos e de dolorosa discussão para os dois lados em confronto. Violações, mal formações do feto e risco grave para a saúde física e até psíquica da mãe. São tudo casos já contemplados na lei actual. Do que se trata agora é, tão só, de debater a magna questão de saber se "ao crime" corresponde sempre "uma pena", e qual?
Em rigor, esta polémica forçada em torno das penas só serve para escamotear o verdadeiro objectivo da revisão da lei que é, assumidamente, o de facilitar o chamado "aborto porque sim" - afectando a essa política os correspondentes dinheiros públicos e limitando o direito dos médicos a fazer a objecção de consciência legitimada pelo próprio juramento de Hipócrates. Trata-se, portanto, de alinhar com a argumentação egoísta das meninas de barriguinha à mostra a clamar que ali "mandam elas!".
Não sei como o coração de pai do Dr. Louçã se sente quando vê as suas companheiras de causa a colocá-lo à parte da questão dos limites de soberania sobre as respectivas barrigas. Eu sou completamente contra esse coro folclórico de um feminismo retardado, apostado na total desresponsabilização dos machos envolvidos na progenitura.
Na barriga, que acolhe um filho, não manda apenas a mãe, nem sequer a mãe e o pai! Os filhos não "são coisas" e, menos ainda, exclusivamente nossas. Têm eles próprios os seus direitos. O direito à vida é o mais básico e o primeiro de entre eles. Por mais incómodos que esse direito nos venha causar às nossas barriguinhas de aluguer.
Pior, acho absolutamente lamentável, e mesmo muito pouco sério, que se conquiste a ribalta do espaço público para perder tempo e desperdiçar energias com falsos dramas (porque os reais bem ou mal já tem ampla cobertura na actual lei). Na crise que vivemos, é sim crime não concentrar todos os esforços em combater as questões que estão na raiz dos verdadeiros problemas nacionais e que, infelizmente, continuam na base do sofrimento de muitas das mulheres incapazes de encontrarem alternativas a abortar. Opção muitas vezes forçada por uma série de condicionalismos de que acabam por ser vítimas. Combatê-los podia ser útil, positivo e mobilizador. A começar na luta contra a nova tortura e velha violência doméstica, contra a desresponsabilização dos respectivos parceiros no planeamento familiar, contra a pobreza gritante, o desemprego indesejado, e a falta de informação sobre a prevenção de uma gravidez indesejável, acabando na luta contra os preconceitos sociais legitimados por "receios" e "estigmas" profundamente hipócritas. Não se pode liberalizar ainda mais o aborto só porque alguém nos diz que se a criança nascer "a mãe vai morrer de vergonha, o pai vai morrer de desgosto, ou a própria morre de medo que o namorado a abandone!".
Até porque o aborto mesmo sem culpa deixa marcas. Eu ainda me lembro das primeiras roupas de grávida compradas no exacto dia em que houve uma explosão num paiol de Lisboa. Sempre achei que foram afinal duas as mortes daquela explosão (o único operário atingido e aquele bebé que eu esperava...). Tudo corria bem até aquele momento em que a cobertura do acidente fez subir o nível do stress e alguma coisa começou a correr mal. Deixei a redacção. O médico no Hospital confirmou. Estava morto. Eu tinha-lhe dito a minha idade de alto risco e que era o quinto. Acho que ele considerava que a morte era, nesse caso, um motivo de alívio. Chorei. Ele consolou-me, condescendente: percebo! Era o primeiro de uma nova relação?
Não. Era o quinto da mesma. Na óptica da elite bloquista isto deve atestar uma notável veia conservadora na minha vida privada (!)...logo reforçar a minha legitimidade argumentativa.
Confirmo que na extrema-esquerda há vícios que não morrem. Há vinte anos uma amiga minha deixou o namorado porque ele frequentava "meios burgueses" e o partido não admitia esses modernismos. Era um partido que fazia do tema do aborto uma das suas bandeiras. "Façam amor!"... Lembram-se? Parente próximo dos velhos pais ideológicos do jovem e progressíssimo Bloco... O gato escondido... deixou-se apanhar no debate Portas-Louçã de " rabo de fora".
Para o substituir na defesa da vida, nos debates com o bloco, pode o Dr. Paulo Portas contar sempre que queira com a minha ajuda. Neste ponto, duvido que alguma das jovens deputadas bloquistas exiba um currículo de legitimação sobre a matéria que bata o meu. Pelo menos, nesta nova óptica de análise ultra-reaccionária do moderníssimo bloco e dos seus líderes. Jornalista
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http://jornal.publico.pt/2005/01/24/EspacoPublico/O3.html


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O Reaccionarismo Progressista Por HELENA MATOSSábado, 22 de Janeiro de 2005
A vida. "Não tem direito a falar de vida; (...) não sabe o que é gerar uma vida. Eu sei porque tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança", declarou Francisco Louçã, no final do excelente debate com Paulo Portas na SIC-Notícias. Naquele momento, Louçã mostrava-se o que é: intolerante e profundamente reaccionário, tornando mais evidente esse paradoxo que consiste em apresentar como jovem e contracultura alguém que já era líder quando do 25 de Abril e continua líder trinta anos depois.
Esta frase de Louçã talvez contribua para que a questão do aborto deixe de ser uma causa do BE. A situação em Portugal é surrealista: temos legislação sobre esta matéria, legislação essa em tudo semelhante à existente em Espanha. Por razões políticas essa legislação só raramente foi cumprida. O referendo resultou das manobras de Guterres e de Marcelo Rebelo de Sousa e tem sido o chão que dá votos do BE. Este cresceu o que podia à custa do PCP. Os seus potenciais eleitores estão agora no PS, o partido que se divide, de facto, na questão do aborto. O BE quer um referendo sobre o aborto mas o país não quer e não tem que o fazer. O que temos é de fazer cumprir a lei.
Por fim, convém também que se perceba o que quis dizer Louçã quando afirmou: "Não tem direito a falar de vida." Será que quis dizer que o aborto é uma questão que apenas pode ser debatida por quem foi pai ou mãe? Ao seu convencimento da superioridade moral da esquerda, Louçã junta agora a presunção da superioridade moral e política de quem "gerou vida". A outra questão suscitada por esta frase de Louçã prende-se com a vida dos candidatos propriamente dita. Esta semana recebi um "mail" que reproduzia o comentário surgido num jornal brasileiro sobre a vida privada de Santana Lopes e Sócrates. Tal como eu, muitos milhares de portugueses o devem ter recebido. Já está afixado em algumas lojas de bairro. A vida privada de Paulo Portas é igualmente matéria de inúmeras insinuações - como esta feita por Louçã, neste debate.
Ao contrário do que, a propósito do aborto, afirmou Louçã, todos temos o direito de discutir politicamente tudo. E, ao contrário do que insinuou Louçã, nenhum de nós tem o direito de discutir a vida privada de cidadãos adultos, livres de entre adultos - e friso o entre adultos - estabelecerem as relações que quiserem, com quem quiserem "

http://jornal.publico.pt/publico/2005/01/22/EspacoPublico/O02.html


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Intolerâncias, Ainda

Por AUGUSTO M.SEABRA

Domingo, 23 de Janeiro de 2005
Interrogo-me, cada vez mais, se o facto de estarmos incessantemente "conectados" não produz também um efeito de "amnésia". A experiência mediatizada do mundo tende a concentrar-se na produção contínua de actualidade, e o que "hoje" é foco de atenção induz também um esquecimento tendencial do que foi matéria passada.
Lembram-se, lembramo-nos de Abu Ghraib, por exemplo? "Isto não é a América", disse embaraçado Donald Rumsfeld - embaraçado com a revelação pública, que estava há tempos a par dos factos, como se veio a apurar. Mas agora, tendo ocorrido uma das maiores mudanças de gabinete de um primeiro para segundo mandato presidencial da história americana, não só o mais proeminente membro confirmado em funções é o mesmo Rumsfeld como o indigitado procurador-geral é Alberto Gonzales, o conselheiro de Bush que preparou o memorando dando azo às práticas de tortura e postulando que no caso os Estados Unidos estavam eximidos da Convenção de Genebra.
Lembramo-nos do assassinato de Theo van Gogh? Esta semana houve a notícia de que Ayaan Hirsi Ali, a deputada liberal holandesa de origem somali, argumentista de "Submissão", tinha voltado ao Parlamento, após ter estado dez semanas escondida e protegida, na sequência do assassinato do realizador, os assassinos tendo deixado junto com a faca sacrificial uma mensagem de ameaça para Hirsi Ali. "Um mundo sem pessoas como Theo seria tristíssimo e cinzento", disse agora ela.
Na altura escrevi um texto, "Face à intolerância", e depois "Face à intolerância - II", em polémica com o publicista e dirigente do Bloco de Esquerda Daniel Oliveira, para o qual a questão era tão só entre "fanáticos", de parte a parte - será Ayaan Hirsi Ali outra?
Não fosse isto transformar-se num folhetim, há duas semanas alterei o título inicial de "Face à intolerância - III". Mas tenho que retornar a esse último texto: "Esta semana foi a exigência da Igreja Anglicana de que a BBC não exibisse 'Jerry Springer - The Opera', uma sátira ao 'show" americano". Entre a escrita do texto e a sua publicação, ocorreu nova tempestade, justamente com a emissão pelo segundo canal da BBC no sábado 8.
Vi "Jerry Springer - The Opera" quando da sua apresentação há três anos na "fringe" do Festival de Edimburgo, início de um percurso de enorme êxito no West End londrino. Agora, escassas semanas após a suspensão de "Bezhti" da programação do Birmingham Reportory Theatre por pressão da comunidade "sikh", o espectro censório dos "valores" comunitários e religiosos pairou de novo no espaço público britânico.
No "Guardian" da terça-feira seguinte, 13, Timothy Garton Ash publicou um texto notável: "Em louvor da blasfémia". "'Jerry Springer - The Opera' foi obsceno, ofensivo, blasfemo e foi inteiramente justificado que a BBC o difundisse, precisamente porque a sua obscenidade, ofensa e blasfémia não são usadas apenas para entreter mas para uma inquietante mensagem sobre a cultura popular da televisão ao estilo americano e o vazio emocional de uma sociedade atomizada em que, como se diz no refrão de um coro, a vida significa 'comer, defecar e ver tv'".
Refere Garton Ash que os protestários se teriam enganado no destinatário; deviam então ter sim dirigido junto de quem produz e emite o original "Jerry Springer". Ainda antes deste caso tinha-me eu justamente recordado do espectáculo a propósito de uma série de textos surgidos na imprensa americana na sequência do tão proclamado "voto dos valores". Foi então forte a tentação de ver no resultado eleitoral também uma clamorosa confirmação das teses de "guerra cultural" expostas por Gertrud Himmelfarb, a matriarca dos "neocons". A análise moralista da polarização entre a triunfante "Red America" bushiana e a "Blue America" liberal dificilmente resiste, todavia, a algumas observações, como as de por exemplo os dados de consumo de pornografia ou de "shows" digamos que "permissivos" serem muito maiores em zonas que são "Bush country" - enquanto, por exemplo, o tão "execrado" estado de Massachussets, aquele em que o "casamento gay" foi autorizado, assim se tornando num dos temas mais polarizadores da campanha, é também o estado que tem menos percentagem de divórcios, enquanto essa é bem alta na "bible belt" sulista.
Por mais que se considere "desgostante" o "lixo televisivo" ele é sempre preferível, num quadro regulamentado e com a salvaguarda das liberdades e de existências de outras propostas, à estrita imposição de um código político-cultural. Do mesmo modo, a admissão tácita de que este ou aquele "argumento" é "ofensivo" de uma determinada comunidade está a criar códigos restritivos do espaço geral das liberdades nas presentes sociedades multiculturais, como decorre destes casos recentes; de resto não se constituíram historicamente as liberdades também na consagração da "tolerância" e desde logo da religiosa? O capítulo dos direitos é igual para todos - o da tolerância também, como o da "blasfémia".
E não vá supor-se, num momento de entropia eleitoral, que estas são questões alheias: aí está o tristíssimo exemplo de troca de intolerâncias, com Paulo Portas insistindo na "criminalização" da interrupção voluntária da gravidez como outros a defendem, e Francisco Louçã a dar um argumento de "autoridade" ou de falta dela que reproduz exactamente os usados por sectores conservadores nesse extraordinário caso "Borndeep" contra duas das associações promotoras, o Clube Safo e a "Não te Prives" - é obra!
A liberdade de pensar diferentemente estará a tornar-se num horizonte distante?
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http://jornal.publico.pt/publico/2005/01/23/EspacoPublico/O02.html

" Bloco Acusa Portas de Não Levar Conservadorismo às Últimas Consequências

Por NUNO SÁ LOURENÇO

Sábado, 22 de Janeiro de 2005
As principais figuras do Bloco de Esquerda (BE) colocaram-se ontem ao lado do dirigente e cabeça de lista por Lisboa, Francisco Louçã, nas críticas a Paulo Portas relativamente à sua posição sobre o aborto.
Depois de Louçã ter afirmado anteontem, num debate no canal televisivo SIC-Notícias, que o líder do CDS, Paulo Portas, não tinha "o direito a falar de vida" por não ter filhos, todos os bloquistas contactados pelo "PÚBLICO" destacaram a "hipocrisia" de Portas e desculparam Louçã com o "contexto" das suas declarações.
João Teixeira Lopes, deputado e cabeça de lista pelo Porto foi um dos que justificou as declarações de Louçã "Há um limiar de hipocrisia muito forte da parte de Paulo Portas, que constrói uma fachada de conservador, de homem de Estado, mas que depois não a leva até às últimas consequências". Ou seja, segundo o deputado bloquista, para ser fiel aos princípios que professa Paulo Portas deveria constituir família e ter filhos. Teixeira Lopes acrescenta que "naquela situação concreta pareceu legítima a argumentação de Francisco Louçã" por que serviu para "desocultar esse tipo de hipocrisia".
Questionado sobre se, perante Portas, recorreria àquele tipo de argumentos, Teixeira Lopes afirmou não saber, não indo mais longe do que a afirmação da garantia que "no BE não há comportamentos 'standard'".
Luís Fazenda foi um dos que frisou o "contexto" para explicar as afirmações. "Isso tem um contexto", começou por dizer o número dois da lista por Lisboa, Luís Fazenda, para depois lembrar a forma como os membros do BE têm vindo a ser catalogados pela direita. "Com que autoridade se considera que todos os outros [que não defendem a mesma posição da direita] estão a atentar contra o direito à vida", pergunta o deputado depois de salientar a "enorme arrogância da direita".
A também candidata Ana Drago afirmou, por seu turno, que o dirigente do BE "acabou por expressar a indignação" que foi já sentido por muitos por serem "atacados como assassinos".
Helena Pinto, dirigente e também candidata, defende Louçã acusando Portas de "passar das marcas": "Paulo Portas acusa quem defende a interrupção voluntária da gravidez de defender a morte." Para Helena Pinto, o que Louçã fez foi "usar o seu exemplo pessoal para responder a uma acusação muito grave".
A única crítica partiu de Luís Januário, terceiro candidato do BE à Assembleia da República por Coimbra, que classificou no blogue "A natureza do mal" as afirmações de Louçã como "uma grosseira utilização da biografia privada do opositor, sem ligação aos temas em debate, e introduzindo um aspecto irrelevante para a bondade dos argumentos."
Miguel Portas, o único eurodeputado do BE, escusou-se comentar por estar envolvido o seu irmão Paulo Portas. José Manuel Pureza, cabeça de lista por Coimbra, não comentou por não ter assistido ao debate.
O aborto foi o tema com que terminou o frente-a-frente entre Portas e Louçã. A troca de palavras mais tensa foi espoletada depois de Portas ter afirmado: "Há uma vida que tem o direito a nascer ou não, de acordo com o BE não tem, de acordo connosco tem." Louçã reagiu ao líder do CDS atirando-lhe: "Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida", interrompeu. "Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar? O direito dá a Constituição e o povo que é democrata.", protestou Paulo Portas, enquanto Louçã, imparável, prosseguia: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Não tem a mínima ideia do que isso é. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança. Sei o que é gerar uma vida."
A frase
"O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Não tem a minima ideia do que isso é. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança. Sei o que é gerar uma vida."
Francisco Louçã "

O problema é que nao se pode dizer que Francisco Louça se irritou, foi um erro, ou sequer que foi um "momento". Ele pensa mesmo assim. Se nao, porque é que houve tantas declaraçoes de apoio por parte de restantes(mas nao todos) dirigentes bloquistas em relaçao às frases proferidas? É pena que Louça nao peça desculpa pelo que fez e outros justifiquem a frase pela hipocrisia e pedantismo de Portas, pois se fosse ao contrário, o bloco nao descansaria enquanto isso nao acontecesse.

Resta salientar que dentro do bloco, nem todos pensam o mesmo: Miguel Vale de Almdeida(dirigente do bloco de esquerda), no seu blog www.valedealmeida.blogspot.com escreveu: "Que dizer da frase do meu colega de partido Francisco Louçã? Pois bem, que foi infeliz, politicamente errada e que me magoou. Qualquer outra reacção minha seria hipócrita e partidiota."

Para terminar: Penso que houve uma insinuaçao por parte de Louça, ainda que muita gente nao pense assim. Mas só gostava que se pensasse ao contrário: Um frente-a-frente em que dum lado está um Paulo Portas casado, pai de familia (com filhos e filhas), e do outro um Francisco Louça, solteiro e com boatos pelo país fora sobre uma suposta homosexualidade. E de repente Portas dizia-lhe: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Não tem a minima ideia do que isso é."

E agora ?

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Vai um bifinho...?

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Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes,e o gado. É claro que o Génesis é obra do homem e nao do cavalo. Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu papel sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara. Sim, porque, na verdade, o direito de matar um veado ou uma vaca é a unica coisa que a humanidade, no seu conjunto, nunca contestou, mesmo durante as guerras mais sangrentas.
É um direito que só nos parece natural porque quem está no topo da hierarquia somos nós. Bastava que entrasse mais outro parceiro no jogo, por exemplo um visitante vindo de outro planeta cujo Deus tivesse dito <>, para que todas as evidências do Génesis ficassem logo postas em questao. Talvez depois de um marciano o ter atrelado a uma charrua ou enquanto estivesse a assar no espeto de um habitante da Via Láctea, o homem se lembrasse das costeletas de vitela que costuma comer e apresentasse (tarde de mais) as suas desculpas à vaca. " em " A insustentável leveza do ser" - Milan Kundera

Eles sabem discutir, eles nao se insultam

Debate televisivo entre líderes do Bloco de Esquerda e do CDS/PP Portas e Louçã travaram debate aceso a propósito do aborto e da banca

Lusa
O líder do CDS/PP, Paulo Portas, e o dirigente do Bloco de Esquerda (BE) Francisco Louçã travaram ontem à noite um debate aceso na SIC Notícias, com troca de acusações a propósito do aborto e da banca.No final do debate, que durou cerca de uma hora, Paulo Portas acusou o BE de não defender o direito a nascer e Francisco Louçã reagiu, argumentando que o líder do CDS/PP "não tem direito a falar de vida"."Há uma vida que tem o direito a nascer ou não, de acordo com o BE não tem, de acordo connosco tem", disse Paulo Portas, para justificar a posição do CDS/PP a favor do "actual quadro legal" que penaliza o aborto com pena de prisão de até três anos."Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida", interrompeu o dirigente do BE."Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?", protestou Paulo Portas, levando Louçã a responder: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança".Antes, a propósito das tributações à banca, Francisco Louçã considerou que "o país está a ser roubado", por Bagão Félix ter fixado em 15 por cento o pagamento de IRC por aquele sector.Paulo Portas reagiu, afirmando que o dirigente do BE estava a "radicalizar" o debate e, perante a insistência de Francisco Louçã para que respondesse àquele assunto, declarou: "Não ponha esse ar, porque não é nem mais nem menos do que eu" e "não estique o dedo porque não é preciso".O líder do CDS/PP acabou por abordar a matéria, considerando 15 por cento um valor razoável e sustentando que "não se pode querer que se faça a justiça toda num dia e de caminho abandonar o crescimento económico". http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1213682&idCanal=24



"O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança".

Realmente é assim que se mata uma discussao, com a arrogância do costume.
Os outros nunca sabem nada, nao geraram vida, nao têm filhas, nao sabem o que é o sorriso de uma criança. Só o bloco é que sabe. Só bloco é que percebe a pobreza, entende a miséria e resolve a fome. Só o bloco pode invadir as reunioes camarárias, prender o Pacheco Pereira e libertar a palestina. Só o bloco é que pensa com a sua horda de bem feitores. E ai de quem se meta com eles. Vem logo a liga bloquista, trotskista, maoista defender os seus, arautos e paladinos da moral. Exemplo de isto foi o que se passou com nao-sei-quantas assinaturas de uns ilustres para escrever isto: http://jornal.publico.pt/2005/01/08/MilFolhas/TLCRT01.html .

Dá a sensaçao que Filomena Mónica lhes ganha aos pontos. E sózinha. Nem com um exército lhe ganhariam. Porque o problema é mesmo esse. Levaram "a coisa" como se de um jogo, uma guerra se tratasse. E claro, lá tiveram que pedinchar umas assinaturas da vanguarda pós moderna para "vencer". Erro.


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Why not stop abusing Prince Harry and start thinking? Paul Johnson

‘We know no spectacle so ridiculous as the British public in one of its periodical fits of morality.’ Macaulay’s famous castigation of humbug, apropos of Moore’s Life of Lord Byron, applies perfectly to the sententious huffing and phoney indignation heaped upon the silly head of Prince Harry for wearing Nazi uniform at a fancy-dress party. Ye gods! Are we never going to be allowed to consign Hitler and the Nazis to history, where they belong? In April it will be 60 years since Hitler’s final defeat and death. How long do we have to wait before those dreadful times can be seen in a cool perspective unclouded by emotions, especially false ones whipped up by newspapers like the Sun, a media pachyderm with the brains of a shrivelled pea? It is said that Harry’s offence was even more rank and smelling to heaven because of the approaching anniversary of the liberation of Auschwitz. But there is some kind of anniversary of Auschwitz every year and there is no possibility of the public ever being in danger of forgetting it. Moreover, when are we going to have any anniversary of the Gulag, a horror-system which actually killed four times as many people? Elements of the Gulag were still operating as recently as the 1980s, with people dying of starvation there. The wounds are still fresh.
Anyone can go to Auschwitz — I have been there myself — and it is Polish policy to ensure that every Polish child sees it during his or her schooldays. But it is not so easy to visit former gulags or the site of the famous Arctic canal where so many of Stalin’s political prisoners froze to death. Indeed it may be that some bits of the Gulag are being kept in reserve or even being reactivated. Putin seems to be bent on restoring every other item in Stalin’s life-work; why not that too? But our ministers hobnob with him cheerfully and, no doubt, if he was invited here, the Queen would be obliged by New Labour to put him up in Buckingham Palace. Moreover, there is the little matter — or rather the enormous matter — of the system of political prisoners in communist China, a totalitarian state of unimaginable cruelty to which we shamefully handed over the free people of Hong Kong not so long ago.
China operates the largest system of slave labour in history and virtually everything we buy from there — which we, and still more the United States, do in vast quantities — has some connection with it. Yet we do not hear a squeak from Labour MPs, so raucous in their condemnation of the wretched prince. Of course nobody knows how many prisoners there are in the Chinese gulags — a figure of 20 million has been put forward — and certainly nobody is allowed to visit or go in search of them. But that does not stop great numbers of people from going on holiday to China, enjoying themselves in places perhaps only a few carefully controlled miles from infernos where prisoners are being worked to death. While we are constantly reminded of Hitler’s atrocities, the mass murders of Mao Tse-tung, more recent and on a much larger scale, are never mentioned by the media. The authoritative work by French historians totting up the victims of communism puts the China death-toll at 60 million. But Jung Chang, who has now completed her life of Mao, says this is an underestimate, and that the figure is more like 70 million. There is a little shop not far from where I live which sells ceramic mementoes of Mao, showing him driving in his state limo or making speeches while rapturous peasants wave copies of the Little Red Book. No one protests, and I don’t think they should — Mao, though a monster much closer to our times, is part of history, like Hitler. But supposing the same shop were to specialise in votive figures of Hitler? What a hullabaloo there would be.
Behind all the fuss about Prince Harry no one has thought of asking the only interesting question about his escapade. Why did he dress up as a Nazi? I am quite certain he has no pro-Nazi views or indeed any political views at all. He is not interested in politics or history or ideology. He is an absolutely normal young man of his age and class, anxious to have a good time and let off steam, and find outlets for his abundant energy — a complete contrast to his guilt-ridden, anguished elder brother, who seems to have much in common with his great-grandfather, George VI, one of the most persistent worriers who ever occupied the throne. Diana told me that, whereas William caused her great concern, she never fussed about Harry as he was so tremendously happy-go-lucky and fun-loving, sure to settle down and make a sound, useful contribution in time. ‘He will always be popular,’ she said, ‘and have plenty of friends.’
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http://www.spectator.co.uk/article.php?id=5586&issue=2005-01-22

E depois ainda se fala dos valores morais na américa. Penso nao haver mal nenhum no disfarce até porque já me passou pela cabeça num carnaval disfarçar-me de nazi. É tabu? Desrespeito? Onde? E mais importante: ninguem se interessa pelas t-shirts que se vendem de Staline na festa do avante ou dos milhoes de t-shirts que o capitalismo vendeu e vende do Che. Entao qual é este relativismo moral em relaçao a um disfarce nazi? E se se pensa em proibir totalmente as manisfestaçoes pró nazis nao estaremos a fazer o mesmo "jogo" que eles? Se o nazismo e o comunismo mataram milhoes , porque podem uns mostrar simbolos e outros nao? Porque se critica uns e nao outros. Dois pesos e duas medidas, infelizmente...


a ler

http://jornal.publico.pt/2005/01/21/EspacoPublico/O05.html

" O cao, que quando comparado com o homem nao tem privilégios nenhuns, tem, no entanto, um que nao é para e desprezar: no seu caso, a eutanásia nao é proibida por lei e o animal tem direito a uma morte misericordiosa." Milan Kundera em "A insustentável leveza do ser"

Além de misericordiosa, é cara. Por metade dos 60€ que paguei, pedia ao senhor Esteves para fazer o serviço ( e ele é um conhecido especialista, pois é talhante) com uma faquinha em brasa e ainda lhe sobrava dinheiro para pagar a renda, medicamentos, telefone...

terça-feira, janeiro 18, 2005

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Mauriac, Sampaio e a Outra Superpotência
Por TERESA DE SOUSATerça-feira, 18 de Janeiro de 2005

1. A propósito do súbito amor dos líderes europeus pela China, um amigo meu lembrava há dias a velha frase de François Mauriac sobre a Alemanha: "gosto tanto dela que prefiro ter duas".
Alguns responsáveis europeus parecem gostar tanto de "superpotências" que preferem ter várias. À falta de melhor, parece que resolveram investir na China, sem cuidar muito de saber que tipo de "superpotência" ela virá a ser e com que riscos e implicações para uma nova ordem internacional pós-guerra fria. Desde que seja um travão ao poderio americano e desde que abra as portas do mercado mais apetecível do mundo às suas empresas.
O Presidente Jacques Chirac tem sido um dos principais arautos desta política, que se encaixa às mil maravilhas na sua visão de uma ordem internacional "multipolar" - depois da tentativa fracassada de criar um novo "eixo" Paris-Berlim-Moscovo, por manifesta falta de vontade de Putin -, em contraposição a um mundo "unipolar" determinado pela vontade e pela força da única hiperpotência mundial. As ideias de Chirac parecem fazer escola. Outros líderes europeus têm adoptado em relação a Pequim exactamente a mesma atitude: tudo vale a pena a troco de um lugar ao sol na nova "fábrica do mundo" e de uma boa "canelada" nos Estados Unidos.
2. A China transformou-se num objecto altamente apetecível para a Europa. As exportações chinesas para a União cresceram mais de 800 por cento desde 1990, enquanto as vendas europeias para a China aumentaram no mesmo período cerca de 600 por cento. No ano passado, o comércio bilateral atingiu qualquer coisa como 180 mil milhões de euros, fazendo da China o maior parceiro comercial da UE, à frente dos EUA e do Japão. O mercado chinês é tão gigantesco que, mesmo com os níveis de pobreza que ainda persistem largamente, é um tremendo atractivo para o investimento europeu.
De par com o aumento exponencial dos laços económicos, a União está também preocupada em reforçar os seus laços políticos com o novo gigante asiático. As cimeiras UE-China são momentos cada vez mais relevantes do calendário externo da União, de par com as cimeiras com os EUA ou a Rússia. Numa altura em que as relações transatlânticas não atravessam os seus melhores dias, para dizer o mínimo, e em que a boa vontade europeia em relação em Moscovo está a ser posta em causa pela política externa de Putin, a tentação chinesa é quase irresistível.
O interesse é recíproco. A China vê na Europa um contrapeso à influência política americana, jogando com uma habilidade que vem de longe nas "contradições no seio do inimigo" para tirar para si as melhores vantagens. Saldadas as contas com as velhas potências coloniais com a integração de Hong-Kong e de Macau, nem sequer existe a questão de Taiwan para envenenar as relações entre Pequim e Bruxelas.
3. Até agora, tudo parece, pois, caminhar num mar de rosas. Mas a política europeia em relação à China não passará o teste da consistência nem evitará sérios riscos de longo prazo se não encontrar alguns princípios comuns. O primeiro dos quais é, justamente, a questão que os líderes europeus resolveram varrer para debaixo do tapete, mau-grado a sua habitual retórica: a questão dos direitos humanos.
Chirac foi severamente criticado pela imprensa francesa pela extrema "compreensão" em relação à situação dos direitos humanos manifestada na sua última visita oficial à China. Outros líderes europeus, a começar pelos das potências europeias, têm feito o mesmo, ignorando olimpicamente algumas regras básicas nesta matéria que enformam as políticas da União no seu conjunto e que eles próprios subscreveram.
É o caminho errado. Sem uma posição única e consistente sobre a questão dos direitos humanos, a União não pode garantir que a parceria estratégica com a China se transforme, a prazo, num factor de estabilidade mundial. Essa política - as exigências e contrapartidas que a deveriam acompanhar - não seria ignorada em Pequim porque a China não poderá continuará o seu caminho de "glorioso enriquecimento" sem recorrer à tecnologia das economias ricas do mundo, incluindo naturalmente a europeia.
Acresce que a União tem responsabilidades globais pela segurança mundial e interesses estratégicos de longo prazo a defender. Dar-se ao luxo de uma política de vistas curtas só para ganhar vantagens de curto prazo e satisfazer sentimentos anti-americanos será um erro de colossais dimensões.
3. A forma como resolver a questão do levantamento do embargo da venda de armas à China será um teste importante. O embargo, europeu e norte-americano, foi imposto na sequência da repressão sangrenta das manifestações estudantis pró-democracia em 1989. A União passou boa parte do ano passado a discutir a questão, havendo uma larga maioria de países, entre os quais a França e a Alemanha, disposta a satisfazer as pretensões de Pequim. A questão ficou adiada para 2005, graças às pressões americanas e à oposição dos países nórdicos, invocando precisamente a questão dos direitos humanos.
São muitos os argumentos a favor, repetidos em Paris como em Lisboa. Não faz sentido levantar o embargo à Líbia e não a um país com a importância e a dimensão da China, do qual a Europa quer fazer um parceiro estratégico. A China tem feito, apesar de tudo, alguns progressos em matéria de direitos humanos, mesmo que não tanto como seria desejável.
As coisas não são assim tão simples. Quanto aos princípios, que a Europa gosta de ter na ponta da língua, as prisões chinesas continuam cheias de dissidentes, incluindo muitos dos que participaram em Tienanmen. O mínimo que a UE pode fazer é colocar neste domínio algumas exigências.
Em segundo lugar, levantar o embargo de forma unilateral - isto é, sem concertar com os EUA - é fácil, simpático e pode dar dividendos económicos, sobretudo quando não se tem qualquer responsabilidade pela segurança de uma zona que a maioria dos especialistas considera como a potencialmente mais perigosa do globo no longo prazo. Por causa de Taiwan e das pretensões chinesas sobre a ilha, e por causa da Coreia do Norte.
Não é por essa via que se podem reconstruir as relações transatlânticas nem que se ajuda a China a integrar as suas ambições mundiais num sistema multilateral mais democrático, mais justo, mais estável e mais seguro.
4. Infelizmente, Portugal não é a boa excepção nesta história, como acaba de demonstrar a visita de Jorge Sampaio à China.
O Presidente português manifestou a mesma indulgência em relação à questão dos direitos humanos, o mesmo empenho em garantir novas oportunidades às empresas portuguesas (embora não se veja qual é o resultado), o mesmo indisfarçável "entusiasmo" em meter as "potências" todas no mesmo saco.
Não parece haver outra interpretação para uma das frases presidenciais mais "mediáticas" desta visita: os direitos humanos não se impõem "de cotovelo e à canelada", são, pelo contrário, "um longo processo civilizacional".
Ninguém defende que o Presidente vá à China para fazer prelecções públicas sobre o respeito pelos direitos humanos e pela democracia. Desculpar a situação ou torná-la irrelevante já é outra coisa, completamente diferente. Mas o problema mais sério está, porventura em que, subjacente à frase de Sampaio, parece estar também o mesmo sentimento que anima hoje Chirac e alguns outros responsáveis europeus - a utilidade de uma "frente comum", indiscriminada, contra os que querem impor os direitos humanos "à canelada". Leia-se a América do Presidente George W. Bush.
Este vezo anti-americano de mistura com a competição pelos negócios arrisca-se a determinar uma estratégia europeia para a China enormemente irresponsável. "

http://jornal.publico.pt/2005/01/18/EspacoPublico/O03.html

quarta-feira, janeiro 12, 2005

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Indecências Por JOAQUIM FIDALGOQuarta-feira, 12 de Janeiro de 2005
Uma onda puritana pareceu, ao longo dos últimos meses, alastrar ainda mais do que o costume na paisagem mediática norte-americana. A história do seio descoberto por Janet Jackson, em directo para a televisão, no intervalo de um jogo do futebol lá do sítio, foi o episódio mais conhecido. Todavia, antes e depois multiplicaram-se os casos (alguns ridículos) sobre supostas imagens e falas "indecentes" na televisão, podendo ser apenas as costas nuas de uma actriz de "soap opera" ou um exaltado desabafo começando por "f..." numa contenda entre bandos rivais de uma série policial. E nós, que cá de longe íamos lendo as notícias, pensávamos como essa onda teria a ver também com a luta eleitoral e a ascensão dos neoconservadores no círculo próximo de George W. Bush. Parecia-nos haver uma corrente bastante disseminada, para não dizer generalizada, de regresso aos "bons velhos valores morais", de que alguns exemplos até se encontravam nas políticas oficiais: apoio à virgindade dos/das jovens, abstinência, em vez de preservativo, regresso a escolas com salas para meninos e salas para meninas, luta sem quartel contra toda e qualquer forma de, supremo Satanás!, aborto, etc. Pelo meio, claro, um escrutínio feroz de tudo o que se dizia e mostrava nos ecrãs televisivos (por causa das crianças, claro...) e queixas aos milhares para o organismo fiscalizador da "decência" nos meios audiovisuais - a Federal Communications Commision (FCC). As estatísticas o mostram: em 2002, a FCC tinha recebido apenas 14 mil queixas por supostas indecências; em 2003, o número saltou para 240 mil! E em 2004 foram mais de um milhão!...
Só que a verdade nem sempre é tão linear. Recentemente, descobriu-se que, das 240 mil queixas apresentadas em 2003 à FCC americana, nada menos que 99,8 por cento tinham uma mesma e única origem: o autodenominado Parents Televison Council, assim uma espécie de associação de pais para velar pela moral e bons costumes na televisão. E do milhão de queixas de 2004, cerca de 99,9 por cento (!!!) provieram da mesma associação. O seu presidente até confessou que fazer uma "campanha maciça" para inundar a FCC de queixas sobre as TV fora uma estratégia definida claramente pelo grupo no início de 2003... A partir daí, foi só organização e novas tecnologias: os sócios, recorrendo à Net e ao "e-mail", enviavam cada um dezenas, centenas, milhares de queixas (muitas delas iguaizinhas...), e a opinião pública, desconhecendo a sua origem, concluía - as estatísticas são assim, cegas - que os americanos estavam a protestar em massa contra indecências televisivas... Quando, afinal, quem multiplicava as queixas era apenas um grupinho de pais conservadores apostados em criar um certo ambiente. Tudo, claro, com a conivência indirecta dos "media", que lá iam noticiando queixas sobre queixas sem cuidarem de investigar até que ponto elas correspondiam a um sentimento generalizado dos cidadãos, ou se, pelo contrário, não seriam (como eram) manobras organizadas de manipulação da opinião pública.
De facto, isto nem sempre é o que parece. Saibamos nós, ao menos, duvidar...
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http://jornal.publico.pt/2005/01/12/EspacoPublico/O04.html

segunda-feira, janeiro 10, 2005

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Ressaca
joão césardas neves - Professor universitário

Portugal, é tempo de te deixares de choradeiras, não achas? Esta conversa de crise, de futuro comprometido, do fim do Estado- -Providência, já começa a enjoar. Já chega de lamentações patéticas, intercaladas por balofas exuberâncias. Está na altura, meu caro Portugal, de deixares de ter pena de ti mesmo, de largares o sofá da conversa, arregaçares as mangas e enfrentares a vida como ela é. As crises são para os homens.Ninguém tem paciência para te aturar mais chorinquice. Aliás, tens de reconhecer, esta crise até nem foi nada de extraordinário. Não se justifica tanta lamúria. Confessa que ela foi mais uma ressaca que uma verdadeira depressão. Apanhaste um pifo de euforia e dívida, e agora dói-te a cabeça e tens de pagar os estragos.Emborcaste grades de subsídios, apoios, benefícios, incentivos, sem reparar que é com o teu dinheiro que te dão isso. Gastaste anos com parvoíces, como o aborto e a regionalização; deitaste-te tarde a ver a ficção dos reality shows.Depois admiras-te que os parceiros te passem à frente e não tenhas produtividade. Acreditaste nos que te falavam em reduções de horário de trabalho e salários europeus, sem ver que esses países os têm porque trabalham muito para o conseguir. Quiseste fazer estádios e andar nas ruas a abanar bandeirinhas.Agora acordaste. Choras com a crise e temes pelo fim do desenvolvimento. Assustas-te com os chineses e pões luto pelos têxteis. Temes perante a globalização e desanimas com o atraso na convergência. Sentes-te desorientado e perdido.É incrível como acreditaste mesmo a sério nos muitos que te diziam que tinhas direito a tudo, sem nunca te falarem nos deveres ou explicarem como se pagaria. Nem sequer suspeitaste quando os viste a espreitar para a tua carteira. Caíste que nem um pato na maior das ilusões, o Orçamento do Estado, que dá tudo a todos, desde que todos lhe dêem antes. Comeste um grande almoço e ficaste surpreendido com a conta.Não sei se já te disseram, mas não há almoços grátis!É incrível como voltas a dar ouvidos aos mesmos que agora te dizem que não tens capacidade de trabalho e espírito empresarial, que não suportas horários nem respeitas a disciplina. Então recomeça a choradeira, dos analistas de café à reportagem de jornal.É incrível como voltas sempre às desculpas estafadas. O Governo é mau? Olha que novidade! Mas desde o D. Fernando são todos maus. E os poucos que foram bons, nunca o reconheceste; limitaste-te a ter saudades, depois de dizeres todo o mal que podias durante seu mandato.Os tempos estão difíceis? Olha que espanto! Desde o Noé que não são fáceis. São os homens que fazem os tempos, sem esperarem por ajudas. A vida é dura? Vê lá a grande surpresa!Deixa-te de mariquices e toca a andar! Está na hora de esqueceres as desculpas e demonstrares aos que falam que sabes fazer coisas úteis. Não esperes previsões favoráveis. Não contes com estratégias e políticas salvadoras. Está na altura de trabalhar e lançar projectos, poupar e investir, encontrar clientes e fazer bons produtos para lhes vender. Fazer aqui e agora, onde há oportunidades. Como puderes, como souberes. FAZ! Como sempre soubeste fazer.Não por ti, meu caro Portugal, mas pelos portugueses. E deixa dar--te uma novidade não há cá mais ninguém. Só tu, Portugal, podes fazer o desenvolvimento português. Mais ninguém. Os outros falam. Tu ainda cá andarás depois de eles se calarem.
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http://dn.sapo.pt/2005/01/10/opiniao/ressaca.html

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Cultura e Civilização Por JOSÉ PACHECO PEREIRAQuinta-feira, 06 de Janeiro de 2005
O terrorismo dos nossos dias está a dar origem a um retorno a uma identidade "ocidental", diluída desde os anos 50 do século passado. (As palavras serão usadas no seu sentido corrente, o que implica alguma simplificação que não prejudica a compreensão do que se pretende dizer.) Este processo tem a ver com as características do terrorismo contemporâneo, que junta várias componentes. Estas, em conjunto, actuam de modo novo, dando origem a um terrorismo cultural com uma forte motivação político-religiosa, o que lhe dá uma componente civilizacional transpolítica. Os inimigos a abater não são os agentes, os responsáveis por uma política, ou uma religião, não é uma Igreja, nem um Estado, não são militares, nem polícias, mas todos, os civis, os "outros" - nós.
A possibilidade desse terrorismo poder aceder a armas de destruição maciça dá-lhe uma dimensão apocalíptica, sem comparação com grupos terroristas do passado. Já não se trata de poder destruir uma "cidade", mas a humanidade, já não é apenas Jerusalém que é arrasada, ou Atenas colocada à mercê dos persas, ou Roma ocupada pelos godos - é a humanidade que pode soçobrar num apocalipse biológico ou nuclear. "Nós gostamos da morte", dizem os apoiantes da Al-Qaeda, "e por isso vamos vencer os que 'gostam da vida'". Guerra das civilizações no seu preciso, completo, global sentido, muito para além das definições de Samuel Huntington, porque travada fora dos Estados por indivíduos e grupos sem preocupações de ganhos de catequese, conquista ou território. Se puderem matar milhões, matam milhões.
O reforço da identidade "ocidental" (eu sei que a palavra é ambígua, mas serve como descrição para o sistema de tradições e valores oriundo da raiz greco-latina e cristã da história europeia e americana) é uma reacção a esta ameaça de destruição e pode voltar a ligar duas entidades que se tinham cindido quase completamente há cerca de 50 anos: a cultura e a civilização "ocidentais", na sua história e na sua dinâmica. O que é que significou este separar da cultura e da civilização? Significou isolar os elementos materiais da nossa tradição cultural e do nosso modo de vida dos seus elementos morais, do sistema de valores que ela gerou na sua longa história de quase 2500 anos. Podemos ir ver os Fra Angélico ou os Picasso aos museus, mas não podemos dizer que o nosso sistema político e as nossas leis são melhores para viver a nossa terrestre curta vida em felicidade. Esqueceu-se a noção de que, sob a égide da civilização associada a esse património cultural, os homens viviam melhor. "Melhor" passou a palavra proibida, comparar não se podia fazer, só se podia relativizar.
Na prática ignorou-se os valores adquiridos da tradição "ocidental", num complexo de culpa autocrítica que deitou fora o menino juntamente com a água do banho. Foi um processo lento que atravessou quase cem anos de história das ideias, desde meados do século XIX até ao pós-II Guerra Mundial. Não foi um processo sem contradições, em que muitas vezes se geravam efeitos antagónicos. Teve na sua génese alguns subprodutos do Iluminismo e da Revolução Francesa. Acelerou-se com o "internacionalismo" da Associação Internacional dos Trabalhadores, embora Marx fosse um apologista do papel civilizacional do capitalismo, para criar um efeito de "globalização" que abrisse caminho à revolução universal, não se lhe conhecendo especiais simpatias multiculturalistas. Do mesmo modo, o leninismo manteve uma ambivalência cultural entre as suas componentes "orientais" despóticas e a muito ocidental admiração pelo progresso técnico e científico, pela "electricidade" e pelo sistema Taylor.
É com a crise interior do marxismo, afectando o sistema mundial do poder soviético, que se abre caminho para uma visão dominantemente anticolonialista, nos anos de Krutchov. O aparecimento dos movimentos anticolonialistas, movimentos das elites educadas dos países coloniais e a sua progressiva generalização durante a segunda parte do século XX teve então um papel decisivo. Por ironia da história, quer o nazismo, em certas zonas de influência no Médio Oriente, quer a expansão japonesa e os movimentos de rebelião por ela instigados na área asiática do império britânico, deram origem a movimentos nacionalistas contestando a "hegemonia do homem branco". Os comunistas chineses, vietnamitas e indonésios, aliados a nacionalistas como Sukarno, conseguiram na Conferência de Bandung abrir um novo ciclo anticolonial e anti-imperialista que se veio revelar vitorioso em quase todas as antigas colónias europeias. A Europa perdeu as suas colónias e duvidou do seu papel histórico universalista.
O papel dos intelectuais ocidentais foi considerável em criar o clima favorável para uma consciência de culpa face à "civilização", um complexo que não abrangia apenas os aspectos historicamente cruéis da colonização, mas que ia mais longe e atribuía uma maldade essencial a todo o processo da história das nações europeias nos últimos dois séculos. As suas ideias, reverberando em muitos dirigentes nacionalistas do Terceiro Mundo, tornaram-se a vulgata de uma série de instituições internacionais que se foram construindo na base do relativismo global, ideologia oficiosa da ONU e da UNESCO. Considerava-se todo o património cultural e civilizacional da humanidade idêntico, independentemente do seu significado para além do folclore, ou da sua história concreta, acreditando-se no mito do "diálogo" das culturas. Uma cultura para ser igualitária e se abrir ao multiculturalismo não podia ter "adquiridos", em particular adquiridos civilizacionais que suscitassem comparação, hierarquia ou condenação. A aplicação destas ideias fazia-se essencialmente contra a tradição do "ocidente", no combate ao "europocentrismo" e ao "americanismo", nunca ninguém se perguntando se outras tradições culturais e civilizacionais pretendiam "dialogar" entre si, como se dizia nos colóquios da UNESCO. Ideias poderosas da nossa tradição civilizacional como o primado da lei, da democracia política e dos direitos humanos ganhavam uma interpretação multicultural e adjectivada e passavam a ser mera retórica vazia.
O "olimpianismo", a que já me referi noutro texto, imperou nas relações internacionais e com ele um cortejo de duplicidades, omissões e silêncios. As omissões sucediam-se umas às outras: não se falava da "sharia", para não ofender os muçulmanos, evitava-se falar da corrupção dos novos governos africanos, porque isso vilipendiava as "novas nações" e significava uma ingerência inadmissível dos antigos países colonizadores. É a linguagem com que a ONU defronta nos dias de hoje o genocídio de Darfur no Sudão, para não ofender a Liga Islâmica.
Havia uma versão ainda pior destes silêncios e omissões: falava-se de todas essas violências, mas a culpa era do colonialismo, do imperialismo. Havia tortura institucionalizada e castigos corporais em Moçambique? A culpa era da colonização portuguesa, que tinha tornado inevitáveis esses hábitos. Os chineses executavam em massa e com julgamentos fantoches? Havia que aceitar as excepções culturais e a soberania chinesa e não "impor" a democracia. Havia mutilações de membros, lapidações, chicotadas nos países que aplicavam a "sharia"? A culpa era dos regimes reaccionários clientes dos EUA por causa do petróleo. O antiamericanismo tornou-se progressivamente a forma desta recusa civilizacional. Os McDonalds e a Coca-Cola pagaram o preço de serem soluções universais de consumo barato e com sucesso, e ícones da economia e do espírito prático americano.
Embora todas estas tendências continuem o seu poderoso caminho no sistema comunicacional e universitário das democracias, pode perceber-se que já tiveram melhores dias. O terrorismo apocalíptico, com a sua ameaça global de destruição civilizacional, levou ao reforço da nossa identidade. Esse reforço existe nos EUA, onde muitas vezes é interpretado somente como uma emergência da "América dos valores" religiosa. Existe também na Europa, embora em menor grau. Infelizmente esse reforço também se dá através do recrudescimento do racismo e da xenofobia, soluções tipicamente europeias aos problemas de identidade ameaçada das massas populares. É um movimento ainda inicial e é difícil dizer para onde vai e como vai lá chegar, mas sem recosermos de novo a cultura, a história, o modo de vida, os sistemas políticos, a democracia, a liberdade, a tolerância, com um sentido civilizacional universalista, o futuro não será brilhante.
Historiador
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http://jornal.publico.pt/publico/2005/01/06/EspacoPublico/O01.html

Porque sou a favor da mudança...

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Os Medíocres Só Estão Lá Porque Deixamos Por AUGUSTO SANTOS SILVASábado, 08 de Janeiro de 2005
Em todos os processos eleitorais a coisa repete-se como um ritual. Conhecidas as listas de candidatos a deputados, a imprensa vocifera dias a fio contra a má qualidade geral - que não há novidade, qualquer um pode ser escolhido, desde que conheça as pessoas certas, os líderes são incapazes de pôr na ordem os aparelhos distritais, o "pára-quedismo" e a exibição de figuras supostamente populares destroem os fundamentos próprios da representação, em suma, vai-se de mal a pior, o próximo Parlamento será ainda mais desqualificado do que o anterior.
Para fazer valer este tom geral, o chamado "jornalismo político" procede subtilmente a alguns esquecimentos. Esquece-se do que disse na vez anterior, que foi exactamente o mesmo. Esquece-se das figuras que contrariam o diagnóstico catastrófico que gosta de traçar: é evidente que Aguiar Branco, Anacoreta Correia, António Filipe, António Vitorino, Braga da Cruz, Francisco Louçã, João Cravinho, Marques Mendes e tantos outros são gente de primeiro plano na vida social portuguesa, com uma competência técnica, um currículo político e um espírito de serviço público largamente superiores ao que costuma caracterizar os comentadores que regularmente, por esta ocasião, fazem questão de metê-los no meio da massa que fustigam. E alguns destes comentadores hipercríticos até se esquecem de que eles mesmos já passaram, mais ou menos fugazmente, pelo Parlamento, sem que tenham deixado nota de empenhamento, trabalho ou resultado que se visse.
O retrato que a imprensa traça da qualidade dos candidatos não é, pois, inteiramente correcto. Mas o mais extraordinário é que as direcções dos partidos capricham, eleição após eleição, em dar-lhe razão. Abdicam de comandar politicamente a selecção dos quadros, preocupando-se apenas, quando se preocupam, com cabeças de lista e outros lugares cimeiros. Sucumbem à tentação parola de lançar para a campanha uma ou outra personalidade sem consistência nem crédito político, mas que, ou porque aparece na televisão, ou porque é do mundo da bola, ou porque tem capital social, é suposta cativar emocionalmente as pessoas. Entregam de bandeja ao que de mais sombrio existe nos aparelhos partidários a tarefa de "encher" as listas, de onde resulta o seu assalto geral pela mediocridade instalada no momento. Não protegem suficientemente bem, ou não protegem todos os quadros nacionais de que dispõem, sacrificando recorrentemente alguns na voragem das pequenas invejas ou no jogo do empurra para obter lugarzinhos.
Do que resulta que basta um grupo parlamentar ter mais de uma dezena de deputados para serem evidentes os pesos mortos que nele habitam. Esta evidência, conjugada com o apagamento mediático intencional da gente de qualidade que também existe, cria uma imagem global de descrédito. Essa imagem afasta os profissionais que as direcções partidárias gostariam de atrair. O desinteresse daqueles dá mais espaço e poder aos arrivistas. E não saímos do círculo vicioso.
Que devemos, então, fazer? Sem dúvida nenhuma, criticar: valorizar as boas escolhas e castigar impiedosamente as más escolhas. Desta vez, nenhum partido parece poder escapar ao castigo. O PSD está à beira da implosão. A densidade de decisões aparelhísticas na constituição das listas do PS ultrapassa o aceitável. O que se sabe do PP mostra, mais uma vez, que o partido não existe para além da pequena corte do dr. Paulo Portas. O Bloco, que é sempre o mais poupado à fúria dos comentadores, também não evidencia nenhuma renovação ou abertura: são sempre os mesmos. O PC há muito que está fechado sobre si próprio; mas deve salientar-se, desta vez, a preocupação de algum respeito pelo que resta de pluralidade interna.
Não chega, porém, lamentar, criticar, denunciar. Para além do combate que é preciso continuar a fazer, no interior dos partidos, contra a perversão aparelhística que os corrói, há duas mudanças perfeitamente possíveis, que poderiam melhorar muito a qualidade da nossa representação política.
Uma é a mudança do sistema eleitoral. A passagem para círculos uninominais de candidatura, que não põem a causa o apuramento proporcional e mantêm, portanto, a capacidade de exprimir a diversidade das opiniões e correntes políticas que percorrem a sociedade, representaria um avanço positivo na credibilização da representação. Endossaria ao eleitorado a responsabilidade pela escolha de cada candidato ou candidata e aumentaria em consequência a capacidade de controlo popular sobre a selecção e a actuação dos representantes, diminuindo radicalmente o poder aparelhístico.
A outra mudança necessária diz respeito à relação da sociedade civil com a actividade e as instituições políticas. Não é possível trazer mais qualidade para a vida política se as profissões, as universidades, os meios artísticos, as comunidades científicas e técnicas, os centros de competência e inteligência continuarem a encarar as questões das políticas públicas, mesmo nos seus aspectos técnicos, como exteriores ao seu mundo próprio e portadoras do mal. E entendamo-nos: já não se trata do tradicional espírito da torre de marfim. A realidade mostra abundantemente que as elites académicas, associativas, empresariais e culturais dialogam com os governos, as autarquias e a administração e junto deles procuram encomendas, fundos e oportunidades. Só que o seu relacionamento com o Estado continua, em geral, a pautar-se pelo popular modelo da extracção, em vez de, como seria preciso, apostar na contribuição. Aí, o mais distinto poder universitário comporta-se como o pequeno camponês antigo: o Estado não pertence à família e pode, portanto, explorar-se à vontade.
Estes dias não são confortáveis. Nos partidos, as inumeráveis capelas e as suas afinidades e rivalidades tribais enxameiam as listas de candidatos sem rosto, sem ideias e sem valor autónomo. Na imprensa, lança-se, sem quaisquer ressalvas ou distinções, um anátema geral sobre partidos, políticos e instituições. E assim vão uns e outros, sem curar de mudar de estrutura e comportamento, perpetuando alegremente as condições para o triunfo da mediocridade.
Professor universitário
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Já Está Por ANTÓNIO BARRETODomingo, 09 de Janeiro de 2005
sta semana, o Parlamento foi nomeado. Três cavalheiros, Santana, Sócrates e Portas, nomearam pessoalmente cerca de 80 deputados. Visto de outro modo, mais ou menos 5.000 pessoas dos cinco partidos, reunidas em comissões locais ou nacionais, nomearam 190 deputados, ou seja, a quase totalidade do Parlamento que entra em funções dentro de seis semanas. Falta agora os restantes oito milhões de eleitores designarem os quarenta deputados que ainda se não conhecem. Não serão eleitos pessoalmente, poucos sabem quem são, vêm em geral na cauda do grupo dos "elegíveis", em "zonas cinzentas" das listas blindadas. É verdade que são esses quarenta que fazem a diferença, isto é, que vão decidir quem tem maioria e quem faz governo. Mas virão simplesmente no furgão dos partidos, não serão eles os eleitos. Enquanto estes têm de esperar umas semanas, os outros já podem tomar disposições, arranjar casa em Lisboa, tratar da educação dos filhos e organizar as suas vidas.
AO ELEITORADO, OS CANDIDATOS NADA têm a provar. Nem competências a exibir. Nem confiança política a demonstrar. Muito menos responsabilidade pessoal. Nada! Pelo contrário, é nos circuitos estreitos dos partidos que têm de exibir talentos. Agradar aos chefes. Saber sempre qual é a linha justa, isto é, reconhecer quem manda. Negociar com os autarcas. Conquistar os funcionários. Arranjar dinheiro para o partido. Lubrificar o aparelho. E não fazer ondas.
O FABRICO DAS LISTAS DITAS DE CANDI-
datos, mas na verdade de nomeados, é um exercício agitado. Cada vez mais controverso. E, este ano, patético, a roçar o ridículo. Os episódios à volta de Pôncio Monteiro e Paulo Pedroso foram edificantes. O do cartaz do PSD provocou gargalhadas através do país. As discussões sobre as mulheres e os jovens confrangedoras. A entrada, à última hora, de supranumerários e a saída, extemporânea, de descontentes, foram anedotas. O afastamento rancoroso de gente como Medeiros Ferreira, Leonor Beleza, Ana Benavente, Helena Roseta, Pedro Roseta, Manuela Ferreira Leite e outros diz muito sobre a capacidade intelectual das direcções políticas. A colocação em lugar elegível, ou antes, a cooptação de obscura gente das vielas partidárias e das alfurjas dos negócios autárquicos diz tudo sobre a capacidade política da elite partidária. É verdade que, nesta Assembleia nomeada, há gente séria e competente. Conto pelo menos dúzia e meia de políticos responsáveis e experientes. Mas o problema não é esse. É o dos outros. É o da ausência de responsabilidade individual. E sobretudo o de uma farsa eleitoral em que mais de 80 por cento dos deputados são cooptados. De nenhum nomeado agora ou eleito mais tarde, nem de nenhum afastado agora ou não eleito depois, será possível dizer: "foi o povo que o elegeu" ou "foi o eleitorado que o recusou". Não. Apenas se poderá dizer: foi o partido que o pôs lá. Ou tirou.
OS SISTEMAS FECHADOS SÃO ASSIM. IMPEdem que os interesses gerais da população se possam exprimir. Perseguem os que têm veleidades individuais e procuram distinguir-se. Servem para proteger castas e monopólios. Recusam a competição. O sistema eleitoral português é exactamente isso. Os independentes não podem concorrer. Cerca de oito milhões de portugueses não têm o direito de se candidatarem e de serem eleitos. O nome, a experiência e a responsabilidade dos candidatos são absolutamente indiferentes, apenas interessam a lista colectiva e o chefe do partido. As bases dos partidos não escolhem nada, nem ninguém, sendo os futuros deputados seleccionados pelos chefes, seus acólitos e alguns senhores do aparelho. O eleitorado não escolhe entre candidatos, escolhe um partido. Os nomeados e os eleitos podem ser substituídos em qualquer altura, naquela que é uma das maiores perversões do sistema político português.
HÁ EVIDENTEMENTE RISCOS NA MUDANça de sistema eleitoral e na adopção de regras que consagrem os círculos uninominais, a responsabilidade individual, a abertura do processo a todos os cidadãos e a interdição de substituições administrativas dos eleitos. Podem criar-se fenómenos de instabilidade. Os pequenos partidos correm riscos de extinção. O caciquismo local tem novas oportunidades. Mas são apenas riscos, como tudo na vida, não certezas. Nos muitos países em que vigoram sistemas uninominais, nada de grave aconteceu. Além de que existem mecanismos conhecidos para minorar os eventuais defeitos dessas regras. De qualquer maneira, já conhecemos os riscos, ou antes, os resultados efectivos do sistema de colectivismo partidário proporcional: estão à vista! Um Parlamento desprestigiado. Deputados sem competências nem responsabilidades. Uma agremiação de nomeados dependentes de meia dúzia de chefes partidários ou do governo do dia.
NUM SISTEMA UNINOMINAL, VALE A PENA sublinhar três vantagens. A selecção de candidatos é em si competitiva. A eleição é efectiva, ninguém tendo a certeza de que já está eleito. O deputado representa todos os eleitores, não apenas o seu partido, é responsável pelo que faz e é a ele que os eleitores se dirigem.
Quanto às candidaturas independentes, estas não servem para criar um Parlamento sem partidos. Na verdade, sem estes, uma assembleia legislativa corre o risco de ficar dependente do governo e da corrupção, ou de se tornar imprevisível e fonte de perturbação. Na verdade, a possibilidade de candidaturas independentes tem finalidades superiores. Por um lado, torna efectivo um direito fundamental, o de ser eleito. Por outro, é uma perigo para os "rackets" partidários. Ameaçados, nos círculos locais, por independentes (incluindo, pois claro, caciques, dirigentes do futebol, fadistas, profissionais do alterne, empresários paralelos, líderes religiosos e outros), os partidos teriam de melhorar os seus critérios de selecção, abrir a competição, escolher os melhores e convidar os mais competentes.
HÁ ESPERANÇA NUMA MUDANÇA DE SIStema? É difícil dizer. Tem havido progressos. Há vinte anos, quase ninguém era favorável ao sistema uninominal. Hoje, mesmo nos dois principais partidos, já há quem se interrogue e até quem, perante o absurdo vigente, se tenha convertido. Mas não é tarefa fácil. A classe política é terrivelmente conservadora e reage muito mal contra qualquer tentativa de alterar as regras que lhe deram nascimento. Mesmo quando se trata de problemas sérios, de soluções evidentes e de reformas sensatas. Já foi assim em tantos casos! Como as revisões da Constituição, por exemplo. As privatizações. As propinas. O referendo. O aborto. Pena é que se perde tempo. Talvez a classe política perceba que ela própria corre o risco de se perder...
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"O Porto e o FC Porto Por MANUEL CARVALHOSábado, 08 de Janeiro de 2005
O que mais surpreende no convite de Pedro Santana Lopes a Pôncio Monteiro para o segundo lugar na lista do PSD pelo Porto não é a comprovação de que vamos assistir à repetição, na campanha, das cenas trapalhonas que fizeram a imagem de marca do primeiro-ministro nos últimos meses. Não é também o facto de a escolha obedecer aos elementares princípios do populismo que destoa, porque há muito que Santana parece confundir o protagonismo mediático com a substância e a respeitabilidade política. O que mais incomoda no episódio é a persistência de uma visão saloia e paroquial sobre o Porto e os seus eleitores, que os confina a um estatuto de adoradores da bola e seguidores acéfalos de um competente dirigente desportivo. Sabe-se que essa visão preconceituosa existe em vários círculos (nas universidades, nos clubes de futebol ou na pequena política), mas que seja assumida e aplicada como estratégia eleitoral por Santana Lopes é um absurdo que só prova o desnorte no PSD.
Para uma grande parte dos habitantes do Porto, mesmo para os adeptos do FC Porto, a preocupação subliminar que motivou a escolha de Pôncio Monteiro só pode ser lida como um atestado de menoridade cívica e política. Porque o que Santana sugeriu com o convite a uma personalidade que deve a sua relevância pública à defesa do FC Porto, e ainda por cima num quadro de conflito entre Pinto da Costa e Rui Rio, é que os portuenses são uma espécie de irredutíveis gauleses que colocam a paixão clubística acima de qualquer valor. Ao cair neste logro, Santana mostrou não perceber que no Porto o futebol só pesa mais do que em qualquer outra cidade porque o seu clube maior ganha mais vezes que os seus rivais.
Para perceber que esse apoio não é automaticamente transponível para a política, Santana não precisava de muito. Bastava-lhe ler os resultados das últimas legislativas, nas quais Pacheco Pereira, outro arauto da moral política contra a perfídia do futebol, obteve bons resultados, apesar das manifestações de hostilidade que, na altura, as claques do FC Porto exibiam contra o seu partido. Bastava-lhe, também, consultar várias sondagens que, ao longo dos anos, se têm feito sobre a valia autárquica de várias personalidades, nas quais Pinto da Costa aparece irremediavelmente remetido para a cauda das preferências dos portuenses. Se tivesse feito esse trabalho de casa, Santana teria compreendido que, eleitoralmente, Pôncio Monteiro vale tanto no Porto como o décimo sexto ou o décimo sétimo nome da lista.
Era bom que Marco António, dirigente do PSD distrital, se pronunciasse sobre a questão. Os eleitores do Porto gostavam de saber se ele comunga desse olhar arrevesado que, por vezes, se projecta sobre a cidade e que tende a ver em cada portuense, portista ou não, alguém que "só quer ver Lisboa a arder", alguém que fez do seu amor ao FCP uma espécie de religião à qual tudo se submete. Até o interesse nacional. "


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Quanto Vale Uma Imagem? Por HELENA MATOSSábado, 08 de Janeiro de 2005
É já um lugar-comum dizer-se que os EUA perderam a guerra do Vietname não nos campos de batalha, mas sim porque os americanos não suportavam mais ver imagens como aquela que mostrava uma menina nua fugindo de um ataque com "napalm". Quando vídeos e fotografias mostram as caras das vítimas, certas causas tornam-se subitamente urgentes. Foi ou não assim com Timor? E o que seria Abu Ghraib sem imagens?
A discussão acerca das imagens centrou-se durante muito tempo quase exclusivamente na autoria das violências retratadas ou na própria veracidade das situações reveladas - porque, em muitos casos, procedeu-se a verdadeiras encenações. Neste último domínio, é exemplar o assassínio de Mohhamed al-Dura, em Setembro de 2000. Mohhamed al-Dura era o menino que, encostado ao seu pai, procurava escapar das balas na faixa de Gaza e cuja morte esteve na origem da segunda Intifada. O momento em que o seu corpo foi atingido transformou-se num ícone. Quantas capas de jornal reproduziram essa imagem que um canal de televisão francês ofereceu a todo o mundo? E contudo, como o provaram posteriores investigações, Mohhamed al-Dura não foi morto pelo Exército israelita. Foi morto numa troca de tiros entre palestinianos, não sendo ainda claro se se tratou de uma troca de tiros real, ou do desfecho trágico de uma encenação montada para que um jornalista empenhado na causa palestiniana a filmasse. Infelizmente, os jornais e televisões que divulgaram essa imagem não seguiram o procedimento habitual nestes casos: assumirem o logro.
Mas agora que o terrorismo começou a matar em massa nos países da Europa e nos EUA, outra questão se veio juntar a estas: o pedido da não divulgação das imagens. Este pedido é feito geralmente em nome das vítimas. Em Espanha, o alto-comissário para a Atenção às Vítimas de Terrorismo pediu recentemente aos meios de comunicação que não reproduzam mais as imagens dos atentados do 11 de Março, alegando que se podia debater o assunto sem repetir aquelas imagens que todos já conhecem. Em primeiro lugar, há que ter em conta que se desconhece o que pensam e o que desejariam as principais vítimas - ou seja, aqueles que morreram. Privados da vida ficaram também privados de voz e, em seu nome, falam associações de familiares e altos-comissários. O apagamento de uma imagem pode ser mediaticamente tão obsceno e politicamente tão grave quanto a exibição despudorada da morte e do sofrimento alheios. E convém não esquecer que as mesmas sociedades que, em nome das vítimas, pedem o apagamento das imagens dos atentados não hesitam em recorrer a imagens-choque e a depoimentos terríveis de sobreviventes, para alertarem os seus concidadãos para problemas como os malefícios do tabaco, os acidentes rodoviários ou a violência doméstica.
Existem notícias que parecem andar a vaguear pelo mundo. O caso da mulher-a-dias que deita fora uma peça exposta numa galeria de arte por julgar tratar-se de lixo é um desses casos. Volta e meia, aí surge ela de vassoura e detergente em punho, inimputável na sua ignorância e passando um definitivo atestado de porcaria àquilo a que alguns chamam arte. Assim, sob o zelo de um esfregão se sumiu para todo o sempre, na década de oitenta, a porcaria duma banheira suja assinada por Joseph Beuys. Já o saco do lixo foi o destino, anos depois, de um conjunto de garrafas de cerveja, copos de café e cinzeiros sujos, através dos quais o artista Damien Hirst pretendia representar seu estúdio numa galeria londrina.
Neste acervo de histórias recorrentes, a empregada da limpeza é, regra geral, a continuadora dos parvos vicentinos que, no meio dos seus insanes arrazoados, diziam as verdades mais profundas. Em alguns casos, entre dois pulos e meia dúzia de palavrões, deixavam cair uma frase em que questionavam importantes dogmas religiosos. Como diz o anjo de Gil Vicente ao parvo, a sua "simpreza" impediu-o de pecar. Por outro lado, essa espécie de inocência primordial salvaguardava as suas palavras do zelo dos censores. Do mesmo modo, a condição das mulheres-a-dias contemporâneas preserva-as da condenação a que estaria votado outro qualquer que fizesse o que elas fizeram.
E foi em plena quadra natalícia que nos chegou mais uma vez o grito de alarme acerca da provável intervenção de uma destas protagonistas: do Centro de Arte e Espectáculos da Figueira da Foz desapareceu uma obra exposta. Mais precisamente, levaram sumiço os 17 pedaços de um lavatório de louça que o artista Jimmie Durham partiu durante uma "performance", em 1995, na Galeria Módulo. Os cacos resultantes dessa performance, acompanhados de um texto, apresentavam-se agora ao público no CAE sob a designação "Frases".
A possibilidade de a empregada da limpeza ser a autora do desaparecimento foi levantada num dos artigos que o PÚBLICO dedicou a este acontecimento. Um contacto com o CAE não me permitiu apurar se a mulher-a-dias era de facto a responsável pelo desaparecimento dos ditos 17 pedaços de louça. Mas a partir destas páginas proponho a quem os fez desaparecer deixar-se de manias de culpa ou inocência e reivindicar-se artista. Atirar com os 17 cacos do lavatório para o lixo ou para o canto de uma qualquer sala é um acto tão artístico quanto o do senhor Jimmie Durham ao escaqueirar o lavatório. Os pedacinhos do lavatório valiam 27 mil euros? Pois agora, após esta intervenção, têm um valor acrescido em cima dos 27 mil euros. Estas pessoas deviam até lutar para que o seu nome passasse a constar na autoria do projecto. Por exemplo, como se chama a empregada da limpeza da Tate que deitou fora um saco plástico, cheio de papel, assinado por Gustav Metzger? Há quem diga que o saco foi recuperado "in extremis" pelo director da Tate que o retirou cuidadosamente do meio dos outros sacos de lixo, aqueles que eram só lixo porque não estavam assinados por Gustav Metzger. Outros sugerem que Gustav Metzger enviou um novo saco de lixo para a Tate. Por apurar está se Gustav Metzger foi ou não indemnizado. O que me causa espanto é que ninguém se preocupe em saber se a empregada da limpeza foi ou não indemnizada. Ela teve ou não um contributo digno de monta naquela obra de arte, que muito apropriadamente se chamava "Nova Criação da Apresentação Pública de uma Arte Autodestrutiva"?
Por fim, convém que o autor ou a autora desta intervenção no CAE arranje uma biografia digna de tal feito. Jimmie Durham não se apresenta simplesmente como um norte-americano que estudou na Europa, mas sim como descendente dos índios cherokee. No mínimo, o português ou a portuguesa que deu sumiço aos 17 pedaços do lavatório tem de ser descendente de escravos mouros, cuícos algarvios, malteses alentejanos, rainhas africanas, ciganos do Ribatejo... Assim estabelecida esta genealogia adequada, estão criadas as condições para transformar este episódio do CAE numa "performance" anunciadora de uma carreira tão bem sucedida quanto a de Jimmie Durham.
Jornalista "


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Cheques, Contas e "Cabalas Involuntárias" Por GRAÇA FRANCOSegunda-feira, 10 de Janeiro de 2005
Na política, como em quase tudo na vida, é preciso ter sorte. Li algures que um conhecido líder uma vez alertado por um amigo para o facto de "ter sorte" lhe terá ripostado " e o trabalho que eu tenho para ter sorte?". Lembro-me disso quando penso no actual Governo. Não sei se foi apenas por "falta de trabalho" mas, a verdade é que teve azar. E não foi pouco! Havendo a menor probabilidade da coisa correr mal, corria. Apostado em provar a validade da terceira lei de Murphy.
Lembram-se da imagem da menina sardenta, de cabelos revoltos, numa vestimenta apalhaçada às risquinhas vermelho bandeira? Aquela que deu a cara pelo folheto de propaganda orçamental ? Pois bem, qual era a probabilidade dessa mesma imagem vir a aparecer, escassos dias depois, nas mesas de trabalho da quase totalidade dos opinion makers do país, com a mesma vestimenta e um enorme nariz de palhaço? Nenhuma? Pois bem, aconteceu!
Vinha só a ilustrar o mês de Janeiro num calendário enviado gentilmente pela SIBS. Expôs-se o Governo à chacota geral! Seria a probabilidade de um num milhar? Ou de um num milhão? Não importa. Existia. Havia de acontecer...
Diria Guterres que "é a vida" eu, pragmática, acho que foi puro azar. Pior, só mesmo se aparecesse de nariz de Pinóquio. Então a risota geral, suscitada pelo narizinho vermelho, talvez pudesse ser alvo de inquérito parlamentar na dissolvida câmara. A tese da "cabala" para descredibilizar o documento, com a agravante de parecer "manifestamente involuntária", esteve a um passo de renascer.
Convenhamos que a miúda podia ser a mesma mas, pelo menos, ter outra vestimenta. Ou ilustrar o calendário de Agosto e só nos darmos conta lá no meio do ano. O cúmulo do azar aconteceu: ilustrou Janeiro. Claro que sendo a SIBS uma instituição bancária, as mentes mais perversas poderão lembrar-se das declarações de Paulo Portas e Bagão Felix sobre o lobby da banca contra o Orçamento. Eu por mim tenho como boa a explicação da empresa de publicidade de que se tratava de imagens baratinhas e, por isso, oferecidas em simultâneo a vários clientes no mesmo CD com mais de mil opções.
Não acho justo que se venha acusar o Governo de não ter pago um dinheirão para comprar em exclusivo a imagem da criança. A única vantagem seria dez anos depois poder continuar a usá-la para uma campanha de vacinação. Mas sabe-se lá se o Governo de então não se lembrava ainda do orçamento deste ano...Não se pode criticar o Governo por gastar demais em propaganda e por gastar de menos ao não precaver todas as hipóteses da mesma ser eficaz. Eu recuso-me a ir por aí.
Mas voltando ao folheto. Li e reli o Orçamento para o comentar como faço, por dever de ofício, há mais de vinte anos. Reconheço, no entanto, que sofro do síndroma dos macro-economistas ( avessos a simplificações e comparações demagógicas). Por isso, confesso que fiquei feliz com o texto que se permitiu fazer por mim umas continhas que eu, em consciência, jamais poderia fazer.
Vi lá, preto no branco, um número que durante meses tentei obter sem sucesso junto do Ministério da Educação e me teria dado um jeitão na entrevista ao ex-ministro David Justino. Na altura, usei um outro bastante inferior ( uns escassos 3600 euros contra os 4200 agora revelados pelo Governo!).
Está lá escrito que cada português paga, em média, 3000 euros de imposto anual e estão lá todos os impostos que eu pago ( mais o IRC e o tabaco porque ninguém fuma cá em casa). Constato que, tendo um salário felizmente acima da média, pago também infinitamente mais. Como sempre defendi um sistema progressivo, acho isso normal, justo e não protesto.
Diz-se depois, de forma quantificada, que em média cada português recebe 3 mil e quinhentos euros de benefícios directos desses impostos, deixando implícito que somos todos responsáveis pelo défice, na proporção média de 500 euros por cidadão. A conta é contestável mas, adiante. Acrescenta-se a seguir quais os benefícios "médios" obtidos com os ditos impostos e quantifica-se: em saúde (700 euros ano), acção social (1100), infra-estruturas e transportes (370 euros), e uns surpreendentes 4200 euros por estudante "beneficiário" do ensino básico e secundário.
Chegado aqui o contribuinte que, como eu, tenha os filhos a estudar neste nível de ensino no sector privado, respira fundo e faz contas de cabeça. No meu caso as contas do Governo vezes quatro já daria uma economia orçamental anual de 16 mil e 800 euros. O mais pequeno como está no pré-escolar não consta desta conta mas, também tem custos no orçamento doméstico e poupanças para o gasto público. É obra!
Cá por casa a poupança estatal traduz-se num duplo encargo. Em rigor, os meus impostos chegam muito bem para pagar a educação de cinco meninos no sistema público e sobram para os demais benefícios reportados mas, como optei ( usando a garantia Constituicional da liberdade de escolha ) pelo ensino privado, pago a educação duas vezes. Claro que tenho vantagens menores: mais mês e meio de aulas este ano, todos os professores colocados no primeiro dia, disciplina qb, vigilância no recreio, e valores partilhados com a família e não necessariamente com o Bloco de Esquerda, a começar na recusa da imposição da laicidade militante. Estou muito contente com a escolha mas cada vez tenho menos dinheiro para a suportar.
Estará o Governo certamente lembrado que chegou ao poder com um programa eleitoral onde se afirmava " o quase monopólio da escola pública que hoje existe em todos os níveis de ensino não é um modelo desejável" e, acrescentando, que se bateria por "um maior equilíbrio entre a escola pública, social e privada "enquanto destinatário do esforço de financiamento". Ouvi durante anos Paulo Portas defender o cheque ensino. A conquista por uma liberdade de escolha efectiva na educação parecia garantida.
Na lei de bases da Educação, aprovada em 2003, consagrou-se em teoria o fim da supletividade do ensino privado. Dava-se cumprimento a um requisito constitucional da efectiva "liberdade de escolha" que nunca vira acautelada a forma prática de se concretizar. Porém, a equipa do Dr. Justino resolveu avançar na prática em sentido oposto.
Em termos fiscais disse que não tinha dinheiro para fazer mais e pôs liminarmente de lado a hipótese de optar por um cheque ensino e, como se isto não bastasse, cortou drasticamente os contratos de associação com as escolas privadas, condenando-as globalmente a uma lenta asfixia financeira. Em total arrepio da prática socialista e cavaquista anterior.
Por isso é tão importante que o Governo venha dizer quanto custa um menino na escola pública (4200 euros!). Eu, com base nisso, só vinha sugerir que me deixassem abater nos meus próprios impostos o que gasto com a escola dos meus filhos já que abdico dos benefícios obtidos pelos que, pagando exactamente os mesmos impostos, optam pelo sistema público.
Em alternativa, pode o Governo canalizar directamente para a escola por mim escolhida o equivalente ao que lhe custaria cada uma das minhas crianças na escola pública. É isso que faz o Governo belga ao assegurar, a possibilidade de opção público/privado a todos os cidadãos ( pobres ou ricos) em função das preferencias pessoais. E por lá a escola pública tem certificação de qualidade igual à privada, o que por cá nem sempre ocorre.
Como o colégio gere com maior eficácia as verbas recebidas do que faz o Estado, estou em crer que acordaria mesmo num pequeno desconto... Talvez os 3600 dos contratos de associação bastassem por cada aluno.
Caso contrário, e se o Estado concluir que precisa dos meus impostos para fazer uma série de outras coisas como pagar folhetos de propaganda e quejandos, então na minha condição de macro-economista, devo informar que várias "Exas" subestimaram o défice de 2005 em qualquer como 17 mil euros correspondentes ao que passarão a pagar nas escolas cá do bairro pela minha prole. Se não for pedir demais gostava que os responsáveis dos vários partidos dissessem o que pensam fazer "na prática" sobre a questão. Até 20 de Fevereiro. É cá por coisas. "



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terça-feira, janeiro 04, 2005

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A Massa Crítica nas Universidades Por EDUARDO ALEXANDRE SILVATerça-feira, 04 de Janeiro de 2005
assa crítica é uma das muitas mais-valias que se espera que uma universidade ofereça à sociedade. Na minha opinião, uma das "obrigações" das universidades para com a sociedade é "produzir" pessoas que sejam depois capazes de aumentar a massa crítica de um país e com isso elevar o nível de vida da população. Normalmente, quanto melhor é o ensino produzido pela universidade, maior massa crítica resulta, levando a que seja mais saudável e democrática e, consequentemente, a sociedade e o país. A diferença (quantitativamente e qualitativamente) de massa crítica resultante da universidade é um aspecto onde noto grande diferença entre Portugal e os Estados Unidos. Mesmo entre diferentes universidades nos EUA, consegui notar diferenças consideráveis. Por exemplo, a Universidade de Harvard possui uma massa crítica consideravelmente mais elevada do que a anterior universidade onde me encontrava, Michigan.
Ao ler uma notícia do PÚBLICO de 14 de Dezembro, onde relatava que nenhuma universidade portuguesa marcava presença num "ranking" das 200 melhores universidades do mundo, lembrei-me de um jantar de amigos onde discutimos o ensino superior em Portugal. Estávamos todos a estudar em Harvard e todos facilmente elencávamos as enormes diferenças existentes entre as duas realidades que conhecíamos. Contudo, num aspecto nos dividíamos: uns defendiam que o grande problema é ao nível institucional, ou seja, em Portugal temos de criar estruturas, instituições que apresentem níveis de qualidade elevada, levando a que o país progrida no sentido de copiar os bons exemplos; por outro lado, outros, onde eu me incluía, defendiam que existe um problema fundamental de mentalidade na nossa sociedade.
Volto ao início, a diferença é que hoje a grande maioria das nossas universidades não produz massa crítica, mas sim técnicos ou licenciados direccionados para um tipo de função mecanizada do mercado de trabalho. Saem da universidade e já estão dentro do "sistema", onde quem questiona muito é olhado com estranheza pelos seus pares. Não se discute nada, apenas se confirma o quotidiano com o óbvio. Durante a universidade, não se "aprende a perceber", mas sim a decorar. "Marrar" é palavra de sucesso para o jovem estudante. Não é nada difícil um aluno cábula terminar a sua licenciatura, com uma média razoável, devido apenas aos esquemas de "copianços". Por cá, os alunos são formatados de forma a possuir um pensamento idêntico ao professor. Enquanto nos EUA fazer mestrado, doutoramento, na instituição onde se graduaram, é sinal de insucesso pessoal, em Portugal é regra e coisa aconselhável...
De facto, em Portugal a universidade não cumpre uma das suas maiores obrigações: criar massa crítica. Levando-me a equacionar se não deverá ser justo começar a questionar a utilização de dinheiros públicos por parte das universidades... Por que não fazer "contratos por objectivos" com as Universidades públicas? Traçar e pedir objectivos concretos às universidades, sob pena de cortar o financiamento das mesmas, poderia ser uma medida nesse sentido, por exemplo.
Contudo, de volta à realidade - acorda Eduardo, defender e implantar estas ideias é pedir demais para um país como o nosso, certo?...
Gulbenkian PhD student, Harvard University
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http://jornal.publico.pt/2005/01/04/EspacoPublico/O02.html