Um blog de Filipe Figueiredo

quarta-feira, janeiro 12, 2005

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Indecências Por JOAQUIM FIDALGOQuarta-feira, 12 de Janeiro de 2005
Uma onda puritana pareceu, ao longo dos últimos meses, alastrar ainda mais do que o costume na paisagem mediática norte-americana. A história do seio descoberto por Janet Jackson, em directo para a televisão, no intervalo de um jogo do futebol lá do sítio, foi o episódio mais conhecido. Todavia, antes e depois multiplicaram-se os casos (alguns ridículos) sobre supostas imagens e falas "indecentes" na televisão, podendo ser apenas as costas nuas de uma actriz de "soap opera" ou um exaltado desabafo começando por "f..." numa contenda entre bandos rivais de uma série policial. E nós, que cá de longe íamos lendo as notícias, pensávamos como essa onda teria a ver também com a luta eleitoral e a ascensão dos neoconservadores no círculo próximo de George W. Bush. Parecia-nos haver uma corrente bastante disseminada, para não dizer generalizada, de regresso aos "bons velhos valores morais", de que alguns exemplos até se encontravam nas políticas oficiais: apoio à virgindade dos/das jovens, abstinência, em vez de preservativo, regresso a escolas com salas para meninos e salas para meninas, luta sem quartel contra toda e qualquer forma de, supremo Satanás!, aborto, etc. Pelo meio, claro, um escrutínio feroz de tudo o que se dizia e mostrava nos ecrãs televisivos (por causa das crianças, claro...) e queixas aos milhares para o organismo fiscalizador da "decência" nos meios audiovisuais - a Federal Communications Commision (FCC). As estatísticas o mostram: em 2002, a FCC tinha recebido apenas 14 mil queixas por supostas indecências; em 2003, o número saltou para 240 mil! E em 2004 foram mais de um milhão!...
Só que a verdade nem sempre é tão linear. Recentemente, descobriu-se que, das 240 mil queixas apresentadas em 2003 à FCC americana, nada menos que 99,8 por cento tinham uma mesma e única origem: o autodenominado Parents Televison Council, assim uma espécie de associação de pais para velar pela moral e bons costumes na televisão. E do milhão de queixas de 2004, cerca de 99,9 por cento (!!!) provieram da mesma associação. O seu presidente até confessou que fazer uma "campanha maciça" para inundar a FCC de queixas sobre as TV fora uma estratégia definida claramente pelo grupo no início de 2003... A partir daí, foi só organização e novas tecnologias: os sócios, recorrendo à Net e ao "e-mail", enviavam cada um dezenas, centenas, milhares de queixas (muitas delas iguaizinhas...), e a opinião pública, desconhecendo a sua origem, concluía - as estatísticas são assim, cegas - que os americanos estavam a protestar em massa contra indecências televisivas... Quando, afinal, quem multiplicava as queixas era apenas um grupinho de pais conservadores apostados em criar um certo ambiente. Tudo, claro, com a conivência indirecta dos "media", que lá iam noticiando queixas sobre queixas sem cuidarem de investigar até que ponto elas correspondiam a um sentimento generalizado dos cidadãos, ou se, pelo contrário, não seriam (como eram) manobras organizadas de manipulação da opinião pública.
De facto, isto nem sempre é o que parece. Saibamos nós, ao menos, duvidar...
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http://jornal.publico.pt/2005/01/12/EspacoPublico/O04.html