"O Porto e o FC Porto Por MANUEL CARVALHOSábado, 08 de Janeiro de 2005
O que mais surpreende no convite de Pedro Santana Lopes a Pôncio Monteiro para o segundo lugar na lista do PSD pelo Porto não é a comprovação de que vamos assistir à repetição, na campanha, das cenas trapalhonas que fizeram a imagem de marca do primeiro-ministro nos últimos meses. Não é também o facto de a escolha obedecer aos elementares princípios do populismo que destoa, porque há muito que Santana parece confundir o protagonismo mediático com a substância e a respeitabilidade política. O que mais incomoda no episódio é a persistência de uma visão saloia e paroquial sobre o Porto e os seus eleitores, que os confina a um estatuto de adoradores da bola e seguidores acéfalos de um competente dirigente desportivo. Sabe-se que essa visão preconceituosa existe em vários círculos (nas universidades, nos clubes de futebol ou na pequena política), mas que seja assumida e aplicada como estratégia eleitoral por Santana Lopes é um absurdo que só prova o desnorte no PSD.
Para uma grande parte dos habitantes do Porto, mesmo para os adeptos do FC Porto, a preocupação subliminar que motivou a escolha de Pôncio Monteiro só pode ser lida como um atestado de menoridade cívica e política. Porque o que Santana sugeriu com o convite a uma personalidade que deve a sua relevância pública à defesa do FC Porto, e ainda por cima num quadro de conflito entre Pinto da Costa e Rui Rio, é que os portuenses são uma espécie de irredutíveis gauleses que colocam a paixão clubística acima de qualquer valor. Ao cair neste logro, Santana mostrou não perceber que no Porto o futebol só pesa mais do que em qualquer outra cidade porque o seu clube maior ganha mais vezes que os seus rivais.
Para perceber que esse apoio não é automaticamente transponível para a política, Santana não precisava de muito. Bastava-lhe ler os resultados das últimas legislativas, nas quais Pacheco Pereira, outro arauto da moral política contra a perfídia do futebol, obteve bons resultados, apesar das manifestações de hostilidade que, na altura, as claques do FC Porto exibiam contra o seu partido. Bastava-lhe, também, consultar várias sondagens que, ao longo dos anos, se têm feito sobre a valia autárquica de várias personalidades, nas quais Pinto da Costa aparece irremediavelmente remetido para a cauda das preferências dos portuenses. Se tivesse feito esse trabalho de casa, Santana teria compreendido que, eleitoralmente, Pôncio Monteiro vale tanto no Porto como o décimo sexto ou o décimo sétimo nome da lista.
Era bom que Marco António, dirigente do PSD distrital, se pronunciasse sobre a questão. Os eleitores do Porto gostavam de saber se ele comunga desse olhar arrevesado que, por vezes, se projecta sobre a cidade e que tende a ver em cada portuense, portista ou não, alguém que "só quer ver Lisboa a arder", alguém que fez do seu amor ao FCP uma espécie de religião à qual tudo se submete. Até o interesse nacional. "
http://jornal.publico.pt/publico/2005/01/08/EspacoPublico/OEDIT.html
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Quanto Vale Uma Imagem? Por HELENA MATOSSábado, 08 de Janeiro de 2005
É já um lugar-comum dizer-se que os EUA perderam a guerra do Vietname não nos campos de batalha, mas sim porque os americanos não suportavam mais ver imagens como aquela que mostrava uma menina nua fugindo de um ataque com "napalm". Quando vídeos e fotografias mostram as caras das vítimas, certas causas tornam-se subitamente urgentes. Foi ou não assim com Timor? E o que seria Abu Ghraib sem imagens?
A discussão acerca das imagens centrou-se durante muito tempo quase exclusivamente na autoria das violências retratadas ou na própria veracidade das situações reveladas - porque, em muitos casos, procedeu-se a verdadeiras encenações. Neste último domínio, é exemplar o assassínio de Mohhamed al-Dura, em Setembro de 2000. Mohhamed al-Dura era o menino que, encostado ao seu pai, procurava escapar das balas na faixa de Gaza e cuja morte esteve na origem da segunda Intifada. O momento em que o seu corpo foi atingido transformou-se num ícone. Quantas capas de jornal reproduziram essa imagem que um canal de televisão francês ofereceu a todo o mundo? E contudo, como o provaram posteriores investigações, Mohhamed al-Dura não foi morto pelo Exército israelita. Foi morto numa troca de tiros entre palestinianos, não sendo ainda claro se se tratou de uma troca de tiros real, ou do desfecho trágico de uma encenação montada para que um jornalista empenhado na causa palestiniana a filmasse. Infelizmente, os jornais e televisões que divulgaram essa imagem não seguiram o procedimento habitual nestes casos: assumirem o logro.
Mas agora que o terrorismo começou a matar em massa nos países da Europa e nos EUA, outra questão se veio juntar a estas: o pedido da não divulgação das imagens. Este pedido é feito geralmente em nome das vítimas. Em Espanha, o alto-comissário para a Atenção às Vítimas de Terrorismo pediu recentemente aos meios de comunicação que não reproduzam mais as imagens dos atentados do 11 de Março, alegando que se podia debater o assunto sem repetir aquelas imagens que todos já conhecem. Em primeiro lugar, há que ter em conta que se desconhece o que pensam e o que desejariam as principais vítimas - ou seja, aqueles que morreram. Privados da vida ficaram também privados de voz e, em seu nome, falam associações de familiares e altos-comissários. O apagamento de uma imagem pode ser mediaticamente tão obsceno e politicamente tão grave quanto a exibição despudorada da morte e do sofrimento alheios. E convém não esquecer que as mesmas sociedades que, em nome das vítimas, pedem o apagamento das imagens dos atentados não hesitam em recorrer a imagens-choque e a depoimentos terríveis de sobreviventes, para alertarem os seus concidadãos para problemas como os malefícios do tabaco, os acidentes rodoviários ou a violência doméstica.
Existem notícias que parecem andar a vaguear pelo mundo. O caso da mulher-a-dias que deita fora uma peça exposta numa galeria de arte por julgar tratar-se de lixo é um desses casos. Volta e meia, aí surge ela de vassoura e detergente em punho, inimputável na sua ignorância e passando um definitivo atestado de porcaria àquilo a que alguns chamam arte. Assim, sob o zelo de um esfregão se sumiu para todo o sempre, na década de oitenta, a porcaria duma banheira suja assinada por Joseph Beuys. Já o saco do lixo foi o destino, anos depois, de um conjunto de garrafas de cerveja, copos de café e cinzeiros sujos, através dos quais o artista Damien Hirst pretendia representar seu estúdio numa galeria londrina.
Neste acervo de histórias recorrentes, a empregada da limpeza é, regra geral, a continuadora dos parvos vicentinos que, no meio dos seus insanes arrazoados, diziam as verdades mais profundas. Em alguns casos, entre dois pulos e meia dúzia de palavrões, deixavam cair uma frase em que questionavam importantes dogmas religiosos. Como diz o anjo de Gil Vicente ao parvo, a sua "simpreza" impediu-o de pecar. Por outro lado, essa espécie de inocência primordial salvaguardava as suas palavras do zelo dos censores. Do mesmo modo, a condição das mulheres-a-dias contemporâneas preserva-as da condenação a que estaria votado outro qualquer que fizesse o que elas fizeram.
E foi em plena quadra natalícia que nos chegou mais uma vez o grito de alarme acerca da provável intervenção de uma destas protagonistas: do Centro de Arte e Espectáculos da Figueira da Foz desapareceu uma obra exposta. Mais precisamente, levaram sumiço os 17 pedaços de um lavatório de louça que o artista Jimmie Durham partiu durante uma "performance", em 1995, na Galeria Módulo. Os cacos resultantes dessa performance, acompanhados de um texto, apresentavam-se agora ao público no CAE sob a designação "Frases".
A possibilidade de a empregada da limpeza ser a autora do desaparecimento foi levantada num dos artigos que o PÚBLICO dedicou a este acontecimento. Um contacto com o CAE não me permitiu apurar se a mulher-a-dias era de facto a responsável pelo desaparecimento dos ditos 17 pedaços de louça. Mas a partir destas páginas proponho a quem os fez desaparecer deixar-se de manias de culpa ou inocência e reivindicar-se artista. Atirar com os 17 cacos do lavatório para o lixo ou para o canto de uma qualquer sala é um acto tão artístico quanto o do senhor Jimmie Durham ao escaqueirar o lavatório. Os pedacinhos do lavatório valiam 27 mil euros? Pois agora, após esta intervenção, têm um valor acrescido em cima dos 27 mil euros. Estas pessoas deviam até lutar para que o seu nome passasse a constar na autoria do projecto. Por exemplo, como se chama a empregada da limpeza da Tate que deitou fora um saco plástico, cheio de papel, assinado por Gustav Metzger? Há quem diga que o saco foi recuperado "in extremis" pelo director da Tate que o retirou cuidadosamente do meio dos outros sacos de lixo, aqueles que eram só lixo porque não estavam assinados por Gustav Metzger. Outros sugerem que Gustav Metzger enviou um novo saco de lixo para a Tate. Por apurar está se Gustav Metzger foi ou não indemnizado. O que me causa espanto é que ninguém se preocupe em saber se a empregada da limpeza foi ou não indemnizada. Ela teve ou não um contributo digno de monta naquela obra de arte, que muito apropriadamente se chamava "Nova Criação da Apresentação Pública de uma Arte Autodestrutiva"?
Por fim, convém que o autor ou a autora desta intervenção no CAE arranje uma biografia digna de tal feito. Jimmie Durham não se apresenta simplesmente como um norte-americano que estudou na Europa, mas sim como descendente dos índios cherokee. No mínimo, o português ou a portuguesa que deu sumiço aos 17 pedaços do lavatório tem de ser descendente de escravos mouros, cuícos algarvios, malteses alentejanos, rainhas africanas, ciganos do Ribatejo... Assim estabelecida esta genealogia adequada, estão criadas as condições para transformar este episódio do CAE numa "performance" anunciadora de uma carreira tão bem sucedida quanto a de Jimmie Durham.
Jornalista "
http://jornal.publico.pt/publico/2005/01/08/EspacoPublico/O02.html
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Cheques, Contas e "Cabalas Involuntárias" Por GRAÇA FRANCOSegunda-feira, 10 de Janeiro de 2005
Na política, como em quase tudo na vida, é preciso ter sorte. Li algures que um conhecido líder uma vez alertado por um amigo para o facto de "ter sorte" lhe terá ripostado " e o trabalho que eu tenho para ter sorte?". Lembro-me disso quando penso no actual Governo. Não sei se foi apenas por "falta de trabalho" mas, a verdade é que teve azar. E não foi pouco! Havendo a menor probabilidade da coisa correr mal, corria. Apostado em provar a validade da terceira lei de Murphy.
Lembram-se da imagem da menina sardenta, de cabelos revoltos, numa vestimenta apalhaçada às risquinhas vermelho bandeira? Aquela que deu a cara pelo folheto de propaganda orçamental ? Pois bem, qual era a probabilidade dessa mesma imagem vir a aparecer, escassos dias depois, nas mesas de trabalho da quase totalidade dos opinion makers do país, com a mesma vestimenta e um enorme nariz de palhaço? Nenhuma? Pois bem, aconteceu!
Vinha só a ilustrar o mês de Janeiro num calendário enviado gentilmente pela SIBS. Expôs-se o Governo à chacota geral! Seria a probabilidade de um num milhar? Ou de um num milhão? Não importa. Existia. Havia de acontecer...
Diria Guterres que "é a vida" eu, pragmática, acho que foi puro azar. Pior, só mesmo se aparecesse de nariz de Pinóquio. Então a risota geral, suscitada pelo narizinho vermelho, talvez pudesse ser alvo de inquérito parlamentar na dissolvida câmara. A tese da "cabala" para descredibilizar o documento, com a agravante de parecer "manifestamente involuntária", esteve a um passo de renascer.
Convenhamos que a miúda podia ser a mesma mas, pelo menos, ter outra vestimenta. Ou ilustrar o calendário de Agosto e só nos darmos conta lá no meio do ano. O cúmulo do azar aconteceu: ilustrou Janeiro. Claro que sendo a SIBS uma instituição bancária, as mentes mais perversas poderão lembrar-se das declarações de Paulo Portas e Bagão Felix sobre o lobby da banca contra o Orçamento. Eu por mim tenho como boa a explicação da empresa de publicidade de que se tratava de imagens baratinhas e, por isso, oferecidas em simultâneo a vários clientes no mesmo CD com mais de mil opções.
Não acho justo que se venha acusar o Governo de não ter pago um dinheirão para comprar em exclusivo a imagem da criança. A única vantagem seria dez anos depois poder continuar a usá-la para uma campanha de vacinação. Mas sabe-se lá se o Governo de então não se lembrava ainda do orçamento deste ano...Não se pode criticar o Governo por gastar demais em propaganda e por gastar de menos ao não precaver todas as hipóteses da mesma ser eficaz. Eu recuso-me a ir por aí.
Mas voltando ao folheto. Li e reli o Orçamento para o comentar como faço, por dever de ofício, há mais de vinte anos. Reconheço, no entanto, que sofro do síndroma dos macro-economistas ( avessos a simplificações e comparações demagógicas). Por isso, confesso que fiquei feliz com o texto que se permitiu fazer por mim umas continhas que eu, em consciência, jamais poderia fazer.
Vi lá, preto no branco, um número que durante meses tentei obter sem sucesso junto do Ministério da Educação e me teria dado um jeitão na entrevista ao ex-ministro David Justino. Na altura, usei um outro bastante inferior ( uns escassos 3600 euros contra os 4200 agora revelados pelo Governo!).
Está lá escrito que cada português paga, em média, 3000 euros de imposto anual e estão lá todos os impostos que eu pago ( mais o IRC e o tabaco porque ninguém fuma cá em casa). Constato que, tendo um salário felizmente acima da média, pago também infinitamente mais. Como sempre defendi um sistema progressivo, acho isso normal, justo e não protesto.
Diz-se depois, de forma quantificada, que em média cada português recebe 3 mil e quinhentos euros de benefícios directos desses impostos, deixando implícito que somos todos responsáveis pelo défice, na proporção média de 500 euros por cidadão. A conta é contestável mas, adiante. Acrescenta-se a seguir quais os benefícios "médios" obtidos com os ditos impostos e quantifica-se: em saúde (700 euros ano), acção social (1100), infra-estruturas e transportes (370 euros), e uns surpreendentes 4200 euros por estudante "beneficiário" do ensino básico e secundário.
Chegado aqui o contribuinte que, como eu, tenha os filhos a estudar neste nível de ensino no sector privado, respira fundo e faz contas de cabeça. No meu caso as contas do Governo vezes quatro já daria uma economia orçamental anual de 16 mil e 800 euros. O mais pequeno como está no pré-escolar não consta desta conta mas, também tem custos no orçamento doméstico e poupanças para o gasto público. É obra!
Cá por casa a poupança estatal traduz-se num duplo encargo. Em rigor, os meus impostos chegam muito bem para pagar a educação de cinco meninos no sistema público e sobram para os demais benefícios reportados mas, como optei ( usando a garantia Constituicional da liberdade de escolha ) pelo ensino privado, pago a educação duas vezes. Claro que tenho vantagens menores: mais mês e meio de aulas este ano, todos os professores colocados no primeiro dia, disciplina qb, vigilância no recreio, e valores partilhados com a família e não necessariamente com o Bloco de Esquerda, a começar na recusa da imposição da laicidade militante. Estou muito contente com a escolha mas cada vez tenho menos dinheiro para a suportar.
Estará o Governo certamente lembrado que chegou ao poder com um programa eleitoral onde se afirmava " o quase monopólio da escola pública que hoje existe em todos os níveis de ensino não é um modelo desejável" e, acrescentando, que se bateria por "um maior equilíbrio entre a escola pública, social e privada "enquanto destinatário do esforço de financiamento". Ouvi durante anos Paulo Portas defender o cheque ensino. A conquista por uma liberdade de escolha efectiva na educação parecia garantida.
Na lei de bases da Educação, aprovada em 2003, consagrou-se em teoria o fim da supletividade do ensino privado. Dava-se cumprimento a um requisito constitucional da efectiva "liberdade de escolha" que nunca vira acautelada a forma prática de se concretizar. Porém, a equipa do Dr. Justino resolveu avançar na prática em sentido oposto.
Em termos fiscais disse que não tinha dinheiro para fazer mais e pôs liminarmente de lado a hipótese de optar por um cheque ensino e, como se isto não bastasse, cortou drasticamente os contratos de associação com as escolas privadas, condenando-as globalmente a uma lenta asfixia financeira. Em total arrepio da prática socialista e cavaquista anterior.
Por isso é tão importante que o Governo venha dizer quanto custa um menino na escola pública (4200 euros!). Eu, com base nisso, só vinha sugerir que me deixassem abater nos meus próprios impostos o que gasto com a escola dos meus filhos já que abdico dos benefícios obtidos pelos que, pagando exactamente os mesmos impostos, optam pelo sistema público.
Em alternativa, pode o Governo canalizar directamente para a escola por mim escolhida o equivalente ao que lhe custaria cada uma das minhas crianças na escola pública. É isso que faz o Governo belga ao assegurar, a possibilidade de opção público/privado a todos os cidadãos ( pobres ou ricos) em função das preferencias pessoais. E por lá a escola pública tem certificação de qualidade igual à privada, o que por cá nem sempre ocorre.
Como o colégio gere com maior eficácia as verbas recebidas do que faz o Estado, estou em crer que acordaria mesmo num pequeno desconto... Talvez os 3600 dos contratos de associação bastassem por cada aluno.
Caso contrário, e se o Estado concluir que precisa dos meus impostos para fazer uma série de outras coisas como pagar folhetos de propaganda e quejandos, então na minha condição de macro-economista, devo informar que várias "Exas" subestimaram o défice de 2005 em qualquer como 17 mil euros correspondentes ao que passarão a pagar nas escolas cá do bairro pela minha prole. Se não for pedir demais gostava que os responsáveis dos vários partidos dissessem o que pensam fazer "na prática" sobre a questão. Até 20 de Fevereiro. É cá por coisas. "
http://jornal.publico.pt/2005/01/10/EspacoPublico/O02.html

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