Um blog de Filipe Figueiredo

terça-feira, janeiro 18, 2005

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Mauriac, Sampaio e a Outra Superpotência
Por TERESA DE SOUSATerça-feira, 18 de Janeiro de 2005

1. A propósito do súbito amor dos líderes europeus pela China, um amigo meu lembrava há dias a velha frase de François Mauriac sobre a Alemanha: "gosto tanto dela que prefiro ter duas".
Alguns responsáveis europeus parecem gostar tanto de "superpotências" que preferem ter várias. À falta de melhor, parece que resolveram investir na China, sem cuidar muito de saber que tipo de "superpotência" ela virá a ser e com que riscos e implicações para uma nova ordem internacional pós-guerra fria. Desde que seja um travão ao poderio americano e desde que abra as portas do mercado mais apetecível do mundo às suas empresas.
O Presidente Jacques Chirac tem sido um dos principais arautos desta política, que se encaixa às mil maravilhas na sua visão de uma ordem internacional "multipolar" - depois da tentativa fracassada de criar um novo "eixo" Paris-Berlim-Moscovo, por manifesta falta de vontade de Putin -, em contraposição a um mundo "unipolar" determinado pela vontade e pela força da única hiperpotência mundial. As ideias de Chirac parecem fazer escola. Outros líderes europeus têm adoptado em relação a Pequim exactamente a mesma atitude: tudo vale a pena a troco de um lugar ao sol na nova "fábrica do mundo" e de uma boa "canelada" nos Estados Unidos.
2. A China transformou-se num objecto altamente apetecível para a Europa. As exportações chinesas para a União cresceram mais de 800 por cento desde 1990, enquanto as vendas europeias para a China aumentaram no mesmo período cerca de 600 por cento. No ano passado, o comércio bilateral atingiu qualquer coisa como 180 mil milhões de euros, fazendo da China o maior parceiro comercial da UE, à frente dos EUA e do Japão. O mercado chinês é tão gigantesco que, mesmo com os níveis de pobreza que ainda persistem largamente, é um tremendo atractivo para o investimento europeu.
De par com o aumento exponencial dos laços económicos, a União está também preocupada em reforçar os seus laços políticos com o novo gigante asiático. As cimeiras UE-China são momentos cada vez mais relevantes do calendário externo da União, de par com as cimeiras com os EUA ou a Rússia. Numa altura em que as relações transatlânticas não atravessam os seus melhores dias, para dizer o mínimo, e em que a boa vontade europeia em relação em Moscovo está a ser posta em causa pela política externa de Putin, a tentação chinesa é quase irresistível.
O interesse é recíproco. A China vê na Europa um contrapeso à influência política americana, jogando com uma habilidade que vem de longe nas "contradições no seio do inimigo" para tirar para si as melhores vantagens. Saldadas as contas com as velhas potências coloniais com a integração de Hong-Kong e de Macau, nem sequer existe a questão de Taiwan para envenenar as relações entre Pequim e Bruxelas.
3. Até agora, tudo parece, pois, caminhar num mar de rosas. Mas a política europeia em relação à China não passará o teste da consistência nem evitará sérios riscos de longo prazo se não encontrar alguns princípios comuns. O primeiro dos quais é, justamente, a questão que os líderes europeus resolveram varrer para debaixo do tapete, mau-grado a sua habitual retórica: a questão dos direitos humanos.
Chirac foi severamente criticado pela imprensa francesa pela extrema "compreensão" em relação à situação dos direitos humanos manifestada na sua última visita oficial à China. Outros líderes europeus, a começar pelos das potências europeias, têm feito o mesmo, ignorando olimpicamente algumas regras básicas nesta matéria que enformam as políticas da União no seu conjunto e que eles próprios subscreveram.
É o caminho errado. Sem uma posição única e consistente sobre a questão dos direitos humanos, a União não pode garantir que a parceria estratégica com a China se transforme, a prazo, num factor de estabilidade mundial. Essa política - as exigências e contrapartidas que a deveriam acompanhar - não seria ignorada em Pequim porque a China não poderá continuará o seu caminho de "glorioso enriquecimento" sem recorrer à tecnologia das economias ricas do mundo, incluindo naturalmente a europeia.
Acresce que a União tem responsabilidades globais pela segurança mundial e interesses estratégicos de longo prazo a defender. Dar-se ao luxo de uma política de vistas curtas só para ganhar vantagens de curto prazo e satisfazer sentimentos anti-americanos será um erro de colossais dimensões.
3. A forma como resolver a questão do levantamento do embargo da venda de armas à China será um teste importante. O embargo, europeu e norte-americano, foi imposto na sequência da repressão sangrenta das manifestações estudantis pró-democracia em 1989. A União passou boa parte do ano passado a discutir a questão, havendo uma larga maioria de países, entre os quais a França e a Alemanha, disposta a satisfazer as pretensões de Pequim. A questão ficou adiada para 2005, graças às pressões americanas e à oposição dos países nórdicos, invocando precisamente a questão dos direitos humanos.
São muitos os argumentos a favor, repetidos em Paris como em Lisboa. Não faz sentido levantar o embargo à Líbia e não a um país com a importância e a dimensão da China, do qual a Europa quer fazer um parceiro estratégico. A China tem feito, apesar de tudo, alguns progressos em matéria de direitos humanos, mesmo que não tanto como seria desejável.
As coisas não são assim tão simples. Quanto aos princípios, que a Europa gosta de ter na ponta da língua, as prisões chinesas continuam cheias de dissidentes, incluindo muitos dos que participaram em Tienanmen. O mínimo que a UE pode fazer é colocar neste domínio algumas exigências.
Em segundo lugar, levantar o embargo de forma unilateral - isto é, sem concertar com os EUA - é fácil, simpático e pode dar dividendos económicos, sobretudo quando não se tem qualquer responsabilidade pela segurança de uma zona que a maioria dos especialistas considera como a potencialmente mais perigosa do globo no longo prazo. Por causa de Taiwan e das pretensões chinesas sobre a ilha, e por causa da Coreia do Norte.
Não é por essa via que se podem reconstruir as relações transatlânticas nem que se ajuda a China a integrar as suas ambições mundiais num sistema multilateral mais democrático, mais justo, mais estável e mais seguro.
4. Infelizmente, Portugal não é a boa excepção nesta história, como acaba de demonstrar a visita de Jorge Sampaio à China.
O Presidente português manifestou a mesma indulgência em relação à questão dos direitos humanos, o mesmo empenho em garantir novas oportunidades às empresas portuguesas (embora não se veja qual é o resultado), o mesmo indisfarçável "entusiasmo" em meter as "potências" todas no mesmo saco.
Não parece haver outra interpretação para uma das frases presidenciais mais "mediáticas" desta visita: os direitos humanos não se impõem "de cotovelo e à canelada", são, pelo contrário, "um longo processo civilizacional".
Ninguém defende que o Presidente vá à China para fazer prelecções públicas sobre o respeito pelos direitos humanos e pela democracia. Desculpar a situação ou torná-la irrelevante já é outra coisa, completamente diferente. Mas o problema mais sério está, porventura em que, subjacente à frase de Sampaio, parece estar também o mesmo sentimento que anima hoje Chirac e alguns outros responsáveis europeus - a utilidade de uma "frente comum", indiscriminada, contra os que querem impor os direitos humanos "à canelada". Leia-se a América do Presidente George W. Bush.
Este vezo anti-americano de mistura com a competição pelos negócios arrisca-se a determinar uma estratégia europeia para a China enormemente irresponsável. "

http://jornal.publico.pt/2005/01/18/EspacoPublico/O03.html