Artigo da semana
"A natureza do Bloco
Nos últimos dias, tem sido patente o esforço de vários dirigentes e activistas do Bloco em empurrar para debaixo do tapete a gaffe de Louçã. “Caramba, já enjoa”, “É injusto reduzir o Bloco a uma frase mal compreendida”, “Não nos desviemos do objectivo central que é derrotar a direita” – enfim, uma lenga-lenga que já se vai tornando familiar.O próprio Louçã sentiu necessidade de enviar um texto para o Público, em resposta às críticas de Ana Sá Lopes e Eduardo Dâmaso (ignorando assim as de Graça Franco nas páginas do mesmo jornal). Depois, em intervenções de campanha, tem deixado cair frases ambíguas, que aparentam algum “arrependimento”, mas que na realidade não retiram uma vírgula à feia acusação que dirigiu a Paulo Portas no debate da 5ª feira passada (e que atingem um universo de indivíduos bem mais vasto do que aquele que o líder do Bloco teria em mente).Este episódio é significativo a vários títulos. Vale a pena esmiuçá-lo um pouco mais para se compreender a verdadeira natureza do Bloco. Foi um episódio revelador porque expôs o moralismo jacobino do Bloco – a obsessão com a transparência e a sinceridade, duas virtudes tipicamente jacobinas que também integravam a cultura puritana de extrema-esquerda que moldou a personalidade de muitos dos seus dirigentes. O corte com essa cultura foi feito, mas alguns tiques permanecem. E, pelos vistos, não serão assim tão poucos.Em segundo lugar, ele revelou a dificuldade do Bloco em lidar com a crítica. Especialmente em temas que definem a sua imagem de marca. O Bloco está sempre na ofensiva, sempre de dedo apontado aos outros, aliás como é próprio dos partidos anti-sistema. Quando os holofotes se viram contra eles, a sensação de desconforto é grande. Depois, o culto da personalidade, bem patente naquele cerrar de fileiras que se seguiu às declarações de Louçã. Gostava de deixar claro que sou um admirador da inteligência e das capacidades políticas de Francisco Louçã. Há muitos anos, de resto. Mas impressiona-me a idolatria de que é alvo por parte de muitos dos seus companheiros de partido. “Eh pá, os artigos que o Francisco publica lá fora…”, “E o último livro dele, os elogios que recebeu em Inglaterra…” “É um geniozinho, um geniozinho”. Quanto a mim, isto não gera um ambiente saudável. Quando um dirigente é colocado neste género de pedestais, torna-se difícil contestar a sua autoridade - por muito democráticos que sejam os mecanismos formais de participação e decisão dentro dos partidos. Em suma, o princípio da chefia carismática é um princípio bem mais enraizado na cultura do Bloco do que aquilo que os seus membros estão dispostos a admitirO que nos leva ao quarto aspecto revelado pelo incidente da semana passada: o unanimismo do Bloco. Perante a sociedade, o Bloco gosta de se apresentar como um partido democrático e transparente – por oposição às redes de caciques e clientes que são os partidos do mainstream. Mas, na verdade, nós sabemos muito pouco acerca da vida interna do Bloco. Preguiça dos nossos jornalistas? Falta de sentido crítico? Talvez uma mistura das duas coisas. Por muito que a sua pequenez seja invocada como argumento, não deixa de ser estranho que nunca venham a público notícias de dissidências internas no Bloco. Nunca se vêem artigos de jornal desafiando a linha oficial, zangas, tomadas de posição divergentes – enfim, a conflitualidade típica de qualquer organização plural e aberta. Mais do que um partido, o Bloco é uma seita de fiéis.
[pedrooliveira] " em www.barnabe.weblog.com.pt

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home