Um blog de Filipe Figueiredo

quarta-feira, maio 03, 2006

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Pobreza ideológica e exclusão política
Rui Ramos
Passámos a ter semanas temáticas em Portugal. Depois da semana do défice e das "reformas estruturais", promovida pelos relatórios do Banco de Portugal e da OCDE, veio a semana da pobreza e da exclusão social, graças ao discurso do 25 de Abril do Presidente da República. A pobreza de que o Presidente falou é a dos 21 por cento de portugueses que as estatísticas classificam como pobres. Mas as reacções ao discurso presidencial serviram para medir outra pobreza: a pobreza ideológica em que vivem as elites portuguesas. Já era costume acusar José Sócrates de ser "de direita", por ter reconhecido que, um dia, poderá não haver dinheiro para a Segurança Social. Agora, foi a vez de Cavaco Silva ficar com a fama de discursar à "esquerda", porque mostrou "sensibilidade social". Eis um país onde as divisões políticas são aparentemente concebidas de um modo singelo: para ser de direita, basta fazer contas; para ser de esquerda, basta mencionar os "excluídos". É obviamente a pobreza dos pensionistas e desempregados que nos deve inquietar. Mas não convém subestimar a pobreza ideológica. No discurso presidencial, onde não se encontrava essa pobreza, manifestava-se porém uma das suas causas imediatas: a repugnância pelo "eterno combate ideológico", tratado como uma espécie de empecilho para quem quer resolver problemas. É uma atitude geral, embora tenha formas diferentes à esquerda e à direita. À esquerda, como se viu nas reacções ao discurso de Cavaco Silva, há quem peça confronto ideológico. Não porque se disponham a discutir, em pé de igualdade, com quem tem outra visão do mundo, mas porque concebem esse confronto como um meio de denunciar e desqualificar os adversários: desde que seja possível obrigá-los a ficar à direita, pode-se sempre aproveitar o facto de em Portugal essa posição ser suspeita, entre o crime e o absurdo. À direita, como seria de esperar, quase ninguém quer confrontos ideológicos. Alguns ensinam até que a divisão entre a esquerda e a direita não existe. Definem-se a si próprios, em geral, como gente estudiosa e prática, sem preconceitos. A "ideologia", para eles, é uma coisa de esquerda. Esperam assim marcar os que desse lado os criticam com o estigma do arbitrário e do irrealizável. A demonização do adversário representa sempre uma vontade de exclusão e é invariavelmente um sinal de insegurança. Quem teme que as suas teses não resistam à controvérsia precisa de acreditar que só perversos ou idiotas podem pensar de outra maneira. Em Portugal, à esquerda e à direita, a democracia é ainda demasiadas vezes desejada sob a forma de uma espécie de ditadura sem censura nem polícia política, mas nem por isso menos determinada na marginalização de quem não pensa como deve ser. Que mal faz isto? Algum. Uma das vantagens de uma democracia constitucional consolidada está na possibilidade de discutir sem arriscar uma guerra civil. Pode-se assim aproveitar o pluralismo como uma fonte de criatividade e inovação. A recusa de discussões em que os interlocutores se assumam como portadores de visões diferentes do mundo provoca fatalmente uma debilidade geral de argumentos, e facilita a adopção de más soluções. Porque o confronto ideológico não é, de maneira nenhuma, incompatível com a tarefa de "ordenar prioridades, metas e acções", que preocupa o Presidente da República. Todos querem combater a pobreza. Mas nem todos concordam na definição de pobreza, e nos meios para a eliminar. O debate ideológico pode ser um meio de examinar com exigência todos os lados do problema. Talvez aos crentes no Estado convenha perceber que também o poder político, e não apenas o "mercado", gera desigualdade e pobreza. Talvez aos adeptos da iniciativa privada faça bem pensar que a pobreza é um conceito relativo, e que mesmo um sucesso bem repartido, mas desigual, pode provocar nos menos afortunados sentimentos de "injustiça". O mundo quase nunca é como as nossas teorias precisavam que ele fosse. Nada melhor, por vezes, do que as teorias dos outros para nos ajudar a perceber isso. O objectivo do exercício não é, de maneira nenhuma, concluir que todos têm um pouco de razão, e que a virtude está no meio, mas refinar e testar, através da controvérsia, os vários argumentos. A realidade não é uma simples projecção das ideologias. Existe uma realidade, no sentido de um exterior e um limite para as opções. Mas essa realidade, embora condicione o campo das escolhas, não elimina completamente a necessidade e a possibilidade de fazer opções. E é dessa necessidade e possibilidade que resulta a vida política. Ao recusarmos o debate com os que não pensam como nós, estamos fatalmente a aceitar uma versão mais pobre do nosso próprio pensamento. O primeiro resultado é este: demasiada gente a tentar solucionar problemas que nem sequer consegue perceber. Historiador
" in Público