Um blog de Filipe Figueiredo

sexta-feira, outubro 28, 2005

O discurso humanista

Para quem já diz que Cavaco não tem um perfil humanista, vale a pena reler uma parte do livro de José Gil: "Portugal, Hoje;O medo de existir":

"O medo do vazio impede o nosso lado bárbaro de se ligar ao cosmos (com excepções geniais: Fernando Pessoa, Herberto Helder). Donde, a existência de um terreno propício para o desenvolvimento universal de um discurso irrecusável que dá a norma ideal dos valores da cultura portuguesa: o discurso do humanismo..."


" É desnecessário descrever a universalidade do discurso humanista em Portugal. Não é só politicamente correcto, está mesmo para além da política e mesmo da ética; não é só o que articula uma à outra, mas o que legitima essa articulação. Constitui, pois, uma espécie de discurso-fundamento que diz como pensar o homem no mundo, porque pressupõe um saber( o mais profundo saber) sobre o ser e a essência do homem. Se um qualquer discurso político pretende ser aceite por todos - com uns laivos de progressismo - arranjará uma maneira de afirmar o humanismo como sua doutrina fundamental. Se os dilemas da bioética se revelarem demasidado difíceis de resolver, recorre-se ao humanismo. Se o urbanismo das cidades-dormitório ou a arquitectura dos centros comerciais desumaniza, lá está o humanismo para que os especialistas e os tecnocratas não esqueçam o homem. É o humanismo que nos move na missão de socorrer, salvar, lutar contra todos os flagelos que assolam a humanidade. É o humanismo que dá força e vida ao combate pelos Direitos do Homem. É falso dizer que o fim das grandes narrativas - e o fim da utopia comunista - deixou a esquerda portuguesa (como as europeias) desorientada, perdida, sem ideias. Nós temos o humanismo, que é a nossa narrativa maior. E quem ousa opor-se à prevalência do discurso humanista, sob pena de cair na extrema e impensável barbárie de ser contra o homem? "


"Em Portugal, o discurso humanista ajuda a não pensar. Panaceia universal para todos os males, vive do círculo que acabámos de descrever. O apelo à acção para o bem do homem e da humanidade supõe aquilo mesmo que queremos saber: o que é o homem? Que homem podemos forjar no futuro? O que é «bom» para o homem e para a mulher? Como o conhecimento da natureza humana e, do que para ela é bom e mau, nos escapa, mas está pressuposto nas ideias humanistas, o discurso que as exprimes é vazio. E o apelo ao «Homem», excepto em casos-limite evidentes (fome, devastações, massacres. etc. - e nestes casos não é sequer necessário recorrer ao «Homem»), revela-se ineficaz e retórico. Quando já não lhes convém, quando deixa de lhes servir de álibi, forças poderosas varrem de uma penada o discurso humanista "