Um blog de Filipe Figueiredo

sábado, setembro 17, 2005

Nem mais.

"Ressentimento eterno
José Manuel Fernandes
Justificar a destruição selvagem das sinagogas dos colonatos desocupados é de uma intolerância cega
Quando o sultão turco-otomano Maomé II conquistou Constantinopla, em Maio de 1453, quis consagrar a sua vitória entrando a trote, no seu garanhão branco, pela catedral de Hagia Sofia, a Igreja da Santa Sabedoria, símbolo maior do esplendor bizantino e da arquitectura da grande cidade. Fez hastear a bandeira verde do profeta no alto da sua cúpula e, depois de a despojar de mosaicos e ícones, acrescentou-lhe quatro minaretes e fez dela uma grande mesquita. Ainda hoje quem visita Istambul não deixa de passar pelo templo, que Atatürk dessacralizou e tornou monumento aberto a todos, de todos os credos ou sem qualquer credo.É impossível deixar de recordar esta história, quando lemos as descrições dos vandalismos a que os palestinianos se entregaram, quando entraram nos colonatos abandonados pelos judeus na Faixa de Gaza e se emprenharam em destruir as sinagogas que lá tinham ficado. Era necessário fazê-lo? Claro que não, mesmo que não houvesse qualquer intenção de as transformar em mesquitas. Mas a forma como esses espaços foram profanados, pilhados, incendiados e derrubados não deixa de recordar a forma como, nos anos 30 e 40 na Europa nazi, e nos séculos anteriores nos países onde reinava a Inquisição, se procedeu: o objectivo foi sempre o de apagar qualquer vestígio judeu. Paradoxalmente, no entanto, alguém que se intitula como um activista dos direitos humanos, mas destila ódio em quase todas as suas palavras, o advogado palestiniano Raji Sourani, considera que o que aconteceu foi por opção de Israel. "Israel queria mostrar os patifes dos palestinianos a destruir as sinagogas", disse em entrevista ontem ao PÚBLICO. O facto de os israelitas terem decidido não destruir os seus locais de culto - da mesma forma que não destruíram as culturas agrícolas e as estufas - era por ele interpretado quase como um acto de guerra. A certa altura interrogava-se: "Quem vai rezar nelas? São edifícios vazios, sinagogas porque os colonos lhes chamavam assim." Se a linguagem não fosse a da intolerância com um só sentido, seria caso para responder: rezariam nelas os que entendessem haver no futuro Estado palestiniano pluralismo religioso, tal como hoje árabes israelitas rezam nas mesquitas que existem em Israel. E eram sinagogas porque haviam sido consagradas como tal. Imagina acaso Raji Sourani como reagiriam os muçulmanos se alguém se referisse assim a um seu lugar de culto? É certo que a decisão de Israel de retirar unilateralmente de Gaza cria perplexidades em alguém que classifica os colonos - todos os colonos, mesmo as crianças - como "criminosos de guerra". Quando não se entende o sentido de palavras com uma carga tão pesada, é natural que se considere que "a ocupação de Gaza continua nas suas formas jurídicas e físicas", apesar de não haver um só soldado israelita nesse território e de as fronteiras com os Egipto terem sido totalmente abertas. Escancaradas mesmo, como as reportagens que temos publicado mostram. Pior: atitudes como esta, que retiram toda a responsabilidade de cima dos palestinianos, que consideram que não ocorreu nenhum avanço, que atribuem a culpa de não haver eleições democráticas nos territórios aos europeus, que consideram que todos os que celebraram o desmantelamento dos colonatos são "estúpidos", são as atitudes de quem se desresponsabiliza do seu futuro. Ora esse é o drama de muitos palestinianos: culparem-se os outros, sempre os outros, desde os israelitas até aos que os ajudam financeiramente; verem em tudo uma conspiração sinistra; e fazerem o papel de eternas vítimas, capazes de escolherem viver décadas em "campos de refugiados" sem nada fazerem por um destino diferente.
" 2005-o9-17