"A propaganda de Cavaco
por francisco josé viegas escritor
Tem havido boa propaganda para Cavaco Silva. Em primeiro lugar, a "frente nacional anti-Cavaco", com todos os candidatos a perfilarem-se contra a temível candidatura da Direita. O frentismo contra o "regresso da Direita" e do "homem abominável" constitui um absurdo e um abuso, mas é, antes de mais, uma distracção deplorável e um tempo de antena suplementar distribuído à candidatura de Cavaco Silva. O soarismo tout-court, a oposição entre o "Soares fixe" e o "Cavaco hirto", entre a máscara da bonomia de Soares e a sisudez quase implacável de Cavaco - são imagens banais e populistas, boas para sociólogos de algibeira, que gostam de discretear sobre a diferença entre o avô compreensivo e o pai severo. A somar a isso, a herança do "antifascismo histórico" e repetitivo, já manifestado por Almeida Santos, por exemplo, não deixa de ser uma tecla afinadinha mas desajustada. A Esquerda tradicional e conservadora encontrou um adversário e, melhor para ela, um inimigo. Um adversário serve para discutir; um inimigo é para abater. Depois das últimas eleições de Fevereiro, isto prova que não aprenderam nada - que não há uma só cor, que não há apenas um lado da razão e que não têm nenhuma superioridade moral a defender. Mas o discurso continua. Outra boa propaganda para Cavaco tem sido a discussão, travada em surdina, no interior do CDS-PP. Provavelmente, apenas para consumo interno, evidentemente, mas que pode dar uma boa ideia acerca do velho e pequenino ódio de classe contra o filho de Boliqueime. A Direita chique e a Esquerda chique encontram-se nesse abraço de irmãos contra o "terrível regresso". Daqui a pouco, estarão a falar do guarda-roupa de Cavaco.Curiosamente, a pior propaganda vem da área do PSD, com o delírio neo-presidencialista manifestado, por exemplo, por Morais Sarmento. O que a sua entrevista ao "Diário Económico" veio recolocar em discussão é o quase esgotado tema dos "poderes presidenciais". O tom não é estranho há uma boa margem de ressentimento contra Cavaco no PSD neste capítulo. Na verdade, há pouco a dizer sobre os poderes presidenciais: estão definidos com clareza meridiana na Constituição: basta ir lá. Ao falar dos "poderes presidenciais", conviria lembrar quem duvidou da própria Constituição para mencionar, a propósito de tudo e de nada, a "magistratura de influência" e, ao mesmo tempo, se esquece do objectivo das presidências abertas do segundo mandato de Soares. Dizer que essas "presidências abertas" não violavam os deveres do presidente é esquecer o que elas significaram realmente: uma tentativa clara de ultrapassar aqueles "poderes presidenciais" na altura em que havia uma maioria absoluta.O medo de Cavaco gera monstros entre os traumatizados de várias origens. Se Cavaco Silva ganhar, eles sabem, interromper-se-á um ciclo político que manda conceber Belém como um centro de conspiração contra São Bento. O desejo de intervenção desse frentismo ainda não se manifestou, apenas porque os resultados eleitorais de Fevereiro são absolutamente sui generis eles recolocaram o país na normalidade, recusando a deriva populista de Direita e castigando a mediocridade de um primeiro-ministro que devia ter saído de eleições e acabou por ser decidido em Belém. O aviso está nas entrelinhas desse discurso. E qualquer governo, mesmo o de Sócrates, sabe que terá mais hipóteses de prolongar a sua vida útil com um Cavaco que resistiu a "presidências abertas" do que com a "magistratura de influência" de Soares.
Francisco José Viegas escreve no JN, semanalmente, às quintas-feiras "
http://jn.sapo.pt/2005/10/20/opiniao/a_propaganda_cavaco.html

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