Um blog de Filipe Figueiredo

quarta-feira, novembro 10, 2004

"A América Que Não Muda Por JOSÉ PEDRO ZÚQUETEQuarta-feira, 10 de Novembro de 2004
as eleições George W. Bush conseguiu obter mais votos do que qualquer outro Presidente americano na história e teve mais sete milhões de votos do que em 2000. Para muitos o choque foi tremendo. Inconsolável, o semanário "Boston Phoenix" vestiu-se de negro e anunciou o "luto na América". "Bush pode ter sido eleito Presidente, mas ele não é o nosso Presidente," anunciava, num misto de desdém e desespero, o editorial. Numa manifestação em São Francisco podiam ver-se cartazes que testemunhavam o que ia na alma de muitos anti-Bushistas da esquerda sofredora e "tolerante": "Que se lixe a América do meio!" "Como é que é possível?" afirmou atónito um manifestante, "eu pensava que toda a gente odiava o Bush!" Tudo isto faz lembrar a história da crítica de cinema do "New Yorker" que, em 1972, ao saber da derrota de McGovern, afirmou espantada: "Eu não percebo como é que Nixon ganhou. Eu não conheço ninguém que tenha votado nele."
Após a reeleição do Presidente, muitos são os que não entendem como é que uma "verdade sagrada", um "dogma absoluto" como o da "estupidez, incompetência e o perigo" que George W. Bush representa, não seja partilhado pela maioria dos cidadãos. Como é que é possível esta evidência escapar a tantos? A resposta a esta questão passou a ser sempre uma, às vezes dita abertamente, outras de forma implícita: "as pessoas não pensaram, deixaram-se levar por instintos". Tudo então fica explicado e a "intelligentsia" pode então suspirar de alívio, segura de si própria e confortavelmente instalada no conforto da sua superioridade moral e nos confins da arrogância intelectual dos sábios. Assim, passou-se a falar do "medo" que levou as pessoas a votar, na "superstição, eterna inimiga da razão" dos evangélicos e, como não poderia deixar de ser, na "ignorância" do homem comum. Claro que a verdade é muito mais complexa.
Ao contrário do que se possa pensar, a reeleição do Presidente americano não representa nenhuma "viragem" ou a consagração de uma nova América. Pelo contrário, Bush ganhou porque a América não mudou. Existem alguns mitos na praça pública que importa rebater. Por exemplo, muitos são aqueles que falam da "perigosa colaboração" entre religião e política na sua Administração. Ora, isso não constitui nenhuma novidade porque desde o início da história americana que a política abraçou a religião. A Constituição é uma autêntica Bíblia, sob a alçada de Deus, e aqueles que a redigiram tornaram-se em autênticas figuras "sagradas." Desde o início que houve a separação da Igreja e do Estado o que levou a que a religião passasse para a esfera da sociedade civil e tivesse que "competir" para sobreviver, tornando-se no processo muito mais dinâmico e vibrante que a religião na Europa.
O carácter pioneiro da América reforçou a componente religiosa da experiência americana, onde tantos apostaram tudo numa nova vida de liberdade numa terra que parecia "prometida." Lincoln referiu-se ao povo americano como este "povo quase eleito" e numa frase que revela esse carácter messiânico da América, proclamou-a como "a última, e a melhor esperança na terra." Esta ligação entre Deus e liberdade, entre democracia e religião não constitui nenhuma aberração, mas faz parte da espiritualidade americana. Não estranha, portanto, o verdadeiro proselitismo americano, de "missão e conversão" em prol da democracia. "A América é a nação indispensável" afirmou Madeleine Albright em 1998. O discurso de Bush e a intenção de converter o Afeganistão e o Iraque à democracia, entendida como antídoto ao islamismo, reflecteesta componente fundamental de religião civil.
"Os democratas cederam aos republicanos o monopólio do repositório moral e espiritual da política americana," disse Michael Sandel, de Harvard. Este é seguramente dos comentários mais perspicazes na análise dos resultados eleitorais americanos. E essa "cedência" dos democratas nota-se não só na política externa (longe vão os tempos da "nova fronteira" de John F. Kennedy), mas também na política interna. Os democratas são cada vez mais encarados como elitistas, seculares, distantes da América profunda e em choque frontal com os valores que fundaram a América, "one nation under God."
A razão pela qual os democratas estão a perder essa guerra dos valores tem as suas raízes na promoção da contracultura radical dos anos 60. Muitos desses jovens rebeldes são hoje os "donos" dos media, de Hollywwod, das universidades e dos tribunais americanos. E é aí que a guerra cultural continua pois a percepção é a de que os jornalistas, os professores, os "artistas" e os juízes estão a "empurrar" uma cultura muito mais secular e a tentar impor uma nova moralidade que, em muitos casos, assemelha-se a puro niilismo. Quando John Kerry afirmou que "a alma e o coração da América encontra-se em Hollywood" limitou-se a acelerar a percepção dos democratas como o partido no lado errado da guerra cultural. É neste contexto que as polémicas à volta do aborto e dos "casamentos gay" ganham significado. Contribuíram para o desfecho eleitoral, mas não são a causa da reeleição do Presidente.
Em última análise, George W. Bush, para a maioria dos americanos, personifica esse repositório moral e espiritual americano. Quando Bush afirma que a liberdade "é um dom de Deus para todos os homens" ele está a falar directamente a esse credo americano em que a democracia é sentida, vivida e proclamada como uma autêntica religião. Quando Bush a luta ao terrorismo como um desafio moral e de gerações, que implica não apenas "apanhar os malfeitores" mas redesenhar o mundo, neste caso o Médio Oriente, ele está a ser o intérprete do carácter messiânico da nação americana. Esse tal carácter que levou a uma total redefinição do papel do Japão no mundo, à reconstrução da Alemanha e ao lançamento das condições que permitiram o nascimento de uma nova Europa. E nada é mais especificamente americano do que persistir na convicção de que a democracia, o "Bem", é a resposta adequada ao "Mal", neste caso, o fundamentalismo islâmico.
Não obstante todas as dificuldades e contratempos, nomeadamente no Iraque, e da campanha anti-Bush nos media e na comunidade "artística", grande parte dos americanos continua a ter confiança no seu Presidente, a apoiar a sua perseverança e a partilhar do seu optimismo. Porque reconhecem-se na "mesma América", essa América que constitui um misto de fé, moral e uma convicção inabalável de que esta é mesmo a "terra dos livres e dos corajosos." Essa América que não muda. Universidade de Boston
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http://jornal.publico.pt/2004/11/10/EspacoPublico/O01.html